XVII Domingo depois de Pentecostes
XVII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES
MISSA
As decisões de Deus são sempre justas, quer Ele confunda, em sua justiça, os orgulhosos, quer exalte, em sua misericórdia, os humildes. Vimos, há oito dias, esse árbitro soberano em ação na distribuição dos lugares reservados aos santos no banquete da união divina. Ao cantar o Intróito deste dia, recordamos as pretensões e a sorte diversa dos convidados para as bodas sagradas, e apelamos somente para a misericórdia.
INTRÓITO – Justo sois, Senhor, e reto é o vosso juízo: fazei com o vosso servo segundo a vossa misericórdia.
Salmo: Bem-aventurados os puros em seu caminho: os que andam na Lei do Senhor.
V. Glória ao Pai.
O obstáculo mais odioso que o amor divino encontra sobre a terra é a inveja de Satanás, que procura, servindo-se de uma usurpação monstruosa, suplantar em nossas almas a Deus, que as criou. Unamo-nos à Igreja ao implorar, na Coleta, a assistência sobrenatural de que necessitamos para evitar o contato impuro da serpente.
COLETA – Nós Vos suplicamos, Senhor, que façais o vosso povo evitar os contágios diabólicos e seguir a Vós, único Deus, com alma pura. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.
EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Efésios.
Irmãos: Rogo-vos eu, prisioneiro no Senhor, que caminheis de modo digno da vocação com que fostes chamados: com toda humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos mutuamente em caridade, conservando solícitos a unidade do espírito no vínculo da paz. Sede todos um só corpo e um só espírito, como fostes chamados a uma só esperança de vossa vocação. Não há senão um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por todos e em todos nós. O qual é bendito pelos séculos dos séculos. Amém. A Igreja prossegue, com São Paulo, na carta aos Efésios, a exposição das grandezas de seus filhos, aos quais roga hoje que correspondam dignamente à sua excelsa vocação.
A CARIDADE FRATERNA E SEUS FRUTOS
Unamo-nos aos nossos irmãos com esta santa cadeia da caridade, que sujeita nossas pequenas paixões e dilata nossas almas, para deixar que o Espírito as guie de modo seguro à realização da única esperança de nossa comum vocação, que é unir-nos a Deus pelo amor.
Certamente, mesmo para os santos, a caridade aqui embaixo é uma virtude laboriosa, porque, de ordinário, nem sequer nos melhores consegue a graça restaurar sem defeitos o equilíbrio das faculdades rompido pelo pecado original; assim se explica que as enfermidades e outras desordens de nossa pobre natureza sejam ordenadas, às vezes, não somente para que o justo se exercite na humildade, mas também para que os que o rodeiam se exercitem em benévola paciência.
Deus o permite para aumentar, desse modo, o mérito de todos e reavivar em nós o desejo do Céu. E, de fato, a harmonia fácil e total com nossos semelhantes só a encontraremos na pacificação completa de nós mesmos, sob o império absoluto de Deus, três vezes santo, feito para nós tudo em todos1. Naquela bem-aventurada pátria, o próprio Deus enxugará as lágrimas que seus eleitos tiverem derramado por causa das misérias passadas e os renovará em sua fonte infinita2. O Filho eterno, depois de abolir em todos os seus membros místicos o império das potências inimigas e de vencer a morte,3 aparecerá na plenitude do mistério de sua Encarnação como verdadeira Cabeça do gênero humano santificado, restaurado e aperfeiçoado n’Ele.4
Já conhecemos os dons inapreciáveis que o Homem-Deus fez à terra5; graças aos prodígios de poder e de amor que o Verbo divino e o Espírito santificador realizaram, a alma do justo é verdadeiramente um céu.
No Gradual celebramos a felicidade do povo cristão, que Deus escolheu por herança.
GRADUAL – Feliz a nação cujo Deus é o Senhor: o povo que Deus escolheu por herança.
V. Pela palavra do Senhor foram feitos os céus; e todo o seu exército pelo sopro de sua boca.
Aleluia, aleluia.
V. Ouvi, Senhor, a minha oração, e chegue até Vós o meu clamor. Aleluia
EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.
Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus os fariseus; e um deles, doutor da Lei, perguntou-lhe, tentando-o: Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Disse-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos está contida toda a Lei e os Profetas. E, reunindo os fariseus, perguntou-lhes Jesus, dizendo: Que vos parece de Cristo? De quem é filho? Disseram-lhe: De Davi. Disse-lhes Ele: Como, pois, Davi o chama em espírito Senhor, dizendo: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés”? Se, pois, Davi o chama Senhor, como pode ser seu filho? E ninguém soube responder-lhe palavra; nem ninguém se atreveu, desde aquele dia, a perguntar-lhe mais.
O CHAMAMENTO DE DEUS
Esta vocação, este chamado de Deus, com efeito, já o conhecemos; é o chamamento do gênero humano às bodas sagradas da união divina, a vocação de nossas almas para reinarem nos céus no trono do Verbo, que já é seu Esposo e sua Cabeça6. O Evangelho de há oito dias estava, antigamente, muito mais relacionado com a Epístola que se acaba de ler, à qual servia de luminoso comentário; por outro lado, nesse Evangelho achava-se perfeitamente explicada a Epístola de hoje. “Quando fores chamado às bodas — dizia o Senhor —, cum vocatus fueris, ocupa o último lugar”; o Apóstolo diz: “Mostrai-vos, com toda humildade, dignos da vocação a que fostes chamados: digne ambuletis vocatione qua vocati estis”.
FIM E MEIOS PARA ALCANÇAR ESSA VOCAÇÃO
E agora, que condição devemos cumprir para sermos dignos da honra suprema que o Verbo eterno nos concede? A humildade, a mansidão e a paciência são os meios que nos são recomendados para alcançar o fim. Mas o fim é a unidade desse corpo imenso que o Verbo faz seu na celebração das místicas bodas; a condição que o Homem-Deus exige daqueles que chama para serem, como membros de sua Esposa, a Igreja, osso de seus ossos e carne de sua carne7, é conservar entre si tal harmonia que faça verdadeiramente de todos um mesmo espírito e um só corpo, no vínculo da paz.
“Ó vínculo esplêndido! — exclama São João Crisóstomo —; laço maravilhoso que nos une todos mutuamente, e todos juntos a Deus.” Sua força é a do próprio Espírito Santo, todo santidade e amor, pois é o Espírito Santo quem forma seus nós imateriais e divinos; o Espírito que, na multidão batizada, faz as vezes do sopro vital que, no corpo humano, anima e unifica todos os membros.
Para Ele, jovens e anciãos, pobres e ricos, homens e mulheres, embora distintos de raça e de caráter, são um só todo, fundido no imenso abraço de amor em que arde perpetuamente a Trindade eterna. Mas, para que o incêndio do amor infinito possa apoderar-se assim da humanidade regenerada, é necessário que esta se purifique das rivalidades, rancores e dissensões, que provariam que ela ainda é carnal e, por conseguinte, nada apta para que nela se acenda a chama divina e se realize a união que essa chama produz.
A CARIDADE
O Apóstolo que havia dito: “O fim da lei é a caridade”8, disse também: “O fim da lei é Cristo”9; agora vemos a harmonia destas duas proposições, como compreendemos também a relação que há entre estas palavras do Evangelho de hoje: “Nestes dois mandamentos estão encerrados toda a Lei e os Profetas”, e estas outras do Senhor: “Examinai as Escrituras, pois elas dão testemunho de mim”10.
A plenitude da lei que ordena os costumes está na caridade,⁴ cujo fim é Cristo; igualmente, o objeto das Escrituras reveladas não é outro senão o Homem-Deus, que resume para os seus, em sua adorável unidade, a moral e o dogma. Ele é sua fé e seu amor, “o fim de todas as nossas resoluções — diz Santo Agostinho —; todos os nossos esforços tendem somente a aperfeiçoar-nos n’Ele, e nisto consiste a nossa perfeição: em chegar até Ele. Quando tiveres chegado a Ele, não busques mais: Ele é o teu fim”11.
E o Santo Doutor, ao chegar aqui, dá-nos a melhor fórmula da união divina: unamo-nos somente a Ele, gozemos somente d’Ele e sejamos todos um com Ele: “haereamus uni, fruamur uno, permaneamus unum”12.
Não sabemos por que, já desde os primeiros tempos, assinalaram este dia para a bela antífona do Ofertório de hoje. Antigamente, ela vinha acompanhada de alguns versículos, que daremos a conhecer. O último deles termina com a notícia da chegada do príncipe dos exércitos celestiais em auxílio do povo de Deus. Recordando que este Domingo abre a semana da festa do grande Arcanjo no Antifonário publicado pelo beato Tommasi, conforme os manuscritos mais antigos, e que o Domingo seguinte é nele designado com o nome de primeiro Domingo depois de São Miguel, post Sancti Angeli, parece-nos encontrar nesse último versículo a explicação que desejávamos.
OFERTÓRIO – Eu, Daniel, orei ao meu Deus, dizendo: Ouvi, Senhor, as preces do vosso servo: brilhe o vosso rosto sobre o vosso santuário; e olhai propício para este vosso povo, sobre o qual foi invocado o vosso nome, ó Deus. Eu ainda estava falando, rogando e confessando os meus pecados e os do meu povo Israel, sobre o qual foi invocado o vosso nome, ó Deus. Quando ouvi uma voz que me dizia: Daniel, presta atenção às palavras que te dirijo, pois fui enviado a ti; e eis que Miguel veio em meu auxílio. E olhai propício para este vosso povo, sobre o qual foi invocado o vosso nome, ó Deus.
Perdão para o passado e graça para o futuro: tais são os efeitos que produz o grande Sacrifício. Na Secreta, nós os pedimos com a Igreja.
SECRETA – Suplicamos humildemente à vossa Majestade, Senhor, que façais com que estas coisas santas que oferecemos nos purifiquem dos delitos passados e dos futuros. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Enquanto se celebram os sagrados Mistérios, a alma cristã, entusiasmada de amor, apresenta ao Senhor suas promessas e seus votos. Entregue-se, sim, por inteiro ao Deus escondido que assim a cumula de favores; mas não se esqueça, nessa expansão tão natural de seu coração, de que Aquele que assim se oculta tão misericordioso sob os véus eucarísticos é o Altíssimo, terrível aos reis e castigador dos perjuros.
COMUNHÃO – Fazei votos ao Senhor, vosso Deus, e cumpri-os, todos vós que, estando ao seu redor, lhe trazeis dons: ao terrível, que tira o alento dos príncipes; ao terrível para todos os reis da terra.
É a própria santidade de Deus que vem, neste divino Sacramento, curar nossos vícios e fortalecer nossos passos pelo caminho da eternidade. Por meio da oração da Pós-comunhão, oferecemos nossas almas à sua ação salvadora.
PÓS-COMUNHÃO – Fazei, ó Deus onipotente, que, por vossos Sacramentos, sejam curados os nossos vícios e alcancemos os remédios eternos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.
1. I Cor. 15, 28.
2. Ap. 21, 1-5.
3. I Cor. 15, 24-28.
4. Ef. 1, 10.
5. Ef. 4, 8.
6. Ef. 2, 5.
7. Ef. 5, 30.
8. I Tm. 1, 5.
9. Rm. 10, 4.
10. Jo. 5, 39.
11. Explicación del Salmo 56.
12. De la Trinidad, 4, 11.

