Oratório São José

XVI Domingo depois de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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XVI DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

MISSA

A ressurreição do filho da viúva de Naim reavivou, no domingo passado, a confiança da Igreja; sua oração se eleva cada vez mais insistente para o seu Esposo, desde esta terra, onde Ele a deixa exercitar, por algum tempo, o amor no sofrimento e nas lágrimas. Tomemos parte com ela nesses sentimentos, que lhe sugeriram escolher o seguinte Introito.

INTROITO – Tende piedade de mim, Senhor, pois a Vós clamo todo o dia; porque Vós, Senhor, sois suave e manso, e abundante em misericórdia para todos os que Vos invocam

Salmo: Inclinai, Senhor, o vosso ouvido para mim e ouvi-me, porque sou fraco e pobre.
Glória ao Pai.

Na ordem da salvação, é tal a nossa impotência que, se a graça não nos prevenisse, não teríamos sequer o pensamento de agir; e, se ela não continuasse em nós suas inspirações para levá-las a termo, jamais saberíamos passar do simples pensamento ao próprio ato de qualquer virtude. Pelo contrário, fiéis à graça, nossa vida já não é senão uma trama ininterrupta de boas obras. Na Coleta, pedimos para nós e para todos os nossos irmãos a perseverante continuidade de auxílio tão precioso.

COLETA – Nós Vos suplicamos, Senhor, que a vossa graça nos preceda e acompanhe sempre, e faça que nos apliquemos constantemente às boas obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Efésios.

Irmãos: Rogo-vos que não desfaleçais por causa das minhas tribulações por vós, as quais são a vossa glória. Por isso, dobro os meus joelhos diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual procede toda paternidade nos céus e na terra, para que, segundo as riquezas de sua glória, faça que sejais corroborados com vigor pelo seu Espírito no homem interior; que Cristo habite pela fé em vossos corações; que estejais enraizados e cimentados na caridade, para que possais compreender com todos os santos qual seja a largura, o comprimento, a sublimidade e a profundidade; que conheçais também a caridade de Cristo, que excede toda ciência, para que sejais cumulados de toda a plenitude de Deus. E Àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente do que pedimos ou entendemos, segundo o poder que opera em nós, a Ele seja dada a glória na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações e séculos. Amém.

NOSSO CONSENTIMENTO NO MISTÉRIO DE CRISTO

Qual é o objeto da oração do Apóstolo, tão solene em sua atitude e em seu acento? Já que fomos testemunhas de todos os mistérios da Liturgia e conhecemos as riquezas da bondade de Deus, resta-nos ainda algo que Lhe pedir? São Paulo no-lo diz: “Tudo o que o Senhor fez resultará estéril se esta oração não for atendida; e é que, com efeito, o mistério de Cristo só tem verdadeiramente em nós o seu pleno termo: o nó, o desenlace, o êxito deste grande drama divino, que vai da eternidade à eternidade, estão por completo no coração do homem. A Igreja, os sacramentos, a Eucaristia, todo o conjunto do esforço divino não tem outra finalidade senão a santificação de cada uma de nossas almas individuais; isto é tudo o que Deus se propõe. Se Deus o consegue, o mistério de Cristo é um êxito; se fracassa, Deus trabalhou inutilmente, ao menos para a alma que se tenha subtraído à sua ação. No coração, pois, do homem, prepara-se a solução: trata-se de saber se a intenção eterna será frustrada, se as dores e o sangue do Calvário recolherão o seu fruto, se a eternidade futura será para cada um aquilo que Deus quis.”

NOSSO CRESCIMENTO ESPIRITUAL

A fim de que Deus não seja vencido e que o seu amor não seja traído, o Apóstolo pede a Deus, com instância, para as almas, três graus de graça, nos quais se resume tudo aquilo que deve ser a vida cristã para se adaptar ao pensamento e ao amor de Deus, e tudo quanto devemos fazer.

Em primeiro lugar, diz o Apóstolo, sermos fortalecidos pelo Espírito no ser interior e novo que nos foi dado pelo Batismo; destruir, até em seus últimos vestígios, o homem velho, o adâmico, e, sobre essas ruínas, fazer reinar o homem novo, o cristão, o filho de Deus. Pede, em segundo lugar, a Deus que evite a inconstância e a instabilidade de nossa natureza, gravando em nossos corações Cristo, que habita em nós pela fé; e isso não se alcança sem a nossa cooperação: habitar implica continuidade, adesão constante e comunhão real de vida, que submeta nossa atividade ao Senhor, com algo da docilidade e da agilidade da natureza humana de Cristo assumida pelo Verbo. Finalmente — e este é o terceiro elemento de nosso crescimento espiritual —, ficando o egoísmo eliminado em nós e a caridade estabelecida como senhora, teremos toda a estatura e a força necessárias para contemplar face a face o mistério de Deus.

A Igreja, que se levanta no meio das nações, traz consigo o sinal de seu divino Arquiteto: Deus se manifesta nela com toda majestade; o seu respeito se impõe por si mesmo a todos os reis. No Gradual e no Versículo, exaltamos as maravilhas do Senhor.

GRADUAL – As nações temerão o vosso nome, Senhor, e todos os reis da terra a vossa glória.

V. Porque o Senhor edificou Sião, e será visto em sua majestade.

Aleluia, aleluia.

V. Cantai ao Senhor um cântico novo, porque o Senhor fez maravilhas. Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.

Naquele tempo, tendo Jesus entrado em casa de um dos principais fariseus, num sábado, para tomar alimento, eles O observavam. E eis que se apresentou diante d’Ele um hidrópico. E Jesus, tomando a palavra, perguntou aos doutores da lei e aos fariseus, dizendo: É lícito curar em dia de sábado? E eles se calaram. Então Ele, tomando-o, curou-o e despediu-o. E, dirigindo-se a eles, disse: Qual de vós, se o seu asno ou o seu boi cair num poço, não o tirará logo em dia de sábado? E não puderam responder a isso. E propôs aos convidados uma parábola, ao ver como escolhiam os primeiros lugares, dizendo-lhes: Quando fores convidado a uma boda, não te sentes no primeiro lugar, para que não suceda ter sido convidado outro mais digno do que tu, e, vindo aquele que te convidou a ti e ao outro, te diga: Dá o lugar a este; e então tenhas, com vergonha, de ocupar o último lugar. Mas, quando fores convidado, vai e senta-te no último lugar, para que, quando vier aquele que te convidou, te diga: Amigo, sobe mais para cima. Então terás glória diante dos demais convivas; porque todo aquele que se exalta será humilhado, e aquele que se humilha será exaltado.

O CONVITE ÀS BODAS

A Santa Madre Igreja revela hoje o fim supremo que pretende em seus filhos desde o dia de Pentecostes. As bodas de que trata o nosso Evangelho são as do Céu, que têm por prelúdio, aqui embaixo, a união divina consumada no banquete eucarístico. O chamado divino se dirige a todos; e este convite não se parece com os da terra, nos quais o esposo e a esposa convidam seus parentes como simples testemunhas de uma união que, além disso, é estranha aos convidados. Aqui, o Esposo é Cristo, e a Igreja, a Esposa1; como membros da Igreja, estas bodas são, portanto, também nossas.

A UNIÃO DIVINA

Mas, se se quer que a união seja tão fecunda quanto deve sê-lo para honra do Esposo, é necessário que a alma, no santuário da consciência, guarde para Ele uma fidelidade duradoura, um amor que vá mais longe e dure mais do que a recepção sagrada dos mistérios. A união divina, se é verdadeira, domina o nosso viver; essa união faz com que a alma persevere constantemente na contemplação do Amado, promova ativamente os seus interesses e suspire de contínuo e de coração por Ele, ainda que às vezes lhe pareça que o Amado se oculta aos seus olhares e se subtrai ao seu amor. E, com efeito, deverá a Esposa mística fazer menos por Deus do que as esposas do mundo por um esposo terreno2? Só com esta condição se pode crer que a alma está nos caminhos da via unitiva e que traz em si os frutos próprios dela.

CONDIÇÕES PARA A UNIÃO

Para chegar a este domínio de Cristo sobre a alma e seus movimentos, que a converta verdadeiramente em sua e a sujeite a Si mesmo como a esposa ao esposo3, é necessário não dar nunca lugar a nenhuma concorrência estranha. Bem o sabemos: o nobilíssimo Filho do Pai4, o Verbo divino, diante de cuja beleza se extasiam os céus, encontra neste mundo pretensões rivais que Lhe disputam o coração das criaturas, por Ele resgatadas da escravidão e convidadas a participar da honra de seu trono; mesmo naquelas em que o seu amor acabou por triunfar plenamente, quantas vezes esteve a ponto de perder? Mas Ele, sem impacientar-se, sem abandoná-las por justo ressentimento, prosseguiu durante muitos anos convidando-as com chamado insistente5, esperando misericordiosamente que os toques secretos de sua graça e a ação do Espírito Santo saíssem triunfantes de tão incríveis resistências.

A HUMILDADE

A guarda da humildade, mais do que qualquer outra coisa, deve chamar a atenção de quem aspira a conseguir um lugar eminente no banquete de Deus. A ambição da glória futura é natural nos santos; mas eles sabem que, para adquiri-la, devem descer tanto em seu nada durante a vida presente quanto mais altos queiram estar na vida futura. Enquanto chega o grande dia em que cada um receberá segundo suas obras, devemos apressar-nos em humilhar-nos diante de todos; o lugar que no reino dos céus nos está reservado não depende, com efeito, de nossa apreciação nem da dos outros, mas somente da vontade do Senhor, que exalta os humildes. Quanto maior fores, mais deves humilhar-te em todas as coisas, e desse modo acharás graça diante de Deus, diz o Eclesiástico; pois só Deus é grande6.

Sigamos, pois, o conselho do Evangelho, ainda que seja apenas por interesse; creiamos que devemos ocupar o último lugar entre todos. Nas relações sociais, não é verdadeira a humildade daquele que, apreciando os outros, não se despreza um pouco a si mesmo, antecipando-se a cada um nos sinais de honra7, cedendo de bom grado a todos naquilo que não toca à consciência, e isto pelo sentimento profundo de nossa miséria, de nossa inferioridade diante d’Aquele que perscruta os rins e os corações8. A humildade para com Deus não tem pedra de toque mais segura do que esta caridade efetiva para com o próximo, a qual nos inclina, sem afetação, a fazê-lo passar antes de nós nas várias circunstâncias da vida cotidiana.

À medida que se vão estendendo as conquistas da Igreja, o Inferno aviva sua fúria contra ela para arrebatar-lhe a alma de seus filhos. A antífona do Ofertório nos proporciona a expressão das inflamadas orações que semelhante situação lhe sugere.

OFERTÓRIO – Senhor, vinde em meu auxílio; sejam confundidos e envergonhados os que procuram tirar-me a vida. Senhor, vinde em meu auxílio.

A Secreta nos demonstra como o Sacrifício que muito em breve se vai consumar mediante as palavras da consagração é a preparação imediata, mais direta e mais eficaz, para receber na Comunhão o Corpo e o Sangue divinos, que por Ele se fazem presentes no altar.

SECRETA – Nós Vos suplicamos, Senhor, que nos purifiqueis pela virtude deste Sacrifício e, compadecido de nós, façais que mereçamos participar de seu efeito. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Igreja, cheia substancialmente na Comunhão da Sabedoria do Pai, promete a Deus, em ação de graças, guardar suas justiças e fazer frutificar nela os divinos ensinamentos.

COMUNHÃO – Senhor, recordar-me-ei somente da vossa justiça: ó Deus, Vós me instruístes desde a minha juventude; e não me abandoneis, ó Deus, na minha velhice e nas minhas cãs.

Na Pós-comunhão, pedimos com a Igreja a renovação que opera a pureza do divino Sacramento, e cujo efeito se faz sentir tanto na vida presente como no século futuro.

PÓS-COMUNHÃO – Nós Vos suplicamos, Senhor, que benignamente purifiqueis nossas almas e as renoveis com estes celestiais Sacramentos, para que, desse modo, alcancemos também auxílio para nossos corpos agora e no futuro. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.


 

1. Ap. 19, 7.

2. I Cor. 7, 34.

3. I Cor. 11, 8-10.

4. Sb. 8, 3.

5. Ap. 3, 20.

6. Ecl. 3, 21-23.

7. Rm. 12, 10.

8. Ap. 2, 23.

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