Oratório São José

Sexta-Feira da Sexagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SEXTA-FEIRA DA SEXAGÉSIMA

A ARCA DA SALVAÇÃO. — Ao castigar a terra com o dilúvio, o Senhor quis, contudo, ser fiel às suas promessas. Anunciara a derrota da serpente; mas os tempos ainda não haviam chegado. Era, portanto, necessário que se conservasse o gênero humano até que a promessa se cumprisse. A Arca dá abrigo ao justo Noé e à sua família; e, se as águas vingadoras se levantam acima das mais altas montanhas, o frágil, mas seguro batel ao qual eles foram confiados sobrenada tranquilamente sobre as ondas. No dia assinalado, descerão à terra purificada; ouvirão ainda da boca de Deus a palavra dirigida outrora aos nossos primeiros pais: “Crescei, multiplicai-vos e povoai a terra”.

A IGREJA. — O gênero humano deve à Arca de Noé a sua conservação; pela Arca Deus nos salvou a todos. Bendito seja o batel hospitaleiro. O próprio Senhor dignou-se traçar-lhe o desenho, e sobre ele deslizaram, sem penetrá-lo, todas as tempestades da cólera divina. Mas, se devemos honrar respeitosamente aquela madeira insensível e vil1, qual não deve ser o nosso amor à nova Arca, a Igreja, da qual a arca de Noé não foi senão figura; a esta que, há dezenove séculos, nos salva e ainda nos guia a Deus! Fora dela não há salvação, e nela encontramos a verdade2, a graça e o sustento das almas.

Arca sagrada, és habitação não mais de uma só família, mas de membros de todas as nações que existem debaixo do céu. Vences as tempestades desde o dia em que o Salvador te lançou ao mar deste mundo, e jamais naufragaste. Sabemos que chegarás à eternidade sem que naufrágio algum ponha em dúvida a previsão do Piloto divino. Por ti se repovoa este mundo criado para os seus eleitos3. Quando está irado contra os homens, “lembra-se de sua misericórdia”4 por ti; e em ti fez aliança com a nossa raça.

Asilo seguro, guarda-nos em meio ao dilúvio. Quando o império profano, embriagado com o sangue dos mártires5, desaparecia sob a invasão dos bárbaros, a geração cristã estava segura à sombra de teu seio maternal. A torrente se dissipou pouco a pouco, e a geração confiada aos teus cuidados, vencida segundo a carne, tornou-se logo vitoriosa segundo o espírito. Humilhou-se o bárbaro, e novos povos, que tinham por lei fundamental o Evangelho, começaram o seu brilhante destino na terra corrompida do império pagão.

A inundação sarracena chegou, por sua vez, a submergir o Oriente. A própria Europa sentiu-se ameaçada. Teria sido efetivamente invadida, se a fortaleza dos filhos que havias salvado não tivesse repelido essas hordas bárbaras. Em teu seio, Arca tutelar, refugiaram-se os cristãos que sobreviveram. Em meio aos escândalos e ao embrutecimento em que o cisma e a heresia submergiram a maioria de seus irmãos, conservaram fielmente o fogo sagrado. Sob o abrigo que lhes preparaste, formam a cadeia ininterrupta das testemunhas da verdade. Em breve, o retorno da divina misericórdia nos trará tempos melhores. Novos Sem se multiplicarão ainda nessa terra outrora tão fecunda em frutos de glória e santidade.

E nós, ó Santa Igreja, com que regozijo nos sentiremos por ti conduzidos e defendidos contra as ondas do oceano de anarquia que os nossos pecados desencadearam! Suplicamos ao Senhor que diga ao mar enfurecido: “Até aqui chegarás, e aqui quebrarás a fúria das tuas ondas”6; mas, se a justiça divina decidiu que prevaleça por algum tempo, estamos seguros de escapar ao flagelo. Em ti, ó Igreja, encontramos os verdadeiros bens, bens espirituais que “os ladrões não podem roubar”7; a vida que dás é a única verdadeira; a pátria que em ti reside é a única pátria.

Ó Arca de Cristo, guardai-nos! Que estejamos sempre em ti com todos aqueles que amamos, “até que se escoem as águas das maldades”8; e, quando a terra purificada tiver de receber novamente a semente divina da palavra, todos aqueles que ainda não tiveres depositado nas margens eternas descerão para dar a toda alma humana os princípios sagrados da autoridade e do direito, da família e da sociedade. A ti cabe o cuidado de conservá-los e ensiná-los até a consumação dos séculos.


 

1. Sb. 10, 4.

2. Jo. 8, 32.

3. Mt. 24, 22.

4. Habac. 3, 2.

5. Ap. 18, 6.

6. Jó. 38, 11.

7. Mt. 6, 19.

8. Sl. 56, 2.

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