Oratório São José

Quarta-Feira dentro da Oitava de Corpus Christi

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUARTA-FEIRA DA INFRAOITAVA DE CORPUS CHRISTI

A SAGRADA COMUNHÃO

UNIÃO COM A VÍTIMA IMOLADA

Glória a Cristo Salvador, que nos dá, em sua carne imolada, o pão da vida e do entendimento!1 Ó Corpo de Jesus, templo augusto edificado pela eterna Sabedoria! De seu lado2, violentamente aberto, sai o rio sagrado cujas ondas trazem o Verbo às nossas bocas sedentas. Visitando Jesus a terra, embriaga-a; prepara seu alimento para os filhos dos homens. Mas o cálice que apresenta é o do Sacrifício; a mesa que prepara é um altar; porque tal é a preparação deste alimento3: é uma vítima que nos dá sua carne a comer e seu sangue a beber; a imolação é, pois, a preparação direta e necessária do banquete em que Ele se entrega aos convidados.

Mas não são eles mesmos o alimento de Cristo nesta mesa sagrada? Se Ele dá tudo o que é, não será para tomar tudo por sua vez? Quais serão, pois, os nossos preparativos para o festim, senão aqueles mesmos pelos quais Ele passa? Não é uma vítima, mas vítimas, que a Sabedoria imola para o banquete misterioso de pão e vinho que prepara em sua casa4.

Não se nos quer dizer com isto que, para os membros de Cristo, a verdadeira preparação imediata para o banquete sagrado não é outra senão o próprio Sacrifício, a Missa, celebrada ou assistida na união mais perfeita possível com a máxima e principal Vítima?

A LITURGIA EUCARÍSTICA

Poderia o cristão fazer coisa melhor, neste momento, do que deixar-se conduzir docilmente pela Igreja em sua Liturgia? Poderá temer abandonar-se sem reserva àquela a quem Cristo se confiou inteiramente, para a determinação das regras que devem presidir à administração do Sacramento de seu amor, para a disposição, solenidade, preparativos e tudo quanto acompanha o Sacrifício, do qual a Comunhão é, ao mesmo tempo, complemento e termo glorioso?

A Comunhão não é obra de devoção privada; a devoção privada não pode dispor convenientemente o homem para esta visita do Senhor, cujo fim é estreitar cada vez mais os laços com Cristo e com todos os seus membros, já unificados na imolação do único e universal Sacrifício para a glória do Pai.

O ato sagrado, bem compreendido e atentamente seguido; o desenvolvimento progressivo das cerimônias e fórmulas santificadas, por si só, é capaz de colocar completamente a alma que sente o atrativo de Deus no grandioso ponto de vista católico, que é o mesmo do Senhor.

Não tema a alma que há de diminuir assim o seu recolhimento, ou que se há de esfriar o amor que, com razão, deseja levar à mesa sagrada; apresentar-se-á a ela tanto mais agradável e melhor adornada aos olhos do Esposo quanto mais seguramente o egoísmo inconsciente ou o individualismo estreito, frutos frequentes de métodos particulares, forem desterrados de seu coração na grande escola da Igreja e sob a poderosa ação da Liturgia.

Assim o compreenderam os Apóstolos e seus discípulos imediatos, fundadores autorizados da Liturgia dos primeiros tempos; não pensaram que expunham a piedade dos novos convertidos a uma perigosa tibieza com todo o aparato de pompas exteriores que, desde o princípio, tenderam a tornar como inseparável da participação nos sagrados Mistérios.

Assim o praticaram nossos antepassados, os mártires, no glorioso segredo das catacumbas, desenvolvendo-se nesses estreitos subterrâneos esplendores que nunca conheceremos; assim como Sisto II, imolado na cátedra em que presidia com majestade apostólica, rodeado dos numerosos ministros das funções sagradas, não temeram desafiar a cólera imperial sob o fogo da perseguição, para salvaguardar a solenidade das assembleias cristãs, onde se estreitava o vínculo das almas e se animava sua coragem com o banquete comum do Pão dos fortes.

Assim continuou fazendo, e ainda com maior solenidade, a Igreja livre das perseguições, no ouro e no esplendor das basílicas que substituíram as criptas dos cemitérios no século do triunfo.

Os Padres e Doutores da Igreja, os santos dos tempos antigos, não conheceram outra preparação habitual para o Santíssimo Sacramento senão as magnificências da Liturgia, as solenidades do Sacrifício oferecido com a participação de todos e a participação ativa do povo cristão.

UM DESVIO DA PIEDADE

Muitos fiéis de nossos dias perderam o sentido da Liturgia, não tendo sequer a noção do Sacrifício. O augusto mistério eucarístico resume-se, para estes, na presença real do Senhor, que quer permanecer no meio dos seus para receber suas homenagens particulares.

O toque da campainha que anuncia a elevação não é para eles senão o sinal da simples chegada do Senhor: adoram, mas sem pensar em unir-se à Vítima, sem imolar-se com a Igreja nas grandes intenções católicas, cuja fiel expressão a Liturgia rememora a cada ano.

Se, por acaso, vão comungar nesse dia, talvez deixem então de lado o livro piedoso que os mantinha santamente ocupados em seu interior, para passar o tempo docemente em emoções mais ou menos estudadas que dele tiraram; até o momento em que, admitidos à mesa sagrada, Cristo deverá buscar na graça longínqua de seu batismo, mais que em seus afetos ou pensamentos presentes, esta indispensável qualidade de membro da Igreja, que a Comunhão requer acima de todas as outras e que principalmente vem confirmar.

É, pois, de admirar que, em grande número de almas, a Religião, cujo verdadeiro fundamento é o Sacrifício, repouse antes sobre um sentimentalismo vago, sob cuja influência se obscurecem sempre as noções fundamentais do domínio divino, da justiça suprema, do culto propriamente dito mediante a reparação, o serviço e a homenagem, que são nossos primeiros deveres para com a suprema Majestade?

De onde resulta, em tantos cristãos que se confessam e comungam, esta fraqueza na fé, esta ignorância total da noção prática da Igreja, senão do fato de que, tendo o culto perdido para eles, com as pompas da Liturgia, que já desconhecem, seu caráter social, também a Comunhão perdeu seu verdadeiro sentido e deixa em seu isolamento tranquilo esses homens para os quais ela não é o laço de unidade, mediante Cristo-Cabeça, com todo o corpo cujos membros foram feitos pelo batismo?

Mesmo fora desses católicos de nome, para os quais a Igreja não parece outra coisa senão um termo de história incompreendido, quantas almas há, entre as admitidas à Comunhão frequente ou diária, que compreendam hoje este axioma de Santo Agostinho: A Eucaristia é nosso pão cotidiano, porque a virtude que significa é a unidade, saúde do corpo e dos membros?5

DOUTRINA DO CONCÍLIO DE TRENTO

Resumindo este ensinamento tradicional melhor do que nós poderíamos fazê-lo, e com a autoridade do Espírito Santo, os Padres de Trento se exprimem assim na sessão XIII:

“O Santo Concílio, com todo afeto paternal, adverte, exorta, roga e conjura, pelas entranhas misericordiosas de nosso Deus, a todos os que levam o nome de cristãos e a cada um deles, que se reúnam unanimemente neste sinal da unidade, neste laço da caridade, neste símbolo da concórdia.

Que se lembrem da suprema majestade, do inefável amor de Jesus Cristo Nosso Senhor, que, entregando sua preciosa vida em preço de nossa salvação, nos deu sua carne por alimento.

Que creiam e confessem com tal constância e firmeza estes sagrados Mistérios de seu Corpo e Sangue; que os honrem e reverenciem com tanta devoção e amor, que possam receber com frequência este pão superior a toda substância.

Oxalá seja para eles a verdadeira vida, a saúde perpétua da alma! Confortados por sua força, passem da peregrinação desta terra miserável à pátria celestial, para ali comerem sem véus esse pão dos anjos que os alimenta aqui embaixo oculto sob os véus das sagradas espécies.”6


 

1. Ecl. 15, 3.

2. Ez. 48, 2.

3. Sl. 44, 10.

4. Prov. 9, 2.

5. Santo Agostinho, Sermão 57, 137.

6. Concílio de Trento, sessão XIII, sobre a Eucaristia, cap. VIII.

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