Oratório São José

Segunda-Feira da Oitava da Páscoa

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SEGUNDA-FEIRA DA OITAVA DA PÁSCOA

O mistério da Páscoa é tão vasto e tão profundo que sete dias não serão demais para meditá-lo e aprofundá-lo. Na jornada de ontem não fizemos senão contemplar nosso Redentor saindo do sepulcro e manifestando-Se aos seus até seis vezes, em sua bondade e em seu poder. Continuaremos a tributar-Lhe as homenagens de adoração, reconhecimento e amor a que tem direito por este triunfo, que é nosso ao mesmo tempo que seu; mas devemos também penetrar respeitosamente o conjunto maravilhoso de doutrina e de acontecimentos cujo centro é a Ressurreição de nosso divino Libertador, para que a luz celeste nos ilumine cada vez mais e nossa alegria cresça constantemente.

O MISTÉRIO DO CORDEIRO. — Que significa, pois, o mistério da Páscoa? A Bíblia nos responde que a Páscoa é a imolação do Cordeiro. Para compreender a Páscoa, é necessário compreender antes o mistério do Cordeiro. Desde os primeiros séculos do cristianismo, representava-se o emblema do cordeiro nos mosaicos e nas pinturas murais das basílicas, como o símbolo que exprimia a ideia do sacrifício de Cristo e de sua vitória.

Por sua atitude transbordante de doçura, o Cordeiro exprimia a abnegação que O havia levado a dar o seu sangue pelo homem; mas era apresentado de pé sobre uma colina verdejante, e os quatro rios do paraíso corriam por seu mando debaixo de seus pés, figurando os quatro Evangelhos que levaram sua glória aos quatro pontos do mundo. Mais tarde passou a ser representado empunhando uma cruz da qual pendia um estandarte triunfal: esta é a forma simbólica com a qual O veneramos em nossos dias.

O CORDEIRO NO ANTIGO TESTAMENTO. — Depois do pecado, o homem já não podia prescindir do Cordeiro; sem o Cordeiro, via-se deserdado para sempre do Céu e exposto para sempre à cólera divina. Nos albores do mundo, o justo Abel implorava a clemência do Criador irado, imolando sobre um altar de relva o mais belo cordeiro de seu rebanho, até que, cordeiro ele mesmo, caiu sob os golpes de um fratricida, tornando-se assim o modelo vivo do novo Cordeiro, a quem também seus próprios irmãos condenaram à morte. Mais tarde, Abraão, sobre a montanha, consumava o sacrifício começado por sua heroica obediência, imolando o carneiro cuja cabeça estava enredada em sarças e cujo sangue tingiu o altar erguido para Isaac. Mais tarde ainda, Deus falou a Moisés; revelou-lhe a Páscoa; esta Páscoa consistia então num cordeiro imolado e no banquete da carne deste cordeiro. A Santa Igreja nos fez ler nestes dias, no livro do Êxodo, aquilo que a este respeito o Senhor havia mandado. O cordeiro pascal não devia ter mancha alguma; devia-se derramar seu sangue e comer sua carne; tal foi a primeira Páscoa. Está cheia de figuras, embora vazia de realidades; contudo, haveria de bastar ao povo de Deus durante quinze séculos; mas o judeu espiritual sabia entrever ali os misteriosos vestígios de outro Cordeiro.

O VERDADEIRO CORDEIRO. — Depois que, chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho à terra, caminhava certa vez este Verbo Encarnado, que ainda não Se havia manifestado aos homens, às margens do Jordão, e então São João, mostrando-O a seus discípulos, disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. O Santo Precursor, naquele momento, anunciava a Páscoa, pois advertia os homens de que, enfim, a terra possuía o verdadeiro Cordeiro, o Cordeiro de Deus há tanto tempo desejado. Havia chegado o Cordeiro mais puro que o de Abel, mais misterioso que o de Abraão, mais imaculado que aquele que os israelitas ofereceram no Egito. É verdadeiramente o Cordeiro implorado com tanta insistência por Isaías, Cordeiro enviado pelo próprio Deus, em uma palavra, o Cordeiro de Deus. Mais um pouco de tempo, e será imolado. Há três dias assistimos ao seu sacrifício; vimos sua paciência, sua mansidão sob o cutelo que O degolava, e fomos tingidos de seu sangue divino, que lavou todos os nossos pecados.

VIRTUDE DO SANGUE DO CORDEIRO. — O derramamento deste sangue redentor era necessário para a nossa Páscoa; era necessário que fôssemos marcados com ele para sermos livres da espada do anjo; ao mesmo tempo, este sangue nos comunicava a pureza daquele que no-lo dava tão liberalmente. Nossos neófitos saíam da fonte na qual Ele infundiu sua virtude mais brancos que a neve; até mesmo os pecadores, que haviam tido a infelicidade de perder a graça que outrora possuíram, recobraram, pelo poder inesgotável do sangue divino, sua integridade primeira. Toda a assembleia dos fiéis se revestiu da veste nupcial1; e esta veste é de um brilho deslumbrante, porque “foi alvejada no sangue do próprio Cordeiro” (Apoc., VII, 14).

O BANQUETE PASCAL. — Mas esta veste nos foi dada para um banquete, e neste banquete encontramos novamente o nosso Cordeiro. É Ele mesmo quem Se dá em alimento a seus felizes convivas; e o banquete é a Páscoa. Os Atos do Apóstolo Santo André exprimem-se deste modo: “A carne do Cordeiro sem mancha serve de alimento ao povo que tem fé em Cristo; seu sangue lhe serve de bebida; e, embora imolado, este Cordeiro permanece sempre íntegro e vivo”. Este banquete celebrou-se ontem em toda a terra; prolonga-se também nestes dias em que contraímos uma estreita união com o Cordeiro que Se incorpora a nós por este divino manjar.

REINADO DO CORDEIRO. — Mas ainda não se disse tudo o que se pode dizer do Cordeiro. Ele não vem somente para ser imolado, para nos alimentar com sua sagrada carne. Virá também para mandar e ser Rei? Sim, assim é, e nisso consiste também a nossa Páscoa. Páscoa é a proclamação do reinado do Cordeiro. É o grito dos eleitos no Céu: “Venceu o Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi” (Apoc., V, 5). Mas, se é Leão, como é Cordeiro? Entendamos o mistério. Em seu amor para com os homens, que necessitavam ser redimidos e fortificados com um alimento celeste, dignou-Se mostrar-Se como Cordeiro; mas convinha também que triunfasse de seus inimigos e dos nossos; convinha que reinasse, “porque todo poder Lhe foi dado no Céu e na terra” (São Mat., XXVIII, 18). Em seu triunfo, em seu poder invencível, é um Leão ao qual nada resiste, cujos rugidos de vitória abalam hoje o universo. Escutai São Efrém: “À hora duodécima é desprendido da Cruz como o leão adormecido”2. Estava morto o nosso Leão; “seu repouso foi tão breve, diz São Leão Magno, que se diria antes sono do que morte”3. Não era senão o cumprimento do oráculo de Jacó, o qual, estando para morrer, anunciou com dois mil anos de antecedência as grandezas de seu ilustre descendente, dizendo cheio de júbilo: “Leãozinho és tu, Judá. Para descansar te deitaste como leão e como leoa. Quem ousará despertá-lo?” (Gen., XLIX, 9). Por si mesmo despertou hoje; ergue-Se sobre os próprios pés. Cordeiro para nós e Leão para os seus inimigos, unirá doravante a doçura à força. É o mistério completo da Páscoa: um Cordeiro triunfante, obediente, adorado.

Prestemos-Lhe nossas homenagens; e, enquanto ainda não podemos unir nossas vozes no Céu àquelas dos milhões de anjos e dos vinte e quatro anciãos, repitamos com eles desde já sobre a terra: “Digno é o Cordeiro, que foi imolado, de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção” (Apoc., V, 12).

A SUBLIMIDADE DESTA SEMANA. — A antiga Igreja guardava todos os dias desta semana como uma festa contínua; e os trabalhos servis eram interrompidos durante ela. O édito de Teodósio, em 389, que suspendia a atuação dos tribunais durante este intervalo, vinha confirmar esta prescrição litúrgica, que encontramos atestada nos sermões de Santo Agostinho e nas homilias de São João Crisóstomo. Este último, falando aos neófitos, exprimia-se deste modo: “Durante estes sete dias, gozais do ensinamento da divina doutrina; a assembleia dos fiéis reúne-se para vós; admitimo-vos à mesa espiritual; deste modo vos armamos e exercitamos nos combates contra o demônio. Porque agora é que ele se prepara para vos atacar com mais furor; quanto maior é vossa dignidade, mais pertinaz será seu ataque. Aproveitai, pois, os nossos ensinamentos durante este intervalo e aprendei a lutar valorosamente. Recordai também nestes sete dias o cerimonial das núpcias espirituais que tivestes a glória de contrair. A solenidade das núpcias dura sete dias; quisemos, durante todo este tempo, reter-vos na câmara nupcial”.

Tal era então o zelo dos fiéis, sua estima pelas solenidades da Liturgia, a solicitude com que cercavam os neófitos da Igreja nestes dias, prestando-se diligentemente a todos os atos deles exigidos durante esta semana. O júbilo da Ressurreição enchia todos os corações e ocupava todos os instantes. Os concílios promulgaram cânones que erigiam em lei este costume. O de Mâcon, em 585, formulava assim o seu decreto: “Devemos todos celebrar e festejar com zelo a nossa Páscoa, na qual o Sumo Sacerdote e Pontífice foi imolado por nossos pecados, e honrá-la guardando com exatidão as prescrições que nos impõe. Ninguém se permitirá, pois, durante estes seis dias, os que seguem ao domingo, obra alguma servil; e todos se reunirão para cantar os hinos da Páscoa, assistindo com assiduidade aos sacrifícios cotidianos e reunindo-se para louvar nosso Criador e Regenerador à tarde, pela manhã e ao meio-dia”4.

Os concílios de Mogúncia (813) e de Meaux (845) estabelecem estas mesmas prescrições. Encontramo-las também na Espanha, no século VII, nos éditos dos reis Recesvinto e Wamba. A Igreja grega as renovou em seu concílio in Trullo; Carlos Magno, Luís, o Piedoso, e Carlos, o Calvo, sancionaram-nas em seus capitulares; os canonistas dos séculos XI e XII, Burcardo, Santo Ivo de Chartres e Graciano, apresentam-nas em uso em seu tempo; finalmente, Gregório IX ainda procurava dar-lhes força de lei numa de suas Decretais, no século XIII. Mas já em muitos lugares esta observância se havia relaxado. O concílio celebrado em Constança, em 1094, reduzia a solenidade da Páscoa à segunda e à terça-feira. Os liturgistas João Beleth, no século XII, e Durando, no século XIII, atestam que, desde seu tempo, esta redução já estava em uso entre os franceses. Não tardou em estender-se a todo o Ocidente e formou o direito comum para a celebração da Páscoa, até que o relaxamento crescente por toda parte obteve sucessivamente da Sé Apostólica a dispensa da obrigação de guardar a terça-feira, e até mesmo a segunda; dispensa que o Código de Direito Canônico converteu em lei geral para toda a Igreja.

Para compreender plenamente a Liturgia até o domingo in albis, é, portanto, necessário recordar constantemente os neófitos, sempre presentes com suas vestes brancas na Missa e nos ofícios divinos. As alusões à sua recente regeneração são contínuas e aparecem sem cessar nos cantos e nas leituras durante o curso desta solene oitava.

A ESTAÇÃO. — Em Roma, a estação de hoje é na Basílica de São Pedro. Iniciados no último sábado nos divinos mistérios, na Basílica do Salvador, no Latrão, os neófitos hoje celebram a Ressurreição do Filho no esplêndido santuário da Mãe; é justo que neste terceiro dia venham prestar suas homenagens a Pedro, sobre o qual repousa todo o edifício da Santa Igreja. Jesus Salvador, Maria, Mãe de Deus e dos homens, Pedro, chefe visível do Corpo místico de Cristo: estas são as três manifestações pelas quais entramos e nos mantivemos na Igreja cristã.

MISSA

O Intróito, tirado do Êxodo, refere-se aos neófitos da Igreja. Recorda-lhes o leite e o mel misteriosos que lhes foram dados na noite de Sábado, depois de terem comungado. Eles são o verdadeiro Israel, introduzido na verdadeira Terra Prometida. Louvem, pois, ao Senhor, que os escolheu para fazer deles o seu povo de predileção.

INTRÓITO – O SENHOR vos introduziu em um país onde correm leite e mel, aleluia: para que a Lei do Senhor esteja sempre na vossa boca, aleluia, aleluia. SL. Louvai o Senhor, invocai o seu nome e anunciai as suas obras em todos os povos. Glória ao Pai.

Ao contemplar Cristo libertado dos laços da morte, a Santa Igreja pede a Deus que também nós, membros desta divina Cabeça, alcancemos a libertação da qual Jesus nos oferece o modelo. Subjugados por tanto tempo pelo pecado, devemos agora compreender o preço desta liberdade de filhos de Deus, que nos foi restituída pela Páscoa.

COLETA – Ó DEUS, que nesta solenidade pascal trouxestes ao mundo os remédios eficazes, continuai a espalhar, Vos suplicamos, os dons celestiais sobre o vosso povo, para que mereça alcançar a perfeita liberdade e consiga a vida eterna. Por Nosso Senhor.

EPÍSTOLA – Leitura dos Atos dos Apóstolos.

NAQUELES dias, estando Pedro no meio do povo, disse: Meus irmãos: Sabeis o que se passou em toda a Judeia, a começar pela Galileia, a respeito de Jesus de Nazaré, desde, o baptismo, que João pregou; como Deus O ungiu com o Espírito Santo e com o poder; como Ele passou pela terra, praticando o bom e curando os que estavam possessos pelo demónio, pois Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que praticou na região dos judeus em Jerusalém, onde O mataram, pregando-O numa cruz. Mas Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e quis que Ele se manifestasse, não a todo o povo, mas às testemunhas que antecipadamente escolhera, entre as quais nós, que comemos e bebemos com Ele, após a sua ressurreição dos mortos. Ele nos mandou pregar ao povo e afirmar que foi estabelecido por Deus como Juiz dos vivos e dos mortos. É a Ele que todos os Profetas se referem quando testemunham: «que todos os que acreditaram n’Ele alcançarão em virtude do seu nome a remissão de seus pecados.

MISSÃO DE CRISTO E DOS APÓSTOLOS. — São Pedro dirigiu este discurso ao centurião Cornélio e aos parentes e amigos deste gentio, que os havia reunido em torno de si para receber o Apóstolo que Deus lhe enviava. Tratava-se de dispor todo este auditório para receber o batismo e para que se tornasse as primícias da gentilidade; porque até então o Evangelho não havia sido anunciado senão aos judeus. Consideremos que é São Pedro, e não outro Apóstolo, quem nos abre hoje, a nós gentios, as portas da Igreja, que o Filho de Deus estabeleceu sobre ele como sobre rocha inabalável. Por isso, esta passagem do livro dos Atos dos Apóstolos é lida hoje na Basílica de São Pedro, junto à sua Confissão, e na presença dos neófitos, que são outras tantas conquistas da fé sobre os últimos seguidores da idolatria pagã.

Observemos igualmente o método que o Apóstolo emprega para inculcar em Cornélio e nos de sua casa a verdade do cristianismo. Começa por falar-lhes de Jesus Cristo; recorda os prodígios que acompanharam a sua missão; depois, tendo referido sua morte ignominiosa na cruz, propõe o fato da Ressurreição do Homem-Deus como a mais alta garantia da verdade de seu caráter divino. Em seguida vem a missão dos Apóstolos, que é necessário aceitar, assim como o seu testemunho tão solene e desinteressado, já que não lhes ocasionou senão perseguições. Aquele, pois, que confessa o Filho de Deus revestido da carne, passando por este mundo fazendo o bem, operando toda sorte de prodígios, morrendo na cruz, ressuscitado do sepulcro e confiando aos homens que escolheu a missão de continuar sobre a terra o ministério que Ele havia começado; aquele que confessa toda esta doutrina, está disposto a receber no batismo a remissão de seus pecados; esta foi a feliz sorte de Cornélio e de seus companheiros; tal foi também a de nossos neófitos.

Canta-se em seguida o Gradual, que apresenta a expressão ordinária da alegria pascal; somente o Versículo é diferente do de ontem e varia cada dia até a sexta-feira. O versículo do Aleluia nos faz evocar novamente o Anjo que desce do Céu para abrir o sepulcro vazio e manifestar a saída vitoriosa do Redentor.

GRADUAL –EIS o dia que o -Senhor fez: exultemos e alegremo-nos nele. Diga, agora, Israel: Deus é bom; a sua misericórdia é eterna.

ALELUIA – Aleluia, aleluia. V. Um anjo do Senhor desceu do céu, e, chegando-se, revolveu a pedra e assentou-se sobre ela.

SEQUÊNCIA – Á VÍTIMA pascal, louvor

Imolem os Cristãos.

Cordeiro redimiu as ovelhas:

Cristo inocente, com o Pai,

Reconciliou os pecadores.

A morte e a vida se bateram

Num duelo estranho.

Rei da vida, morto,

Reina vivo.

Dize-nos, Maria,

No caminho, o que havia?

Sepulcro do Cristo, que vive,

E a sua glória que ante os olhos tive.

Testemunhas celestes, sudário e as vestes.

Cristo ressurgiu, minha esperança.

Para a Galileia, antes de vós avança.

Sabemos que o Cristo ressurgiu,

Dos mortos, na verdade.

Ó Rei vitorioso,

De nós tende piedade. Amém. Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.

NAQUELE tempo, iam dois discípulos, naquele mesmo dia, para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios, os quais iam conversando nas coisas que haviam sucedido. Ora aconteceu que, enquanto falavam e discutiam, aproximou-se Jesus e acompanhou-os; mas os olhos deles estavam tão entenebrecidos que O não conheceram. Jesus disse-lhes, então: «Que assuntos são esses em que vos entretendes, mesmo pelo caminho, e que vos mostram tão tristes?». Respondendo um deles, chamado Cléofas, disse-Lhe: «Só Vós sois tão alheio a Jerusalém, que ignorais o que se passou durante estes dias?». Ele disse: «Que foi?». E responderam: «O que diz respeito a Jesus Nazareno, que era um Profeta poderoso em obras e em palavras, diante de Deus e de todo o povo: e como os nossos príncipes dos sacerdotes e magistrados O entregaram, para ser condenado à morte, e O crucificaram. Nós esperávamos que fosse Ele quem resgatasse Israel, mas com tudo isto já hoje é o terceiro dia, depois que estas coisas aconteceram. É verdade que algumas mulheres, que são da nossa grei, nos causaram espanto, dizendo que, havendo ido de madrugada ao sepulcro, não tinham encontrado o corpo de Jesus; e vieram dizer que tinham visto um Anjo que lhes dissera estar Ele vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram as coisas como as mulheres haviam dito: mas O não viram». Então Jesus disse-lhes: «Ó insensatos, cujo coração é lento em acreditar o que os Profetas anunciaram! Porventura não convinha que Cristo padecesse essas coisas e que entrasse na sua glória?». E, começando em Moisés e percorrendo todos os Profetas, explicou-lhes tudo o que as Escrituras continham a seu respeito. Quando já estavam perto da aldeia para onde se dirigiam, Jesus deu a entender que ia mais longe. Porém, eles suplicaram-Lhe: «Ficai connosco, pois faz-se tarde e anoitece». Então, Jesus entrou com eles. Ora, aconteceu que, enquanto estava à mesa com eles, tomou o pão, benzeu-o e, partindo-o, apresentou-lho. Então abriram-se-lhes os olhos e reconhceram-n’O: mas Ele desapareceu da sua vista. E disseram um ao outro: «Porventura, enquanto Ele nos falava no caminho e explicava as Escrituras os nossos corações não pulsavam ardentemente?». E, erguendo-se imediatamente, voltaram a Jerusalém, onde estavam reunidos os Onze e os que estavam com estes, os quais lhes disseram: «O Senhor ressuscitou, verdadeiramente; já apareceu a Simão». E eles contaram o que se havia passado no caminho e, como O tinham reconhecido pela fracção do pão.

Credo.

O SENTIDO DA PROVA. — Contemplemos estes três peregrinos que conversam no caminho de Emaús e unamo-nos a eles com o coração e o pensamento. Dois deles são homens frágeis como nós, que tremem diante da tribulação, que se sentem desconcertados pela cruz e que necessitam da glória e da prosperidade para continuar crendo. “Ó insensatos e tardos de coração!”, diz-lhes o terceiro viajante. “Não era necessário que o Messias padecesse todos esses sofrimentos para entrar em sua glória?” Até aqui, o nosso retrato foi muito semelhante ao destes dois homens; parecemos mais judeus que cristãos; e, por isso, o amor das coisas terrenas nos tornou insensíveis à atração celestial e, por isso mesmo, nos expôs ao pecado.

Doravante já não podemos pensar assim. Os esplendores da Ressurreição de nosso Mestre nos mostram com suficiente clareza qual é o fim da tribulação, quando Deus no-la envia. Quaisquer que sejam as nossas provações, não poderão comparar-se com ser pregado a um patíbulo, nem crucificado entre dois malfeitores. O Filho de Deus sofreu tal sorte; e considerai hoje se os suplícios da sexta-feira detiveram a ascensão que Ele havia de empreender no domingo rumo ao seu reino imortal. Acaso a sua glória não foi tanto mais deslumbrante quanto mais profunda foi a sua humilhação?

Não tremamos, pois, doravante, diante do sacrifício; pensemos na felicidade eterna que o recompensará. Jesus, a quem os dois discípulos não reconheceram, não teve senão de lhes fazer ouvir a sua voz e de lhes expor os desígnios da sabedoria e da bondade divinas, e logo houve claridade meridiana em seus espíritos. Que digo? Seu coração se abrasava e ardia em seu peito, ouvindo-O falar de como a cruz conduz à glória; e, se eles não O descobriram logo, foi porque Ele lhes velava os olhos para que não O reconhecessem.

Assim acontecerá conosco se deixarmos, como eles, Jesus falar. Então compreenderemos que “o discípulo não está acima do mestre” (S. Mat., X, 24); e, contemplando o resplendor que hoje ilumina este Mestre, sentir-nos-emos inclinados a exclamar: “Não, os padecimentos deste mundo transitório não têm proporção com a glória que mais tarde se manifestará em nós” (Rom., VIII, 18).

O EFEITO DA EUCARISTIA. — Nestes dias em que os esforços do cristão por sua regeneração são recompensados com a honra de sentar-se, revestido da veste nupcial, à mesa do banquete de Cristo, não podemos deixar de notar que foi no momento da fração do pão que os olhos dos discípulos se abriram e reconheceram o seu Mestre. O alimento celestial, cuja virtude procede toda da palavra de Cristo, dá luz às almas; e elas então veem o que antes não tinham visto. Assim acontecerá também em nós por efeito do sacramento da Páscoa; mas consideremos o que a esse respeito nos diz o autor da Imitação: “Conhecem verdadeiramente o seu Senhor no partir do pão aqueles cujo coração arde vivamente porque Jesus caminha em sua companhia” (L. IV, c. XIV).

Entreguemo-nos, pois, ao nosso divino Ressuscitado; doravante Lhe pertencemos mais do que nunca, não somente em virtude de sua morte, que padeceu por nós, mas também por causa de sua Ressurreição, que igualmente realizou por nós. À semelhança dos discípulos de Emaús, fiéis e jubilosos como eles, diligentes a seu exemplo, mostremos em nossas obras a renovação de vida que o Apóstolo nos recomenda, e que só convém àqueles a quem Cristo amou a ponto de não querer ressuscitar senão com eles.

A Igreja escolheu esta passagem do Evangelho de preferência a outra, em razão da Estação que se celebra em São Pedro. Com efeito, São Lucas nos refere nela que os dois discípulos encontraram os Apóstolos já informados da ressurreição de seu Mestre; “porque — diziam — apareceu a Simão”. Falamos ontem deste favor concedido ao príncipe dos Apóstolos.

O Ofertório é composto de uma passagem do santo Evangelho referente às circunstâncias da Ressurreição de Cristo.

OFERTÓRIO – UM Anjo do Senhor desceu do céu e disse às mulheres: «Aquele a quem buscais ressuscitou, como Ele havia dito», aleluia.

Na Secreta, a Igreja pede em favor de seus filhos que o manjar pascal lhes seja alimento de imortalidade, unindo os membros à sua Cabeça, não somente no tempo, mas até na vida eterna.

SECRETA – RECEBEI, Senhor, as preces de vosso povo com a oblação destas dádivas, para que, renovadas pelos Mistérios pascais, por vossa graça nos sirvam de remédio para a eternidade. Por Nosso Senhor.

Prefácio da Páscoa, Te quidem, Dómine, omni témpore, sed in hac potíssimum die.

Communicántes et Hanc ígitur próprios.

Durante a Comunhão, a Igreja evoca aos fiéis a lembrança de Pedro, que foi favorecido com a visita do Salvador ressuscitado. A fé da Ressurreição é a fé de Pedro, e a fé de Pedro é o fundamento da Igreja e o vínculo da unidade católica.

COMUNHÃO – RESSUSCITOU o Senhor e apareceu a Pedro, aleluia.

Na Pós-comunhão, a Igreja continua pedindo para todos os seus filhos, participantes do mesmo banquete do Cordeiro, o espírito de concórdia que deve uni-los como membros de uma mesma família, cuja inesquecível fraternidade a nova Páscoa veio selar.

PÓSCOMUNHÃO – INFUNDI, Senhor, em nós, o Espírito de vosso Amor, a fim de que, todos os que saciastes com os Sacramentos pascais, por vossa bondade permaneçam em perfeita união. Por Nosso Senhor… na unidade do mesmo.

Diz-se: Ite, Missa est, allelúia, allelúia.

R. Deo grátias, allelúia, allelúia.

Até o sábado in Albis, inclusive.


1 5º Homilia sobre a Ressureição.

2 In Sanctam Parasceven, et in Crucem et Latronem.

3 Primeiro Sermão sobre a Ressureição.

4 Canon II. Labbe, t. V.

 

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