Oratório São José

XXII Domingo depois de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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XXII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

MISSA

Segundo Honório de Autun, a Missa do dia refere-se ao tempo do Anticristo1. A Igreja lança o seu olhar para aquilo que há de vir, para o reino deste homem de pecado2, e, como que sentindo já os golpes da tremenda perseguição dos últimos dias, toma o Intróito do Salmo 129.

Se quisermos uma aplicação atual e sempre prática, dada a nossa miséria, em consonância com o sentido profético de que hoje se revestem as palavras deste Salmo, recordemos o Evangelho da semana anterior, que outrora era o deste Domingo. Cada qual se reconhecerá na pessoa do devedor insolvente que só confia na bondade de seu Senhor; e nós exclamaremos, na confusão de nossa alma humilhada: Se observardes nossas iniquidades, Senhor, quem poderá subsistir?

INTRÓITO – Se observardes nossas iniquidades, Senhor; Senhor, quem poderá subsistir? Mas em Vós está o perdão, ó Deus de Israel.
Salmo: Das profundezas clamo a Vós, Senhor: Senhor, ouvi a minha voz.
V. Glória ao Pai.

Acabamos de animar a nossa confiança cantando que em Deus há misericórdia. Ele mesmo é quem dá às orações de sua Igreja o seu acento piedoso, porque deseja ouvi-la. Mas também nós seremos ouvidos com ela, se rogarmos como ela segundo a fé, isto é, conforme os ensinamentos do Evangelho. Rezar segundo a fé, hoje, equivale, pois, a perdoar ao nosso próximo as dívidas contraídas conosco, se, por nossa vez, pedimos ser absolvidos pelo Senhor de todas as nossas.

COLETA – Ó Deus, nosso refúgio e fortaleza: ouvi as piedosas preces da vossa Igreja, Vós que sois o próprio autor da piedade, e fazei que aquilo que pedimos fielmente o alcancemos eficazmente. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Filipenses.

Irmãos: Confiamos no Senhor Jesus que Aquele que começou em vós a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo. É justo que eu sinta isto de todos vós, porque vos tenho no coração; e, nas minhas cadeias, e na defesa e confirmação do Evangelho, todos vós sois companheiros da minha alegria. Porque Deus me é testemunha de quanto vos amo a todos nas entranhas de Jesus Cristo. E o que peço é que a vossa caridade cresça mais e mais em ciência e em todo conhecimento, para que discernis as coisas melhores, para que estejais puros e sem mancha no dia de Cristo, cheios de frutos de justiça, por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus.

A ALMA DE SÃO PAULO

São Paulo, em nome da Igreja, de novo nos adverte que o fim se aproxima. Mas a este último dia, que no Domingo passado chamava dia mau, chama hoje, por duas vezes, no breve trecho da Epístola aos Filipenses que acabamos de ouvir, o dia de Cristo Jesus.

A carta aos Filipenses transborda de confiança, e por ela extravasa a alegria; e, contudo, assinala-nos a cruel perseguição contra a Igreja e o inimigo que se vale da tempestade para excitar as más paixões ainda dentro do rebanho de Cristo. O Apóstolo está acorrentado; a inveja e a traição dos falsos irmãos aumentam seus males. Mas a alegria domina em seu coração acima dos sofrimentos, porque ele já chegou à plenitude do amor, em que a dor dá vida à divina caridade.

Para ele, Jesus Cristo é a sua vida, e a morte, um ganho; entre a morte, que responderia ao mais íntimo desejo de seu coração entregando-o a Cristo, e a vida, que multiplica seus méritos e o fruto de suas obras, ele não sabe o que escolher. E, com efeito, que podem nele as considerações pessoais? Sua alegria presente, sua alegria futura, consiste em que Cristo seja conhecido e glorificado, pouco lhe importando de que maneira. Não se enganará em sua esperança, pois a vida e a morte acabarão por glorificar Cristo em sua carne3.

A ORAÇÃO DE SÃO PAULO

Assim se explica a sublime indiferença em que se encontra a alma de São Paulo, indiferença que é o cume da vida cristã e que nada se parece, evidentemente, com o nirvana fatal no qual pretenderam os falsos místicos do século XVII encerrar o amor.

Apesar da altura a que chegou no caminho da perfeição, quanta ternura prodigaliza a seus irmãos o convertido de Damasco! Deus é testemunha, diz ele, da ternura com que vos amo a todos nas entranhas de Jesus Cristo4. A aspiração que o enche e absorve5 é que Deus, que começou neles a boa obra por excelência, a obra da perfeição do cristão, a continue e a termine em todos para o dia em que Cristo aparecer em sua glória6. Ele roga para que a caridade, esta veste nupcial dos benditos do Pai que ele desposou com o único Esposo7, os envolva de resplendor sem igual no grande dia das bodas eternas8.

O LIBERALISMO

Ora, o meio para que neles se desenvolva a caridade de modo seguro consiste em que ela cresça na inteligência e na ciência da salvação, isto é, na fé; a fé, com efeito, é a que põe a base de toda justiça sobrenatural. Uma fé diminuída, evidentemente, só pode produzir uma caridade limitada.

Quanto se enganam, portanto, os homens que não se preocupam em fazer com que a verdade revelada caminhe lado a lado com o amor! Seu cristianismo reduz-se a crer o menos possível, a proclamar a inoportunidade de novas definições, a reduzir constante e cientificamente o horizonte sobrenatural por complacências com o erro. A caridade, dizem, é a rainha das virtudes; ela lhes sugere até o modo de manejar a mentira; reconhecer para o erro direitos iguais aos da verdade é, para eles, a última palavra da civilização cristã, que se funda no amor.

E perdem de vista que o primeiro objeto da caridade é Deus, verdade substancial; e esquecem também que não se faz ato de amor colocando no mesmo nível o objeto amado e o seu inimigo mortal.

INTEGRIDADE DA FÉ

Não o entendiam assim os Apóstolos: para fazer germinar a caridade no mundo, semeavam nele a verdade. Todo novo raio de luz servia, na alma de seus discípulos, ao amor; e estes discípulos, ao se converterem também eles em luz no santo Batismo9, em nada punham tanto empenho como em não fazer pacto com as trevas. Renegar a verdade, naqueles tempos, era o maior crime; expor-se por descuido a diminuir seus direitos no mínimo que fosse era suma imprudência10.

O cristianismo encontrara o erro como senhor do mundo; diante da noite que imobilizava na morte a raça humana, o único procedimento de salvação que conheceu foi fazer brilhar a luz. Não teve outra política senão a de proclamar o poder da verdade, e somente dela, para salvar o homem, e afirmar seus direitos exclusivos a reinar no mundo.

Este foi o triunfo do Evangelho depois de três séculos de luta encarniçada e violenta da parte das trevas, que se criam soberanas e, como tais, queriam continuar; de luta serena e radiante da parte dos cristãos, cujo sangue derramado fazia crescer o contentamento, consolidando no mundo o reino simultâneo do amor e da verdade.

Hoje, pela convivência dos batizados, o erro volta aos seus pretendidos direitos, e a caridade de muitíssimos, por isso mesmo, diminuiu11; a noite estende-se outra vez sobre um mundo glacial e agonizante. A linha de conduta dos filhos da luz12 continua sendo a mesma dos primeiros dias. Sem inquietações nem temores, contentes de sofrer por Jesus Cristo, como seus antepassados e como os Apóstolos13, conservam como algo muito querido a palavra de vida14; pois sabem que, enquanto no mundo existir um raio de esperança, ele emanará da verdade.

O Gradual canta a doce e forte unidade que reina e se conservará na Igreja até o fim por meio do amor; ao seu aumento nos exorta a Epístola, como o recomendava, enquanto único meio de salvação para o dia do juízo, o Evangelho que antigamente se lia neste Domingo.

GRADUAL – Como é bom e deleitoso habitarem os irmãos unidos!
V. Como o unguento sobre a cabeça, que desce até a barba, até a barba de Aarão.

Aleluia, aleluia.
V. Os que temem o Senhor esperam n’Ele, que é seu auxiliador e seu protetor. Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo, retirando-se os fariseus, fizeram conselho para surpreender Jesus em suas palavras. E enviaram-lhe seus discípulos, com os herodianos, dizendo: Mestre, sabemos que és veraz, e que ensinas verdadeiramente o caminho de Deus e não te preocupas com ninguém, porque não olhas a pessoa dos homens. Dize-nos, pois, que te parece: é lícito dar tributo a César, ou não? Mas Jesus, conhecida a maldade deles, disse: Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um denário. E disse-lhes Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição? Disseram-lhe: De César. Então Ele lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César; e a Deus, o que é de Deus.

LIÇÕES DE PRUDÊNCIA

Dir-se-ia que a escassez das verdades há de ser o perigo mais especial dos últimos tempos, já que a Igreja, nestas semanas que têm por fim tornar-nos presentes os últimos dias do mundo, nos encaminha continuamente para a prudência do entendimento como para a grande virtude que então deve resguardar seus filhos.

O Domingo passado tornava a pôr em suas mãos, como arma defensiva, o escudo da fé, e como arma ofensiva, a palavra de Deus; oito dias antes, recomendava-se-lhes15 a circunspecção da inteligência para conservar, nos dias maus, sua santidade fundada na verdade16 e sua riqueza apoiada na ciência17. Hoje, na Epístola, propunham-se-lhes uma vez mais a inteligência e a ciência, como suficientes por si mesmas para aumentar seu amor e aperfeiçoar a obra de sua santificação para o dia de Cristo.

O Evangelho conclui oportunamente estas lições do Apóstolo com o relato de um fato tirado da história do Salvador, e lhes dá a autoridade que sempre traz consigo todo exemplo procedente da vida do divino modelo da Igreja. E, com efeito, Jesus Cristo manifesta-se aqui como exemplo para os seus nos laços que as intrigas dos malvados armam à sua boa-fé.

O TRIBUTO A CÉSAR

Era o último dia dos ensinamentos públicos do Homem-Deus, quase a véspera de sua saída deste mundo18. Seus inimigos, tantas vezes desmascarados em suas astúcias, tentaram um esforço supremo. Os fariseus, que não reconheciam o poder de César e seu direito ao tributo, uniram-se a seus adversários, os partidários de Herodes e de Roma, para propor a Jesus a questão insidiosa: É ou não permitido pagar o tributo a César? Se a resposta do Salvador fosse negativa, incorreria na cólera do príncipe; se afirmativa, perderia todo crédito no ânimo do povo.

Jesus, com sua divina prudência, desconcertou seus ardis. Os dois partidos, unidos tão estranhamente pela paixão, recusaram-se a entender o oráculo que poderia uni-los na verdade, e, sem dúvida alguma, pouco depois voltaram às suas contendas. Mas a coalizão que se formara contra o Justo havia sido rompida; o esforço do erro, como sempre, voltara-se contra ele mesmo; e a palavra que essa coalizão suscitara, passando dos lábios do Esposo aos da Esposa, não deixaria mais de ressoar neste mundo, no qual essa palavra forma a base do direito social entre as nações.

A AUTORIDADE VEM DE DEUS

Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, repetiam os Apóstolos; e, ao proclamar bem alto que é preciso obedecer antes a Deus que aos homens, acrescentavam: “Submeta-se toda alma aos poderes superiores; pois não há poder que não derive de Deus, e os que existem foram estabelecidos por Deus. Por conseguinte, aquele que resiste ao poder resiste à ordem estabelecida por Deus, e atrai para si a condenação. Sede, pois, submissos, porque é necessário; submissos não só pelo sentimento do temor, mas também pelo dever da consciência. Pela mesma razão pagais tributos aos príncipes, porque são ministros de Deus.”

A vontade de Deus19: esta é a fonte e a verdadeira grandeza de toda autoridade entre os homens. O homem, por si mesmo, não tem direito de mandar em seu semelhante. O número nada altera nesta impotência dos homens sobre a minha consciência, pois, muitos ou poucos, por natureza sou igual a cada um deles; e somar os direitos que cada um tem sobre mim é o mesmo que somar o nada.

Mas Deus, ao querer que os homens vivam em sociedade, quis também, por isso mesmo, que à frente houvesse um poder encarregado de reduzir as múltiplas vontades à unidade do fim social. Dá também aos acontecimentos que sua providência dirige, e até aos homens nas origens das sociedades, grande amplitude para determinar a forma em que se deve exercer o poder civil e seu modo de transmissão.

Mas, uma vez regularmente investidos, os depositários soberanos do poder só dependem de Deus na esfera de suas atribuições legítimas, porque somente d’Ele lhes vem o poder, e não de seus povos, que não poderiam outorgá-lo, pois eles tampouco o possuem. Enquanto cumprem as condições do pacto social, ou não convertem em ruína da sociedade o poder que receberam para o seu bem, o direito que têm à obediência é o próprio direito de Deus: quer arrecadem os tributos necessários ao seu governo, quer restrinjam, com as leis que promulgam no comércio ordinário da vida, a liberdade permitida pelo direito natural, quer publiquem editos que lançam o soldado, em defesa da pátria, a uma morte certa.

Em todos estes casos, é o próprio Deus quem manda por meio deles e quer ser obedecido: já neste mundo põe a espada em suas mãos para castigo dos rebeldes20; Ele mesmo castigará eternamente, no outro, aqueles que não se tiverem corrigido.

A LEI OBRIGA

Quão grande é, pois, esta dignidade da lei humana, que faz do legislador o próprio vigário de Deus, ao mesmo tempo que evita ao súdito a humilhação de rebaixar-se diante de outro homem! Mas, para que a lei obrigue e seja verdadeiramente lei, é natural que, antes de tudo, esteja conforme às prescrições e proibições do Ser supremo, cuja única vontade pode dar-lhe seu caráter augusto, fazendo-a entrar no domínio da consciência.

Por esta razão, não pode existir no mundo uma lei contra Deus, contra seu Ungido ou contra sua Igreja. Desde o momento em que Deus não está com o homem que manda, o poder desse homem é apenas uma força brutal. O príncipe ou a assembleia que pretenda regulamentar os costumes, a vida moral de um país contra Deus, merece a oposição e o desprezo das pessoas corajosas; chamar pelo nome sagrado de lei essas lucubrações tirânicas é uma profanação indigna de um cristão e de todo homem livre.

A Antífona do Ofertório e seus antigos versículos fazem referência, como o Intróito, ao tempo da última perseguição. As palavras são tomadas da oração de Ester no momento de apresentar-se diante de Assuero para lutar contra Amã, figura do Anticristo. Ester é figura da Igreja.

OFERTÓRIO – Lembrai-Vos de mim, Senhor, que dominais sobre todo poder: e ponde em minha boca a palavra justa, para que minhas palavras agradem ao príncipe.

V. Lembrai-Vos de que me apresentei diante de Vós.

V. Convertei seu coração em ódio contra os nossos inimigos e seus cúmplices; e livrai-nos por vossa poderosa mão, Vós que sois o nosso Deus para sempre.

V. Rei de Israel, ouvi-nos, Vós que guiais José como uma ovelha.

Lembrai-Vos de mim, Senhor.

A garantia mais segura contra a adversidade é a ausência do pecado nas almas, pois o pecado desperta a cólera de Deus e pede vingança. Digamos com a Igreja na Secreta:

SECRETA – Fazei, ó Deus misericordioso, que esta saudável oblação nos livre incessantemente de nossas culpas e nos proteja contra toda adversidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Antífona da Comunhão nos faz notar, para depois imitar, a perseverança e a solicitude das súplicas da Santa Madre Igreja.

COMUNHÃO – Clamo porque Vós me ouvis, ó Deus: inclinai o vosso ouvido e escutai as minhas palavras.

Ao celebrar nos Mistérios a memória do Salvador, segundo sua recomendação, não devemos perder de vista que estes sagrados Mistérios são também o refúgio de nossa miséria. Seria presunção ou loucura não pensar em utilizá-los na oração, como faz a Igreja na Pós-comunhão.

PÓS-COMUNHÃO – Recebemos, Senhor, os dons do vosso sagrado Mistério, suplicando-Vos humildemente que façais com que aquilo que nos mandastes celebrar em vossa memória se converta em remédio de nossa enfermidade. Vós, que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amém.


 

1. Gemma animae, 1. IV, 93.

2. II Ts. 2, 3.

3. Fl. 1, 15-20.

4. Fl. 1, 8.

5. Fl. 1, 24-27.

6. Cl. 3, 4.

7. Rm. 8, 28; II Cor. 11, 2.

8. Durand, Racional. 6, 139.

9. Ef. 5, 8.

10. Ef. 15, 17.

11. Mt. 24, 12.

12. Ef. 5, 8.

13. Fl. 1, 28-30.

14. Ibid. 2, 16.

15. Epístola do Domingo XX.

16. Epístola do Domingo XIX.

17. Epístola do Domingo XVIII.

18. Martes Santo.

19. I Pe. 2, 15.

20. Rm. 13, 4.

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