O Santo dia de Páscoa
O SANTO DIA DE PÁSCOA
A RESSURREIÇÃO DE CRISTO – A noite do Sábado para o Domingo vê, por fim, agonizarem suas longas horas; aproxima-se o alvorecer do dia. Maria, com o coração angustiado, mas animosa e paciente, espera o instante em que tornará a ver seu Filho. Madalena e suas companheiras velaram toda a noite, e não tardarão a pôr-se a caminho para o santo sepulcro.
No seio do limbo, a alma do divino Redentor dispõe-se a dar o sinal de partida àquelas miríades de almas justas, por tanto tempo cativas, que o cercam respeitosas e amorosas. A morte paira sobre o sepulcro onde retém sua vítima. Desde o dia em que devorou Abel, absorveu inumeráveis gerações; mas jamais havia apertado em seus laços uma presa tão nobre. Jamais a sentença do paraíso terrestre tivera cumprimento tão prodigioso; mas nunca também viu o túmulo suas esperanças burladas com desmentido tão cruel. Mais de uma vez o poder divino lhe havia arrancado suas vítimas: o filho da viúva de Naim, a filha do chefe da sinagoga, o irmão de Marta e de Madalena lhe haviam sido arrebatados; mas ela os aguardava na segunda morte. Ao contrário, de outro se havia escrito: “Ó morte, eu serei tua morte; sepulcro, eu serei tua ruína” (Oséias, XIII, 14). Alguns instantes, e os dois adversários travarão batalha.
Assim como a honra da divina Majestade não podia permitir que o corpo unido a um Deus aguardasse no pó, como o dos pecadores, o momento em que a trombeta do anjo nos chamará a todos ao juízo supremo; do mesmo modo convinha que fossem abreviadas as horas durante as quais a morte devia prevalecer. “Esta geração perversa — havia dito Jesus — pede um prodígio; e só lhe será dado o de Jonas, o profeta” (S. Mateus, XII, 39). Três dias de sepultura: o fim da jornada de sexta-feira, a noite seguinte, todo o sábado com sua noite, e as primeiras horas do domingo. Era suficiente: suficiente para a justiça divina já satisfeita; bastante para certificar a morte da augusta Vítima e para assegurar o mais brilhante dos triunfos; bastante para o coração desolado da mais amante das mães.
“Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por minha própria vontade; e tenho poder para dá-la e poder para retomá-la” (São João, X, 18). Assim falava o Senhor aos judeus antes de sua Paixão; a morte sentirá de imediato a força dessa palavra do Mestre. O domingo, dia da luz, começa a amanhecer; os primeiros fulgores da aurora já lutam com as trevas. Imediatamente a alma divina do Redentor sai da prisão do limbo, seguida da multidão de almas santas que a rodeavam. Atravessa num abrir e fechar de olhos o espaço e, penetrando no sepulcro, reúne-se de novo ao corpo do qual se havia separado três dias antes, no meio dos estertores da agonia. O corpo sagrado reanima-se, levanta-se e desprende-se dos lençóis, dos aromas e das faixas com que estava cingido. As cicatrizes desapareceram; o sangue voltou às veias;+ e daqueles membros dilacerados pelos açoites, daquela cabeça rasgada pelos espinhos, daqueles pés e daquelas mãos transpassados pelos cravos, irradia uma luz fulgurante que enche a caverna. Os santos anjos que adoraram com ternura o Menino de Belém, adoram com tremor o vencedor do sepulcro. Dobram com respeito e deixam sobre a terra, onde o corpo imóvel repousava havia pouco, os lençóis com que a piedade de dois discípulos e de santas mulheres o havia envolvido.
Mas o Rei dos séculos já não deve permanecer naquele sarcófago fúnebre; com maior rapidez do que a luz que penetra pelo cristal, transpõe o obstáculo que lhe opõe a pedra de entrada da caverna, que a autoridade pública havia selado e cercado de soldados armados. Tudo permanece intacto; e está livre o triunfador da morte; do mesmo modo, dizem-nos unanimemente os santos Doutores, apareceu aos olhos de Maria no estábulo sem ter feito sentir qualquer violência no seio materno. Estes dois mistérios da nossa fé se unem e proclamam o termo inicial e o termo final da missão do Filho de Deus: no princípio, uma Virgem-Mãe; no fim, um sepulcro selado que devolve Aquele que retinha cativo.
A DERROTA DA MORTE – O mais profundo silêncio reina ainda neste momento em que o Homem-Deus acaba de quebrar o cetro da morte. Sua libertação e a nossa não lhe custaram esforço algum. Ó morte, que te resta já de teu império? O pecado nos havia entregado a ti; tu gozavas da tua conquista; e eis que caíste até ao abismo. Jesus, de quem te sentias tão orgulhosa por tê-lo debaixo de tua lei, escapou-te; e todos nós, depois de nos haveres possuído, também escaparemos ao teu domínio. O sepulcro que nos preparas converter-se-á em nosso berço para uma vida nova; porque teu vencedor é o primogênito dentre os mortos (Apoc., I, 5); e hoje é a Páscoa, a passagem, a libertação, para Jesus e para todos os seus irmãos. A estrada que Ele abriu, todos nós a seguiremos; e virá o dia em que tu, que tudo destróis, tu, nossa inimiga, serás por tua vez aniquilada pelo reino da imortalidade (I Cor., XV, 26). Mas desde agora contemplamos tua queda e repetimos, para tua vergonha, este brado do grande Apóstolo: “Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão? Por um momento triunfaste, e eis que foste devorada em teu triunfo” (Ibíd., 55).
ABERTURA DO SEPULCRO – Mas o sepulcro não vai permanecer sempre selado; é necessário que se abra e que testemunhe com clareza meridiana que Aquele cujo corpo inanimado o habitou por algumas horas o deixou para sempre. De repente a terra treme, como no momento em que Jesus expirou sobre a cruz; mas este estremecimento do globo já não significa terror: simboliza alegria. O Anjo do Senhor desce do céu; faz rolar a pedra da entrada, e senta-se sobre ela com majestade; traz por veste uma túnica de brilhante brancura e seu olhar irradia resplendores. Diante de sua presença os guardas do sepulcro caem por terra, espavoridos; ficam como mortos, até que a bondade divina acalma seu terror; levantam-se e, deixando aquele lugar, entram na cidade para dar conta do que viram.
A APARIÇÃO A NOSSA SENHORA – Enquanto isso, Jesus ressuscitado, cuja glória ainda não contemplou criatura mortal alguma, transpôs o espaço e num instante reuniu-se com sua Santíssima Mãe. É o Filho de Deus, é o vencedor da morte; mas é também o Filho de Maria. Maria esteve junto d’Ele até que expirou; ela uniu o sacrifício de seu coração de Mãe ao que Ele mesmo oferecia sobre a cruz; é justo, pois, que as primeiras alegrias da Ressurreição sejam para ela.
O santo Evangelho não narra a aparição do Salvador à sua Mãe, enquanto se estende sobre todas as demais: a razão é óbvia. As outras aparições tinham por fim promulgar o fato da Ressurreição; esta era exigida pelo coração de um Filho, e de um Filho como Jesus. A natureza e a graça reclamavam este primeiro encontro, cujo comovedor mistério faz as delícias das almas cristãs. Não era necessário que se consignasse nos livros sagrados; a tradição dos Padres, começando por Santo Ambrósio, bastava para transmiti-lo, mesmo se nossos corações não o houvessem pressentido; e, quando nos perguntamos por que o Salvador, que devia sair do sepulcro no domingo, quis fazê-lo nas primeiras horas desse dia, ainda antes de o sol haver iluminado o universo, assentimos facilmente à opinião dos autores que atribuíram esta pressa do Filho de Deus à inquietação que experimentava seu coração em pôr termo à dolorosa espera da mais terna e mais aflita das mães.
Que língua humana ousará traduzir as expansões do Filho e da Mãe nesta hora tão desejada? Os olhos de Maria, endurecidos pelo pranto e pela insônia, abrem-se de súbito à suave e doce luz que lhe anuncia a chegada de seu querido Filho; a voz de Jesus que ressoa em seus ouvidos, não já com o acento doloroso que em dias passados descia da cruz e traspassava como espada seu coração materno, mas alegre e amorosa, própria de um Filho que vem contar seus triunfos àquela que lhe deu à luz; o aspecto daquele corpo que ela recebera em seus braços, havia três dias, ensanguentado e inanimado, agora é fulgente e repleto de vida, radiante com os reflexos da divindade à qual estava unido; as ternuras de um tal Filho, suas palavras carinhosas, seus abraços, que são os de um Deus. Para evocar a sublimidade desta cena, não conhecemos senão a frase de Ruperto, que nos pinta a efusão jubilosa que então encheu o coração de Maria como uma torrente de felicidade que a embriagava e lhe tirava o sentimento das dores tão pungentes que havia sofrido.
Dos Ofícios divinos, lib. VII, c. XXV.
Mas esta torrente de delícias, que o Filho de Deus havia preparado para sua Mãe, não foi tão súbita como este autor do século XII dá a entender. Nosso Senhor mesmo quis descrever esta cena numa revelação que fez a Santa Teresa. Dignou-se confiar-lhe que a prostração de sua divina Mãe era tão profunda que ela não teria tardado em sucumbir a tão grande martírio; e que, quando lhe apareceu no instante em que acabava de sair do sepulcro, precisou ela de algum tempo para voltar a si, antes de se encontrar em condição de poder saborear aquela alegria; e o Senhor acrescenta que permaneceu muito tempo ao seu lado, porque essa presença prolongada lhe era necessária1.
Nós, cristãos, que amamos nossa Mãe, que a vimos sacrificar seu próprio Filho por nós no Calvário, participemos com afeto filial da felicidade com que Jesus se dignou cumular-la neste instante, e aprendamos também a compadecer os sofrimentos de seu coração materno. É a primeira manifestação de Jesus crucificado: recompensa da fé que sempre velou no coração de Maria, mesmo durante o lúgubre eclipse que se prolongou por três dias. Mas é tempo de Cristo mostrar-se a outros, e de a glória de sua Ressurreição começar a brilhar sobre o mundo. Primeiro se fez visível àquela que, entre todas as criaturas, era a mais querida e a única digna de tal honra; agora, em sua bondade, vai recompensar com sua visita cheia de consolações as almas abnegadas que permaneceram fiéis ao seu amor, num luto talvez demasiado humano, impelidas por um reconhecimento que nem a morte nem o túmulo puderam enfraquecer.
AS SANTAS MULHERES NO SEPULCRO – Ontem, quando a queda do sol começava a anunciar que, segundo o costume judaico, ao grande sábado sucedia o domingo, Madalena e suas companheiras foram pela cidade comprar perfumes para embalsamar de novo o corpo de seu querido Mestre, tão logo a luz do dia lhes permitisse ir cumprir esse piedoso dever. Passaram a noite em vigília, e quando as sombras ainda não se dissiparam por completo, Madalena, com Maria, mãe de Tiago, e Salomé, está a caminho do Calvário, perto do qual se encontra o sepulcro em que repousa Jesus. Em sua aflição, nem sequer se perguntaram com que ajuda poderão remover a pedra que fecha a entrada da gruta; menos ainda pensaram no selo do poder público que seria necessário romper previamente.
Chegam ao amanhecer do dia; e a primeira coisa que impressiona seus olhares é a pedra que fechava a entrada, porque, removida de seu lugar, deixava livre a entrada da câmara do sepulcro. O anjo do Senhor, que havia recebido o encargo de removê-la, sentara-se sobre ela como num trono. Não quis deixá-las por mais tempo no desconcerto de que eram presa, e assim lhes disse: “Não temais; sei bem que buscais a Jesus crucificado; mas Ele já não está aqui: ressuscitou, como havia predito; vinde e vede o lugar onde o Senhor estivera sepultado”.
Era demasiado para essas almas cujo amor pelo Mestre as arrebatava, mas que ainda não o conheciam segundo o espírito. Ficaram “consternadas”, diz-nos o santo Evangelista. É um defunto que procuram, um defunto querido; dizem-lhes que ressuscitou, e esta notícia não desperta nelas lembrança alguma. Dois anjos lhes aparecem na gruta, completamente iluminada pelo resplendor que irradiam. Ofuscadas por essa luz inesperada, Madalena e suas companheiras, diz-nos São Lucas, baixaram para a terra seus olhos tristes e assombrados. “Por que buscais entre os mortos — lhes dizem os anjos — Aquele que vive? Lembrai-vos, pois, do que vos disse na Galileia: que seria crucificado e que ao terceiro dia ressuscitaria”. Estas palavras causam certa impressão nas santas mulheres, e, no meio de sua perturbação, uma tênue lembrança do passado parece aflorar em sua memória. “Ide, pois — continuam os anjos —, dizei aos discípulos e a Pedro que ressuscitou, e que os precederá na Galileia”.
Saem apressadas do sepulcro e voltam à cidade, levando, no meio do seu temor, um sentimento de íntima alegria que as penetra apesar de si mesmas. Contudo, não viram mais do que anjos e um sepulcro aberto e vazio. Diante do seu relato, os Apóstolos, longe de se deixarem ganhar pela confiança, atribuem — diz-nos também São Lucas — à exaltação de um sexo frágil tudo o que elas unanimemente contam de maravilhoso. A Ressurreição, predita tão claramente e em muitas ocasiões por seu Mestre, tampouco lhes vem à memória. Madalena dirige-se em particular a Pedro e a João; mas sua fé é ainda fraca! Fora embalsamar o corpo de seu querido Mestre, e não o encontrou. Sua dolorosa decepção extravasa também diante dos dois Apóstolos, dizendo: “Levaram do sepulcro o Senhor e não sei onde o puseram”.
PEDRO E JOÃO NO SEPULCRO – Pedro e João resolvem ir ao lugar. Entram na gruta; veem os lençóis postos em ordem sobre a pedra em que estivera o corpo de seu Mestre; mas os espíritos celestes que montam guarda não se lhes mostram. Contudo, João recebe então a fé, e disso nos dá testemunho; doravante crerá na Ressurreição de Jesus.
Não fazemos senão passar rapidamente sobre os relatos que teremos ocasião de meditar mais adiante, quando a liturgia os tornar a pôr diante de nossos olhos. Agora somente nos propomos seguir, em seu conjunto, os acontecimentos deste dia, o maior dos dias.
Até agora Jesus apareceu somente à sua Mãe; as mulheres viram apenas anjos que lhes falaram. Esses bem-aventurados espíritos lhes mandaram ir anunciar a Ressurreição de seu Mestre aos discípulos e a Pedro. Não recebem essa missão para Maria; é fácil compreender a razão: o Filho já se havia reunido à sua Mãe, e a misteriosa e comovedora entrevista ainda se prolongava durante estes prelúdios. Mas já o sol brilha com toda a sua força, e as horas da manhã avançam; é o Homem-Deus que vai proclamar por si mesmo o triunfo que o gênero humano acaba de alcançar n’Ele sobre a morte. Sigamo-lo com santo respeito na ordem dessas manifestações, e esforcemo-nos reverentemente por descobrir seus mistérios.
APARIÇÃO A MARIA MADALENA – Madalena, depois da volta dos Apóstolos, não pôde resistir ao desejo de visitar novamente o túmulo de seu Mestre. O pensamento do corpo desaparecido, que talvez seja objeto de zombaria para os inimigos de Jesus e jaza sem honra nem sepultura, atormenta sua alma ardente e desconcertada. Volta e, em pouco tempo, chega à entrada do sepulcro. Ali, em sua inconsolável dor, entrega-se aos seus soluços; depois, inclinando-se para o interior da gruta, vê dois anjos sentados, cada um numa extremidade da pedra sobre a qual havia visto estendido o corpo de Jesus. Não os interroga; são eles que lhe falam: “Mulher — dizem-lhe —, por que choras?”. “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram”.
Imediatamente depois destas palavras, volta-se sem esperar a resposta dos anjos. De repente encontra-se diante de um homem, e este homem é Jesus. Madalena não o reconhece; está procurando o corpo morto de seu Mestre, quer sepultá-lo de novo. O amor a transporta, mas a fé não ilumina o seu amor: não percebe que Aquele cujos despojos inanimados procura está vivo ali, perto dela.
Jesus, em sua inefável condescendência, digna-se fazer-lhe ouvir sua voz: “Mulher — diz-lhe —, por que choras? A quem buscas?”. Madalena não reconheceu essa voz; seu coração está como entorpecido por uma sensibilidade excessiva e cegadora; ainda não reconhece Jesus segundo o espírito. Contudo, seus olhos se detiveram sobre Ele; mas sua imaginação, que a aprisiona, faz-lhe ver naquele homem o jardineiro que guarda o jardim em torno do sepulcro. Talvez seja ele — pensa — quem roubou o tesouro que procuro; e, sem refletir mais, assim impressionada, dirige-se a ele humildemente e lhe diz: “Senhor, se foste tu quem o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o tomarei”.
Era demasiado para o coração do Redentor dos homens, para Aquele que se dignou louvar altamente, na casa do fariseu, o amor da pobre pecadora; e já não podia retardar a recompensa dessa ternura: vai manifestar-se. Então, com um acento que traz à memória de Madalena tantas lembranças de divina familiaridade, fala; mas não diz mais que esta palavra: “Maria!”. “Mestre!”, responde ela com efusão, subitamente iluminada pelos esplendores do mistério.
Lança-se a Ele e põe os lábios sobre aqueles sagrados pés, a cujo abraço havia recebido outrora o perdão. Jesus a detém; ainda não chegou o momento de se entregar a longos desafogos. É necessário que Madalena, primeira testemunha da Ressurreição do Homem-Deus, seja elevada, em recompensa de seu amor, ao mais alto grau de honra. Não convém que Maria revele a outros os segredos de seu coração materno; é Madalena quem há de dar testemunho do que viu e ouviu no jardim. Ela será, como dizem os santos Doutores, a Apóstola dos próprios Apóstolos. Jesus lhe diz: “Vai a meus irmãos e dize-lhes que subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”.
Tal é a segunda aparição de Jesus ressuscitado, a aparição a Maria Madalena, a primeira na ordem do testemunho. Meditá-la-emos de novo na quinta-feira. Mas adoremos desde já a bondade do Senhor, que, antes de procurar estabelecer nos Apóstolos a fé em sua Ressurreição, digna-se primeiramente recompensar o amor desta mulher, que o seguiu até a cruz e ainda além do sepulcro, e que, sendo devedora em maior grau do que os outros, soube também amar mais do que os outros. Ao mostrar-se primeiro a Madalena, Jesus quis satisfazer antes de tudo o amor de seu coração divino para com a criatura, e mostrar-nos que o cuidado de sua glória vem depois.
Madalena, diligente em cumprir a ordem de seu Mestre, volta à cidade e não tarda em achar-se entre os discípulos: “Vi o Senhor — lhes diz —, e Ele me disse isto”. Mas a fé ainda não penetrou em suas almas; João só recebeu este dom no sepulcro, embora seus olhos não tenham visto mais do que o sepulcro vazio. Recordemos que, depois de ter fugido como os outros, voltou ao Calvário para recolher o último suspiro de Jesus, e que ali foi feito filho adotivo de Maria.
APARIÇÃO DAS SANTAS MULHERES – Entretanto, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, que haviam acompanhado Madalena em sua visita ao sepulcro, voltam sozinhas a Jerusalém. De repente Jesus lhes aparece e as detém. “Eu vos saúdo”, lhes diz. Com estas palavras, seus corações se enchem de ternura e admiração. Precipitam-se a seus pés sagrados com fervor, beijam-nos e lhe rendem suas adorações.
É a terceira aparição do Salvador ressuscitado, menos íntima, mas mais familiar, do que aquela de que Madalena foi favorecida. Jesus não terminará a jornada sem manifestar-se àqueles que estão chamados a ser os arautos de sua glória; mas, mais do que tudo, quer honrar aos olhos de todos os séculos vindouros estas mulheres que, desafiando o perigo e triunfando da fraqueza do seu sexo, o consolaram na cruz com uma fidelidade que Ele não encontrou naqueles que havia escolhido e cumulado de seus favores. Ao redor do berço onde se mostrava pela primeira vez aos homens, convocou pobres pastores, servindo-se do ministério dos anjos, antes de chamar os reis por meio de uma estrela; hoje, que chegou ao ápice de sua glória e pôs com sua Ressurreição o selo a todas as suas ações e certificou sua origem divina, firmando nossa fé com o mais irrefragável de todos os prodígios, espera, antes de instruir e esclarecer seus Apóstolos, que pobres mulheres sejam por Ele mesmo instruídas, consoladas, cumuladas, enfim, com provas do seu amor.
Que nobreza a desta conduta tão suave e tão forte do Senhor, nosso Deus! E com quanta razão nos disse pelo Profeta: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Isaías, LV, 8)!
Se estivesse em nossas mãos ordenar as circunstâncias de sua vinda a este mundo, que alarde não teríamos feito para levar todos os homens, reis e povos, junto ao seu berço? Com que estrépito não teríamos publicado em todas as nações o milagre dos milagres, a Ressurreição do Crucificado, a morte vencida e a imortalidade reconquistada? O Filho de Deus, que é “o poder e a sabedoria do Pai” (I Cor., 24), agiu de outro modo. No instante do seu nascimento, não quis por primeiros adoradores senão homens simples, cujos relatos não deviam ultrapassar Belém; e eis que hoje a data deste nascimento é a era de todos os povos civilizados. Como primeiras testemunhas de sua Ressurreição, não quis senão frágeis mulheres; e eis que este mesmo dia, no exato momento em que nos encontramos, todo o universo celebra o aniversário dessa Ressurreição; tudo se renova, um fervor desconhecido no resto do ano se faz sentir até nos mais indiferentes; o incrédulo que se acotovela com o crente sabe, ao menos, que hoje é Páscoa; e do seio mesmo das nações infiéis, inumeráveis vozes cristãs se unem às nossas para elevar, de todos os pontos do globo, para Jesus ressuscitado, a aclamação que a todos nos une num só povo: o jubiloso Aleluia. “Ó Senhor” — podemos exclamar, como exclamou Moisés quando o povo eleito celebrou a primeira Páscoa e atravessou a pé enxuto o mar Vermelho —, “ó Senhor, quem entre os fortes é semelhante a Vós?” (Êxodo, XV, 11).
MISSA
A hora de Tércia reúne na Basílica todo o povo da cidade. O sol, cuja saída foi alegre, parece derramar uma luz mais intensa; o pavimento da igreja está atapetado de flores. Debaixo dos mosaicos da abside, cujos esmaltes brilham com claridade nova, os muros se veem cobertos de preciosas tapeçarias; grinaldas de flores pendem em festões do arco triunfal, correm ao longo das colunas da nave central e daí se prolongam para as naves laterais. Numerosas lâmpadas, alimentadas com o mais fino azeite de oliva, refulgem em torno do altar, suspensas do baldaquino. Erguendo-se de sua esbelta coluna, o Círio pascal, que não se apagou desde as primeiras horas da vigília de ontem, eleva sua chama sempre viva e embalsama o lugar santo com o aroma dos perfumes que impregnaram sua mecha. Símbolo misterioso de Cristo-Luz, alegra os olhares dos fiéis e parece dizer a todos: “Aleluia! Cristo ressuscitou!”.
Mas o que mais concentra a atenção é o numeroso grupo dos neófitos, revestidos de branco como os anjos que apareceram junto ao sepulcro; nesses tenros e nobres rebentos reflete-se mais vivamente o mistério de Cristo ressuscitado do sepulcro. Ontem ainda estavam mortos pelo pecado; agora estão cheios de vida nova, fruto da vitória do Redentor sobre a morte. Feliz pensamento da Santa Igreja ter escolhido para o dia de sua regeneração exatamente aquele em que o Homem-Deus conquistou para nós a imortalidade.
A ESTAÇÃO – Em Roma, a estação celebrava-se antigamente na Basílica de Santa Maria Maior. Por uma admirável delicadeza, esta rainha das numerosas igrejas dedicadas à Mãe de Deus foi designada para a função deste dia. Roma tributava a homenagem da solenidade pascal àquela que, mais do que qualquer criatura, teve direito de experimentar as alegrias, pelas angústias que sofrera seu coração materno e por sua fidelidade em conservar a fé da Ressurreição durante as horas em que seu divino Filho teve de passar no Sepulcro.
Mais tarde, a solenidade da Missa papal foi transferida para a Basílica de São Pedro, mais espaçosa e mais apropriada à multidão de fiéis que todo o mundo cristão envia em representação às solenidades pascais de Roma. Contudo, o Missal romano continua indicando Santa Maria Maior como a igreja da estação atual; e as indulgências são as mesmas para aqueles que tomam parte nas funções ali celebradas.
Todos os prelúdios ao Sacrifício terminaram; os cantores executam o solene Introito, durante o qual o Pontífice, rodeado de presbíteros, diáconos e ministros inferiores, dirige-se ao altar. Este canto de entrada é a exclamação do Homem-Deus ao sair do sepulcro e dirigir a seu Pai celeste a homenagem do seu reconhecimento.
INTRÓITO– RESSUSCITEI e ainda estou contigo. Aleluia. Puseste sobre mim a tua mão. Aleluia. Admirável é a tua Sabedoria. Aleluia, aleluia. SL. Senhor, Vós me provastes e me conheceis; sabeis a minha morte e a minha ressurreição. Glória ao Pai. Ressuscitei.
Na coleta, a Santa Igreja celebra o benefício da imortalidade, concedido ao homem pela vitória do Redentor sobre a morte; e nela pede que os desejos de seus filhos se elevem sempre ao alto, rumo a esse sublime destino.
COLETA– Ó DEUS, que no dia de hoje pelo triunfo de vosso Unigênito, vencedor da morte, nos abristes a entrada da eternidade, secundai com o vosso auxílio os votos que a vossa graça em nós suscita. Pelo mesmo Senhor Nosso.
EPÍSTOLA– Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Coríntios.
IRMÃOS: Purificai-vos do velho fermento, para que sejais uma nova massa, agora que já sois ázimos; pois o Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos, portanto, a festa, não com o fermento velho nem com o fermento da malícia e da corrução, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.
Deus ordenou aos israelitas que comessem o Cordeiro pascal com pão ázimo, isto é, sem fermento, ensinando-lhes por esse símbolo que deviam renunciar, antes de tomar esse alimento misterioso, à vida passada, cujas imperfeições eram figuradas pelo fermento. Nós, cristãos, que fomos elevados por Cristo a esta vida nova, para a qual Ele nos orientou ressuscitando primeiro, devemos doravante tender unicamente para obras puras, para ações santas: este é o ázimo destinado a acompanhar o Cordeiro pascal, que hoje se faz nosso alimento.
O Gradual é formado com palavras do Salmo CXVII, repetidas em todas as Horas deste dia. Nele, a alegria é um dever para todo cristão; tudo nos incita a ela: o triunfo do nosso amado Redentor e os grandes bens que Ele nos conquistou. A tristeza neste dia seria um protesto indigno contra os benefícios com que Deus Se dignou cumular-nos em seu Filho.
GRADUAL– ESTE é o dia que o Senhor fez; exultemos e alegremo-nos nele. Glorificai o Senhor, porque Ele é bom; porque a sua misericórdia perdura nos séculos.
O versículo aleluiático nos dá um dos motivos pelos quais devemos alegrar-nos. Um banquete foi preparado para nós; o Cordeiro está pronto; este Cordeiro é Jesus imolado, e doravante sempre vivo: imolado, para que sejamos resgatados com o seu sangue; sempre vivo, para nos comunicar a imortalidade.
ALELUIA– ALELUIA, aleluia. Cristo nosso Cordeiro pascal, foi imolado.
Para aumentar a alegria dos fiéis, a Santa Igreja acrescenta aos seus cânticos ordinários uma composição lírica, na qual respira o mais vivo júbilo pelo Redentor que sai do sepulcro. Esta composição recebeu o nome de Sequência, porque é como uma continuação e prolongamento do canto do Aleluia. Atribui-se a Wippon († 1050), capelão dos imperadores Conrado II e Henrique III.
SEQUÊNCIA– Á VÍTIMA pascal, louvor
Imolem os Cristãos.
Cordeiro redimiu as ovelhas:
Cristo inocente, com o Pai,
Reconciliou os pecadores.
A morte e a vida se bateram
Num duelo estranho.
Rei da vida, morto,
Reina vivo.
Dize-nos, Maria,
No caminho, o que havia?
Sepulcro do Cristo, que vive,
E a sua glória que ante os olhos tive.
Testemunhas celestes, sudário e as vestes.
Cristo ressurgiu, minha esperança.
Para a Galileia, antes de vós avança.
Sabemos que o Cristo ressurgiu,
Dos mortos, na verdade.
Ó Rei vitorioso,
De nós tende piedade. Amém. Aleluia.
A Santa Igreja toma hoje de São Marcos, de preferência aos outros Evangelistas, o relato da Ressurreição. São Marcos foi discípulo de São Pedro; escreveu o seu Evangelho em Roma, sob a direção do Príncipe dos Apóstolos. Convém que, em tão grande solenidade, se ouça de certo modo a voz daquele a quem o divino Ressuscitado proclamou pedra fundamental de sua Igreja e Pastor supremo das ovelhas e dos cordeiros.
EVANGELHO- Continuação do santo Evangelho segundo São Marcos.
NAQUELE tempo, Maria Madalena, Maria, Mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para virem embalsamar a Jesus. E no primeiro dia da semana, depois do sábado, logo ao amanhecer, chegaram ao sepulcro, nascido já o sol. E diziam entre si: Quem nos há de tirar a pedra da entrada do sepulcro? E olhando, viram afastada a pedra, que era multo grande. Entrando no sepulcro, viram então um jovem assentado do lado direito, vestido com uma túnica branca; e ficaram assustadas. Ele lhes disse: Não tenhais medo; buscais a Jesus de Nazaré que foi crucificado, ressuscitou, não está aqui; eis o lugar onde O depositaram. Ide, porém, e dizei a seus discípulos e a Pedro, que Ele vos precede na Galileia, ali O vereis como vos disse.
Credo.
O VENCEDOR DA MORTE. — “Ressuscitou, já não está aqui”: um morto que mãos piedosas haviam colocado ali, sobre aquela pedra, naquela gruta, levantou-se e, sem sequer remover a pedra que fechava a entrada, ressuscitou para uma vida que jamais terá fim. Ninguém lhe prestou ajuda; nenhum profeta, nenhum enviado de Deus se inclinou sobre o seu cadáver para restituir-lhe a vida. Foi Ele mesmo quem, por sua própria virtude, se ressuscitou. Para Ele, a morte não foi uma necessidade; padeceu-a porque quis; aniquilou-a quando quis. Ó Jesus, Tu brincas com a morte, Tu, que és o Senhor, nosso Deus! Prostramo-nos de joelhos diante desse sepulcro vazio, que, por haveres nele permanecido algumas horas, tornaste sagrado para sempre. “Eis o lugar em que te colocaram.” Eis os lençóis, as faixas, que não te puderam reter e dão testemunho de tua passagem voluntária pelo jugo da morte!
O anjo diz às mulheres: “Buscais Jesus de Nazaré, o crucificado.” Recordação carregada de lágrimas! No dia anterior, para ali foram levados os seus despojos maltratados, dilacerados, ensanguentados. Aquela gruta, cuja pedra foi violentamente removida pela mão do Anjo e que agora está iluminada com claridade deslumbrante por esse espírito celeste, abrigou com sua sombra a mais desolada das mães; fez eco aos soluços de João e dos dois discípulos, e às lamentações de Madalena e de suas companheiras; o sol se escondia no horizonte e ia começar o primeiro dia da sepultura de Jesus. Mas o profeta havia predito: “À tarde reinarão as lágrimas; mas pela manhã brilhará a alegria.” (Sl. XXIX, 6.)
Encontramo-nos nesta feliz aurora; e nossa alegria é grande, ó Redentor, ao contemplar que este mesmo sepulcro aonde te acompanhamos com dor sincera não é senão o troféu de tua vitória. Estão curadas as chagas que beijávamos com amor, censurando-nos por havê-las causado. Vives mais glorioso do que nunca, imortal; e porque nós quisemos morrer para os nossos pecados, enquanto Tu morrias para expiá-los, queres que vivamos contigo eternamente, que a tua vitória seja a nossa, que a morte, para Ti e para nós, não seja mais que uma passagem, e que ela nos restitua um dia, intacto e radiante, este corpo, que o túmulo já não receberá doravante senão como em depósito. Glória, pois, honra e amor a Ti, que Te dignaste não somente morrer, mas também ressuscitar por nós!
O Ofertório reproduz as palavras com que o Salmista anunciava o terremoto que se seguiu no instante da Ressurreição. O nosso globo foi testemunha da mais sublime das manifestações do poder e da bondade de Deus, e o Senhor Supremo quis mais de uma vez que ele se associasse, por movimentos insólitos às suas leis ordinárias, às cenas divinas das quais era teatro.
OFERTÓRIO- A TERRA tremeu e silenciou quando Deus se levantou para a julgar, aleluia.
O povo santo vai sentar-se no banquete pascal; o divino Cordeiro convida todos os fiéis a alimentarem-se de sua carne; a Igreja, na Secreta, implora para estes felizes convivas as graças que lhes assegurarão a bem-aventurada imortalidade, da qual vão receber a promessa.
SECRETA- RECEBEI, Senhor, as preces de vosso povo com a oblação destas dádivas, para que, renovadas pelos Mistérios pascais, por vossa graça nos sirvam de remédio para a eternidade. Por Nosso Senhor.
Prefácio da Páscoa, Te quidem, Dómine, omni témpore, sed in hac potíssimum die.0
Communicántes et Hanc ígitur próprios.
RITOS ANTIGOS. — Durante a Idade Média, na Missa papal, enquanto o Pontífice recitava esta oração secreta, os dois Cardeais-Diáconos mais jovens separavam-se de seus colegas e, revestidos de suas dalmáticas brancas, iam colocar-se cada um numa das extremidades do altar, voltados para o povo. Representavam os dois anjos que guardavam o túmulo do Salvador e que apareceram às santas mulheres, anunciando-lhes a ressurreição de seu Mestre. Os dois diáconos permaneciam em seus lugares, em silêncio, até o momento em que o Pontífice deixava o altar ao Agnus Dei, para subir ao trono, no qual devia comungar.
Observava-se também outro costume em Santa Maria Maior. Quando o Papa, depois da fração da Hóstia, dirigia aos assistentes a saudação da paz com as palavras costumeiras: Pax Domini sit semper vobiscum, o coro não respondia como nos dias ordinários: Et cum spiritu tuo. A tradição refere que, nessa mesma solenidade e nessa mesma Basílica, celebrando certo dia São Gregório Magno o divino sacrifício, e tendo pronunciado essas mesmas palavras, um coro de anjos respondeu com uma melodia tão suave, que as vozes da terra emudeceram, não ousando unir-se ao concerto celeste. No ano seguinte, esperou-se, sem ousar responder ao Pontífice, que as vozes angélicas se fizessem ouvir novamente; essa espera durou vários séculos; mas o prodígio que Deus fizera uma vez a seu servo Gregório não se repetiu mais.
Finalmente chega o momento em que a multidão dos fiéis vai comungar. A antiga Igreja das Gálias fazia então ouvir um convite, dirigido a toda a multidão desejosa do pão da vida. Esta antífona conservou-se em nossas catedrais, mesmo depois da introdução da liturgia romana por Pepino e Carlos Magno; e não desapareceu totalmente senão em consequência das inovações do século XVIII. O canto que a acompanhava manifesta a majestade dos mistérios: colocamos aqui o texto, para ajudar os fiéis a se aproximarem com maior respeito deste banquete, no qual o Cordeiro Pascal vai dar-Se a eles.
CONVITE DO POVO À COMUNHÃO – Vinde, ó povos; aproximai-vos do mistério imortal:
vinde provar a sagrada libação.
Aproximemo-nos com temor, com fé, com as mãos puras;
vamos unir-nos Àquele que é o prêmio de nossa penitência:
o Cordeiro oferecido em sacrifício a Deus seu Pai.
Adoremo-Lo, glorifiquemo-Lo; e com os anjos cantemos:
Aleluia.
Enquanto os ministros distribuem o alimento sagrado, a Igreja celebra, na Antífona da comunhão, o verdadeiro Cordeiro Pascal, que, misticamente imolado, pede àqueles que d’Ele se alimentam a pureza de coração; esta acha-se figurada nas espécies de pão ázimo sob as quais Se oculta aos nossos olhos.
COMUNHÃO- O CRISTO, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Aleluia. Celebremos, portanto, a festa, com os ázimos da sinceridade e da verdade. Aleluia, aleluia, aleluia.
A última oração da Igreja em favor de seu povo implora para todos o espírito de caridade fraterna, que é o espírito da Páscoa. Ao tomar a nossa natureza pela Encarnação, o Filho de Deus fez-nos seus irmãos; ao derramar por nós o seu sangue na cruz, uniu-nos a todos pelo vínculo da redenção; ao ressuscitar hoje, une-nos também na imortalidade.
PÓSCOMUNHÃO– INFUNDI, Senhor, em nós, o Espírito de vosso Amor, a fim de que, todos os que saciastes com os Sacramentos pascais, por vossa bondade permaneçam em perfeita união. Por Nosso Senhor… na unidade do mesmo.
Diz-se: Ite, Missa est, allelúia, allelúia.
R. Deo grátias, allelúia, allelúia.
Até o sábado in Albis, inclusive.
Depois da bênção do Pontífice, o povo se retira louvando a Deus e aguardando o Ofício de Vésperas, que, com sua pompa inusitada, porá termo a todas as magnificências desta jornada solene.
USOS ROMANOS. — Em Roma, o Papa desce os degraus de seu trono; tendo a fronte cingida pela tríplice coroa, senta-se na cadeira gestatória e, levado pelos servidores palatinos, avança pela nave principal. Em lugar determinado, desce e ajoelha-se humildemente. Então, do alto das tribunas da cúpula, sacerdotes revestidos de estola mostram ao Pontífice e ao povo o madeiro sagrado da Cruz e o véu chamado Verônica, sobre o qual estão pintados os traços desfigurados do Salvador caminhando para o Calvário. Esta recordação das dores e humilhações do Homem-Deus, evocada no próprio momento em que seu triunfo sobre a morte acaba de ser proclamado com tanto esplendor, revela também a glória e o poder do divino Ressuscitado e recorda a todos com que amor e com que fidelidade Se dignou cumprir a missão que havia aceitado para a nossa salvação. Não disse Ele mesmo hoje aos discípulos de Emaús: “Convinha que Cristo padecesse e entrasse na sua glória pelo caminho dos sofrimentos”? (S. Luc., XXIV, 46). A Cristandade, na pessoa do seu Chefe, presta homenagem neste momento a estes padecimentos e a esta glória. Depois de humilde adoração, o Pontífice recebe novamente a tiara, sobe à cadeira e é levado para a galeria da qual dará à imensa multidão que cobre a praça de São Pedro a bênção apostólica.
BÊNÇÃO DO CORDEIRO. — Conservou-se o costume de benzer e comer a carne de um cordeiro no dia da Páscoa. Colocamos aqui, como complemento dos ritos da Páscoa cristã, a oração que a Igreja emprega para esta bênção. O fiel percorrerá com prazer esta antiga fórmula, que nos transporta a outros costumes, e pedirá a Deus o retorno desta simplicidade e desta fé prática, que davam um sentido tão profundo e uma solidez tão grande às mais insignificantes circunstâncias da vida de nossos antepassados.
Ó Deus, que por meio do vosso servo Moisés mandastes que, na libertação do povo de Israel do Egito, fosse imolado um cordeiro como símbolo de Nosso Senhor Jesus Cristo, e fossem ungidas com o seu sangue as portas das casas; dignai-Vos abençoar e santificar também esta criatura de carne, que nós, vossos servos, desejamos tomar para vosso louvor na festa da Ressurreição do mesmo Jesus Cristo, Nosso Senhor, que vive e reina convosco pelos séculos dos séculos. Amém.
BÊNÇÃO DOS OVOS. — A carne dos animais não era o único alimento proibido aos cristãos pela lei quaresmal; esta lei proibia também os ovos, enquanto alimento animal. Tal prescrição já não vigora em nossos dias; mas, antes que a Igreja tivesse feito esta nova concessão à nossa fraqueza, era necessário que cada ano uma dispensa mais ou menos extensa viesse legitimar o uso de um alimento universalmente proibido durante a santa Quaresma. As Igrejas do Oriente foram mais fiéis a esta disciplina e não conhecem esta dispensa. Na alegria de recobrar um alimento cuja abstinência lhes havia sido penosa, os fiéis pediram à Igreja que benzesse os primeiros ovos que apareciam na mesa pascal; e eis a oração que a Igreja empregava para atender ao seu desejo:
Suplicamo-Vos, Senhor, fazei que desça sobre estes ovos a graça da vossa bênção, para que se convertam em alimento salutar para os vossos fiéis, que vão tomá-los em ação de graças pela Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual vive e reina convosco pelos séculos dos séculos. Amém.
Quão alegre é o banquete pascal, abençoado pela Igreja, nossa Mãe, e como ele aumenta, por sua santa liberdade, a alegria deste grande dia! As festas da religião devem ser festas de família entre os cristãos; mas, em todo o ciclo, não há nenhuma que se compare a esta, que esperamos por tanto tempo e que nos trouxe juntamente as misericórdias do Senhor que perdoa e as esperanças da imortalidade.
À TARDE
A TRISTEZA DOS APÓSTOLOS. — O dia avança no seu curso e Jesus ainda não Se mostrou aos seus discípulos. As santas mulheres entregam-se à alegria e ao reconhecimento a que as incita o favor de que foram objeto. Comunicaram seu testemunho aos Apóstolos: não foram somente anjos que lhes apareceram; o próprio Jesus Se lhes mostrou; dignou-Se falar-lhes; beijaram seus sagrados pés; mostram-se inabaláveis em suas afirmações; contudo, não conseguem vencer o abatimento daqueles homens, a quem as cenas da Paixão de seu Mestre haviam prostrado tão profundamente. Diante de qualquer relato que ouvem, mostram-se tristes, como seres que experimentaram cruel decepção. Entretanto, são os mesmos que veremos em breve enfrentar suplícios e a morte em testemunho da Ressurreição do Mestre, cuja lembrança constitui para eles neste momento como que uma humilhação.
Podemos imaginar as impressões que os dominam ao ouvir a conversa dos dois homens que passaram com eles parte do dia e que também tiveram contato com Jesus. Logo, no caminho de Emaús, manifestaram deste modo o estado de sua alma desiludida: “Esperávamos nele, como naquele que havia de resgatar Israel; e eis que já faz três dias que a catástrofe aconteceu. É certo que algumas mulheres, que tinham ido ao sepulcro ao amanhecer, nos inquietaram com seus relatos. Não tendo encontrado o seu corpo, voltaram dizendo que viram anjos, os quais lhes disseram que Ele agora está vivo. Alguns dentre os nossos foram ao sepulcro e verificaram o que dizem as mulheres, mas a Ele não O encontraram.”
Ó coisa admirável! O anúncio de sua Ressurreição, que tantas vezes Jesus lhes havia feito, mesmo na presença dos judeus, não lhes vem à memória. Assim, o espetáculo e a lembrança da morte abafam nos homens carnais o sentimento do novo nascimento que nosso corpo há de adquirir no túmulo.
A APARIÇÃO A SÃO PEDRO. — Mas é necessário que Jesus Se mostre ressuscitado àqueles que devem dar testemunho de sua divindade até os confins do mundo. Até agora só apareceu para satisfazer sua ternura filial para com sua Mãe e sua infinita bondade para com as almas que haviam correspondido, segundo suas forças, aos seus benefícios. Parece chegada a hora de pensar em sua própria glória: assim, ao menos, o imaginamos nós. Mas esperemos ainda. Jesus quis primeiramente recompensar o amor; porém, antes de proclamar seu triunfo, sente a necessidade de realçar sua generosidade. O colégio apostólico, cujos membros fugiram todos na hora do perigo, contemplou o seu chefe renegando o Mestre que o havia cumulado de honras, diante da interpelação de uma criada; mas, depois do olhar de repreensão e de perdão que Jesus lhe dirigiu na casa do Sumo Sacerdote, Pedro não cessou de deplorar sua covardia com as mais amargas lágrimas. Jesus quer, antes de tudo, consolar o humilde penitente, assegurar-lhe de viva voz que o perdoa e confirmar novamente, por este sinal de predileção divina, as prerrogativas que lhe conferira pouco antes diante dos demais.
Pedro ainda duvida da Ressurreição; não se rendeu ao testemunho da Madalena; mas não tardará em reconhecer o divino Ressuscitado na pessoa do Mestre ofendido, que Se dispõe a mostrar-se-lhe como amigo que perdoa.
Esta manhã o anjo disse às mulheres: “Ide e dizei a seus discípulos e a Pedro que Ele vos precederá na Galileia”. Por que Pedro é nomeado aqui por seu próprio nome, senão para que saiba que, embora tenha tido a desgraça de renegar Jesus, Jesus não renegou dele? Por que não é nomeado nesta ocasião antes dos outros, senão para poupar-lhe a humilhação que lhe causaria o contraste entre sua alta dignidade e a fraqueza indigna em que incorreu? Mas esta menção especial indica também que ele não cessou de estar presente no coração de seu Mestre e que em breve terá ocasião de expiar, por seu arrependimento e por sua honrosa emenda aos pés daquele Mestre tão glorioso e tão cheio de bondade, a desgraça que teve de Lhe ser infiel. Pedro é lento em crer, mas seu arrependimento é sincero e merece recompensa.
De repente, em uma das horas deste meio-dia, o Apóstolo vê aparecer diante de si aquele mesmo Jesus que vira, havia três dias, amarrado e arrastado pelos esbirros de Caifás, e cuja sorte temera partilhar. Mas este Jesus, então tão humilhado, resplandece agora com todos os esplendores de sua Ressurreição; é um vencedor, um Messias glorioso; mas o que mais deslumbra os olhos do Apóstolo é a inefável bondade deste divino Rei, que conforta o pecador muito mais do que o deslumbra com seu resplendor. Quem poderá evocar e penetrar o colóquio entre o culpado e o ofendido; os lamentos do Apóstolo, a quem tamanha generosidade enche de vergonha; a certeza do perdão proferida por lábios sagrados e enchendo de alegria um coração tão abatido? Nós Vos bendizemos, ó Jesus, porque levantastes de seu abatimento aquele que nos deixareis como Chefe e Pai, quando subirdes ao Céu.
FÉ E PRIMAZIA DE PEDRO. — Depois de termos prestado homenagem a esta infinita misericórdia do Coração de nosso Salvador ressuscitado, manifestada com não menos poder e amplitude do que nos dias de sua vida mortal, admiremos a sabedoria com que continua realizando em São Pedro o mistério da unidade da Igreja, mistério que deve residir neste Apóstolo e em seus sucessores. Jesus o disse na presença dos demais, na Última Ceia: “Eu roguei por ti, Pedro, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos”. Chegou o momento de fortalecer em Pedro esta fé, que já não deve faltar-lhe jamais: Jesus lha comunica neste mesmo instante.
A ele instrui primeiro por si mesmo, para pôr a base. Depois vai mostrar-Se aos outros Apóstolos; mas Pedro estará presente com seus irmãos; de maneira que, se este Apóstolo obtém favores dos quais os demais não participam, estes nunca os recebem sem que ele participe em todos eles. A eles cabe crer na palavra de Pedro, como de fato sucedeu; pelo testemunho de Pedro recebem a fé na Ressurreição e a proclamam, como veremos em breve. Depois Jesus aparecerá a eles mesmos, porque os ama, chama-os seus irmãos e os destina a pregar sua glória por toda a terra; mas encontrará já firmada neles a fé em sua Ressurreição, pois creram no testemunho de Pedro; e o testemunho de Pedro operou neles o mistério da unidade que ele operará na Igreja até o fim dos séculos.
A aparição de Jesus ao Príncipe dos Apóstolos está apoiada no Evangelho de São Lucas e na primeira epístola de São Paulo aos Coríntios, e é a quarta das aparições do dia da Ressurreição.
A NOITE
A APARIÇÃO AOS DISCÍPULOS DE EMAÚS. — Quatro vezes deu Jesus sinais de sua Ressurreição no curso desta jornada. Agora Lhe resta manifestar-Se aos Apóstolos reunidos e dar-lhes assim ocasião de unir sua experiência pessoal ao testemunho que receberam dos lábios de Pedro. Mas é tal a condescendência do divino Ressuscitado para com seus discípulos que, deixando ainda por alguns momentos aqueles que chama seus irmãos, os quais já não duvidam de seu triunfo, preocupa-Se em consolar dois corações cuja aflição não tem outra causa senão a sua pouca fé.
Pelo caminho de Jerusalém para Emaús caminham tristes dois viajantes. Seu aspecto abatido denuncia claramente que uma cruel decepção os oprime. Não se afastariam da cidade por um sentimento de inquietação? Eram discípulos de Jesus quando Ele vivia; mas a morte vergonhosa do Mestre, em quem haviam crido, causou neles uma tristeza tão amarga quanto profunda. Humilhados por terem comprometido sua honra seguindo um homem que não era o que eles pensavam, permaneceram ocultos durante as primeiras horas que se seguiram ao seu suplício; mas, de um momento para outro, começou-se a falar de um sepulcro aberto e violado, do desaparecimento de um corpo sepultado. Os inimigos de Jesus são poderosos, e sem dúvida neste momento denunciam os violadores de um túmulo cuja pedra estava selada com o selo da autoridade pública. É de crer que a investigação judicial faça comparecer diante de seu tribunal aqueles que seguiram um Messias crucificado pela Sinagoga entre dois ladrões. Este era, sem dúvida, o tema do diálogo dos nossos dois caminhantes.
Mas eis que são alcançados por um terceiro, e este terceiro caminhante é o próprio Jesus. A fixação de seus pensamentos no tema triste que os ocupa privou-os da liberdade de reconhecer seus traços; assim também sucede quando nos deixamos levar por uma dor demasiadamente humana, perdendo de vista o divino companheiro posto junto de nós para caminhar conosco e reanimar nossa esperança. Jesus pergunta a estes dois homens por que estão tristes; eles O confessam com simplicidade; e este Rei de glória, este vencedor da morte, neste mesmo dia digna-Se dialogar com eles e explicar-lhes no caminho toda a série de oráculos que anunciavam as humilhações, a morte e o triunfo final do Redentor de Israel. Os dois viajantes estão comovidos; sentem, como o confessarão mais tarde, que o coração se lhes abrasa com um fogo desconhecido, à medida que esta voz faz chegar até seus ouvidos estas verdades até então desconhecidas. Jesus faz menção de querer deixá-los; eles O retêm: “Ó! Ficai conosco, dizem-Lhe, o dia declina e deveis aceitar a nossa hospitalidade.”
Introduzem seu companheiro desconhecido na casa de Emaús; fazem-No sentar-se à mesa com eles; e, coisa estranha, ainda não adivinharam quem é este doutor celeste que acaba de resolver suas dúvidas com tanta sabedoria e eloquência. Assim também somos nós quando nos deixamos dominar por pensamentos humanos; Jesus está ao nosso lado, fala-nos, instrui-nos, consola-nos; e com frequência precisamos de muito tempo para reconhecer que é Jesus.
Finalmente chegou o momento em que o Mestre da luz vai revelar-Se a estes dois discípulos tão tardos em crer. Eles O convidaram para presidir à mesa; a Ele compete partir o pão. Toma-o entre suas mãos sagradas; e, no instante em que faz a fração para dar a cada um a sua parte, abrem-se-lhes de súbito os olhos e reconhecem o próprio Jesus, Jesus ressuscitado. Vão cair a seus pés; mas, apenas Se descobre aos seus olhares, desaparece, deixando-os surpreendidos e ao mesmo tempo inundados de uma alegria que ultrapassa todas as que jamais haviam experimentado em toda a vida. Eis a quinta aparição do Salvador no dia de Páscoa.
RETORNO A JERUSALÉM. — Os dois discípulos não podiam permanecer mais tempo em Emaús; apesar da hora adiantada, só desejam regressar quanto antes a Jerusalém. Urge-lhes anunciar aos Apóstolos, cujo abatimento haviam compartilhado naquela manhã, que seu Mestre vive, que Lhe falaram, que O viram. Percorrem rapidamente a distância que separa o pequeno povoado onde esperavam passar a noite da grande cidade de cujos perigos fugiam. Logo se encontram no meio dos Apóstolos, a quem se apressam em contar sua felicidade; mas já lhes haviam antecipado a notícia: a fé da Ressurreição está viva no colégio apostólico. Antes que eles comecem a falar, todos dizem a uma só voz: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Pedro”.
Os dois discípulos referem também aos Apóstolos que eles igualmente foram favorecidos com a conversa e com a vista de seu Mestre.
APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS. — A conversa continuava entre estes homens simples e retos, obscuros então, mas cujos nomes imortais o mundo haveria mais tarde de conhecer por toda parte. Entretanto, as portas da casa estavam fechadas, porque o pequeno grupo temia uma surpresa. Os guardas do sepulcro haviam contado tudo aos príncipes dos sacerdotes pela manhã; estes procuraram suborná-los e também lhes deram dinheiro para obrigá-los a dizer que, enquanto dormiam, os discípulos de Jesus tinham vindo roubar o corpo. Esta atitude desleal das autoridades judaicas podia provocar certa reação popular contra os Apóstolos, e eles se julgaram obrigados a tomar precauções. Enquanto os Apóstolos repassam entre si as impressões desta memorável jornada, eis que Jesus Se apresenta diante deles sem que as portas se tenham aberto para Lhe dar passagem. É Ele, são seus traços; é sua voz cheia de bondade: “A paz esteja convosco!”, diz-lhes com ternura. Mas eles permanecem atônitos; aquela entrada misteriosa e inesperada os deixou desconcertados. Ignoram ainda as prerrogativas de um corpo glorioso; e, sem duvidar da Ressurreição de seu Mestre, não sabem se se encontram diante de um fantasma. Jesus, que em toda esta jornada parece ter-Se preocupado mais em testemunhar seu amor para com os seus do que em proclamar sua glória, digna-Se dar-lhes a tocar seus membros divinos; faz mais ainda e, para provar a realidade de seu corpo, pede-lhes de comer e come com eles. Quem poderá exprimir a alegria que inundou seus corações diante desta inefável familiaridade e as lágrimas de ternura que correm por seus olhos? Com quanta alegria dizem a Tomé, quando este Apóstolo volta para junto deles: “Vimos o Senhor!”. Esta foi a sexta aparição de Jesus ressuscitado.
ORAÇÃO. — Sede, pois, bendito e glorificado, vencedor da morte, que neste só dia Vos dignastes mostrar-Vos aos homens até seis vezes, para satisfazer vosso amor e corroborar nossa fé em vossa divina Ressurreição. Sede bendito e glorificado por haverdes consolado com vossa presença e vosso carinho o coração angustiado de vossa Mãe, que também é nossa mãe. Sede bendito e glorificado por haverdes acalmado a desolação da Madalena com uma palavra de amor. Sede bendito e glorificado por haverdes enxugado as lágrimas das santas mulheres com vossa presença e por lhes haverdes dado a beijar vossos sagrados pés. Sede bendito e glorificado por haverdes dado a Pedro, com vossos próprios lábios, a certeza do vosso perdão e por haverdes confirmado nele os dons da Primazia, revelando-lhe, antes que aos demais, o dogma fundamental de nossa fé. Sede bendito e glorificado por haverdes reanimado com tanta doçura o coração vacilante dos dois discípulos no caminho de Emaús e por haverdes completado este favor revelando-Vos a eles. Sede bendito e glorificado por não haverdes terminado esta jornada sem visitar vossos Apóstolos e sem lhes terdes dado provas de vossa adorável condescendência para com sua fraqueza.
Sede, enfim, bendito e glorificado, ó Jesus, por Vos haverdes dignado hoje, por meio de vossa Santa Igreja, fazer-nos participar, depois de tantos séculos, das alegrias que saborearam em tal dia Maria, vossa Mãe, Madalena com suas companheiras, Pedro, os discípulos de Emaús e os Apóstolos reunidos. Aqui nada falta; tudo está vivo, tudo renovado; Vós sois o mesmo, e a nossa Páscoa de hoje é também a mesma daquela que Vos viu sair do sepulcro. Todos os tempos são vossos; e o mundo das almas vive por vossos mistérios, assim como o mundo material se sustenta por vosso poder, desde o instante em que Vos aprouve começar vossa obra criando a luz visível, até que esta empalideça e se eclipse diante da claridade eterna que nos conquistastes neste dia.
1 Vida de Santa Teresa escrita por ela mesma, nas Adições.


