Oitava dos Santos Inocentes
4 DE JANEIRO
OITAVA DOS SANTOS INOCENTES
Hoje terminamos os oito dias dedicados a honrar a memória dos bem-aventurados Meninos de Belém. Demos graças a Deus, que no-los deu por intercessores e modelos. Seu nome já não aparecerá no ciclo até que voltem as festas do Nascimento do Emanuel: seja hoje, pois, para eles a nossa última homenagem.
A Santa Igreja, que vestiu cor de luto no dia de sua festa, em consideração aos prantos de Raquel, volta a vestir neste dia da Oitava a púrpura dos Mártires, com a qual pretende honrar aqueles que têm a glória de ser suas primícias. Mas nem por isso deixa a Igreja de se comover diante da desolação das mães que viram degolar em seus próprios braços os filhos que amamentavam.
No Ofício de Matinas, lê este dramático trecho de um antigo sermão atribuído por algum tempo a Santo Agostinho:
“Logo que nasce o Senhor, começa o pranto, não no céu, mas na terra. Choram as mães, os Anjos triunfam, os meninos são arrebatados. Um Deus nasceu; necessita de vítimas inocentes Aquele que vem condenar a malícia do mundo. É preciso sacrificar cordeiros, pois veio o Cordeiro que apagará os pecados e será crucificado. Mas as ovelhas, suas mães, lançam grandes balidos, porque perdem seus cordeirinhos antes de os terem ouvido balir. Cruel martírio! Desembainha-se a espada sem motivo; a inveja é a única causa, mas o Recém-Nascido não faz violência a ninguém.
Consideremos agora as mães chorando seus cordeirinhos. Uma voz se ouviu em Ramá; prantos e alaridos: é que lhes arrebatam o tesouro que não apenas receberam, mas geraram. A natureza, que se opunha ao martírio deles na própria presença do carrasco, manifestava bem toda a sua força. A mãe arrancava e desgrenhava os cabelos de sua cabeça por haver perdido o ornamento de seus filhos. Quantos esforços para escondê-los, e eles mesmos se denunciavam! Como ainda não tinham aprendido a temer, tampouco sabiam conter a voz. Lutavam juntos a mãe e o carrasco: um puxava o menino, a outra o retinha. A mãe gritava ao verdugo: ‘Por que queres tirar-me o que saiu de mim? Meu seio o gerou: foi em vão que lhe dei o peito? Tantos cuidados prodigalizei àquele que teu braço cruel me arranca com violência! Mal saiu de minhas entranhas, e já o esmagam contra a terra’.
Outra mãe, a quem o soldado se negava a imolar juntamente com seu filho, exclamava: ‘Por que me tiram meu filho? Se algum crime foi cometido, eu devo ser a culpada; mata-me também e livrarás uma pobre mãe’. Outra dizia: ‘Que buscais? Quereis apenas um e matais tantos, sem conseguir encontrar o único que procurais’. E outra exclamava: ‘Vinde, ó Salvador do mundo! Vós não temeis ninguém; que o soldado Vos veja e poupe a vida de nossos filhos’. Deste modo se misturavam os lamentos das mães, e subia até o céu o sacrifício de seus filhos”.
Alguns dos meninos menores de dois anos, tão cruelmente sacrificados, pertenciam sem dúvida aos pastores de Belém que, por mandato dos Anjos, haviam acorrido para reconhecer e adorar na gruta o Recém-Nascido. Desta sorte, estes primeiros adoradores do Verbo Encarnado, depois de Maria e José, ofereceram em sacrifício ao Senhor, que os havia escolhido, aquilo que mais amavam. Conheciam muito bem o Menino por cuja causa seus filhos eram imolados, e estavam santamente orgulhosos da nova distinção de que eram objeto no meio de seu povo.
Apesar de tudo isso, Herodes, como todos os políticos que combatem Cristo e sua Igreja, havia fracassado em seus projetos. Seu criminoso edito abrangia Belém e todos os seus arredores, e todos os meninos da região menores de dois anos; mas, apesar dessa atroz medida, o Menino tão solicitamente procurado escapava à espada e fugia para o Egito. Portanto, o golpe havia falhado, como de ordinário; mais ainda, e contra a vontade do tirano, a Igreja da terra alcançaria novos protetores, recebidos em triunfo na Igreja do céu.
Aquele Rei dos judeus recém-nascido, perseguido pela inveja de Herodes, era um simples Menino sem exércitos nem soldados; mas Herodes estremecia diante d’Ele. Um instinto interior lhe descobria, como a todos os perseguidores da Igreja, que aquela aparente fraqueza ocultava uma força invencível; mas ele se enganava, como todos os seus sequazes, ao querer combater com a espada contra o poder do Espírito.
O Menino de Belém ainda não chegou ao extremo de sua aparente fraqueza: foge diante do tirano. Virá o dia, quando já for homem, em que se exporá aos golpes inimigos, em que se deixará prender a uma infame cruz entre dois ladrões; mas então será precisamente quando um governador romano proclamará, em uma inscrição escrita por seu próprio punho: Este é o Rei dos judeus. De modo oficial, Pilatos dará a Cristo este título que faz empalidecer Herodes e, apesar dos protestos dos inimigos do Salvador, exclamará: O que escrevi, está escrito. Jesus, na árvore da Cruz, unirá a seu triunfo um de seus companheiros no suplício; hoje, chama desde seu berço os meninos a compartilhar sua glória.
Já vos deixamos, ó primícias dos Mártires; mas continuai a amparar-nos. Velai por nós durante todo o curso deste Ano litúrgico; intercedei junto ao Cordeiro, de quem fostes fiéis amigos. Sob vossa custódia colocamos os frutos que nossas almas produziram nestes dias de graça.
Fizemo-nos crianças com Jesus; com Ele recomeçamos nossa vida. Rogai para que cresçamos como Ele em idade e em sabedoria diante de Deus e dos homens. Assegurai-nos por vossa intercessão a perseverança; e, para alcançá-la, conservai em nós a simplicidade cristã, que é a virtude dos filhos de Cristo. Vós sois inocentes; nós, culpados; amai-nos, não obstante, com amor de irmãos. Vossas vidas foram ceifadas na aurora da Lei da graça; nós somos filhos destes últimos tempos, em que o mundo envelhecido deixou esfriar a caridade. Estendei sobre nós vossas palmas vitoriosas, compadecei-vos de nossas lutas; alcançai que nosso arrependimento obtenha quanto antes uma coroa como a que vos foi concedida com tão soberana largueza.
Ó Meninos Mártires! Lembrai-vos das novas gerações que povoam hoje a terra. Na posse da glória à qual chegastes antes da idade madura, não vos esqueçais das crianças. Esses tenros rebentos da raça humana dormem também na inocência. Neles, a graça batismal está intacta; suas almas puras refletem como um espelho a santidade do Deus que habita nelas por sua graça. Infelizmente, terríveis perigos ameaçam os novos rebentos; muitos deles perderão sua inocência, e suas vestes brancas talvez logo deixarão seu brilho imaculado. Serão infectados pela corrupção do coração e do espírito; quem poderá livrá-los de tão perniciosa influência?
A voz das mães ressoa ainda em Ramá: a Raquel cristã chora ainda seus filhos imolados, e nada é capaz de consolá-la da perda de suas almas. Vítimas inocentes de Cristo! Rogai pelas crianças: alcançai para elas tempos melhores, para que possam, em seu dia, entrar na vida sem medo de encontrar a morte desde seus primeiros passos.


