Oratório São José

Oitava de São João, Evangelista

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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3 DE JANEIRO

OITAVA DE SÃO JOÃO, APÓSTOLO E EVANGELISTA

Hoje termina a Oitava de São João: é o último tributo de homenagem que rendemos ao Discípulo amado. O ciclo sagrado ainda nos trará sua gloriosa memória no dia seis de maio, quando celebraremos, em meio às alegrias da Ressurreição de seu Mestre, sua valente confissão em Roma, diante da Porta Latina. Agradeçamos-lhe hoje os dons que nos alcançou da misericórdia do divino Menino, e recordemos alguns dos favores que recebeu do Emanuel.

O APÓSTOLO

O apostolado de João foi fecundo em obras de salvação para os povos aos quais foi enviado. Dele recebeu o Evangelho a nação dos Partos, e por ele foram fundadas a maior parte das Igrejas da Ásia Menor. O próprio Jesus Cristo escolheu sete dentre elas para representar, no sagrado Apocalipse, as diversas classes de pastores e, talvez, as sete épocas da Igreja, como muitos pensaram.

Não devemos esquecer que estas Igrejas da Ásia Menor, imbuídas da doutrina de São João, enviaram apóstolos às Gálias, sendo a ilustre Igreja de Lyon uma de suas pacíficas conquistas. Em breve, também no santo tempo do Natal, celebraremos o heroico Policarpo, bispo de Esmirna, discípulo de São João, e cujo discípulo, por sua vez, foi o próprio São Potino, primeiro bispo de Lyon.

O FILHO DE MARIA

Os trabalhos apostólicos de São João não o distraíram dos cuidados que sua ternura filial e a recomendação do Salvador lhe impunham com relação à puríssima Maria. Enquanto Jesus Cristo o considerou necessário para o fortalecimento de sua Igreja, teve São João a insigne honra de gozar de sua companhia, de poder cercá-la com suas demonstrações de ternura, até que, depois de ter vivido em Éfeso ao seu lado, voltou com Ela a Jerusalém, de onde, como canta a Igreja, a Santíssima Virgem se elevou ao céu desde o deserto deste mundo, semelhante a uma tênue nuvem de mirra e incenso.

João sobreviveu ainda a esta segunda separação, e esperou, em meio aos trabalhos do apostolado, o dia em que também a ele seria dado subir à venturosa região onde o esperavam o divino Amigo e sua incomparável Mãe.

O DOUTOR

Os Apóstolos, aquelas brilhantes luzes postas no candelabro pelo próprio Cristo, iam-se apagando pouco a pouco pela morte do martírio; só ele permanecia de pé na Igreja de Deus. As Igrejas recolhiam as palavras inspiradas de sua boca como regra de sua fé; sua profecia de Patmos demonstrava que conhecia bem os segredos do futuro da Igreja.

Em meio a tanta glória, João permanecia simples e humilde como o Menino de Belém; e comove-nos o relato dos antigos, que no-lo mostram acariciando docemente uma avezinha pousada em suas sagradas mãos.

Este ancião, que em seus anos juvenis havia repousado sobre o peito Daquele cujas delícias são estar com os filhos dos homens; ele, o único dos Apóstolos que O havia seguido até a Cruz, e que vira traspassar pela lança aquele Coração que tanto amou o mundo, gostava sobretudo de falar do amor fraterno. Sua misericórdia para com os pecadores era digna do amigo do Redentor, e é conhecida aquela evangélica perseguição que levou a cabo contra um jovem, a quem havia amado com amor de pai, e que, na ausência do santo Apóstolo, se havia entregado a toda espécie de desordens. Apesar de sua velhice, João o seguiu até os montes, trazendo-o de novo, arrependido, ao redil.

Mas o homem de tão insigne caridade era inflexível contra a heresia, a qual, destruindo a fé, destrói a caridade em sua própria fonte. Dele tomou a Igreja sua máxima de fugir do herege como de um empestado: “Nem sequer o saudeis”, escreve o amigo de Cristo em sua segunda Epístola, “porque aquele que o saúda comunga com suas obras perversas”. Tendo entrado certo dia num banho público, soube que ali se achava o heresiarca Cerinto, e saiu imediatamente como de um lugar maldito.

Por isso, os discípulos de Cerinto trataram de envenená-lo com uma taça que estava destinada ao seu uso; mas, ao fazer o santo Apóstolo o sinal da Cruz sobre a bebida, saiu dali uma serpente, o que pôs de manifesto a maldade dos sectários e a santidade do discípulo de Cristo. Esta energia apostólica na guarda do tesouro da fé tornou-o temível aos hereges da Ásia, justificando seu profético apelativo de Filho do Trovão, que o próprio Salvador lhe havia dado, assim como a seu irmão São Tiago Maior, o Apóstolo da Espanha.

Em memória deste milagre que acabamos de narrar, a tradição dos artistas católicos deu ao santo, como emblema, um cálice do qual sai uma serpente; e, em muitas regiões da cristandade, sobretudo na Alemanha, no dia da festa deste Apóstolo, benze-se solenemente o vinho com uma oração que recorda este episódio. É também costume nessas terras beber, ao fim da refeição, uma taça chamada taça de São João, como para pôr sob seu amparo a refeição tomada.

Falta-nos espaço para contar detalhadamente outras tradições sobre o Apóstolo: pode-se consultar a legenda. Limitar-nos-emos a dizer algo sobre sua morte.

A passagem do Evangelho que se lê na Missa de São João foi frequentemente interpretada no sentido de que o Discípulo amado não haveria de morrer; mas é preciso reconhecer que se pode explicar o texto sem necessidade de recorrer a essa interpretação. A Igreja grega crê no privilégio da isenção da morte concedido a São João, e esta opinião de muitos Padres antigos se acha reproduzida em algumas Sequências e Hinos das Igrejas do Ocidente. Dir-se-ia que também a Igreja romana favorece esse sentimento ao escolher essas palavras para uma das Antífonas de Laudes da festa; mas é preciso reconhecer que jamais se inclinou abertamente por essa opinião, embora também não a desaprovasse. Por outro lado, em Éfeso existiu o sepulcro do santo Apóstolo; os monumentos da tradição fazem menção dele, assim como do prodígio de um maravilhoso maná que dali fluiu durante vários séculos.

Com tudo isso, não deixa de causar surpresa que o corpo deste santo não tenha sido objeto de nenhuma trasladação; nenhuma igreja se gloriou de possuí-lo; e, no que se refere às relíquias particulares deste Apóstolo, são muito escassas na Igreja e de natureza muito pouco definida. Em Roma, quando se pedem relíquias de São João, só se conseguem algumas de seu sepulcro.

Depois de todos estes dados, é preciso reconhecer que existe algum mistério no desaparecimento total do corpo de uma personagem tão querida por toda a Igreja, enquanto os corpos de todos os seus demais companheiros no apostolado têm sua história mais ou menos definida, disputando-os muitas Igrejas, total ou parcialmente. Quis o Salvador glorificar, antes do dia do juízo, o corpo de seu amigo? Nos desígnios impenetráveis de sua sabedoria, talvez o tenha subtraído a todos os olhares, como o corpo de Moisés? São questões que provavelmente nunca serão resolvidas na terra; mas não há inconveniente em reconhecer, com muitos santos doutores, o mistério com que o Senhor quis rodear o corpo virginal de São João, como novo sinal da admirável castidade deste grande Apóstolo.

Ó bem-aventurado João! Nós vos saudamos neste dia com o coração transbordante de gratidão, por nos terdes acompanhado com tão terno amor na celebração do Nascimento de vosso divino Rei. Ao destacar vossos inefáveis privilégios, glorificamos Aquele que com eles vos distinguiu. Sede, pois, bendito, vós que sois o amigo de Jesus e filho da Virgem. Mas, antes de nos deixardes, atendei nossas preces.

Ó Apóstolo da caridade fraterna! Fazei que todos os nossos corações se fundam numa santa união; que renasça no coração do cristão de hoje aquela simplicidade da pomba de que fostes um exemplo comovente. Fazei que a fé, sem a qual não poderia existir a caridade, se mantenha pura em nossas Igrejas; que seja esmagada a serpente da heresia, e que suas pestilentas poções não sejam mais servidas aos lábios de um povo cúmplice ou indiferente; que a adesão à doutrina da Igreja seja firme e valorosa no coração dos católicos; que as insolências profanas ou a fraca tolerância dos erros não cheguem a manchar os costumes religiosos de nossos pais; e que os filhos da luz não se unam aos filhos das trevas.

Lembrai-vos, ó santo Profeta, da sublime visão na qual vos foi dado ver o estado das Igrejas da Ásia Menor; alcançai para os Anjos que guardam as nossas essa inviolável fidelidade que é a única merecedora da coroa e do prêmio.

Rogai também pelas regiões que evangelizastes e que claudicaram na fé. Por muito tempo padeceram a degradação e a escravidão; já é hora de que voltem à fé de Jesus Cristo e de sua Igreja. Enviai a paz, do alto do céu, à vossa Igreja de Éfeso e às suas irmãs de Esmirna, de Pérgamo, de Tiatira, de Sardes, de Filadélfia e de Laodiceia, para que despertem de seu letargo e saiam de seus túmulos; ponde logo fim aos tristes destinos do islamismo, e fazei que desapareçam o cisma e a heresia que degradam o Oriente, para que todo o rebanho se reúna num só aprisco.

Protegei a Santa Igreja Romana, que foi testemunha de vossa gloriosa confissão e guardou sua memória entre seus mais belos títulos de glória, ao lado da de Pedro e Paulo. Enviai para ela uma nova efusão de luz e caridade, nestes dias em que a messe começa a branquear por toda parte. Finalmente, ó discípulo predileto do Salvador dos homens, alcançai-nos ser adDedicado um dia à contemplação da glória do vosso corpo virginal, para que, depois de nos terdes

apresentado nesta terra a Jesus e Maria em Belém, nos possais também mostrá-los,

nos esplendores da eternidade.

NO MESMO DIA

SANTA GENOVEVA, VIRGEM, PADROEIRA DE PARIS

O Martirológio da Igreja Romana apresenta-nos hoje o nome de uma santa Virgem, cuja memória é demasiado estimada na Igreja parisiense e em todas as igrejas da França para que possamos deixar de recordar seus gloriosos méritos. Em companhia dos Mártires, e do Confessor e Pontífice São Silvestre, Santa Genoveva brilha com suave resplendor ao lado de Santa Anastácia. Como ela, também faz guarda amorosa diante do berço do divino Menino, cuja simplicidade imitou e do qual mereceu ser Esposa. É justo que, ao celebrarmos o mistério do parto virginal, celebremos também com solenes honras as virgens fiéis que seguiram Maria. Se nos fosse dado esgotar os Anais da Santa Igreja, que magnífica plêiade de Esposas de Cristo deveria ser honrada nestes quarenta dias do tempo do Natal!

Genoveva foi célebre em todo o mundo. Vivendo ainda em carne mortal, o Oriente já conhecia seu nome e suas virtudes; Simeão, o Estilita, do alto de sua coluna, já a saudava como sua irmã na perfeição do cristianismo. A capital da França está sob seu amparo; uma simples pastora protege os destinos de Paris, como um pobre lavrador, Santo Isidro, vela pela capital da Espanha.

Um dos maiores bispos da Gália do século V foi encarregado por Deus de revelar a eleição que Jesus Cristo havia feito da jovenzinha de Nanterre para sua Esposa. São Germano de Auxerre dirigia-se à Grã-Bretanha, para onde o enviava o Papa São Bonifácio I a fim de combater a heresia pelagiana, por volta do ano 430. Acompanhado de São Lupo, bispo de Troyes, que devia partilhar com ele seus trabalhos, deteve-se na aldeia de Nanterre. Ao se dirigirem os dois prelados à igreja para rezar pelo bom êxito de sua viagem, todo o povo fiel os rodeou com piedosa curiosidade. Iluminado por luz divina, Germano notou no meio da multidão uma jovenzinha de sete anos e conheceu interiormente que o Senhor a havia escolhido para Si. Perguntou o nome daquela menina e fez com que a conduzissem à sua presença.

Aproximaram-se seus pais, chamados Severo e Gerôncia. Ambos se enterneceram ao ver as carícias que o santo bispo prodigalizava à sua filha.

— Esta menina é vossa? — disse-lhes Germano.
— Sim, senhor — responderam eles.
— Felizes pais de tal filha — respondeu o bispo. — Sabei que os Anjos fizeram grande festa no céu quando nasceu esta menina. Esta menina será grande diante do Senhor; pela santidade de sua vida, arrebatará muitas almas ao jugo do pecado.

Depois, dirigindo-se a ela, disse-lhe:

— Genoveva, minha filha.
— Pai santo — respondeu ela —, vossa serva escuta.
— Dize-me sem medo: gostarias de consagrar-te a Cristo como Esposa, com uma pureza imaculada?
— Bendito sejais, meu Pai! — exclamou a menina. — Esse é o desejo mais querido de meu coração. É tudo o que anseio; dignai-vos rezar para que o Senhor mo conceda.
— Tem confiança, minha filha — respondeu Germano —; sê constante em tua determinação, conforma tuas obras com tua fé, e o Senhor acrescentará sua virtude à tua beleza.

Entraram na igreja os dois bispos, acompanhados pelo povo, e cantou-se o Ofício de Noa e Vésperas. Germano havia feito com que Genoveva fosse levada para junto dele e, durante toda a salmodia, manteve as mãos impostas sobre a cabeça da menina. No dia seguinte, cedo, antes de empreender a viagem, fez com que o próprio pai lhe apresentasse Genoveva.

— Deus te salve, minha filha Genoveva — disse-lhe —; lembras-te da promessa de ontem?
— Ó pai santo! — respondeu a menina. — Não posso esquecer o que prometi a vós e a Deus; meu desejo é guardar sempre, com a ajuda do céu, a pureza de minha alma e de meu corpo.

Naquele momento, Germano viu no chão uma medalha de cobre com a imagem da Cruz gravada nela. Levantou-a e, entregando-a a Genoveva, disse-lhe:

— Abre nela um orifício, pendura-a ao pescoço e guarda-a em minha memória. Nunca uses colares nem anéis de ouro ou prata, nem pedras preciosas; porque, se o atrativo das belezas terrenas prendesse teu coração, bem depressa perderias teu ornamento celestial, que deve ser eterno.

Depois dessas palavras, Germano lhe pediu que se lembrasse dele frequentemente em Cristo e, recomendando-a a Severo como um tesouro duplamente precioso, continuou seu caminho para a Grã-Bretanha com seu piedoso companheiro.

Quisemos transcrever aqui esta sugestiva cena, tal como nos descrevem as Atas dos Santos, para demonstrar o poder do Menino de Belém, que com tanta liberdade age na eleição das almas quando quer uni-las a Si por um laço mais estreito. Ele age como Senhor; nenhum obstáculo lhe resiste, pois sua ação não é menos visível neste século de decadência e tibieza espiritual do que nos dias de São Germano e de Santa Genoveva. Alguns, infelizmente, irritam-se; outros se surpreendem; a maioria não reflete; mas uns e outros hão de se encontrar diante dos sinais mais maravilhosos da divindade da Igreja.

Vida: Genoveva nasceu em Nanterre por volta do ano 419. Aos sete anos foi consagrada virgem pelo bispo São Germano de Auxerre. Com sua oração e seus milagres, protegeu a cidade de Paris contra os ataques dos normandos e alimentou-a durante seu cerco; por isso Paris a tem por padroeira. Depois de uma vida rica nas mais eminentes virtudes, adormeceu na paz em 3 de janeiro de 512. Seu sepulcro, ilustrado por numerosos milagres, tornou-se um centro de peregrinação nacional.

Ó virgem fiel, Genoveva! Nós te exaltamos pelos méritos que o divino Menino quis que florescessem em ti. Apareceste em nossa pátria como um anjo tutelar; em tuas preces confiaram os franceses durante muito tempo, e tiveste por honra, no céu e na terra, proteger a capital de Clóvis, de Carlos Magno e de São Luís. Chegaram tempos nefandos, nos quais foi sacrilegamente abolido o teu culto, fechados os teus templos e profanadas as tuas preciosas relíquias. Contudo, não nos abandonaste; antes, imploraste para nós dias melhores, e, apesar das profanações recentes acrescentadas às antigas, podemos respirar novamente ao ver florescer outra vez teu culto entre nós.

Nesta época do ano, embelezada e consagrada por teu nome, abençoa o povo cristão. Ajuda-nos a compreender o mistério do presépio. Dá novo vigor, nas puras fontes da fé, a esta nação tão querida por ti, e alcança-nos do Emanuel que seu Nascimento, renovado todos os anos, seja verdadeiramente um tempo de salvação e de autêntica renovação.

Estamos enfermos, a ponto de perecer, porque as verdades diminuíram entre nós, segundo a frase de Davi; a verdade acha-se obscurecida, porque o orgulho substituiu a fé e a indiferença substituiu o amor. Somente Jesus, conhecido e amado no mistério de sua inefável Encarnação, pode devolver-nos a vida e a luz. Tu, que O recebeste e O amaste ao longo de tua longa e inocente vida, leva-nos ao seu berço.

Guarda, ó poderosa pastora, a cidade que te foi confiada. Livra-a dos pecados que às vezes a tornam semelhante a uma grande cidade pagã. Dissipa as tempestades que se formam em seu seio, para que ela chegue a ser discípula da verdade, em vez de apóstola dos erros. Alimenta também sua população, que desfalece de fome; mas, antes de tudo, alivia suas misérias morais. Apaga essa febre ardente que devora as almas, febre que é ainda mais funesta que o fogo que só atormenta os corpos.

De tua tumba vazia, do alto do monte que domina o grandioso templo que nossos pais levantaram em teu nome, e que continua sendo teu apesar das vãs tentativas da força bruta, cuida dessa juventude da França, amontoada junto às cátedras da ciência humana, juventude tantas vezes traída pelos ensinamentos que deveriam guiá-la; obtém para nossa pátria gerações cristãs. Faz com que, a despeito do Inferno, brilhe sempre a Cruz sobre a cúpula de teu profanado santuário; não permitas que ela dali seja derrubada. Faz com que, quanto antes, reine plenamente sobre nós essa Cruz imortal, e que, do alto de teu templo, domine sobre todas as moradas da cidade senhora, devolvida à sua antiga fé, ao teu culto e ao teu antigo patronato.

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