Oratório São José

V dia da Oitava da Epifania

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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10 DE JANEIRO

QUINTO DIA DA OITAVA DA EPIFANIA

Os Magos diante de Jesus

Os Magos chegaram a Belém; a humilde morada do Rei dos Judeus abriu-se para eles. “Encontraram ali — diz São Lucas — o Menino e Maria, sua Mãe”. Prostram-se por terra e adoram o divino Rei, a quem buscaram com tanto ardor e por quem a terra suspira.

Nesse instante começa a aparecer a Igreja cristã. Naquele humilde retiro, o Filho de Deus feito homem preside como Cabeça de seu Corpo Místico; Maria assiste como Cooperadora da salvação e Mãe da graça; Judá está representado por Ela e por seu Esposo José; a gentilidade adora na pessoa dos Magos, porque sua fé compreendeu tudo diante deste Menino.

Não é um Profeta a quem honram, nem um rei terreno a quem abrem seus tesouros; é um Deus diante de quem se humilham e se aniquilam. “Vede — diz São Bernardo, em seu segundo sermão sobre a Epifania —, vede quão penetrantes são os olhos da fé! A fé reconhece o Filho de Deus suspenso ao seio materno, reconhece-O pregado ao madeiro, reconhece-O até na morte. O ladrão O adora no patíbulo; os Magos, no estábulo: aquele, apesar dos cravos que O prendem; estes, através dos panos que O envolvem”.

Tudo está, pois, consumado. Belém já não é somente o lugar do Nascimento do Redentor; é também o berço da Igreja. Com quanta razão exclamava o Profeta: “Ó Belém, de modo algum és a menor entre as cidades de Judá”! Quão bem compreendemos o encanto que levou São Jerônimo a furtar sua vida às honras e delícias de Roma, aos aplausos do mundo e da Igreja, para vir encerrar-se nesta gruta, testemunha de tantos e tão maravilhosos prodígios!

Quem não desejaria viver e morrer nesse recinto sagrado e celestial, completamente santificado pela presença do Emanuel, perfumado pelos aromas da Rainha dos Anjos, que conserva ainda o eco dos celestes concertos e a lembrança dos Magos, nossos piedosos antepassados?

Ao entrarem na humilde morada, nada causa estranheza aos afortunados magnates. Nem a fraqueza do Menino, nem a pobreza da Mãe, nem a nudez das paredes, nada os perturba. Antes, compreendem imediatamente que o Deus eterno, querendo visitar os homens e demonstrar-lhes seu amor, devia abaixar-se até eles, a ponto de não restar nenhum grau da miséria humana que não fosse por Ele sondado e conhecido.

Advertidos por seu próprio coração acerca da profundidade da chaga do orgulho que nos corrói, compreenderam que o remédio devia ser tão extremo quanto o mal, reconhecendo nesta inaudita humilhação o pensamento e a obra de um verdadeiro Deus. Israel espera um Messias glorioso, resplandecente de glória mundana; os Magos, ao contrário, reconhecem o Messias na humildade e na pobreza que O rodeiam. Subjugados pela graça divina, caem por terra e adoram, agradecidos e admirados.

Quem seria capaz de exprimir a doçura das conversas que tiveram com a puríssima Maria? Porque o Rei que tinham vindo buscar não deixou, por causa deles, o silêncio de sua infância voluntária. Aceitou suas homenagens, sorriu-lhes com ternura, abençoou-os; mas somente Maria pôde satisfazer, com seus celestiais colóquios, a santa curiosidade daqueles três peregrinos do mundo.

E como deve Ela ter recompensado sua fé e seu amor, declarando-lhes o mistério do virginal parto que haveria de salvar o mundo, as alegrias de seu coração maternal, os encantos do divino Menino! E com que terno respeito eles A considerariam e A escutariam! Com que deleite a graça penetraria em seus corações, juntamente com as palavras daquela que Deus escolheu para instruir-nos, com ternura de mãe, na verdade e no amor!

A estrela que para eles havia brilhado até então no céu dera lugar a outra Estrela, de luz mais suave, de potência ainda muito mais esplendorosa. Este astro tão puro preparava-lhes a vista para contemplar, sem véu algum, Aquele que a Si mesmo se chama Estrela brilhante da manhã.

O resto do mundo nada significava para eles; o estábulo de Belém encerrava, pelo contrário, todas as riquezas do Céu e da terra. Os longos séculos de espera, partilhados por eles com o gênero humano, pareciam-lhes agora um instante: tão plena e perfeita era a alegria de haverem encontrado, enfim, o Deus que, com sua só presença, satisfaz todos os anseios de sua criatura.

Uniram-se aos desígnios misericordiosos do Emanuel; aceitavam com profunda humildade a aliança que Ele contraía com a humanidade por meio deles; adoravam a temível justiça que em breve repudiaria um povo incrédulo; saudavam os destinos da Igreja cristã, que já começava com eles; e rogavam por sua inumerável descendência.

Cabe a nós, gentios regenerados, unir-nos a estes cristãos, os primeiros eleitos, e adorar-Vos, ó divino Menino, depois de tantos séculos em que vimos contemplando a marcha das nações para Belém, sob o amparo da Estrela.

A nós cabe adorar-Vos com os Magos; mais afortunados que estes primogênitos da Igreja, chegamos a ouvir vossas palavras, contemplamos vossos sofrimentos e vossa cruz, fomos testemunhas de vossa Ressurreição. E, se Vos saudamos como Rei do universo, aí está esse universo à nossa vista, repetindo vosso Nome excelso e glorioso do Oriente ao Ocidente.

O Sacrifício que renova todos os vossos mistérios é hoje oferecido em todos os lugares da terra; a voz de vossa Igreja ressoa aos ouvidos de todos os mortais; e sentimos com alegria que toda essa luz brilha para nós, que todas essas graças são nossa herança. Por isso, Vos adoramos, ó Cristo, nós que Vos possuímos na Igreja, a Belém eterna, a casa do Pão da vida.

Iluminai-nos, ó Maria, como iluminastes os Magos. Explicai-nos cada vez mais o doce Mistério de vosso Filho; fazei que nosso coração se submeta inteiramente ao seu adorável império. Velai, com vossa solicitude maternal, para que não percamos uma só de suas lições, e para que essa morada de Belém, na qual entramos seguindo os peregrinos do Oriente, realize em nós uma completa renovação de toda a nossa vida.

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