Oratório São José

XXIV Domingo depois de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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XXIV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O FIM DO ANO LITÚRGICO

O número de Domingos depois de Pentecostes pode passar de vinte e quatro e chegar até vinte e oito, conforme a Páscoa se aproxime mais ou menos, nos diversos anos, do equinócio da primavera. Mas a Missa que segue reserva-se sempre para o último; o intervalo é preenchido, quando existe, com os vários Domingos, mais ou menos numerosos, depois da Epifania, que nesse caso não foram usados no princípio do ano litúrgico. Com efeito, os mistérios novos apagam-se a si mesmos para dar lugar aos esplendores da eterna aliança.

A MISSA DESTE DIA

A Igreja, pois, detinha antigamente aqui a marcha de sua Liturgia. Estava contente por haver levado seus filhos não somente a penetrar, desta forma, no desenvolvimento completo do pensamento divino, mas também e principalmente a unir-se, dessa maneira, ao Senhor numa verdadeira união, mediante a comunidade de intenções, de interesses e de amor.

Também já não voltava a anunciar a segunda vinda do Homem-Deus e o juízo final, que fizera durante o Advento objeto de suas meditações ao começar a via purgativa. Só depois de séculos, querendo dar ao Ciclo uma conclusão mais precisa e mais ao alcance dos cristãos de nossos dias, decidiu terminá-lo com o relato profético da tremenda vinda do Senhor, que põe fim ao tempo e dá princípio à eternidade.

Como São Lucas, já desde tempo imemorial, é o encarregado de anunciar esta terrível vinda nos dias do Advento, escolheu-se o Evangelho de São Mateus para descrevê-la de novo e mais amplamente no último Domingo depois de Pentecostes.

MISSA

INTROITO – Diz o Senhor: Eu penso pensamentos de paz e não de aflição: vós me invocareis, e eu vos ouvirei; e vos farei voltar de vosso cativeiro em todos os lugares. — Salmo: Abençoastes, Senhor, a vossa terra: remistes o cativeiro de Jacó. ℣. Glória ao Pai.

A prática das boas obras nos faz alcançar, com a ajuda da graça, uma graça maior. Peçamos com a Igreja, na Coleta, uma ação eficaz deste divino motor sobre as nossas vontades.

COLETA – Nós vos suplicamos, Senhor, que exciteis a vontade de vossos fiéis: para que, buscando com mais diligência o fruto das boas obras, recebam de vossa misericórdia remédios maiores. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Colossenses.

Irmãos: Não cessamos de orar por vós e de pedir que sejais cumulados do conhecimento da vontade de Deus, com toda sabedoria e toda inteligência espiritual: para que caminheis dignamente, agradando a Deus em tudo; frutificando em toda classe de boas obras e crescendo na ciência de Deus; sendo confirmados em toda virtude segundo o poder de sua claridade, em toda paciência e longanimidade, com gozo, dando graças a Deus Pai, que nos fez dignos de participar da herança dos santos na luz; que nos arrancou do poder das trevas e nos trasladou ao reino do Filho de seu amor, no qual possuímos a redenção, por seu sangue, a remissão dos pecados.

AÇÃO DE GRAÇAS

Ação de graças e oração é o resumo de nossa Epístola e a conclusão digna das instruções do Apóstolo e de todo o Ciclo da sagrada Liturgia. O Doutor das nações não desfaleceu na tarefa que a Mãe comum lhe confiou; não é culpa sua se as almas das quais quis ser guia desde o dia seguinte ao da vinda do Espírito de amor não chegaram aos cumes de perfeição que sonhava para todas elas.

De fato, os cristãos que foram fiéis em caminhar pela senda que, há um ano, a Santa Madre Igreja vem mostrando-lhes, sabem agora, por tê-lo felizmente experimentado, que esse caminho de salvação vai terminar seguramente na vida de união, onde reina como soberana a caridade divina.

Em que homem, ademais, por pouco que tenha dominado sua inteligência e seu coração o interesse que apresenta o desenvolvimento das estações litúrgicas; em que homem, digo, não aumentou ao mesmo tempo a luz? Pois a luz é o elemento indispensável que nos arranca do império das trevas e nos traslada, com a ajuda de Deus Altíssimo, ao reino de seu amadíssimo Filho.

A obra da Redenção que este Filho de seu amor veio realizar no mundo não pôde deixar de adiantar-se em todos os que se associaram, de uma forma ou de outra, aos pensamentos da Igreja, desde as semanas do Advento até estes últimos dias do Ciclo Litúrgico. Por isso, todos, quaisquer que sejamos, devemos dar graças ao Pai das luzes1, que nos fez dignos de ter uma parte, por minúscula que seja, na herança dos santos.

SÚPLICA

Mas todos também temos de rogar, em uma ou outra medida, para que o dom excelente2 depositado em nossos corações cresça com o novo ano litúrgico prestes a começar. O justo não pode permanecer estacionário aqui neste mundo; tem de subir ou descer; e qualquer que seja a altura à qual a graça já o elevou, deve subir sempre mais e mais3 enquanto estiver nesta vida.

Os Colossenses, aos quais se dirigia o Apóstolo, haviam recebido totalmente o Evangelho; a palavra da verdade semeada entre eles frutificava ali de modo admirável na fé, na esperança e no amor:4 pois bem, longe de servir de ocasião para afrouxar em sua solicitude para com eles, são precisamente seus progressos a razão pela qual5 São Paulo, que já rogava por eles, não cessa de fazê-lo.

Roguemos, portanto, nós também. Peçamos a Deus que nos cumule ainda e sempre de sua divina Sabedoria e do Espírito de inteligência. Necessitamos disso para corresponder às suas intenções misericordiosas. O ano que vai começar reserva à nossa fidelidade novas ascensões, talvez laboriosas; mas serão recompensadas com novos horizontes nos jardins do Esposo, e com uma colheita de frutos mais abundantes e suaves.

Caminhemos, pois, de maneira digna de Deus, alegres e fortes sob o olhar de seu amor, pelo caminho ascendente que nos leva ao descanso sem fim da visão beatífica.

GRADUAL – Vós nos livrastes, Senhor, dos que nos afligiam, e confundistes os que nos odiavam.
℣. Gloriar-nos-emos em Deus todo o dia, e louvaremos o vosso nome pelos séculos.

Aleluia, aleluia.
℣. Das profundezas clamo a vós, Senhor: Senhor, escutai a minha oração. Aleluia.

EVANGELHO

Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Quando virdes a abominação da desolação, predita pelo Profeta Daniel, cair sobre o templo — quem lê, entenda —, então os que estiverem na Judeia fujam para os montes; e o que estiver no terraço não desça para tomar coisa alguma de sua casa; e o que estiver no campo não volte para tomar sua túnica. E ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Rogai, porém, para que a vossa fuga não seja no inverno ou em sábado. Porque haverá então uma tribulação muito grande, como não houve nem haverá outra desde o princípio do mundo até hoje. E, se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria; mas, por amor dos eleitos, serão abreviados aqueles dias. Se alguém então vos disser: Aqui ou ali está o Cristo, não acrediteis. Porque surgirão pseudocristos e pseudoprofetas, e farão grandes milagres e prodígios, de tal modo que seriam enganados, se fosse possível, os próprios eleitos. Eis que já vo-lo predisse. Se, pois, vos disserem: Está no deserto, não saiais; está escondido, não acrediteis. Porque, como o relâmpago sai do Oriente e aparece logo no Ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. Onde estiver o corpo, ali se ajuntarão as águias. E imediatamente, depois da tribulação daqueles dias, o sol se escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potestades do céu se abalarão; e então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e então chorarão todas as tribos da terra, e verão o Filho do homem vir sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade. E enviará seus Anjos com trombeta e grande voz, e eles congregarão seus eleitos dos quatro ventos, desde o mais alto dos céus até a sua extremidade. Aprendei, pois, esta parábola da figueira: quando seu ramo já está tenro e nasceram as folhas, sabeis que o verão está próximo; assim também vós, quando virdes todas estas coisas, sabei que o Filho do homem está próximo, está às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo isto se realize. O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.

O JUÍZO

Muitas vezes, ao longo das semanas do Advento, foram tema de nossas meditações as circunstâncias que acompanharão a última vinda do Senhor; dentro de poucos dias, esses mesmos ensinamentos tornarão a encher nossas almas de um temor salutar. Seja-nos permitido hoje, com o desejo e o louvor, voltar-nos para o Chefe que há de terminar a obra e assinalar o triunfo da hora solene do juízo.

Ó Jesus, então vireis libertar a vossa Igreja e vingar a Deus dos insultos que tanto se prolongaram; quão terrível será para o pecador essa hora de vossa chegada! Então compreenderá claramente que o Senhor fez tudo para ele, tudo, até mesmo o ímpio, ordenado a dar glória à sua justiça no dia mau.6 Conjurado o universo para a perdição dos maus7, por fim se ressarcirá da escravidão do pecado que lhe foi imposta8. Os insensatos inutilmente gritarão às montanhas que os esmaguem, para se livrarem assim do olhar daquele que estará sentado no trono9: o abismo se recusará a tragá-los; e, obedecendo Àquele que tem as chaves da morte e do Inferno10, vomitará até o último de seus tristes habitantes aos pés do terrível tribunal.

A ALEGRIA DOS ELEITOS

Ó Jesus, Filho do homem, quão grande nos parecerá o vosso poder ao ver-vos, rodeado das falanges celestes11 que formam vossa luzente corte, reunir os eleitos dos quatro ângulos do universo! Pois também nós, vossos redimidos, membros vossos agora por termos sido membros de vossa Igreja muito amada, também nós estaremos ali naquele dia; e o nosso lugar — ó mistério inefável! — será aquele que o Esposo reserva à Esposa: o vosso trono12, onde, sentados convosco, julgaremos até os próprios Anjos13.

Desde agora, todos os benditos do Pai14, esses eleitos cuja juventude se renovou tantas vezes como a da águia ao contato de vosso sangue precioso15, já têm preparados seus olhos para fixá-los sem pestanejar no Sol de justiça, quando Ele aparecer no céu. Com sua fome aumentada pelo lento caminhar do desterro, quem poderia deter o seu voo? Que força seria capaz de romper a impetuosidade do amor16 que os reunirá no banquete da Páscoa eterna?

Porque aquilo será a vida e não a morte, a destruição da antiga inimiga17, a redenção que chega até os corpos18, o trânsito perfeito à verdadeira terra prometida; numa palavra, a Páscoa, desta vez real para todos e sem ocaso, anunciada pela trombeta do Anjo sobre os túmulos dos justos.

Que alegria sentirão então, naquele verdadeiro dia do Senhor19, os que tiverem vivido de Cristo pela fé e, sem o ver, o tiverem amado!20 Não obstante a fraqueza da carne frágil, ó Jesus, identificando-se convosco, continuaram no mundo a vossa vida de dores e humilhações; que triunfo será o deles quando, ao se verem libertos para sempre do pecado e revestidos de corpos imortais, forem levados à vossa presença para estar já sempre com a vossa majestade!21

Mas seu maior gozo consistirá sobretudo em assistir, nesse grande dia, à exaltação de seu amantíssimo Capitão, quando se tornar público o poder que lhe foi concedido sobre toda carne22. Então aparecereis, ó Emanuel, como o único Príncipe das nações23, despedaçando a cabeça dos reis e pondo vossos inimigos por escabelo de vossos pés24.

E então também, juntos, o céu, a terra e o Inferno dobrarão os joelhos25 diante do Filho do Homem, que antes veio em forma de escravo, foi julgado, condenado e morto entre criminosos; e julgareis, ó Jesus, os juízes iníquos aos quais anunciastes esta vinda sobre as nuvens do céu26 quando vos acháveis no mais profundo de vossas humilhações.

Uma vez terminada a tremenda sentença, os réprobos irão ao suplício eterno, e os justos à vida que não acaba27. Vosso Apóstolo nos diz que então, vencedor de todos os vossos inimigos e Rei incontestável, poreis nas mãos do Pai Eterno o reino conquistado à morte, como homenagem perfeita da Cabeça e dos membros28. Deus será tudo em todos.

Será esse o cumprimento da oração sublime que nos ensinastes29 e que sai cada dia mais fervorosa do coração de vossos fiéis, quando, dirigindo-se ao Pai que está nos céus, lhe pedem incansavelmente, apesar da apostasia geral, que seja santificado o seu Nome, venha a nós o seu reino, e seja feita a sua vontade assim na terra como no céu.

Incomparável serenidade a daquele dia em que cessará a blasfêmia e a terra será um novo paraíso, purificada pelo fogo da lama do pecado! Que cristão não saltará de alegria esperando esse último dia que dará início à eternidade? Quem não terá em pouco a agonia da última hora, pensando que aqueles sofrimentos significam apenas, como diz o Evangelho, que o Filho do Homem já está muito perto, à porta?

VINDE, SENHOR JESUS!

Ó Jesus, desprendei-nos cada vez mais deste mundo, cuja figura passa30, com suas tarefas inúteis, suas glórias falsificadas e seus falsos prazeres. Como nos dias de Noé e como em Sodoma, segundo nos anunciastes, os homens continuam comendo e bebendo e deixando-se absorver pelo comércio e pelo prazer; não pensam na proximidade de vossa vinda, como tampouco seus antepassados se preocuparam com o fogo do céu e com o dilúvio até o momento em que todos pereceram31.

Deixemo-los gozar e trocar presentes mutuamente, como diz o vosso Apocalipse, imaginando que Cristo e sua Igreja32 são coisa passada. Enquanto de mil modos oprimem a vossa cidade santa e lhe impõem provas que antes não conheceu, não têm a menor ideia de que contribuem para as núpcias da eternidade; à Esposa já só faltavam as joias destas novas provas e a púrpura esplendorosa com que a adornarão seus últimos mártires.

Quanto a nós, prestando atenção aos ecos da pátria, percebemos a voz que sai do trono e que brada: “Louvai o nosso Deus, todos os seus servos e quantos o temeis, pequenos e grandes, aleluia, porque Nosso Senhor, Deus todo-poderoso, estabeleceu o seu reino. Alegremo-nos e regozijemo-nos, demos-lhe glória, porque chegaram as núpcias do Cordeiro e sua Esposa está preparada”33.

Um pouco mais de tempo para que se complete o número de nossos irmãos;34 e vos diremos juntamente com o Espírito e a Esposa, com entusiasmo de nossas almas há tanto tempo sedentas: “Vinde, ó Jesus35, vinde aperfeiçoar-nos no amor pela união eterna, para glória do Pai e do Filho e do Espírito Santo, pelos séculos sem fim!”

OFERTÓRIO – Das profundezas clamo a vós, Senhor: Senhor, escutai a minha oração; das profundezas clamo a vós, Senhor.

Peçamos ao Senhor, na Secreta, que, ao se aproximar o último juízo, dirija para si todos os corações e se digne substituir em nós os apetites terrenos pelos desejos e gostos do céu.

SECRETA – Sede propício, Senhor, às nossas súplicas; e, aceitas as oblações e preces de vosso povo, convertei a vós os corações de todos nós; para que, livres das ambições terrenas, nos enchamos de anelos celestiais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

COMUNHÃO – Em verdade vos digo: Tudo o que pedirdes na oração, crede que o recebereis, e ser-vos-á concedido.

Queira o divino Sacramento, como o pede a Igreja na Pós-comunhão, curar inteiramente, por sua virtude, o que ainda possa restar de vicioso em nossas almas ao fim deste ano.

PÓS-COMUNHÃO – Nós vos suplicamos, Senhor, fazei que, por meio destes Sacramentos que recebemos, tudo o que houver de vicioso em nossa alma seja curado pelo dom de seu remédio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.


 

1. Tg. 1, 17.

2. Tg. 1, 17.

3. Sl. 83, 6.

4. Cl. 1, 4-6.

5. Ibid. 9.

6. Prov. 16, 4.

7. Sb. 5, 21.

8. Rm. 8, 21.

9. Ap. 6, 16.

10. Ibid. 1, 18.

11. Ibid. 19, 14.

12. Ibid. 3, 21.

13. I Cor. 6, 3.

14. Mt. 25, 34.

15. Sl. 102, 5.

16. Ct. 8, 6.

17. I Cor. 15, 26.

18. Rm. 8, 23.

19. Sl. 117, 24.

20. I Pe. 1, 8.

21. I Ts. 4, 16.

22. Jo. 17, 2.

23. Sl. 2.

24. Sl. 109.

25. Fl. 2, 10.

26. Mt. 26, 64.

27. Ibid. 25, 46.

28. I Cor. 15, 24-28.

29. Mt. 6, 9.

30. I Cor. 7, 31.

31. Lc. 17, 26-30.

32. Ap. 11, 10.

33. Ibid. 19, 5-7.

34. Ibid. 6, 11.

35. Ibid. 22, 17.

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