Sexta-Feira dentro da Oitava de Corpus Christi
SEXTA-FEIRA DA INFRAOITAVA DE CORPUS CHRISTI
FIGURAS DA EUCARISTIA NO PARAÍSO TERRESTRE
PREPARAÇÕES DIVINAS
Consagraremos os dois primeiros dias da Oitava que hoje começa a esboçar brevemente a história da preparação eucarística. A viva luz que ela lançará sobre o próprio dogma fará compreender suficientemente a sua importância.
Ninguém se admire ao ver a eterna Sabedoria prodigalizar, nestes dois dias, suas divinas atenções à nossa natureza. Tomando as Escrituras por guia nesta exposição, como em todo o restante desta obra, tivemos também de tomar suas expressões. Ora, antes da Encarnação, elas se exprimem deste modo: a segunda Pessoa da augusta Trindade aparece claramente com o nome de Sabedoria, e com o título de Esposa, até que, realizada sua união com o homem no grau mais elevado que devia alcançar em Cristo Jesus, ela se eclipse, por assim dizer, diante do Esposo, e pareça perder até o seu nome.
Aprendamos, a exemplo de nossos pais, a honrar a Sabedoria divina e a reconhecer o amor que a move a unir-se de modo inefável ao homem desde a eternidade.
FIGURAS SIMBÓLICAS: A ÁRVORE DA VIDA
Diz a Escritura que Deus havia plantado, desde o princípio, um jardim delicioso para ali colocar o homem. No meio do jardim crescia uma árvore de significado misterioso: mais bela que todas as outras, chamava-se árvore da vida. Um rio, que se dividia em quatro braços, regava este lugar de delícias1; chamado também rio da vida, São João no-lo mostra no Apocalipse como saindo do trono de Deus e brilhante como cristal2.
Árvore e rio cujo símbolo não supõe de modo algum o pecado futuro; colocados por Deus nesta morada de inocência, entram como elementos na noção do plano divino primitivo, e não significam nem anunciam algo que, de si, não se refira ao estado de inocência.
Qual será o fruto da árvore da vida, cujas folhas, nunca murchas3, são a saúde dos povos4, senão a própria Sabedoria divina em sua substância? Alimento dos Anjos em sua forma divina, sê-lo-á também do homem em sua dupla natureza, a fim de que, chegando pela carne à alma, a encha de sua divindade.
A Sabedoria divina havia, pois, antecipado o homem no Paraíso. Ele ainda não estava ali quando esta Sabedoria, impaciente em seu amor, já habitava nele para esperá-lo; e o esperava nesta árvore da vida que, por si mesma, havia plantado em união com o Altíssimo, como inspiradora de suas obra5.
“Como macieira fecunda entre árvores estéreis do bosque — diz a Esposa do Cântico —, assim é o meu Amado entre os homens; sentei-me à sombra d’Aquele que desejava, e seu fruto é suave ao meu paladar”6. Era o fruto delicioso da árvore da vida que simbolizava a Eucaristia!
A REALIDADE: O PÃO DA VIDA
Mas a Sabedoria nos convidava ontem a comer pão em sua casa, não o fruto do jardim. De onde vem, na realidade, esta transformação, que já não corresponde senão à figura?
Deve-se ao fato de que o homem, soberbo, provou do fruto proibido, que o perdeu por sua desobediência e o expulsou do lugar de delícias. Em lugar dos frutos do Paraíso, terá doravante o pão por alimento: pão que custa trabalho e suor, pão que deve ser triturado por pedras e passado pelo fogo. É a sentença dada por Deus7.
Mas, ai!, esta justa sentença irá mais longe que o culpado; acima do homem, recairá sobre a própria Sabedoria divina, que se deu ao homem por alimento e por companheira. Porque, na imensidão de seu amor, não desprezará esta natureza caída; abraçá-la-á para salvá-la, até nas consequências da queda, fazendo-se, como o homem, passível e mortal.
Para chegar até o homem, deverá abrir caminho através dos espinhos e matos de sua nova morada. Uma casa levantada com trabalho contra as intempéries da terra do desterro acolherá o festim das bodas; e o manjar deste festim já não será o fruto da árvore da vida, mas o trigo divino triturado pela dor e tostado sobre o altar da Cruz.
1. Gn. 2, 8-10.
2. Ap. 22, 1.
3. Sl. 1, 3.
4. Ap. 22, 2.
5. Sag. 8, 4.
6. Cant. 2, 3.
7. Gn. 3, 19.


