Oratório São José

Sábado de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SÁBADO DE PENTECOSTES

O ESPÍRITO SANTO E A SANTIDADE

Contemplamos, admirados, a adesão inefável e a constância divina com que o Espírito Santo exerce sua missão nas almas; restam-nos ainda acrescentar alguns traços para completar a ideia das maravilhas de poder e de amor que este divino hóspede realiza no homem que não fecha as portas de seu coração à sua influência.

Mas, antes de ir mais longe, sentimos a necessidade de tranquilizar aqueles que, ao ouvirem os prodígios de bondade que Ele realiza em nosso favor e o mistério de sua presença contínua no meio de nós, temessem que Aquele que desceu para nos consolar da ausência de nosso Redentor suplantasse o nosso amor em detrimento d’Aquele que, “sendo da substância de Deus, não julgou como presa cobiçável manter-se igual a Deus, mas aniquilou-se, tomando a forma de servo e fazendo-se semelhante aos homens”1.

A falta de instrução cristã em muitos dos fiéis da atualidade é causa de que o dogma do Espírito Santo seja conhecido de maneira vaga, e até poderíamos dizer que se desconhece sua ação especial na Igreja e nas almas. Por outro lado, estes fiéis conhecem e honram com louvável devoção os mistérios da Encarnação e da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas dir-se-ia que aguardam a eternidade para aprender em que são devedores ao Espírito Santo.

Assim, pois, lhes diremos que a missão do Espírito Santo está tão longe de nos fazer esquecer o que devemos ao nosso Salvador, que sua presença entre nós e conosco é o dom supremo da ternura d’Aquele que se dignou ser pregado na cruz. A lembrança que conservamos destes mistérios, quem a produz e conserva em nossos corações senão o Espírito Santo? E o fim de suas solicitude em nossa alma não é formar em nós Cristo, o homem novo, para que possamos ser incorporados a Ele eternamente como seus membros?

O amor que temos a Jesus é inseparável daquele que devemos ao Espírito Santo, assim como o culto fervoroso deste Espírito nos une estreitamente ao Filho de Deus, de quem Ele procede e que no-lo deu. Comove-nos e enternece-nos o pensamento das dores de Jesus, e isto é natural; mas seria indigno permanecermos insensíveis às resistências, aos desprezos e às contínuas traições de que o Espírito Santo é objeto nas almas. Somos todos filhos do Pai celestial; mas oxalá compreendêssemos, já neste mundo, que devemos isto à abnegação das duas divinas Pessoas que fizeram com que o fôssemos à custa de sua glória!

FORMA EM NÓS A CRISTO

Depois desta digressão, que nos pareceu oportuna, continuemos descrevendo as operações do Espírito Santo na alma do homem. Como acabamos de dizer, seu fim é formar em nós Jesus Cristo por meio da imitação de seus sentimentos e de seus atos.

Quem conhece melhor do que este divino Espírito as disposições de Jesus, cuja humanidade santíssima Ele produziu nas entranhas de Maria; de Jesus, de quem tomou posse e com quem habitou plenamente; a quem assistiu e dirigiu em tudo por meio de uma graça proporcionada à dignidade desta natureza humana unida pessoalmente à divindade?

Seu desejo é reproduzir uma cópia fiel d’Ele, na medida em que a fraqueza e a pequenez de nossa humilde personalidade, ferida pelo pecado original, o permitirem.

PURIFICA A NATUREZA

Apesar disso, o Espírito Santo obtém, nesta obra digna de Deus, nobres e felizes resultados. Vimo-lo disputar com o pecado e com Satanás a herança resgatada pelo Filho de Deus; consideremo-lo trabalhando com êxito na “consumação dos santos”, segundo a expressão do Apóstolo2.

Ele toma posse deles em um estado de degradação geral, aplica-lhes em seguida os meios ordinários de santificação; mas, resolvido a fazê-los alcançar, segundo suas forças, o limite possível do bem e da virtude, desenvolve sua obra com ardor divino.

A natureza está diante d’Ele: natureza caída, infestada pelo vírus da morte; mas natureza que ainda conserva certa semelhança com seu Criador, de quem guarda sinais em sua ruína. O Espírito vem, pois, destruir a natureza impura e enferma e, ao mesmo tempo, elevar, purificando, aquela que o veneno não contaminou mortalmente.

É necessário, em obra tão delicada e trabalhosa, empregar ferro e fogo como hábil médico; e, coisa admirável, Ele tira o socorro do próprio enfermo para aplicar-lhe o remédio que somente pode curá-lo. Assim como não salva o pecador sem ele, assim também não santifica o santo sem ser ajudado por sua cooperação.

Mas anima e sustenta sua coragem por meio de mil cuidados de sua graça, e a natureza corrompida vai, insensivelmente, perdendo terreno nesta alma; aquilo que permanecia intacto vai se transformando em Cristo, e a graça consegue reinar no homem inteiro.

DESENVOLVE AS VIRTUDES

As virtudes já não estão inertes ou fracamente desenvolvidas neste cristão; veem-se adquirir novo vigor de dia para dia. O Espírito não consente que uma só fique para trás; mostra constantemente a seu discípulo Jesus, tipo ideal, que possui a virtude plena e perfeita.

Algumas vezes faz a alma sentir sua impotência, para que ela se humilhe; deixa-a exposta às repugnâncias e à tentação; mas então é que a assiste com maior solicitude. É necessário que lute, como é necessário que sofra; apesar disso, o Espírito a ama com ternura e considera suas forças mesmo quando a prova.

Que coisa magnífica ver um ser limitado e caído reproduzir o cume da santidade! Com frequência desfalece o ânimo em tal obra, e pode haver algum tropeço; mas o pecado ou a imperfeição não podem resistir ao amor que o Espírito divino alimenta com particular cuidado neste coração, amor que logo consumirá essas escórias e cuja chama nunca se apagará.

COMUNICA A VIDA DIVINA

A vida humana desaparece; mas Cristo vive neste homem novo, como este homem vive em Cristo3. A oração chega a ser o seu elemento, porque nela sente o laço que o estreita com Jesus, e sente que este laço se estreita cada vez mais.

O Espírito mostra à alma novas sendas para que encontre seu bem soberano na oração. Para isso, prepara os graus como em uma escada que começa na terra e cujo cume se oculta no alto dos céus.

Quem poderá contar os favores divinos para com aquele que, tendo-se libertado da estima e do amor de si mesmo, não aspira a outra coisa, na unidade e simplicidade de sua vida, senão contemplar e gozar de Deus, e mergulhar n’Ele eternamente?

Toda a Santíssima Trindade toma parte na obra do Espírito Santo. O Pai faz esta alma sentir os abraços de sua ternura paternal; o Filho não pode conter o ímpeto de seu amor para com ela, e o Espírito Santo a inunda cada vez mais de luzes e consolações.

É O INTRODUTOR NA FAMÍLIA DO CÉU

A corte celestial, que contempla tudo o que se relaciona com o homem, que exulta de alegria por um só pecador que faz penitência4, viu este belo espetáculo, segue-o com amor indizível e louva o Espírito, que sabe operar tais prodígios em uma natureza corruptível.

Maria, em sua alegria maternal, faz algumas vezes ato de presença no novo filho que lhe nasceu; os anjos se mostram aos olhares deste irmão, agora digno de sua sociedade; e os santos que estiveram sujeitos ao corpo travam estreita amizade com aquele que esperam chegará dentro em pouco à mansão da glória.

Que há de estranho em que este filho do Espírito divino nada mais faça que estender a mão para suspender com frequência as leis da natureza e consolar seus irmãos do mundo em seus sofrimentos ou necessidades? Acaso não os ama com amor que procede da fonte infinita do amor, com amor que não está sujeito ao egoísmo nem às tristes recaídas às quais está sujeito aquele em quem Deus não reina?

COMPLETA A SANTIDADE

Mas não percamos de vista o ponto culminante desta vida maravilhosa, mais frequente do que pensam os homens mundanos e dissipados. Aqui aparece o valor dos méritos de Jesus e o amor para com a criatura, juntamente com a energia divina do Espírito Santo.

Esta alma é chamada às núpcias, e estas núpcias não ficarão reservadas para a eternidade. Nesta vida, sob o horizonte estreito do mundo passageiro, devem realizar-se. Jesus deseja unir-se à Esposa que conquistou com seu sangue; e sua Esposa não é somente sua amada Igreja, mas também esta alma que há alguns anos não existia, esta alma que permanece oculta aos olhos dos homens, mas cuja “formosura Ele cobiçou5.

Ele é autor desta beleza que, ao mesmo tempo, é obra do Espírito Santo; não repousará até se haver unido a ela. Então se realizará em uma alma aquilo que vimos operar na própria Igreja. Ele a prepara, estabelece-a na unidade, consolida-a na verdade, consuma-a na santidade; então o “Espírito e a Esposa dizem: Vem”6.

Seria necessário todo um volume para descrever a ação do Espírito divino nos santos, e nós não pudemos traçar senão um curto e tosco esboço. Apesar disso, este ensaio tão incompleto, além de ser necessário para terminar de descrever, ainda que brevemente, o caráter completo da missão do Espírito Santo sobre a terra, conforme os ensinamentos das Escrituras e a doutrina da Teologia dogmática e mística, poderá servir para orientar o leitor no estudo e na compreensão da vida dos santos.

No curso deste Ano Litúrgico, no qual os nomes e as obras dos amigos de Deus são evocados e celebrados tão frequentemente pela própria Igreja, não se podia deixar de proclamar a glória deste Espírito santificador.

O ESPÍRITO SANTO EM MARIA

Não daremos fim a este último dia do tempo pascal, ao mesmo tempo ponto final da oitava de Pentecostes, se não oferecermos à Rainha dos anjos a homenagem devida e se não glorificarmos o Espírito Santo por todas as grandes obras que realizou nela.

Ornada por Ele, depois da humanidade de nosso Redentor, com todos os dons que podiam aproximá-la, tanto quanto era possível a uma criatura, da natureza divina à qual a Encarnação a havia unido, a alma, a pessoa toda de Maria foi favorecida na ordem da graça mais que todas as criaturas juntas. Não podia ser de outro modo, e isto se compreenderá por pouco que se pretenda sondar, pelo pensamento, o abismo de grandezas e de santidade que representa a Mãe de Deus.

Maria forma, ela só, um mundo à parte na ordem da graça. Houve um tempo em que ela só foi a Igreja de Jesus. Primeiramente, o Espírito foi enviado somente para ela, e a encheu de graça no mesmo instante de sua Imaculada Conceição. Esta graça desenvolveu-se nela pela ação contínua do Espírito, até fazê-la digna, na medida em que era possível a uma criatura, de conceber e dar à luz o próprio Filho de Deus, que se fez também seu.

Nestes dias de Pentecostes, vimos o Espírito Santo enriquecê-la com novos dons, prepará-la para uma nova missão; ao ver tantas maravilhas, nosso coração não pode conter o ardor de sua admiração nem o de seu reconhecimento para com o Paráclito, que se dignou proceder com tanta magnificência para com a Mãe dos homens.

Mas também não podemos deixar de celebrar, com verdadeiro entusiasmo, a fidelidade absoluta da amada do Espírito a todas as graças que Ele derramou sobre ela. Nem uma só se perdeu, nem uma só foi devolvida sem produzir sua obra, como acontece algumas vezes nas almas mais santas.

Desde o princípio, foi “como a aurora nascente”7, e o astro de sua santidade não cessou de elevar-se rumo a um meio-dia que, nela, não teria ocaso. Ainda não viera o arcanjo anunciar-lhe que conceberia o Filho do Altíssimo, e, como nos ensinam os Santos Padres, ela já havia concebido em sua alma o Verbo eterno. Ele a possuía como sua Esposa antes de chamá-la a ser sua Mãe.

Se Jesus pôde dizer, falando de uma alma que havia tido necessidade da regeneração: “Quem me procurar, me encontrará no coração de Gertrudes”, qual não seria a identificação dos sentimentos de Maria com os do Filho de Deus, e quão estreita a sua união com Ele!

Cruéis provas a aguardavam neste mundo, mas ela foi mais forte que a tribulação; e, quando chegou o momento em que devia sacrificar-se em um mesmo holocausto com seu Filho, encontrou-se disposta. Depois da Ascensão de Jesus, o Consolador desceu sobre ela; descobriu a seus olhos uma nova senda; para percorrê-la era necessário que Maria aceitasse o longo desterro longe da pátria onde já reinava seu Filho. Ela não duvidou, mostrou-se sempre a escrava do Senhor, e não desejou outra coisa senão cumprir em tudo a sua vontade.

O triunfo, pois, do Espírito Santo em Maria foi completo; por magníficos que tenham sido seus progressos, ela sempre correspondeu a eles. O sublime título de Mãe de Deus, ao qual foi destinada, exigia para ela graças incomparáveis: ela as recebeu e as fez frutificar.

Na obra da “consumação dos santos e para a edificação do corpo de Cristo”8, o Espírito divino preparou para Maria, em prêmio de sua fidelidade e por causa de sua dignidade incomparável, o lugar que lhe convinha.

Sabemos que seu Filho é a Cabeça do corpo de inumeráveis eleitos, que se agrupam harmoniosamente em torno d’Ele. Neste grupo de predestinados, nossa augusta Rainha, segundo a Teologia Mariana, representa o pescoço, que está intimamente unido à Cabeça e pelo qual a Cabeça comunica ao restante do corpo o movimento e a vida.

Ela não é o agente principal, mas por ela este agente influi em cada um dos membros. Sua união, como é natural, é imediata à Cabeça, pois nenhuma criatura, mais que ela, teve nem terá relação mais íntima com o Verbo Encarnado; mas todas as graças e favores que descem sobre nós, tudo o que nos vivifica e ilumina, procede de seu Filho mediante ela.

Daqui provém a ação geral de Maria na Igreja e sua ação particular em cada fiel. Ela nos une todos a seu Filho, o qual nos une à divindade. O Pai enviou-nos seu Filho; este escolheu uma Mãe entre nós, e o Espírito Santo, tornando fecunda a virgindade desta Mãe, consumou a reunião do homem e de todas as criaturas com Deus.

Esta reunião é o fim que Deus se propôs ao criar os seres; e agora que o Filho foi glorificado e o Espírito desceu, conhecemos o pensamento divino. Mais favorecidos que as gerações anteriores ao dia de Pentecostes, possuímos, não em promessa, mas em realidade, um Irmão coroado com o diadema da divindade; um Consolador que permanece conosco até a consumação dos séculos para iluminar o caminho e nele nos manter; uma Mãe, intercessora onipotente; uma Igreja, também mãe, pela qual participamos de todos estes bens.

A Estação, em Roma, é na basílica de São Pedro. Neste santuário, apareciam hoje pela última vez os neófitos de Pentecostes, revestidos com suas túnicas brancas, e apresentavam-se ao Pontífice como os últimos cordeiros da Páscoa, que termina neste dia.

Agora, este dia é célebre pela solenidade das ordenações. O jejum e a oração que a Igreja impôs a seus filhos durante três dias têm por objeto tornar o céu propício, e devemos esperar que o Espírito Santo, que ungirá os novos sacerdotes e os novos ministros com o selo imortal do Sacramento, operará com toda a plenitude de sua bondade e de seu poder; pois não somente inicia neste dia os que vão receber tão sublime caráter, mas também opera a salvação de tantas almas quantas serão confiadas a seus cuidados.

O DOM DE SABEDORIA

O segundo favor que o Espírito divino tem destinado à alma que lhe é fiel em sua ação é o dom de Sabedoria, superior ainda ao de Entendimento. Contudo, está unido a este último em certo sentido, pois o objeto mostrado ao entendimento é saboreado e possuído pelo dom de Sabedoria.

O salmista, ao convidar o homem a aproximar-se de Deus, recomenda-lhe que saboreie o soberano bem: “Provai — diz ele —, e vereis quão suave é o Senhor”9. A Igreja, no próprio dia de Pentecostes, pede a Deus que saboreemos o bem, recta sapere, pois a união da alma com Deus é mais sensação de gosto que contemplação, sendo esta incompatível com nosso estado atual.

A luz que derrama o dom de Entendimento não é imediata; alegra vivamente a alma e dirige seu sentido para a verdade; mas tende a completar-se pelo dom de Sabedoria, que vem a ser o seu fim.

O Entendimento é, pois, iluminação; a Sabedoria é união. Ora, a união com o Bem supremo realiza-se por meio da vontade, isto é, pelo amor que se assenta na vontade.

Notamos esta progressão nas hierarquias angélicas. O Querubim brilha por sua inteligência, mas acima dele está o Serafim, fogueira de amor. O amor é ardente no Querubim, como o entendimento ilumina com sua clara luz o Serafim; mas um se diferencia do outro por sua qualidade dominante, e é maior aquele que está unido mais intimamente à divindade pelo amor, aquele que saboreia o soberano bem.

O sétimo dom está adornado com o belo nome de dom de Sabedoria, e este nome lhe vem da Sabedoria eterna, à qual ele tende a assemelhar-se pelo ardor do afeto.

Esta Sabedoria incriada, que permite ao homem saboreá-la neste vale de lágrimas, é o Verbo divino, Aquele mesmo a quem o Apóstolo chama “o esplendor da glória do Pai e figura de sua substância”10; Aquele que nos enviou o Espírito para nos santificar e conduzir a Ele, de modo que a obra mais grandiosa deste divino Espírito é procurar nossa união com Aquele que, sendo Deus, se fez carne e se fez obediente até a morte, e morte de cruz11.

Jesus, por meio dos mistérios realizados em sua humanidade, fez-nos tomar parte em sua divindade; pela fé esclarecida pela inteligência sobrenatural, “vemos sua glória, que é a do Filho único do Pai, cheio de graça e de verdade”12; e assim como Ele participou de nossa humilde natureza humana, assim também Ele, Sabedoria incriada, faz saborear, desde este mundo, esta Sabedoria criada que o Espírito Santo derrama em nós como seu mais excelente dom.

Feliz aquele que goza desta preciosa Sabedoria, que revela à alma a doçura de Deus e daquilo que pertence a Deus! “O homem animal não percebe as coisas do Espírito de Deus”, diz-nos o Apóstolo13; para gozar deste dom é preciso tornar-se espiritual, entregar-se docilmente ao desejo do Espírito, e lhe sucederá como a outros que, depois de terem sido como ele escravos da carne, foram libertados dela pela docilidade ao Espírito divino, que os buscou e encontrou.

O homem um tanto elevado, mas de espírito mundano, não pode compreender nem o objeto do dom de Sabedoria nem o que encerra o dom de Entendimento. Julga e critica os que receberam estes dons; felizes eles se não se lhes opõe, se não os persegue. Jesus o disse expressamente: “O mundo não pode receber o Espírito de verdade, porque não o vê nem o conhece”14.

Bem sabem os que têm a dita de tender ao bem supremo que é necessário conservar-se totalmente livres do espírito profano, inimigo pessoal do Espírito de Deus. Desligados desta cadeia, poderão elevar-se até a Sabedoria.

Este dom tem por primeiro objeto dar grande vigor à alma e fortificar suas potências. A vida inteira é tonificada por ele, como acontece aos que comem o que lhes convém. Não há contradição alguma entre Deus e a alma, e eis por que a união de ambos é fácil.

“Onde está o Espírito de Deus, aí se encontra a liberdade”, diz o Apóstolo15. Tudo é fácil para a alma sob a ação do Espírito de Sabedoria. As coisas contrárias à natureza, longe de intimidá-la, tornam-se-lhe suaves, e o sofrimento já não aterra tanto o coração.

Não somente não se pode dizer que Deus se acha longe da alma que o Espírito Santo colocou em tal disposição, mas é evidente a união de ambos. Deve ela, contudo, cuidar de ter humildade; pois o orgulho pode apoderar-se dela, e sua queda será tanto maior quanto maior tiver sido sua elevação.

Roguemos ao Espírito divino e peçamos-lhe que não nos recuse este precioso dom de Sabedoria, que nos levará a Jesus, Sabedoria infinita. Um sábio da antiga Lei aspirava a este favor ao escrever estas palavras, cujo sentido perfeito só o cristão percebe: “Orei, e foi-me dada a prudência; invoquei o Senhor, e veio sobre mim o espírito de Sabedoria”16.

É necessário pedi-lo com insistência. No Novo Testamento, o apóstolo São Tiago nos convida a isto com exortações prementes: “Se algum de vós — diz ele — necessita de Sabedoria, peça-a a Deus, que dá a todos com largueza e sem se arrepender de seus dons; peça-a com fé e sem vacilar”17.

Aproveitando este convite do Apóstolo, ó Espírito divino, ousamos dizer-vos: “Vós, que procedeis do Pai e da Sabedoria, dai-nos a Sabedoria. Aquele que é a Sabedoria vos enviou a nós para que nos congregásseis com Ele. Elevai-nos e uni-nos Àquele que assumiu a nossa débil natureza. Sede o laço que nos estreite para sempre com Jesus, meio sagrado da unidade; e Aquele que é Poder, o Pai, nos adotará por herdeiros seus e coerdeiros de seu Filho”18.

CONCLUSÃO

A série sucessiva dos mistérios terminou, e o calendário móvel da Liturgia chegou ao seu fim. Percorremos o tempo do Advento, quatro semanas que representam os milhares de anos empregados pelo gênero humano em implorar do Pai o advento de seu Filho.

Por fim, o Emanuel desce; todos nos associamos às alegrias de seu nascimento, às dores de sua Paixão, à glória de sua Ressurreição e ao triunfo de sua Ascensão. Por fim, desceu sobre nós o Espírito divino, e sabemos que permanecerá conosco até o fim dos séculos.

A Igreja nos acompanhou em todo o curso deste imenso drama de nossa salvação. Cada dia seus cânticos e cerimônias no-lo esclareciam, e deste modo pudemos segui-lo e compreendê-lo todo.

Bendita seja esta Mãe por cujos cuidados fomos iniciados em tantas maravilhas que despertaram nossa inteligência e aqueceram nossos corações! Bendita seja a Sagrada Liturgia, fonte de tantos consolos e de tantos esforços.

Agora nos falta terminar o calendário em sua parte móvel. Preparemo-nos, pois, para caminhar novamente, contando que o Espírito Santo dirigirá nossos passos e continuará abrindo-nos, por meio da Liturgia, da qual é inspirador, os tesouros da doutrina e do exemplo.

 


 

1. Fl. 2, 6-7.

2. Ef. 4, 12.

3. Sl. 2, 20.

4. Lc. 15, 7.

5. Sl. 44.

6. Ap. 22, 17.

7. Ct. 6, 9.

8. Ef. 4, 12.

9. 33, 9.

10. Hb. 1, 3.

11. Fl. 2, 8

12. Jo. 1, 14.

13. I Cor. 2, 14.

14. Jo. 14, 17.

15. II Cor. 3, 17.

16. Sp. 7, 7.

17. Tg. 1, 5.

18. Rm. 8, 17.

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