Sexta-Feira da Oitava da Ascensão
SEXTA-FEIRA
DA OITAVA DA ASCENSÃO
A VOCAÇÃO DOS ANJOS E DOS HOMENS
Eis que chegamos, por assim dizer, ao ponto culminante da obra divina, que somente hoje aparece verdadeiramente completa. Todos os dias, no santo Sacrifício, depois das palavras da consagração, dirigindo-se a Igreja à majestade do Pai, exprime assim o motivo da sua confiança: “Tendo, pois, presentes no pensamento, nós, vossos servos, e o vosso povo santo, a bem-aventurada Paixão do mesmo Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, a sua Ressurreição e também a sua gloriosa Ascensão aos céus, oferecemos-vos esta Hóstia pura, santa e imaculada”.
Não basta, pois, que o homem se apoie nos méritos da Paixão do Redentor, que apagou as nossas iniquidades com o seu sangue; não lhe basta unir-se à lembrança da Ressurreição, que deu a este divino Libertador a vitória sobre a morte; o homem não é salvo nem restaurado senão pela união destes dois mistérios com um terceiro: com o mistério da triunfante Ascensão d’Aquele que morreu e ressuscitou. Jesus, durante os quarenta dias da sua vida gloriosa sobre a terra, continua sendo um desterrado. E também nós permanecemos desterrados como Ele, até que a porta do Céu, fechada pelo pecado de Adão, se torne a abrir para Ele e para nós.
Na sua inefável bondade, Deus não havia chamado o homem somente para reinar sobre todos os seres que cobrem a terra; não o havia destinado apenas a conhecer a verdade na proporção das necessidades da sua natureza, a realizar o bem segundo as forças da sua vida moral, a render uma homenagem longínqua ao seu Criador. Por um desígnio da sua onipotência unida ao seu amor, Deus lhe havia assinalado um fim superior à sua própria natureza. Inferior ao anjo e realizando em seu ser a união do espírito e da matéria, o homem era chamado ao mesmo fim que o anjo. O Céu devia receber a um e a outro; um e outro eram chamados a encontrar eternamente a sua felicidade na visão de Deus face a face, na posse íntima do soberano Bem.
A graça, socorro divino e misterioso, devia torná-los aptos para o fim sublime que a bondade do seu Criador lhes havia preparado gratuitamente. Tal era o pensamento em que Deus se comprazia desde toda a eternidade: elevar até si estes filhos do nada e derramar sobre eles, segundo a medida do seu ser engrandecido, as torrentes do seu amor e da sua luz.
Já sabemos que catástrofe afastou alguns dos anjos do caminho da bem-aventurança suprema. No momento da prova que devia decidir a admissão de cada um deles à felicidade sem fim, ouviu-se um brado de rebelião. Em todos os coros angélicos houve rebeldes, espíritos que se recusaram a humilhar-se diante do mandato divino; mas a sua queda prejudicou somente a eles mesmos, e os espíritos fiéis, admitidos como recompensa à visão e à posse do soberano Bem, começaram a sua eterna felicidade. Deus dignou-se admitir seres criados a gozar da sua própria felicidade, e os novos coros glorificados expandiram-se sob o seu eterno olhar.
Criado mais tarde, o homem também caiu, e o seu pecado rompeu o vínculo que o unia a Deus. A raça humana estava então representada por um só homem e uma só mulher: tudo se havia, pois, arruinado de uma só vez. Depois da culpa, o Céu ficava fechado para sempre à nossa raça; pois, em sua queda, Adão e Eva haviam arrastado consigo a sua posteridade, à qual não podiam transmitir um direito que haviam perdido. Em lugar desta passagem suave pela terra, à qual devia pôr termo uma feliz ascensão para a morada eterna da glória, não nos restava senão uma curta vida cheia de dores e, como perspectiva, o túmulo, onde a nossa carne, saída do pó, seria reduzida a pó. Quanto à nossa alma, criada para a felicidade sobrenatural à qual já não podia aspirar, seria como ver-se frustrada para sempre. O homem havia preferido a terra; habitá-la-ia durante alguns anos, após os quais a deixaria a outros que igualmente desapareceriam, até que Deus quisesse pôr termo a esta obra.
A REDENÇÃO. — Assim havíamos nós merecido ser tratados; mas, contudo, não era esse o fim da nossa criação. Apesar do ódio que Deus tem ao pecado, havia destinado o homem a gozar dos tesouros da sua glória, e não quis revogar os desígnios da sua sabedoria e da sua bondade. Não, a terra não será um lugar onde o homem nasça para logo se extinguir. Quando chegar a plenitude dos tempos, um homem aparecerá aqui embaixo, mas não o primeiro de uma nova criação, e sim um homem como nós, de nossa raça, “nascido de mulher”, como diz o Apóstolo1. Assim, este homem celeste e terrestre ao mesmo tempo associar-se-á à nossa desgraça; como nós, passará pela morte, e a terra o guardará três dias em seu seio. Mas ver-se-á forçada a devolvê-lo e, vivo, aparecerá diante dos olhos deslumbrados dos outros homens. Nós o vimos e, ao sentirmos em nós mesmos uma “sentença de morte”2, alegramo-nos de ver a carne de nossa carne, o sangue de nosso sangue, alcançar tão bela vitória.
Assim, pois, as intenções divinas não serão de todo frustradas. Eis que a terra apresenta ao Criador um segundo Adão que, havendo vencido a morte, já não pode deter-se aqui embaixo. É preciso que suba; e, se a porta do Céu está fechada, é preciso que se abra para Ele. “Príncipes, levantai as vossas portas; portas eternas, elevai-vos, e entrará o Rei da glória”3. Oh! se se dignasse levar-nos atrás de si!, pois é nosso irmão, e sabemos que as suas “delícias foram estar com os filhos dos homens”4. Mas que suba, que a sua Ascensão se realize desde hoje. É o sangue mais puro da nossa raça, o filho de uma mãe sem mancha, quem vai representar-nos a todos naquela feliz mansão que devemos habitar. A terra o envia; já não é estéril desde o momento em que o produziu, pois finalmente frutificou para o Céu. Não parece que um raio de luz desceu até o fundo deste vale de lágrimas, quando as portas do Céu se levantaram para lhe dar passagem? “Levantai-vos, pois, ó Senhor dos homens, levantai-vos no vosso poder, e nós, sobre a terra, cantaremos as grandezas do vosso triunfo”5. Pai dos séculos, recebei este ditoso irmão que os vossos filhos desgraçados vos enviam.
Apesar de parecer maldita, “a terra deu o seu fruto”6. Oh! se nos fosse permitido ver n’Ele as primícias de uma colheita mais abundante, digna da vossa majestade, então ousaríamos pensar que este dia é aquele em que tomais posse da vossa obra primitiva.
1. Gl. 4,4.
2. II Cor. 1, 9.
3. Sl. 33, 7.
4. Prov. 8, 31.
5. Sl. 20, 14.
6. Sl. 56, 7.


