Sábado da IV semana depois da Páscoa
SÁBADO
DA IV SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA
O MATRIMÔNIO. — Neste dia consagrado a Maria, abriremos o Santo Evangelho e leremos estas palavras: “Celebraram-se umas bodas em Caná da Galileia, e a Mãe de Jesus estava ali”. O relato acrescenta que Jesus e seus discípulos foram também convidados para essas bodas; mas não sem profunda razão o Espírito Santo, que guiava a mão do Evangelista, quis que antes se mencionasse Maria. Queria ensinar-nos que esta Mãe dos homens estende sua proteção sobre a aliança conjugal, quando esta aliança é contraída sob o olhar e com a bênção de seu Filho.
O matrimônio é grande aos olhos do próprio Deus. Ele o estabeleceu no Paraíso terrestre em favor de nossos primeiros pais ainda inocentes, e determinou naquele dia suas condições, declarando que a unidade seria sua base: que a mulher não pertencesse senão a um só homem, e o homem a uma só mulher; mas não manifestou então o modelo glorioso que esta nobre unidade devia reproduzir. Tendo resolvido fazer sair de um mesmo tronco, por geração sucessiva, todos os membros da família humana, diferentemente dos anjos, que não procederam uns dos outros, mas foram criados simultaneamente, o Criador contou com o matrimônio para a realização de seus desígnios. Os eleitos, dos quais quer formar sua corte nos Céus, e que devem reforçar os coros dos espíritos bem-aventurados dizimados pela defecção dos anjos caídos, ele os obteria por meio do matrimônio. Por isso o abençoa nos primeiros dias do mundo com uma bênção permanente, que, como nos ensina a Igreja na Liturgia, “não foi abolida nem pela sentença que o Senhor pronunciou no princípio contra o homem pecador, nem pelas águas vingadoras do dilúvio”.
DECADÊNCIA DO MATRIMÔNIO. — Mas, ainda antes que este segundo castigo caísse sobre nossa raça pecadora, ao longo desse primeiro período em que “toda carne havia corrompido o seu caminho”, o matrimônio caiu da elevação em que o Criador o havia colocado. Desviado de seu nobre fim, rebaixado ao nível de uma vulgar satisfação dos sentidos, perde a unidade sagrada que constituía sua glória. A poligamia, por um lado, e o divórcio, por outro, vêm tirar-lhe o caráter primitivo; daí a destruição da família, vergonhosamente sacrificada ao prazer; daí também a degradação da dignidade da mulher, reduzida a não ser mais que objeto de cobiça. A lição do dilúvio não deteve esta decadência entre os descendentes de Noé; o mundo não tardou em voltar a seus caminhos de degradação, e a lei de Moisés não teve em si mesma a energia necessária para fazer o matrimônio remontar à dignidade de sua instituição primeira.
REABILITAÇÃO DO MATRIMÔNIO. — Era necessário, para isso, que o autor divino da aliança conjugal descesse à terra. Quando as misérias da humanidade encheram a medida, apareceu no meio dos homens, tendo assumido em si nossa natureza, e declarou que ele era o Esposo, aquele que os Profetas e o Cântico dos Cânticos haviam anunciado que viria um dia tomar Esposa entre os mortais. Esta Esposa que ele escolheu é a Igreja, isto é, a humanidade purificada pelo batismo e adornada dos dons sobrenaturais. Ele a dotou com seu sangue e com seus méritos, e está unido a ela até a eternidade. Esta Esposa é única em seu amor, e ele a chama com este nome: “minha única”. E ela jamais reconhecerá outro Esposo senão ele. Deste modo se revela o modelo divino da aliança conjugal, que — como nos ensina o Apóstolo — toma sua grandeza na união de Cristo com sua Igreja. O fim destas duas alianças é comum, e elas se encadeiam uma à outra. Jesus ama sua Igreja com amor de Esposo; mas sua Igreja procede do matrimônio humano, que lhe dá seus filhos e a renova sem cessar sobre a terra. Jesus devia, pois, elevar o matrimônio, restituir-lhe suas condições primeiras, honrá-lo como poderoso auxiliar de seus desígnios.
Em primeiro lugar, como vimos no segundo Domingo depois da Epifania, quando quer inaugurar seu ministério pelo primeiro de seus milagres, escolhe a sala nupcial de Caná. Ao aceitar o convite para assistir às bodas às quais sua Mãe já havia sido convidada, mostra que quer elevar com sua presença a dignidade do contrato sagrado que deve unir os dois esposos, e que a bênção do Paraíso terrestre se renove em favor deles. Agora que ele começou a manifestar-se como o Filho de Deus a quem a natureza obedece, vai inaugurar sua pregação. Seus ensinamentos, que têm por fim conduzir o homem aos fins de sua criação, aplicar-se-ão com frequência e expressamente à reabilitação do matrimônio. Proclamará o princípio da unidade, remetendo à instituição divina. Repetirá com autoridade as palavras do princípio: “Que sejam dois em uma só carne”; dois e não três, nem dez. Ao proclamar a indissolubilidade do vínculo sagrado, declarará que a infidelidade de um dos esposos ultraja este vínculo, mas não o rompe; porque — diz — “o homem não pode separar o que o próprio Deus uniu”. Deste modo se estabelece a família em suas verdadeiras condições; deste modo se ab-roga a liberdade degradante da poligamia e do divórcio, monumentos da dureza do coração do homem, que ainda não conhecera a visita de seu Redentor. Assim florescerá a aliança do homem e da mulher, aliança em que tudo atrai, em que nada repele a graça do alto, aliança fecunda ao mesmo tempo para a Igreja da terra e para a do Céu.
O SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO. — Contudo, a munificência do Senhor ressuscitado com respeito ao matrimônio não se contenta em renovar sua essência, alterada pela fraqueza dos homens. Faz ainda mais. Este contrato solene e irrevogável, pelo qual o homem toma a mulher por esposa e a mulher toma o homem por esposo, eleva-o para sempre à dignidade de Sacramento. No momento em que dois cristãos contraem esta aliança que os liga para sempre, uma graça sacramental desce sobre eles e vem selar o nó de sua união, que imediatamente passa à ordem das coisas sagradas. Diante desta maravilha o Apóstolo exclama: “Quão grande é este mistério, no qual aparece a própria união de Cristo com sua Igreja!”. Com efeito, as duas alianças se reúnem: Cristo e sua Igreja; o homem e a mulher têm um mesmo fim, a produção dos eleitos; por isso o Espírito divino sela uma e outra.
EFEITOS DO SACRAMENTO. — Mas a graça do sétimo Sacramento não vem somente selar o vínculo que une os esposos; comunica-lhes ao mesmo tempo todos os auxílios de que necessitam para cumprir sua missão. Derrama, em primeiro lugar, em seus corações um amor mútuo “forte como a morte, e que a torrente das águas glaciais do egoísmo jamais extinguirá”, se perseverarem nos sentimentos do cristianismo; um amor misturado de respeito e de pureza, capaz de dominar — se necessário — os impulsos dos sentidos; um amor que os anos não enfraquecem, mas purificam e intensificam; um amor sereno como o do Céu e que, em viril tranquilidade, alimenta-se muitas vezes e como sem esforço dos mais generosos sacrifícios.
Ao mesmo tempo, a graça sacramental adapta os esposos ao ministério da educação dos filhos que o Céu lhes envia. Infunde neles uma dedicação sem limites a esses frutos benditos de sua união, uma paciência impregnada de ternura para atender e favorecer seu crescimento no bem, um discernimento que só a fé inspira para apreciar o que convém à sua idade e às tendências que neles se revelam, o sentimento constante do destino imortal desses seres aos quais Deus quer fazer seus eleitos; finalmente, a convicção íntima de que pertencem antes a Deus do que aos pais dos quais ele se serve para lhes dar a vida.
Tal é a transformação operada pela graça do Sacramento do Matrimônio no estado conjugal; tal é a revolução que a lei cristã fez resplandecer no seio do mundo pagão, no qual um brutal egoísmo havia sufocado o sentimento da dignidade humana. O cristianismo vinha revelar, depois de tantos séculos de degradação, a verdadeira noção do matrimônio: o amor no sacrifício e o sacrifício no amor. Somente um sacramento podia elevar e manter o homem nessa altura. Ainda não haviam transcorrido dois séculos depois da promulgação do Evangelho; o direito pagão ainda estava de pé, mais imperioso que nunca, e já um cristão traçava deste modo o quadro da regeneração do matrimônio no seio dessa sociedade nova que os éditos imperiais proscreviam como se fosse a peste da humanidade:
“Onde encontrar — diz ele — palavras para descrever a felicidade de um matrimônio cujo vínculo a Igreja forma, que a oblação divina confirma, ao qual a bênção põe o selo, que os anjos proclamam e que o Pai celeste ratifica?
Que jugo aquele sob o qual se inclinam dois fiéis unidos numa mesma esperança, sob a mesma lei e sob a mesma dependência! Ambos são irmãos, ambos servem ao mesmo Senhor; ambos não são senão um só em uma mesma carne, um só em um mesmo espírito. Unidos rezam, unidos se prostram, unidos jejuam; instruem-se mutuamente, exortam-se, sustentam-se. Vêem-se juntos na Igreja, no banquete divino; suportam mutuamente as provações, as perseguições, as alegrias. Não escondem entre si segredo algum, jamais se ocultam um do outro, jamais se desgostam. Vão juntos visitar os enfermos, assistir aos necessitados; não põem discussões em suas esmolas, nem asperezas em seus sacrifícios, nem entraves em suas práticas piedosas. Entre eles não há sinais da cruz furtivos; não há timidez em suas exaltações piedosas, nem ações de graças silenciosas. Estimulam-se a cantar os salmos e os cânticos; e, se há rivalidade em alguma coisa, é sobre quem cantará melhor os louvores de seu Deus. Eis os louvores que alegram os olhos e os ouvidos de Cristo, aqueles pelos quais lhes envia sua paz. Ele disse que se encontraria onde estivessem dois reunidos; ali está, pois, ele, e o inimigo do homem está ausente.”
ATAQUES CONTRA ESTE SACRAMENTO. — Que linguagem! Que quadro! Como se sente que o divino Sacramento influenciou as relações do homem e da mulher, por tê-las harmonizado de maneira tão sublime! Eis o segredo da regeneração do mundo: a família cristã desceu do Céu e implantou-se sobre a terra. Longos séculos transcorreram durante os quais, apesar da fraqueza humana, este tipo foi o ideal admitido universalmente, tanto na consciência quanto nas instituições legais.
Depois, o elemento pagão, que pode ser subjugado, mas que jamais morre, fez esforços por reconquistar o terreno que havia perdido, e a teoria do matrimônio foi novamente falseada na maior parte das nações cristãs. A fé nos ensina que este contrato, transformado em Sacramento, pertence ao domínio da Igreja quanto ao vínculo que o constitui; a Igreja viu-se despojada dele em nome do Estado, a cujos olhos a lei da Igreja não é mais que um jugo derrubado, do qual a liberdade moderna libertou a humanidade. É certo que muito depressa a legitimidade do divórcio foi introduzida nos códigos, e a família desceu ao nível pagão. Contudo, a lição não foi compreendida. O senso moral, ainda preservado em grande número pela influência secular do matrimônio cristão, pôde reduzir um pouco este terreno perigoso; mas a inflexível lógica não podia abdicar das consequências que se deduziam dos princípios estabelecidos; hoje, entre nós, este matrimônio é um vínculo eterno e sacramental diante da presença da Igreja; este matrimônio, aos olhos do Estado, sequer existe: outro é o que tem valor diante da lei civil, e a Igreja o declara nulo diante da consciência do cristão. A ruptura, pois, está consumada.
Mas o que Cristo estabeleceu em sua onipotência não podia perecer: suas instituições são imortais. Que os cristãos, portanto, não se impacientem; que perseverem em receber da Igreja, sua mãe, a doutrina dos Sacramentos; e que continue a manter-se entre eles o matrimônio, com as tradições da família estabelecida por Deus, o sentimento da dignidade do homem, membro de Cristo e cidadão do Céu. Assim talvez salvarão a sociedade; mas, com plena segurança, salvarão suas almas e prepararão a salvação de seus filhos.
A SANTÍSSIMA VIRGEM E O MATRIMÔNIO. — Ao terminar esta semana e meditar nas grandezas do Sacramento do Matrimônio, evocamos vossa lembrança, ó Maria! O festim nupcial de Caná, no qual vossa presença santificou a união dos dois esposos, é um dos grandes acontecimentos do Santo Evangelho. Por que, pois, vós, que sois o tipo imutável da virgindade, que teríeis renunciado às honras de Mãe de Deus antes que sacrificar esta nobre auréola, apareceis nesta circunstância, senão para que os esposos cristãos tenham sempre presente a superioridade da continência perfeita sobre o matrimônio, e para que a homenagem que eles se comprazem em tributar-vos assegure para sempre, em seus pensamentos e em seus desejos, aquela reserva que constitui a dignidade e mantém a verdadeira felicidade do matrimônio?
A vós, pois, ó Virgem sem mancha, pertence abençoar e honrar esta aliança tão pura e tão elevada em seus fins. Dignai-vos protegê-la mais do que nunca nestes dias em que as leis humanas a alteram e a desnaturam de modo alarmante, ao mesmo tempo em que o transbordamento do sensualismo ameaça extinguir, em grande número de cristãos, até o sentimento do bem e do mal. Sede propícia, ó Maria, àqueles que não querem unir-se senão sob vossos olhares maternos. Eles são a herança de vosso Filho, o sal da terra que impedirá sua corrupção, a esperança de um futuro melhor. Ó Virgem, eles vos pertencem; olhai para eles e aumentai seu número, para que o mundo não pereça para sempre.
OS ÚLTIMOS DIAS ANTES DA ASCENSÃO
Mais quatro dias, e Cristo ressuscitado, cuja companhia nos foi tão cara e tão proveitosa, desaparecerá da terra. Parece preparar-nos para a separação este anúncio da quinta semana depois da jubilosa Páscoa. O domingo seguinte abrirá a longa série daqueles que devem suceder-se desde agora até que Ele venha julgar o mundo. Diante desse pensamento, o coração do cristão se aperta, porque sabe que não verá o seu Redentor senão depois desta vida, e une-se à tristeza que experimentavam os Apóstolos na Última Ceia, quando lhes disse estas palavras: “Ainda um pouco de tempo, e já não me vereis”.
SENTIMENTOS DOS APÓSTOLOS. — Mas, depois da ressurreição de seu Mestre, que angústia deve ter martirizado esses homens privilegiados, que afinal se davam conta do que era uma realidade, quando compreenderam, como nós, que a quarta semana, transcorrida tão rapidamente, tocava em breve ao seu fim! Viver, por assim dizer, com Jesus glorificado; experimentar os efeitos de sua divina condescendência, de sua inefável familiaridade; receber de seus lábios todos os ensinamentos que os deviam preparar para cumprir seus mandamentos, ao fundar sobre a terra esta Igreja que viera escolher por Esposa; e encontrar-se de repente entregues a si mesmos, privados de sua presença visível, sem ver já o seu semblante nem ouvir sua voz, levando até o fim esta saudade com tais recordações: tal era a sorte que aguardava os Apóstolos e que deviam aceitar.
Nós experimentaremos algo do que eles devem ter sentido, se nos mantivemos unidos à nossa Mãe, a Igreja. Desde o dia em que ela nos favoreceu com a série de emoções que a transportam cada ano, ao repassar sucessivamente tão santos aniversários, desde o nascimento do Emanuel até o de sua triunfante Ascensão ao céu, não é verdade que também nós vivemos em união com seu Esposo, e que, ao vê-Lo desaparecer dos olhares de nossa fé, atenta até esta hora em segui-Lo em todos os seus estados, nos invade a emoção que experimentaram os Apóstolos?
SENTIMENTO DE MARIA. — Mas vive sobre a terra, na véspera do dia em que Jesus deve deixá-la para o céu, uma criatura cujos sentimentos jamais poderemos sondar nem descrever: é Maria, que havia reencontrado seu Filho e que vê aproximar-se o momento em que Ele vai afastar-se de novo. Jamais houve coração mais submisso às vontades de seu soberano Mestre; mas também jamais se exigiu de criatura alguma um sacrifício semelhante. Jesus quer que o amor de Maria se acrisole ainda mais, e por isso a submete à prova da ausência. Quer, sobretudo, que ela coopere para a formação da Igreja, que oriente esta grande obra, a qual não devia erguer-se senão com sua ajuda. Nisto também se mostra o amor de Jesus para com sua Mãe; deseja para ela o maior mérito, para depor sobre sua cabeça a diadema mais gloriosa no dia em que subir, por sua vez, ao céu para ocupar ali o trono que lhe foi preparado acima de toda a criação glorificada.
Isto não é, certamente, uma espada de dor que atravessa o coração de Maria; é o fogo de um amor que linguagem alguma poderá descrever, e que consumirá esse coração numa angústia agridoce, sob cujo peso ele cairá um dia, como o fruto maduro que o ramo da árvore já não sustenta porque não tem mais vida para comunicar-lhe. Mas, nestes instantes supremos em que nos encontramos, nos últimos derramamentos deste Filho que a vai deixar no exílio, que angústias para o coração de uma Mãe como esta, que não gozou senão durante quarenta dias da felicidade de vê-Lo glorioso e triunfante, e de receber suas divinas e filiais ternuras! É a última prova de Maria; mas, diante desta prova, ela não conhece outra resposta senão a mesma: “Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”. Toda a sua vida está sob o beneplácito de Deus, e deste modo ela chega a ser a maior, a mais próxima de Deus.
Uma alma santa do século XVII, favorecida com as mais sublimes revelações, transmitiu-nos que a Maria foi permitido escolher entre entrar no repouso da glória com seu Filho ou permanecer ainda sobre a terra nos trabalhos do parto da Santa Igreja; mas que ela preferiu retardar os gozos maternais que lhe reservava a eternidade, e servir, até que aprouvesse à divina Majestade, na grande obra que tanto importava à honra de seu Filho e ao bem do gênero humano, de quem também se tornara Mãe.
Se tal entrega elevou a cooperadora de nossa salvação ao mais alto grau de santidade, fazendo-a atingir o cume de sua missão, temos o direito de concluir que o amor de Jesus para com sua Mãe se acrecentou ainda mais, quando recebeu dela uma prova tão sensível da união que ela trazia nos mais íntimos anseios de seu coração sagrado. Novos testemunhos de sua ternura para com Maria foram a recompensa desse esquecimento de si mesma e dessa conformidade com os desígnios que a chamavam a ser verdadeiramente, desde esta terra, a Rainha dos Apóstolos, como a chama a Igreja, e a coadjuvadora de seus trabalhos.
O Senhor, durante estas últimas horas, ia multiplicar os testemunhos de sua bondade para com todos aqueles a quem se dignara admitir em sua familiaridade. Para muitos dentre eles, a separação ia ser longa. João, o predileto, teria de esperar mais de cinquenta anos até reunir-se com seu Mestre. Só depois de trinta anos Pedro, por sua vez, subiria ao madeiro da cruz, para reunir-se Àquele que lhe confiara as chaves do reino dos céus. O mesmo intervalo de tempo deveria ser preenchido pelos suspiros inflamados de Madalena; mas nenhum deles murmurava, porque todos compreendiam que era justo que o divino Redentor do mundo, havendo consolidado suficientemente a fé em sua ressurreição, “entrasse enfim em sua glória”.
A APARIÇÃO SOBRE A MONTANHA. — Jesus, por meio dos Anjos, dera ordem a seus discípulos, no mesmo dia de sua ressurreição, que se reunissem na Galileia para ali gozarem de sua presença. Vimos como obedeceram a esta ordem e de que maneira o Senhor se manifestou a sete dentre eles à margem do lago de Genesaré; esta foi a oitava das manifestações que os Evangelistas registraram. A nona teve lugar do mesmo modo na Galileia. Jesus amava essa região, de onde havia escolhido a maior parte de seus discípulos, onde Maria e José tinham vivido e onde Ele mesmo passara tantos anos no trabalho e na obscuridade. Sobretudo o atraía aquela população mais simples e mais moral. São Mateus nos revela que a mais solene das manifestações de Jesus ressuscitado, aquela que nós contamos como a décima, e como a nona dentre as referidas pelos Evangelhos, teve lugar sobre uma montanha dessa região.
Segundo a opinião de São Boaventura e de Dionísio, o Cartuxo, essa montanha foi o Tabor, cujo cimo fora honrado pelo mistério da Transfiguração. Ali se encontraram reunidos — como nos ensina São Paulo — mais de quinhentos discípulos de Jesus, assembleia formada em grande parte por habitantes da Galileia que haviam crido em Jesus no curso de sua pregação e que mereceram ser testemunhas deste novo triunfo do Nazareno. Jesus se mostrou aos seus olhares e lhes deu tal certeza de sua ressurreição, que o Apóstolo das Gentes, escrevendo aos cristãos de Corinto, invoca seu testemunho em apoio deste mistério fundamental de nossa fé.
Doravante, já não teremos notícias positivas sobre o que ainda sucederá na Galileia, no que se refere às manifestações do Salvador ressuscitado; mas sabemos que intimou a seus discípulos a ordem de voltar a Jerusalém, onde em breve apareceria novamente a seus olhos pela última vez, antes de subir aos céus. Sigamos, nestes dias, a caminhada dos discípulos para a cidade deicida. Quantas vezes, nesta mesma cidade, Jesus quis reunir seus filhos como a galinha abriga seus pintinhos debaixo das asas, e ela não quis! Vai voltar aos seus muros, mas ela não o saberá. Não se manifestará a ela; não se revelará senão a seus amigos, e partirá em silêncio, para não voltar até o dia em que vier julgar aqueles que não conheceram o tempo de sua visita.


