Epifania do Senhor
EPIFANIA
DO SENHOR
NOME DA FESTA. — A festa da Epifania é continuação do mistério do Natal; mas apresenta-se no ciclo litúrgico com uma grandeza própria. Seu nome, que significa Manifestação, indica bem claramente que seu objeto é honrar a aparição de um Deus no meio dos homens.
Com efeito, durante muitos séculos, este dia foi dedicado à celebração do Nascimento do Salvador; e quando os decretos da Santa Sé obrigaram todas as Igrejas a celebrar, doravante com Roma, o mistério do Natal no dia 25 de dezembro, o dia 6 de janeiro não ficou inteiramente privado de sua antiga glória. Conservou o nome de Epifania, com a gloriosa lembrança do Batismo de Jesus Cristo, cujo aniversário uma tradição fixa neste dia.
A Igreja grega dá a esta festa o misterioso e venerável nome de Teofania, nome célebre na antiguidade para significar uma aparição divina. Encontra-se este vocábulo em Eusébio, em São Gregório Nazianzeno, em Santo Isidoro de Pelúsio; é o nome próprio desta festa nos livros litúrgicos da Igreja grega.
Os orientais ainda a chamam de Santas Luzes, por causa do Batismo que antigamente se administrava neste dia, em memória do Batismo de Jesus Cristo no Jordão. Sabe-se que os Padres chamavam o Batismo de Iluminação, e os que o recebiam, de iluminados.
Nós a chamamos familiarmente Festa dos Reis, em recordação dos Magos, cuja chegada a Belém se comemora de modo particular neste dia.
A Epifania participa, com as festas do Natal, da Páscoa, da Ascensão e de Pentecostes, da honra de ser qualificada como dia santíssimo no Cânon da Missa; é considerada uma das festas cardeais, isto é, uma das festas sobre as quais repousa a economia do Ano litúrgico. Dela toma seu nome uma série de seis domingos, assim como outras tomam o título de domingos da Páscoa ou domingos de Pentecostes.
Em consequência do Concordato feito em 1801 entre Pio VII e o Governo francês, o legado Caprara chegou a uma redução das festas, e a piedade dos fiéis viu, com grande pena, muitas delas serem suprimidas. Foram numerosas as que, sem serem suprimidas, foram transferidas para o domingo seguinte. A Epifania foi uma delas, de maneira que, quando o dia 6 de janeiro não cai em domingo, nossas igrejas — o autor fala da França — adiam até o próximo domingo o esplendor de um dia tão celebrado em todo o mundo católico. Esperemos que brilhem dias melhores para nossa Igreja, e que um futuro mais afortunado nos devolva a alegria de que nos privou, durante algum tempo, a prudente condescendência da Santa Sé.
É, pois, um grande dia a festa da Epifania do Senhor; a alegria causada pela Natividade do Menino Deus deve continuar crescendo nesta festa. Com efeito, os novos fulgores do Natal nos mostram com novo esplendor a glória do Verbo Encarnado; e, sem nos fazer perder de vista os inefáveis encantos do divino Menino, manifestam, em todo o brilho de sua divindade, o Salvador que amorosamente se nos mostrou. Os pastores não são os únicos chamados pelos Anjos a reconhecer o Verbo feito carne; também o gênero humano e a natureza inteira são convidados pela mesma voz de Deus a adorá-lo e escutá-lo.
MISTÉRIOS DESTA FESTA. — Ora, em meio aos mistérios de sua divina Epifania, três raios do Sol de justiça descem até nós. No ciclo da Roma pagã, este dia, 6 de janeiro, foi dedicado a celebrar o tríplice triunfo de Augusto, autor e pacificador do Império; mas quando nosso Rei pacífico, cujo império é eterno e não tem limites, decidiu a vitória de sua Igreja por meio do sangue de seus mártires, a Igreja julgou, com a divina sabedoria que a assiste, que um tríplice triunfo do Imperador imortal devia substituir, no novo ciclo, as três vitórias do filho adotivo de César.
Assim, a memória do Nascimento do Filho de Deus ficou assinalada para o dia 25 de dezembro; mas, em compensação, na festa da Epifania vieram reunir-se três manifestações da glória de Cristo: o mistério dos Magos vindos do Oriente, guiados pela estrela, para honrar a realeza divina do Menino de Belém; o mistério do Batismo de Cristo, proclamado Filho de Deus nas águas do Jordão pela voz do próprio Pai celestial; e, enfim, o mistério do poder divino de Cristo, que converteu a água em vinho no banquete simbólico das bodas de Caná.
Será também o aniversário de sua realização o dia dedicado à memória destes três prodígios? É questão debatida. Mas basta aos filhos da Igreja que ela tenha fixado neste dia a comemoração destas três manifestações, para que seus corações celebrem com entusiasmo os triunfos do Filho divino de Maria.
Se passarmos agora a considerar em particular as várias facetas que oferece o objeto desta festa, observaremos imediatamente que, dos três mistérios que a Igreja honra neste dia, a adoração dos Magos é aquele sublinhado com maior complacência. A maioria dos cânticos do Ofício e da Missa destina-se a celebrá-lo, e os dois grandes Doutores da Sé Apostólica, São Leão e São Gregório, em suas homilias sobre esta festa, parecem ter querido insistir unicamente neste ponto, embora não deixem de reconhecer, com Santo Agostinho, São Paulino de Nola, São Máximo de Turim, São Pedro Crisólogo, Santo Hilário de Arles e Santo Isidoro de Sevilha, o tríplice mistério da Epifania.
O motivo desta preferência da Igreja Romana pelo mistério da vocação dos gentios funda-se no fato de ser sumamente glorioso para Roma, que, de cabeça da gentilidade, passara a ser Cabeça da Igreja cristã e da humanidade, graças à celestial vocação que hoje, na pessoa dos Magos, chama todos os povos à admirável luz da fé.
A Igreja grega não faz hoje menção especial da adoração dos Magos, mas une este mistério ao do Nascimento do Salvador em seus Ofícios do Natal. Todos os seus louvores, na festa de hoje, têm por objeto único o Batismo de Jesus Cristo.
A Igreja latina celebra o segundo mistério da Epifania juntamente com os dois restantes, no dia 6 de janeiro. No Ofício de hoje, ele é mencionado com frequência; mas o que mais chama a atenção da Roma cristã é a chegada dos Magos diante do berço do novo Rei; por isso, era necessário dedicar outro dia ao mistério da santificação das águas, para que sua memória fosse dignamente honrada. O dia escolhido pela Igreja do Ocidente para honrar de modo especial o Batismo do Salvador foi a Oitava da Epifania.
O mesmo ocorreu com o terceiro mistério da Epifania, um tanto eclipsado pelo esplendor do primeiro, embora recordado repetidas vezes nos cânticos desta festa; sua celebração particular foi transferida para outro dia, isto é, para o segundo domingo depois da Epifania.
Muitas Igrejas associaram ao mistério da conversão da água em vinho o da multiplicação dos pães, que tem muitas analogias com o primeiro, e no qual o Salvador manifestou também seu poder divino; mas a Igreja Romana, embora tenha tolerado esse costume nos ritos ambrosiano e moçárabe, nunca o admitiu no seu, a fim de conservar, no dia 6 de janeiro, o número três, que deve assinalar no ciclo os triunfos de Cristo; e também porque São João nos ensina em seu Evangelho que o milagre da multiplicação dos pães realizou-se nas proximidades da Páscoa, o que de nenhum modo poderia convir à época do ano em que se celebra a Epifania.
Entreguemo-nos, pois, plenamente ao regozijo em tão belo dia, e nesta festa da Teofania, das Santas Luzes, dos Reis Magos, consideremos com amor o brilho deslumbrante de nosso Sol divino, que sobe com passos de gigante, como diz o salmista (Salmo XVIII), e derrama sobre nós suas ondas de luz, doce e esplendorosa.
Os pastores que acorreram à voz do Anjo já viram reforçado o seu fiel grupinho; o príncipe dos Mártires, o Discípulo amado, a virginal coorte dos Inocentes, o glorioso Santo Tomás, São Silvestre, o patriarca da paz, já não são os únicos a velar diante do berço do Emanuel; suas fileiras se abrem agora para dar passagem aos Reis do Oriente, portadores dos votos e das adorações de toda a humanidade. O humilde estábulo já é estreito para tão grande concorrência; Belém aparece ampla como o universo. Maria, trono da divina Sabedoria, acolhe com seu gracioso sorriso de Mãe e Rainha todos os membros desta corte; apresenta seu Filho à adoração da terra e às complacências do céu. Deus se manifesta aos homens porque é grande; mas se manifesta por meio de Maria porque é misericordioso.
RECORDAÇÕES HISTÓRICAS. — Nos primeiros séculos da Igreja, encontramos dois notáveis acontecimentos ocorridos nesta data memorável que nos reúne ao redor do Rei pacífico. No dia 6 de janeiro de 361, o César Juliano, já apóstata em seu coração, encontrava-se em Viena das Gálias, na véspera de subir ao trono imperial que logo seria deixado vago pela morte de Constâncio. Ainda necessitava do apoio daquela Igreja cristã, na qual se dizia que até recebera o grau de leitor, e que, apesar de tudo, dispunha-se a atacar com a astúcia e ferocidade do tigre. Novo Herodes, astuto como o antigo, quis também neste dia da Epifania ir adorar o Rei recém-nascido. Segundo o relato de seu panegirista Amiano Marcelino, viu-se o coroado filósofo sair do ímpio santuário onde consultava secretamente os arúspices, e entrar depois nos pórticos da igreja, e, no meio da assembleia dos fiéis, oferecer ao Deus dos cristãos uma homenagem tão solene quanto sacrílega.
Onze anos mais tarde, em 372, outro imperador penetrava também na igreja, nesta mesma festa da Epifania. Era Valente, cristão pelo batismo como Juliano, mas perseguidor, em nome do arianismo, daquela mesma Igreja que Juliano atacava em nome de seus deuses impotentes e de sua vã filosofia. A evangélica liberdade de um santo Bispo derrubou Valente aos pés de Cristo Rei, no mesmo dia em que a diplomacia obrigara Juliano a inclinar-se diante da divindade do Galileu.
São Basílio acabara de sair de sua célebre entrevista com o prefeito Modesto, na qual conseguira sair vencedor da violência do mundo, graças à liberdade de seu temperamento de Bispo. Valente chega a Cesareia, com o coração transbordando de impiedade ariana, e dirige-se à basílica onde o Pontífice está celebrando com seu povo a gloriosa Teofania.
“Mas — como diz eloquentemente São Gregório Nazianzeno — apenas o imperador passou o umbral do sagrado recinto, o canto dos salmos ressoou em seus ouvidos como um trovão. Contempla com estremecimento a multidão dos fiéis, semelhante a um mar. A ordem e a beleza do santuário brilham diante de seus olhos com majestade mais angélica que humana. Mas o que lhe causa maior impressão é aquele Arcebispo, de pé na presença de seu povo, com o corpo, os olhos e a alma tão serenos como se nada tivesse acontecido, entregue por inteiro a Deus e ao altar. Valente contempla também os ministros sagrados, imóveis em seu recolhimento, tomados pelo santo respeito dos Mistérios. Nunca o Imperador assistira a um espetáculo tão augusto; sua vista se turva, inclina-se-lhe a cabeça, e sua alma fica tomada de admiração e espanto.”
O Rei dos séculos, Filho de Deus e Filho de Maria, havia vencido. Valente percebe que se desvanecem seus projetos de violência contra o santo Bispo; e se naquele momento não adorou o Verbo consubstancial ao Pai, ao menos uniu sua homenagem externa à do rebanho de Basílio. Ao Ofertório, adiantou-se até o altar e apresentou seus dons a Cristo na pessoa de seu Pontífice. E estava tão visivelmente nervoso, pelo temor de que Basílio não os quisesse aceitar, que os ministros do templo tiveram de sustentá-lo com os braços para que, em seu embaraço, não caísse ao pé do próprio altar.
Deste modo foi honrada, nesta grande solenidade, a Realeza do Salvador recém-nascido pelos poderosos deste mundo, que foram vistos, conforme a profecia do salmo, prostrados e lambendo a terra a seus pés (Salmo LXXI).
Não obstante, deveriam vir novas gerações de imperadores e reis que dobrariam os joelhos e ofereceriam a Cristo Rei a homenagem de um coração rendido e ortodoxo. Teodósio, Carlos Magno, Alfredo, o Grande, Estêvão da Hungria, Eduardo, o Confessor, Henrique II, o Imperador, Fernando de Castela e Luís IX da França foram grandes devotos deste dia; e tiveram por honra apresentar-se com os Reis Magos aos pés do divino Menino, para oferecer-lhe, como eles, seus tesouros.
Na corte da França — segundo testemunho do continuador de Guilherme de Nangis — conservou-se até o ano de 1378, e mais adiante, o costume de que o Rei Cristianíssimo, ao chegar o Ofertório, oferecesse como tributo ao Emanuel ouro, incenso e mirra.
COSTUMES. — Mas a apresentação dos três dons místicos dos Magos não era costume exclusivo da corte dos reis; na Idade Média, a piedade dos fiéis oferecia também ao sacerdote, para que os abençoasse na festa da Epifania, ouro, incenso e mirra, conservando-se em honra dos três Reis estes sinais sensíveis de sua devoção para com o Filho de Maria, como penhor de bênção para as casas e famílias. Em algumas dioceses da Alemanha conservou-se este costume.
Outra prática, inspirada também na ingênua piedade dos tempos de fé, subsistiu por mais tempo. Com o fim de honrar a realeza dos Magos chegados do Oriente para ver o Menino de Belém, escolhia-se um rei por sorte em cada família ao chegar esta festa da Epifania. Em um banquete animado pela mais sã alegria, e que recordava o das bodas da Galileia, partia-se um bolo; uma de suas partes servia para indicar o convidado sobre o qual deveria recair a realeza passageira. As outras duas partes do bolo eram separadas para serem oferecidas ao Menino Jesus e a Maria, na pessoa dos pobres, os quais, dessa maneira, participavam também do triunfo do Rei pobre e humilde. Uma vez mais, as alegrias familiares se misturavam com as religiosas; os laços naturais da amizade e da vizinhança estreitavam-se em torno desta mesa dos Reis; mas, se algumas vezes não se celebrava tal festim, mesmo assim a ideia cristã permanecia viva no fundo dos corações.
Felizes ainda hoje as famílias em cujo seio se celebra a festa dos Reis com sentido cristão. Durante muito tempo, um falso zelo clamou contra essas práticas ingênuas, nas quais a seriedade dos pensamentos da fé se unia às expansões da vida doméstica; sob pretexto de perigo de excessos, atacaram-se estas tradições de família, como se os banquetes alheios a toda ideia religiosa estivessem mais livres de intemperanças. Graças a uma descoberta talvez difícil de justificar, chegou-se a pretender que o bolo da Epifania e a inocente realeza que o acompanha não passavam de uma imitação das Saturnais pagãs, como se fosse a primeira vez que as antigas festas pagãs sofriam uma transformação cristã. O resultado desta imprudente tática devia ser — e foi, neste ponto como em muitos outros — afastar da Igreja os costumes familiares, desterrar de nossas tradições as manifestações religiosas e contribuir para a chamada secularização da sociedade.
Mas voltemos já a contemplar o triunfo do Real Menino, cuja glória brilha neste dia com tanto esplendor. A Santa Igreja vai iniciar-nos, por si mesma, nos mistérios que vamos celebrar. Revistamo-nos da fé e da obediência dos Magos; adoremos com o Precursor o divino Cordeiro, sobre o qual se abrem os céus; tomemos assento no místico banquete de Caná, presidido por nosso Rei, três vezes manifestado e três vezes glorioso. Mas não percamos de vista o Menino de Belém nos dois últimos prodígios; e não deixemos também de ver n’Ele o grande Deus do Jordão e o Senhor dos elementos.
MISSA
Em Roma, a Estação celebra-se em São Pedro do Vaticano, junto ao túmulo do Príncipe dos Apóstolos, a quem foram dadas em Cristo, e por herança, todas as nações da terra.
A Igreja começa os cânticos da Missa solene proclamando a chegada do grande Rei esperado pela terra, sobre cujo nascimento os Magos vieram a Jerusalém consultar os oráculos dos Profetas.
INTROITO – Eis que vem o Senhor Dominador; e em sua mão estão o reino, a potestade e o império.
Salmo: Ó Deus, dai vosso juízo ao Rei, e vossa justiça ao Filho do Rei.
V. Glória ao Pai.
Depois do cântico angélico, a Santa Igreja, animada pelo resplendor da estrela que conduz a gentilidade ao berço do divino Rei, pede na Coleta a graça de contemplar aquela luz viva, à qual a fé nos dispõe, e cujos fulgores nos hão de iluminar eternamente.
COLETA – Ó Deus, que por meio de uma estrela revelastes neste dia o vosso Unigênito aos gentios: fazei propício que nós, que já Vos conhecemos pela fé, sejamos elevados até a contemplação da imagem de vossa alteza. Pelo mesmo Senhor.
EPÍSTOLA – Leitura do profeta Isaías.
Levanta-te, ilumina-te, Jerusalém, porque chegou a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti nascerá o Senhor, e sua glória será vista em ti. E as gentes caminharão em tua luz, e os reis ao resplendor do teu astro. Ergue os olhos em torno e vê: todos estes se reuniram, vieram a ti; teus filhos virão de longe, e tuas filhas surgirão de todas as partes. Então verás e brilharás, e teu coração se admirará e se dilatará, quando se tiver voltado a ti a multidão do mar e tiver acorrido a ti a força das gentes. Cobrir-te-á uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso, e tributando louvor ao Senhor.
Ó inefável glória deste grande dia, no qual começam sua marcha as nações rumo à verdadeira Jerusalém, rumo à Igreja! Ó misericórdia do Pai celestial, que se dignou lembrar-se de todos esses povos sepultados nas sombras da morte e do pecado! Eis que surgiu a glória do Senhor sobre a cidade santa, e os Reis põem-se a caminho para contemplá-la. A estreiteza de Jerusalém já não é capaz de abrigar as ondas das nações; mas outra cidade santa se levantou, e para ela se dirigirá essa inundação de povos gentios de Madiã e de Efa. Ó Roma, alarga teu seio com maternal alegria! Tuas armas haviam conquistado escravos; hoje são filhos os que chegam em tropel às tuas portas; ergue o olhar e vê: tudo é teu; toda a humanidade vai renascer em teu seio. Abre teus braços de mãe; acolhe-nos a todos, nós que vimos do Aquilão e do Meio-dia, trazendo o incenso e o ouro Àquele que é teu Rei e nosso.
GRADUAL – Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso, e tributando louvores ao Senhor.
V. Levanta-te e ilumina-te, Jerusalém, porque a glória do Senhor nasceu sobre ti.
ALELUIA – Aleluia, aleluia.
V. Vimos sua estrela no Oriente e viemos com dons adorar o Senhor. Aleluia.
EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.
Tendo Jesus nascido em Belém de Judá, nos dias do rei Herodes, eis que uns Magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está o Rei dos judeus que nasceu? Porque vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. E, ouvindo isto, o rei Herodes turbou-se, e toda Jerusalém com ele. E, convocando todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Cristo. E eles lhe disseram: Em Belém de Judá, porque assim está escrito pelo Profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és a menor entre os príncipes de Judá, porque de ti sairá o Chefe que regerá meu povo Israel. Então Herodes, chamando em segredo os Magos, informou-se bem deles sobre a aparição da estrela; e, enviando-os a Belém, disse: Ide e perguntai com diligência pelo Menino; e, depois que o encontrardes, avisai-me, para que eu também vá adorá-lo. E eles, tendo ouvido o rei, partiram. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre o lugar onde estava o Menino. E, vendo a estrela, alegraram-se com grande júbilo. E, entrando na casa, encontraram o Menino com sua Mãe Maria — aqui se ajoelha —; e, prostrando-se, adoraram-no. E, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe dons: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para que não voltassem a Herodes, regressaram à sua pátria por outro caminho.
Os Magos, primícias da gentilidade, foram apresentados ao grande Rei que procuravam, e nós os seguimos. Como a eles, o Menino nos sorriu. Com esse sorriso, esquecemos todas as fadigas do longo caminho que conduz a Deus; o Emanuel permanece conosco, e nós com Ele. Belém, que nos recebeu, guarda-nos já para sempre; porque em Belém temos o Menino e Maria, sua Mãe. Em que lugar do mundo poderíamos encontrar bens tão preciosos? Supliquemos à incomparável Mãe que Ela mesma nos apresente a esse Filho que é nossa luz, nosso amor, nosso Pão de vida, quando nos aproximarmos do altar, para onde nos conduz a estrela da fé. Abramos nossos tesouros nesse instante; levemos na mão o ouro, o incenso e a mirra para o recém-nascido. Certamente aceitará de bom grado nossos dons e não se fará esperar. Como os Magos, também nós entregaremos nossos corações ao divino Rei quando nos retirarmos; e também nós voltaremos a entrar por outro caminho, por uma senda completamente nova, nesta pátria terrena, que nos abrigará até o dia em que a vida e a luz eterna venham absorver em nós tudo o que tivermos de mortal e caduco.
Nas igrejas catedrais e em outras de importância, depois do canto do Evangelho, anuncia-se ao povo o dia da celebração da próxima festa da Páscoa. Este costume, que remonta aos primeiros séculos da Igreja, recorda-nos o misterioso vínculo que une todas as grandes solenidades do Ano litúrgico, e também a importância que os fiéis devem dar à celebração da festa da Páscoa, que é a maior de todas elas e centro da religião cristã. Resta-nos, depois de haver honrado o Rei das nações na Epifania, honrar, a seu devido tempo, o vencedor da morte. Eis como se faz o solene anúncio:
ANÚNCIO DA PÁSCOA
Sabei, caríssimos irmãos, que assim como, pela misericórdia de Deus, saboreamos as alegrias do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, assim vos anunciamos hoje o próximo gozo da Ressurreição deste mesmo Deus e Salvador nosso.
No dia… será o domingo da Septuagésima.
No dia… será a Quarta-feira de Cinzas e o começo do jejum da santa Quaresma.
No dia… celebraremos com entusiasmo a santa Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.
No segundo domingo depois da Páscoa teremos o Sínodo diocesano.
No dia… celebrar-se-á a Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
No dia… a festa de Pentecostes.
No dia… a festa de Corpus Christi.
No dia… será o primeiro domingo do Advento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja dada honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém.
Ao apresentar a Deus, no Ofertório, os dons do pão e do vinho, a Santa Igreja toma as palavras do salmista e celebra os reis de Társis, da Arábia e de Sabá, todos os reis da terra e todos os povos que acorrem com seus presentes diante do recém-nascido.
OFERTÓRIO – Os reis de Társis e das ilhas oferecerão dons; os reis da Arábia e de Sabá trarão presentes; e todos os reis da terra o adorarão; todas as gentes o servirão.
SECRETA – Nós Vos suplicamos, Senhor, olhai propício os dons de vossa Igreja, nos quais se Vos oferece não ouro, incenso e mirra, mas aquilo que por esses dons se declara, se imola e se consome: Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive.
O Prefácio da Missa da Epifania é próprio desta festa e de sua Oitava.
A Igreja canta nele a luz imortal que aparece através dos véus da humanidade, sob cujo envoltório amoroso o Verbo divino ocultou sua glória.
PREFÁCIO – Verdadeiramente é digno e justo, equitativo e salutar, que sempre e em toda parte Vos demos graças, Senhor santo, Pai onipotente, eterno Deus: porque, quando vosso Unigênito apareceu na substância de nossa mortalidade, restaurou-nos com a nova luz de sua imortalidade. E por isso, com os Anjos e os Arcanjos, com os Tronos e as Dominações, e com toda a milícia do exército celeste, cantamos o hino de vossa glória, dizendo sem cessar: Santo, Santo, Santo!
Na Comunhão, a Santa Igreja, unida a seu Rei e Esposo, canta a Estrela, mensageira de tão grande ventura, alegrando-se por se haver servido de sua luz para encontrar Aquele que buscava.
COMUNHÃO – Vimos sua estrela no Oriente e viemos com dons adorar o Senhor.
Graças tão insignes exigem de nós uma extrema fidelidade; a Igreja a pede na Pós-comunhão, implorando o dom da inteligência e a pureza que reclama um mistério tão inefável.
PÓS-COMUNHÃO – Nós Vos suplicamos, ó Deus onipotente, fazei que aquilo que celebramos com culto solene o alcancemos com pura inteligência. Pelo Senhor.
Também nós vimos adorar-Vos, ó Cristo, nesta régia Epifania que reúne hoje a vossos pés todas as nações. Seguimos as pegadas dos Magos, porque também nós vimos a estrela e acorremos. Glória a Vós, Rei nosso!, a Vós que dizeis no Cântico de vosso avô Davi: “Fui entronizado Rei sobre Sião, sobre o monte santo, para anunciar a lei do Senhor. O Senhor disse-me que me daria os povos por herança, e um Império até os confins da terra. Compreendei, pois, agora, ó reis! Instruí-vos, vós que governais o mundo!” (Salmo II).
Em breve direis, ó Emanuel, por vossa própria boca: “Todo poder me foi dado no céu e na terra” (São Mateus, XXVIII); e, alguns anos mais tarde, todo o universo Vos estará sujeito. Jerusalém já se estremece; Herodes treme em seu trono; e aproxima-se o momento em que os arautos de vossa vinda anunciarão a toda a terra que acaba de chegar Aquele que era esperado. A palavra que deve submeter-Vos o mundo já está prestes a sair; como um vasto incêndio, propagar-se-á por toda parte. Em vão tentarão deter seu curso os poderosos da terra. Um Imperador proporá ao Senado, como último recurso, colocar-Vos com toda solenidade entre os deuses que vindes derrubar; outros pensarão ser possível abater vosso domínio assassinando vossos soldados. Inúteis empenhos! Virá o dia em que o sinal de vosso poderio adornará as bandeiras pretorianas, em que os Imperadores vencidos deporão a vossos pés suas diademas, em que a orgulhosa Roma deixará de ser a capital do império da força, para converter-se para sempre no centro de vosso império pacífico e universal.
Hoje já vemos despontar a aurora deste dia maravilhoso; vossas conquistas começam hoje, ó Rei dos séculos! Do fundo do Oriente incrédulo, chamais as primícias dessa gentilidade que tínheis abandonado, e que doravante fará parte de vossa herança. Já não haverá distinção entre o judeu e o grego, entre o cita e o bárbaro. Durante muitos séculos, a raça de Abraão foi vossa predileta; doravante seremos nós, os gentios. Israel foi apenas um povo; nós, porém, somos numerosos como a areia do mar e como as estrelas do céu. Israel viveu sob a lei do temor; a lei do amor foi reservada para nós.
Desde o presente dia começais, ó divino Rei, a rejeitar a Sinagoga que despreza vosso amor; hoje, na pessoa dos Magos, aceitais como Esposa a gentilidade. Em breve esta união será proclamada na Cruz, da qual estendereis os braços para a multidão dos povos, voltando as costas à ingrata Jerusalém. Ó alegria inefável a de vosso Nascimento, mas ainda mais inefável a de vossa Epifania, na qual nos é dado, a nós, até aqui deserdados, aproximar-nos de Vós e oferecer-Vos nossos dons, vendo-os aceitos, ó Emanuel, por vossa clemência!
Graças sejam, pois, dadas a Vós, ó Menino onipotente, “pelo inefável dom da fé” (II Cor., IX, 15), que nos transfere da morte para a vida, das trevas para a luz! Mas fazei que compreendamos sempre a grandeza de tão magnífico presente, e a santidade deste grande dia em que fizestes aliança com toda a raça humana, para chegar com ela àquele sublime matrimônio de que fala vosso eloquente Vigário, Inocêncio III: “matrimônio — diz ele — que foi prometido ao patriarca Abraão, jurado ao rei Davi, realizado em Maria ao tornar-se Mãe, e no dia de hoje consumado, confirmado e publicado: consumado na adoração dos Magos, confirmado no Batismo do Jordão, e publicado no milagre da conversão da água em vinho”.
Nesta festa nupcial, em que vossa Esposa, a Igreja apenas nascida, já recebe as honras de Rainha, cantaremos, ó Cristo, com o entusiasmo de nossos corações, essa sublime antífona de Laudes, na qual os três mistérios se fundem tão maravilhosamente em um só, o de vossa Aliança conosco:
Ant.
Hoje a Igreja se une ao Esposo celestial: seus pecados são lavados por Cristo no Jordão; os Magos acorrem às bodas régias, levando consigo presentes; a água se transforma em vinho e alegram-se os convidados. Aleluia.


