Oratório São José

DOMINGO IN ALBIS

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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DOMINGO DE QUASÍMODO

OITAVA DA PÁSCOA

CADA DOMINGO É UMA PÁSCOA. — Vimos ontem os neófitos concluírem sua Oitava da Ressurreição. Antes de nós, haviam participado do admirável mistério do Deus ressuscitado, e antes de nós deviam terminar a sua solenidade. Este dia é, pois, o oitavo para nós, que celebramos a Páscoa no Domingo e não a antecipamos para a tarde do Sábado. Ele nos recorda as alegrias e grandezas do único e solene Domingo que reuniu toda a cristandade num mesmo sentimento de triunfo. É o dia da luz que obscurece o antigo Sábado; doravante, o primeiro dia da semana é o dia sagrado; o Filho de Deus o assinalou duas vezes com o selo de seu poder. A Páscoa está, pois, para sempre fixada no Domingo; e, como já dissemos na Mística do Tempo Pascal, todo domingo, daqui em diante, será uma Páscoa.

Nosso divino Ressuscitado quis que sua Igreja compreendesse assim o mistério; pois, tendo a intenção de mostrar-se pela segunda vez a seus discípulos reunidos, esperou, para isso, o retorno do Domingo. Durante todos os dias precedentes, deixou Tomé preso de suas dúvidas; não quis, até hoje, vir em seu socorro, manifestando-se a este Apóstolo na presença dos outros e obrigando-o a renunciar à sua incredulidade diante da evidência mais palpável. Hoje, pois, o Domingo recebe da parte de Cristo seu último título de glória, esperando que o Espírito Santo desça do céu para vir iluminá-lo com suas luzes e fazer deste dia, já tão favorecido, a era da fundação da Igreja cristã.

A APARIÇÃO A SÃO TOMÉ. — A aparição do Salvador ao pequeno grupo dos onze, e a vitória que obteve sobre a infidelidade de um discípulo, é hoje o objeto especial do culto da Santa Igreja. Esta aparição, que se une à precedente, é a sétima; por ela, Jesus entra na posse completa da fé de seus discípulos. Sua dignidade, sua prudência, sua caridade, nesta cena, são verdadeiramente as de um Deus.

Aqui também, nossos pensamentos humanos ficam confundidos à vista dessa trégua que Jesus concede ao incrédulo, a quem parecia que deveria ter curado sem demora de sua infeliz cegueira ou castigado por sua insolência temerária. Mas Jesus é a bondade e a sabedoria infinitas; em sua sabedoria, proporciona, por esta lenta comprovação do fato de sua Ressurreição, um novo argumento em favor da realidade deste fato; em sua bondade, procura ao coração do discípulo incrédulo a ocasião de retratar-se por si mesmo de sua dúvida com um protesto sublime de dor, de humildade e de amor. Não descreveremos aqui esta cena, tão admiravelmente narrada no trecho do Evangelho que a Santa Igreja vai em seguida apresentar-nos. Limitaremos nossa instrução deste dia a fazer compreender ao leitor a lição que Jesus dá hoje a todos, na pessoa de São Tomé. É o grande ensinamento do Domingo da Oitava da Páscoa; importa não esquecê-lo, porque nos revela, mais que qualquer outro, o verdadeiro sentido do cristianismo; ilumina-nos sobre a causa de nossas impotências e sobre o remédio de nossas fraquezas.

A LIÇÃO DO SENHOR. — Jesus diz a Tomé: “Creste porque viste; felizes os que não viram e creram”. Palavras cheias de divina autoridade, conselho salutar dado não somente a Tomé, mas a todos os homens que querem entrar em relação com Deus e salvar suas almas. Que queria, pois, Jesus de seu discípulo? Não acabava de ouvi-lo confessar a fé da qual já estava penetrado? Tomé, por outro lado, era tão culpado por ter desejado a experiência pessoal antes de dar sua adesão ao mais espantoso dos prodígios? Estava ele obrigado a crer nas afirmações de Pedro e dos outros, a ponto de, por não lhes dar assentimento, faltar ao seu Mestre? Não dava prova de prudência abstendo-se de assentir até que outros argumentos lhe tivessem revelado a ele mesmo a realidade do fato? Sim, Tomé era um homem prudente, que não se fiava demasiado; podia servir de modelo a muitos cristãos que julgam e raciocinam como ele nas coisas da fé. E, contudo, quão esmagadora, embora cheia de doçura, é a repreensão de Jesus! Dignou-se prestar-se, com condescendência inexplicável, a que se verificasse o que Tomé havia ousado pedir; agora que o discípulo se encontra diante do Mestre ressuscitado, e exclama com a emoção mais sincera: “Ó, tu és meu Senhor e meu Deus!”, Jesus não lhe poupa a lição que havia merecido. Era preciso castigar aquela ousadia, aquela incredulidade; e o castigo consistirá em dizer-lhe: “Creste, Tomé, porque viste”.

A HUMILDADE E A FÉ. — Mas estava Tomé obrigado a crer antes de ter visto? E quem pode duvidá-lo? Não somente Tomé, mas todos os Apóstolos estavam obrigados a crer na Ressurreição de seu Mestre, mesmo antes de Ele se lhes ter mostrado. Não haviam vivido três anos em sua companhia? Não o haviam visto confirmar com numerosos prodígios o seu título de Messias e de Filho de Deus? Não lhes havia anunciado sua Ressurreição para o terceiro dia depois de sua morte? E quanto às humilhações e dores de sua Paixão, não lhes havia dito, pouco antes, no caminho de Jerusalém, que seria preso pelos judeus, que o entregariam aos gentios, que seria flagelado, coberto de escarros e morto? (São Luc., XVIII, 32-33.)

Os corações retos e dispostos à fé não teriam tido dúvida alguma em render-se desde o primeiro rumor do desaparecimento do corpo. João, apenas entrou no sepulcro e viu os lençóis, compreendeu tudo e começou a crer. Mas o homem raramente é sincero; detém-se no caminho como se quisesse obrigar Deus a dar novos passos adiante. Jesus dignou-se dá-los. Mostrou-se a Madalena e a suas companheiras, que não eram incrédulas, mas distraídas pela exaltação de um amor demasiado natural. Segundo o modo de pensar dos Apóstolos, seu testemunho não passava de linguagem de mulheres de imaginação febril. Foi preciso que Jesus viesse em pessoa mostrar-se a esses homens rebeldes, aos quais o orgulho fazia perder a memória de todo um passado que, por si só, teria bastado para iluminar-lhes o presente. Dizemos: seu orgulho; pois a fé não tem outro obstáculo senão esse vício. Se o homem fosse humilde, elevar-se-ia até a fé que transporta montanhas.

Ora, Tomé ouviu a Madalena e desprezou seu testemunho; ouviu Pedro e não fez caso de sua autoridade; ouviu seus outros irmãos e os discípulos de Emaús, e nada disso o afastou de sua opinião pessoal. A palavra de outro, grave e desinteressada, produz certeza num espírito sensato; mas não tem esta eficácia para muitos, desde que tem por objeto atestar o sobrenatural. É uma profunda chaga de nossa natureza ferida pelo pecado. Muito frequentemente quereríamos, como Tomé, ter nós mesmos a experiência; e isso basta para privar-nos da plenitude da luz. Consolamo-nos como Tomé porque continuamos sempre no número dos discípulos; pois este Apóstolo não havia rompido com seus irmãos; apenas não gozava da mesma felicidade que eles. Esta felicidade, da qual era testemunha, não despertava nele senão a ideia de fraqueza; e ele tinha, em certo grau, prazer em não compartilhá-la.

A FÉ TÍBIA. — Tal é ainda, em nossos dias, o cristão infectado de racionalismo. Crê porque sua razão o coloca como que na necessidade de crer; é com a inteligência, e não com o coração, que crê. Sua fé é uma conclusão científica, e não uma aspiração para Deus e para a verdade sobrenatural. Por isso esta fé, quão fria e impotente é! Quão limitada e inquieta! Como teme avançar crendo demais! Ao vê-la contentar-se tão facilmente com verdades diminuídas (Ps., XI), pesadas na balança da razão, em vez de navegar a velas enfunadas como a fé dos santos, dir-se-ia que se envergonha de si mesma. Fala baixo, teme comprometer-se; quando se mostra, fá-lo coberta de ideias humanas que lhe servem de rótulo. Não se exporá a afronta por causa dos milagres que julga inúteis, e que jamais teria aconselhado a Deus que operasse. No passado como no presente, o maravilhoso a assusta; não teve já de fazer bastante esforço para admitir Aquele cuja aceitação lhe é estritamente necessária? A vida dos santos, suas virtudes heroicas, seus sacrifícios sublimes, tudo isso a inquieta. A ação do cristianismo na sociedade, na legislação, parece-lhe ferir os direitos dos que não creem; pensa que se deve respeitar a liberdade do erro e a liberdade do mal; e ainda não se dá conta de que a marcha do mundo está entravada desde que Jesus Cristo não é Rei sobre a terra.

VIDA DE FÉ. — Para aqueles cuja fé é tão débil e tão próxima do racionalismo, Jesus acrescenta às palavras severas que dirigiu a Tomé esta sentença, que não se dirigia apenas a ele, mas a todos os homens de todos os séculos: “Felizes os que não viram e creram”. Tomé pecou por não ter tido a disposição de crer. Nós nos expomos a pecar como ele se não alimentamos em nossa fé essa expansão que a impele a misturar-se em tudo, e a fazer o progresso que Deus recompensa com raios de luz e de alegria no coração. Uma vez entrados na Igreja, nosso dever é considerar doravante todas as coisas à luz do sobrenatural; e não temamos que esta situação, regulada pelos ensinamentos da autoridade sagrada, nos leve longe demais. “O justo vive da fé” (Rom., I, 17); é o seu alimento contínuo. A vida natural se transforma nele para sempre, se permanece fiel ao seu Batismo. Acaso cremos que a Igreja tomou tantos cuidados na instrução de seus neófitos, que os iniciou com tantos ritos que só respiram ideias e sentimentos da vida sobrenatural, para deixá-los sem pesar, no dia seguinte, à ação desse perigoso sistema que coloca a fé num canto da inteligência, do coração e da conduta, a fim de deixar agir mais livremente o homem natural? Não, não é assim. Reconheçamos, pois, nosso erro com Tomé; confessemos com ele que até agora não cremos ainda com fé bastante perfeita. Como ele, digamos a Jesus: “Tu és meu Senhor e meu Deus; e tenho pensado e agido frequentemente como se não fosses, em tudo, meu Senhor e meu Deus. Doravante crerei sem ter visto; pois quero ser do número daqueles que Tu chamaste felizes”.

Este Domingo, chamado ordinariamente Domingo de “Quasímodo”, leva na Liturgia o nome de Domingo in albis, e mais explicitamente in albis depositis, porque neste dia os neófitos se apresentavam na Igreja com as vestes ordinárias.

Na Idade Média, chamava-se “Páscoa concluída”, para exprimir, sem dúvida, que neste dia terminava a Oitava da Páscoa. A solenidade deste Domingo é tão grande na Igreja, que não somente é de rito “Duplo maior”, mas jamais cede seu lugar a nenhuma festa, por mais elevado que seja seu grau.

Em Roma, a Estação é na Basílica de São Pancrácio, na Via Aurélia. Os antigos nada nos dizem sobre os motivos que levaram a designar esta igreja para a reunião dos fiéis neste dia. Pode ser que a idade do jovem mártir de quatorze anos, ao qual ela é dedicada, tenha sido causa de escolhê-la de preferência, por uma espécie de relação com a juventude dos neófitos, que ainda hoje são objeto da preocupação maternal da Igreja.

MISSA

O Intróito recorda as afetuosas palavras que São Pedro dirigia, na Epístola de ontem, aos novos batizados. São tenras crianças, cheias de simplicidade, e anseiam dos seios da Santa Igreja o leite espiritual da fé, que os tornará fortes e sinceros.

INTRÓITO – Como crianças recém-nascidas, aleluia, desejai ardentemente o leite espiritual, sem engano. Aleluia, aleluia, aleluia. — Salmo: Aclamai a Deus, nosso auxílio; cantai ao Deus de Jacó.
V. Glória ao Pai.

Neste último dia de uma Oitava tão grande, a Igreja dá, na Coleta, sua despedida às solenidades que acabam de se desenrolar, e pede a Deus que seu divino objeto fique impresso na vida e na conduta de seus filhos.

COLETA – Suplicamos-vos, ó Deus onipotente, fazei que nós, que celebramos as festas pascais, as conservemos, com vossa graça, em nossa vida e costumes. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São João.

Caríssimos: Todo o que nasceu de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus? Este, Jesus Cristo, é o que veio pela água e pelo sangue; não somente pela água, mas pela água e pelo sangue. E o Espírito é o que dá testemunho de que Cristo é a verdade. Porque três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo; e estes três são uma só coisa. E três são os que dão testemunho na terra: o Espírito, a água e o sangue; e estes três são uma só coisa. Se aceitamos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior. Ora, este testemunho de Deus, que é maior, é o que deu de seu Filho. Aquele que crê no Filho de Deus tem em si mesmo o testemunho de Deus.

MÉRITO DA FÉ. — O Apóstolo São João celebra nesta passagem o mérito e as vantagens da fé; mostra-nos a fé como uma vitória que põe a nossos pés o mundo, o mundo que nos cerca e o mundo que está dentro de nós. A razão que moveu a Igreja a escolher para hoje este texto de São João percebe-se facilmente quando se vê o próprio Cristo recomendar a fé no Evangelho deste Domingo. “Crer em Jesus Cristo — nos diz o Apóstolo — é vencer o mundo”; não tem verdadeira fé aquele que submete sua fé ao jugo do mundo. Creiamos com coração sincero, felizes por nos sentirmos filhos diante da verdade divina, sempre dispostos a acolher prontamente o testemunho de Deus. Este divino testemunho ressoará em nós na medida em que nos encontrar desejosos de escutá-lo sempre daqui em diante. João, à vista dos lençóis que haviam envolvido o corpo de seu Mestre, pensou e creu; Tomé tinha mais do que João: o testemunho dos Apóstolos que haviam visto Jesus ressuscitado, e não creu. Não havia submetido o mundo à sua razão, porque não tinha fé.

Os dois versículos aleluiáticos são formados de trechos do santo Evangelho relacionados com a Ressurreição. O segundo descreve a cena que teve lugar num dia como hoje, no Cenáculo.

ALELUIA – Aleluia, aleluia. No dia de minha ressurreição, diz o Senhor, eu vos precederei na Galileia. Aleluia.
V. Oito dias depois, estando as portas fechadas, apresentou-se Jesus no meio de seus discípulos e disse: Paz a vós! Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São João.

Naquele tempo, sendo já tarde daquele dia, o primeiro da semana, e estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos estavam reunidos por medo dos judeus, chegou Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: Paz a vós! E, tendo dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. E os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. Então lhes disse outra vez: Paz a vós! Assim como o Pai me enviou, assim eu vos envio a vós. E, tendo dito isto, soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. Tomé, porém, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele lhes disse: Se eu não vir em suas mãos a marca dos cravos, e não meter meu dedo no lugar dos cravos, e não meter minha mão em seu lado, não crerei. E, oito dias depois, estavam outra vez reunidos os seus discípulos, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, pôs-se no meio e disse: Paz a vós! Depois disse a Tomé: Mete aqui o teu dedo e vê minhas mãos; traz a tua mão e mete-a em meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel. Respondeu Tomé e disse-lhe: Senhor meu e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram. Fez Jesus, diante de seus discípulos, muitos outros milagres, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

O TESTEMUNHO DE SÃO TOMÉ. — Insistimos suficientemente na incredulidade de São Tomé; e já é hora de glorificar a fé deste Apóstolo. Sua infidelidade ajudou-nos a sondar a nossa pouca fé; seu retorno ilumine-nos sobre o que temos de fazer para chegar a ser verdadeiros crentes. Tomé obrigou o Salvador, que conta com ele para fazê-lo uma das colunas de sua Igreja, a abaixar-se até ele com familiaridade; mas, apenas se encontra na presença de seu Mestre, de repente se sente subjugado. Sente a necessidade de retratar, com um ato solene de fé, a imprudência que cometeu ao julgar-se sábio e prudente, e solta um brado, brado que é o protesto de fé mais ardente que um homem pode pronunciar: “Senhor meu e Deus meu!”. Considerai que ele não diz somente que Jesus é seu Senhor, seu Mestre; que é o mesmo Jesus de quem foi discípulo; nisso ainda não consistiria a fé. Já não há fé quando se apalpa o objeto. Tomé teria crido na Ressurreição, se tivesse crido no testemunho de seus irmãos; agora, não crê simplesmente: vê, tem a experiência. Qual é, pois, o testemunho de sua fé? A afirmação categórica de que seu Mestre é Deus. Vê apenas a humanidade de Jesus, mas proclama a divindade do Mestre. Num salto, sua alma leal e arrependida lançou-se ao conhecimento das grandezas de Jesus: “Tu és meu Deus!”, lhe diz.

PRECE. — Ó Tomé, antes incrédulo, a santa Igreja venera tua fé e a propõe por modelo a seus filhos no dia de tua festa. A confissão que fizeste hoje assemelha-se à que Pedro fez quando disse a Jesus: “Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo!”. Por esta profissão, que nem a carne nem o sangue haviam inspirado, Pedro mereceu ser escolhido como fundamento da Igreja; a tua fez mais do que reparar tua falta: tornou-te, por um momento, superior a teus irmãos, alegres por verem seu Mestre, mas sobre os quais a glória visível de sua humanidade havia feito até então mais impressão do que o caráter invisível de sua divindade.

O Ofertório é formado de um trecho histórico do Evangelho sobre a Ressurreição do Salvador.

OFERTÓRIO – O Anjo do Senhor desceu do céu e disse às mulheres: Aquele que procurais ressuscitou, como o tinha dito. Aleluia.

Na Secreta, a santa Igreja exprime o júbilo que lhe produz o mistério da Páscoa e pede que esta alegria se transforme na da Páscoa eterna.

SECRETA – Suplicamos-vos, Senhor, aceiteis os dons da Igreja que se alegra; e, já que lhe destes motivo para tanta alegria, concedei-lhe o fruto da perpétua alegria. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

Ao distribuir aos neófitos e ao restante do povo fiel o alimento divino, a Igreja recorda, por assim dizer, a cada hora, para nos assegurar de sua Ressurreição: “Vede, tocai; sou eu mesmo” (São Luc., XXIV, 39), nos disse ele; mas sabemos que não deve prolongar além de quarenta dias sua presença visível no meio de nós. Este período avança pouco a pouco, as horas correm, e em breve terá desaparecido de nossos olhos Aquele por quem a terra tanto suspirou. “Ó tu, esperança de Israel e seu Salvador — exclama o Profeta —, por que te mostras aqui embaixo como viajante que se recusa a estabelecer sua morada? Por que teu caminho se assemelha ao do homem que nunca se detém?” (Jeremias, XIV, 8.) Mas os momentos são preciosos. Cerquemo-lo durante estas horas fugazes; sigamo-lo com o olhar, ao deixarmos de ouvir sua voz; recolhamos sobretudo suas palavras, ao chegarem a nossos ouvidos; são o testamento de nosso Chefe.

A ORGANIZAÇÃO DA IGREJA. — Durante estes quarenta dias, não cessa de aparecer a seus discípulos, não mais com o fim de tornar certa aos seus olhos sua Ressurreição, da qual já não podem duvidar, mas, como nos ensina São Lucas, para “falar-lhes do Reino de Deus” (At., I, 3). Por seu sangue e por sua vitória, os homens já estão resgatados, o céu e a terra já foram reconciliados; o que resta agora por terminar é a organização da Igreja. A Igreja é o Reino de Deus; pois nela e por ela Deus reinará sobre a terra. É a Esposa do divino Ressuscitado, a quem levantou do pó; é hora de dotá-la, de adorná-la para o dia em que o Espírito Santo, descendo sobre ela, a proclamará diante de todas as nações Esposa do Verbo encarnado e Mãe dos eleitos.

Três coisas são necessárias à Igreja para o exercício de sua missão: 1.ª uma constituição estabelecida pela própria mão do Filho de Deus, pela qual ela chegará a ser uma sociedade visível e permanente; 2.ª o depósito, colocado em suas mãos, de todas as verdades que seu Esposo celestial veio revelar ou confirmar aqui embaixo, o que inclui o direito de ensinar e de ensinar com infalibilidade; 3.ª, enfim, os meios eficazes pelos quais os fiéis de Cristo serão chamados a participar das graças de salvação e santificação que são fruto do sacrifício oferecido na Cruz. Hierarquia, doutrina, sacramentos: tais são os graves assuntos sobre os quais Jesus dá a seus discípulos, durante quarenta dias, suas últimas e solenes instruções.

Antes de segui-lo neste sublime trabalho, pelo qual dispõe e aperfeiçoa sua obra, consideremo-lo ainda, durante toda esta semana, no estado de Filho de Deus ressuscitado, habitando entre os homens e apresentando à sua admiração e ao seu amor tantos traços que nos importa recolher. Já o contemplamos nos panos da infância e na Cruz; contemplemo-lo agora em sua glória.

A HUMANIDADE DO SENHOR RESSUSCITADO. — Diante de nós, Ele é “o mais belo dos filhos dos homens” (Ps., XLIV). Mas, se merecia ser assim chamado desde o momento em que cobria o esplendor de seus traços com a fraqueza de uma carne mortal, qual será o esplendor de sua beleza hoje que venceu a morte e que já não oculta, como outrora, os raios de sua glória! Ei-lo fixado já por toda a eternidade na idade de sua vitória, na idade em que o homem alcançou seu completo desenvolvimento em força e beleza, onde nada anuncia nele a futura decadência. Nesta idade os justos retomarão seus corpos na ressurreição geral e entrarão para sempre na glória, fixados já, como diz o Apóstolo, “na medida da idade completa de Cristo” (Ef., IV).

Mas não é somente pela harmonia de suas feições que o corpo do Senhor ressuscitado cativa os olhares dos mortais aos quais se deixa contemplar; as perfeições que os olhos dos três Apóstolos haviam entrevisto por um instante no Tabor parecem nele acrescidas com toda a magnificência de seu triunfo.

Na Transfiguração, a humanidade unida ao Verbo divino resplandecia como o sol; agora, todo o esplendor da vitória e da majestade real vem unir-se àquele que irradiava sobre o corpo ainda não glorificado do Redentor a pessoa divina à qual a Encarnação o havia unido. Hoje, os astros do firmamento já não são dignos de comparar-se ao esplendor deste divino sol, do qual São João nos diz que ele sozinho ilumina a Jerusalém celeste (Apoc., XXI, 23).

A este dom, que o Apóstolo das gentes designa com o nome de “claridade”, une-se o da “impassibilidade”, pela qual seu corpo deixa de ser acessível à dor e à morte. Nele reina a vida; a imortalidade brilha com todos os seus raios; entra nas condições da eternidade. O corpo continua sendo matéria, mas nenhuma diminuição, nenhum enfraquecimento poderá atingi-lo; sente que goza da posse da vida e para sempre. A terceira qualidade do corpo glorioso de nosso Redentor é a “agilidade”, pela qual se transporta de um lugar a outro sem esforço e num instante. A carne perdeu o peso que, em nosso estado atual, impede o corpo de seguir os movimentos e os quereres da alma. De Jerusalém à Galileia, vence a distância com a rapidez do relâmpago, e a Esposa exclama feliz: “Já ouço a voz de meu amado; ei-lo que vem, transpondo as montanhas, deixando para trás as colinas” (Cant., II).

Enfim, por uma quarta maravilha, o corpo do Emanuel revestiu-se da qualidade que o Apóstolo chama “espiritualidade”, isto é, sem mudar de natureza, sua sutileza tornou-se tal que penetra todos os obstáculos com mais força do que a luz ao atravessar o cristal. Vimo-lo, no momento em que a alma se unia a ele, transpor a pedra selada do sepulcro; agora entra no Cenáculo, cujas portas estão fechadas, e aparece de repente aos olhos dos discípulos deslumbrados.

Tal é o nosso Libertador, livre das condições da mortalidade. Não nos admiremos de que a Igreja, esta pequena família que o rodeia e da qual somos os descendentes, esteja maravilhada diante de sua vista, e lhe diga, tomada de admiração e amor: “Belo és tu, meu amado!” (Cant., II). Repitamo-lo por nossa vez: sim, és belo acima de tudo, Jesus! Nossos olhos, tão aflitos pelo espetáculo de vossas dores quando, há pouco, vos viam coberto de chagas, semelhante a um leproso, não podem cansar-se hoje de contemplar o resplendor com que brilhais, e de deleitar-se em vossos encantos divinos.

Glória a vós em vosso triunfo! Mas também glória a vós em vossa magnificência para com os vossos resgatados, pois decretastes que um dia nossos corpos, purificados pela humilhação do sepulcro, compartilhem com o vosso as prerrogativas que nele celebramos.

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