Oratório São José

Quinta-Feira dentro da Oitava do Sagrado Coração

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUINTA-FEIRA DA INFRAOITAVA DO SAGRADO CORAÇÃO

NECESSIDADE MAIS ATUAL DA REPARAÇÃO

Ao terminar a Encíclica Miserentissimus Redemptor, Pio XI ressaltava a grande necessidade atual do dever da reparação, mais necessário agora do que nunca para nosso pobre mundo, “mergulhado no mal”1. Passam os anos, e o chamado do Papa conserva sua atualidade. Por toda parte se escutam os gemidos dos povos, e pode-se dizer com toda verdade “que os reis e os príncipes se unem para ir contra Deus e sua Igreja”2.

MALES ATUAIS DA IGREJA

Contemplamos na Rússia, no México e na Espanha, e contemplamos atualmente na Europa Central e na Ásia, o triste espetáculo que se nos oferece: “Os templos são demolidos e destruídos; os religiosos e sagradas virgens são expulsos de suas casas e molestados com insultos, crueldades, fome e cárceres; grupos de meninos e donzelas são arrancados do seio da Madre Igreja e induzidos a renegar e blasfemar de Cristo; toda a cristandade, tomada de espanto e dispersa, encontra-se em contínuo perigo de apostasia, ou de atrocíssima morte”, ou, pelo menos, de cruéis vexações.

Vimos numerosas nações fazerem guerra atroz e impiedosa durante longos anos, surdas à voz do Pai comum de todos os fiéis, que as convidava a uma paz justa e cristã, que evitaria males funestos para o futuro. Os povos fecham os olhos às lições de provas tão terríveis, recusando sua conversão, e entregam-se cegamente aos seus anseios de prazeres, aos seus egoísmos e aos seus ódios, em vez de abraçar a lei de Cristo.

“E é ainda mais lamentável que, entre os próprios fiéis, aumente a despreocupação pela disciplina eclesiástica e pelas antigas instituições em que se apoia toda vida cristã, e pelas quais se rege a família e se defende a santidade do matrimônio. Descura-se totalmente, ou se falseia por uma doçura exagerada, a educação dos filhos; a própria Igreja é posta na impossibilidade de educar a juventude cristã; é lamentável o esquecimento do pudor cristão na vida ordinária; é desenfreada a cobiça dos bens passageiros, e desenfreado o modo das lutas políticas, e não se conhecem leis nos esforços feitos para ganhar a opinião pela propaganda. Desacredita-se a autoridade legítima e despreza-se a palavra de Deus, tanto que a própria fé se derruba ou se põe em próximo perigo”.

E assim, mesmo a contragosto, o espírito se sente dominado pela ideia de que se aproximam rapidamente os tempos de que vaticinou Nosso Senhor: “E, porque abundou a iniquidade, a caridade de muitos se esfriará”3.

A PREOCUPAÇÃO PELA EXPIAÇÃO

Prosseguindo este tema em sua Encíclica Caritate Christi Compulsi, de 3 de maio de 1932, Pio XI deplorava que, em nossos dias, a ideia e o nome de expiação e de penitência houvessem perdido em grande parte, para muitas almas, a virtude de excitar os entusiasmos do coração e os heroísmos de sacrifício que, em tempos passados, eram capazes de infundir, quando, aos olhos dos homens de fé, se apresentavam como selados com o caráter divino que lhes deram os exemplos de Cristo e de seus santos.

Não faltam hoje os que presumem abandonar as mortificações externas, tachando-as de velharias, sem falar do “homem moderno”, que, invocando a autonomia da vontade, despreza orgulhosamente a penitência como ato de índole servil.

“E é natural que, quanto mais se debilita a fé em Deus, tanto mais se obscurece e desvanece a ideia do pecado original e da primitiva rebelião do homem contra Deus, chegando, por consequência, até a deixar de sentir-se a necessidade de penitência e de expiação. Mas nós devemos manter bem altos estes nomes e estes conceitos, e conservá-los em sua verdadeira significação, em sua genuína nobreza, e ainda mais em sua prática e necessária aplicação à vida cristã. A isto nos impele a própria defesa de Deus e da religião que professamos…”

E o Santo Padre pede que “este espírito de oração e de desagravo se mantenha em todos os fiéis vivo e em plena atividade durante toda a Oitava da festa do Sagrado Coração, para que seja esta, para todos os cristãos, uma Oitava de reparação e de santa tristeza, dias de mortificação e de preces”.

OBRAS DE PENITÊNCIA

Termina o Papa indicando-nos alguns meios de penitência e reparação:

“Abstenham-se os fiéis de todo espetáculo e de qualquer outra diversão, ainda que lícita; os mais abastados cortem voluntariamente, com espírito de austeridade cristã, ao menos algo de seu modo habitual de viver, dispensando generosamente aos pobres o fruto de suas voluntárias privações, pois a esmola é também meio excelente para satisfazer à divina Justiça e atrair as divinas misericórdias.

“Os pobres, por sua parte, e todos os que neste tempo estão submetidos à dura prova da falta de trabalho e escassez de pão, ofereçam ao Senhor, com igual espírito de penitência e a maior resignação, as privações que lhes impõem os difíceis tempos atuais e a condição social que a divina Providência, com inescrutável, mas sempre amoroso desígnio, lhes assinalou; e aceitem com ânimo humilde e confiante, como vindos da mão de Deus, os efeitos da pobreza, agravados hoje pela estreiteza que aflige toda a humanidade.

“Elevem-se mais generosamente até a divina sublimidade da Cruz de Cristo, pensando que, se o trabalho é um dos maiores valores da vida, foi antes o amor de Deus paciente que salvou o mundo. Conforte-os, por fim, a certeza de que seus sacrifícios e suas penas, cristãmente sofridas, concorrerão eficazmente para apressar a hora da misericórdia e da paz”.

ORAÇÃO

Recitemos, para terminar, a consagração de uma religiosa do Bom Pastor, a Madre Maria do Divino Coração. Gostava ela de repetir “que, sem o espírito de sacrifício, a devoção ao Sagrado Coração não passa de pura imaginação”. Pediu com insistência a Leão XIII que consagrasse o gênero humano ao Sagrado Coração e, satisfeitos seus desejos, morreu no Porto, em 8 de junho de 1899.

“Amabilíssimo Jesus meu: consagro-me hoje novamente e sem reserva ao vosso divino Coração. Consagro-vos meu corpo com todas as suas faculdades e todo o meu ser. Consagro-vos meus pensamentos, palavras e obras, todos os meus padecimentos e penas, todas as minhas esperanças, consolações e alegrias; e, de modo especial, consagro-vos meu pobre coração, para que sejais seu único amor e ele se consuma como vítima nas chamas de vossa caridade.

“Aceitai, ó Jesus, meu amabilíssimo Esposo, meu desejo de consolar vosso divino Coração e de pertencer-vos para sempre.

“Tomai posse de mim, de sorte que, doravante, minha única liberdade seja amar-vos, e minha única vida seja padecer e morrer por Vós.

“Em Vós ponho toda a minha confiança, uma confiança sem limites, e espero alcançar de vossa misericórdia infinita o perdão de todos os meus pecados.

“Em vossas mãos ponho meus cuidados, e sobretudo o de minha salvação eterna. Prometo amar-vos e honrar-vos até o último momento de minha vida, e proponho-me propagar, por todos os meios possíveis, o culto de vosso Sagrado Coração.

“Disponde de mim, ó Jesus meu, segundo vosso agrado; não aspiro a outra recompensa fora de vossa maior glória e de vosso santo amor.

“Concedei-me a graça de encontrar minha morada em vosso divino Coração; aí quero passar todos os dias de minha vida e exalar meu último suspiro. Estabelecei em meu coração vossa morada e o lugar de vosso repouso, para que permaneçamos intimamente unidos, e para que um dia eu possa louvar-vos, amar-vos e possuir-vos por toda a eternidade, lá em cima, nos céus, onde cantarei eternamente as infinitas misericórdias de vosso Coração. Assim seja”.


 

1. Jo. 5, 19.

2. Sl. 2, 2.

3. Mt. 24, 12.

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