BEATO GRAÇA DE CÁTARO (22/12)
BEATO GRAÇA DE CÁTARO
IRMÃO CONVERSO DA ORDEM DOS EREMITAS DE SÃO AGOSTINHO (1438-1508)
Contexto – As Bocas de Cátaro, na costa da Dalmácia, são uma verdadeira maravilha geográfica. Formam um golfo profundo que serpenteia por montanhas íngremes e acaba não recebendo outras águas além das torrentes. Dois recifes situados na foz deste golfo dão origem às três “bocas do Cátaro”, duas das quais largas e profundas o suficiente para a passagem de navios de grande calado. A estreiteza que fica por trás dessas bocas é chamada de Canal Cátaro. A pequena cidade com esse nome – também chamada de Kotar – fica graciosamente parcialmente no golfo e parcialmente em uma rocha no Monte Pella. No século XV foi colocada sob a tutela da República de Veneza, na esperança de aí encontrar apoio seguro e eficaz contra as incursões dos turcos.
Naquele belo cenário, obra de arte no aspecto geográfico da natureza, o nosso Beato viveria com muita liberdade antes de ser chamado pelo Senhor à vida religiosa. Pela beleza da paisagem, não há dúvida, seu espírito deve ter se voltado muitas vezes para a consideração de quão grande deve ser o Autor de tais maravilhas.
O FILHO DO BARQUEIRO
Origem – O Beato Graça nasceu em 27 de outubro de 1438 em Mulla, uma pequena cidade perto de Cátaro. Os historiadores não sabem se recebeu o significativo nome de Graça no batismo ou se o escolheu posteriormente, já tendo ingressado na religião, para não perder a memória da incomparável misericórdia da vocação. O nome de seu pai era Benito e sua mãe era Bona ou Buena, e ambos eram excelentes cristãos.
Educação – Benito, marinheiro de profissão, conquistava laboriosamente o sustento necessário pescando com anzóis e transportando com seu barco viajantes e mercadores que o solicitavam de uma margem a outra. Ele era um homem de fé viva e profunda piedade. Terminado o trabalho, no final da tarde, pegava a criança pela mão e levava-a para a igreja. “Peçamos a Deus”, dizia-lhe, “que nos conceda, acima de tudo, saúde da alma e do corpo; a saúde da alma para merecer a alegria do céu, e a saúde do corpo, porque, sendo pobres, precisamos dos braços para ganhar o pão de cada dia”. E a criança balbuciava esta simples e encantadora súplica do pai, e repetia-a com candura angelical.
Primeira Comunhão – Aos dez anos de idade recebeu pela primeira vez Jesus Sacramentado no seu coração, emulando num ato tão importante o fervor dos espíritos bem-aventurados.
A partir de então, o trabalho e a oração preencheram os seus dias: ele ouvia Missa todas as manhãs na igreja paroquial. Satisfeito com esta devoção, dirigia-se à praia onde estava o pai e, segurando os remos com a mão já vigorosa, tentava aliviar a dura tarefa do velho barqueiro. Comungava todos os domingos e não abandonou esta prática nem na sua cidade natal, nem em Cátaro, nem em Veneza, para onde mais tarde os assuntos da sua profissão o levaram.
VOCAÇÃO RELIGIOSA
Trabalho – Quando Graça completou vinte anos, implorou ao pai que aproveitasse o descanso que merecia por uma longa vida de trabalho e cansaço, e se encarregou sozinho de garantir o sustento e a manutenção da casa. Ele teria deixado o mundo de bom grado para entrar na vida religiosa, mas os seus pais idosos precisavam dele, e ele compreendeu que Deus lhe pedia que sacrificasse a sua devoção em nome do dever filial. Alguns anos se passaram e Graça tinha quase trinta anos. É muito provável que nesse intervalo Deus tenha chamado a Si Benito e sua esposa, a virtuosa Buena, pois encontramos seu filho no claustro. É interessante saber como a Providência divina o conduziu a tão almejada meta.
Cátaro mantinha comércio ativo com Veneza. Os pequenos veleiros dálmatas navegavam incessantemente pelo Adriático. Graça, tal como os seus companheiros barqueiros, atravessava este mar várias vezes por ano. Durante as suas estadias obrigatórias em Veneza, nunca deixou de se deslocar a uma das igrejas da cidade para adorar o Santíssimo Sacramento e rezar as suas devoções habituais.
Vocação – Um dia, quando se encontrava numa ilhota atualmente chamada “Ilha dos Túmulos”, situada entre Murano e Veneza, entrou na igreja de San Cristóbal de la Paz enquanto o Padre Simón de Camerino pregava para um grande público. Este missionário foi um religioso agostiniano famoso pela santidade de sua vida e pela solidez de sua doutrina, e que em 1454 restaurou a paz entre os venezianos e o altivo duque de Milão Francisco Sforza. Daí o seu mosteiro veneziano ser chamado de “Convento de San Cristóbal de la Paz”.
Graça ouviu com emoção as palavras calorosas e apostólicas do orador, e ouviu no fundo do seu coração uma voz que lhe dizia que tinha chegado o momento de abandonar o mundo e entregar-se completamente ao serviço de Deus. Terminado o sermão, dirigiu-se à sacristia, lançou-se aos pés do pregador, deu-se-lhe a conhecer, explicou-lhe o estado da sua consciência e implorou-lhe com toda a verdade da sua alma que o recebesse como irmão leigo em seu convento.
O NOVO IRMÃO CONVERSO
O Padre Simón, dotado de um juízo seguro e de grande facilidade de discernimento, conheceu imediatamente o rico tesouro que Deus lhe enviava; e depois de um breve interrogatório disse-lhe: “Bem-vindo, meu filho. Santo Agostinho, cujas máximas serão muito em breve as regras da sua vida, irá protegê-lo e desfrutarás de uma paz que o mundo não pode conceder”. Com o coração transbordando de alegria e sem perder tempo, Graça voltou para Cátaro, vendeu sua casinha e as ferramentas de sua profissão e distribuiu o preço entre os pobres. Depois, seguindo as instruções do Padre Simón, dirigiu-se ao mosteiro de Monte Ortono, perto de Pádua, fundado em 1436 pelo mesmo Padre Simón de Camerino.
O fundador ali estabelecera uma Congregação dependente da grande Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, mas com uma disciplina mais austera e rigorosa. A Providência colocou o humilde barqueiro num lugar de eleição. Ao iniciar a vida com os seus novos Irmãos, Graça decidiu trabalhar incansavelmente na aquisição de duas virtudes cujo nome resume toda a sua vida: a oração e a mortificação, no meio de um trabalho humilde, constante e generoso.
MORTIFICAÇÃO E LUTA CONTRA O DEMÔNIO
Religioso exemplar – Ele era um modelo de religioso. Todos os dias assistia a tantas Missas que lhe eram possíveis, com recolhimento e fervor angélico, e depois trabalhava no jardim do mosteiro. Quando estava entre os Irmãos, era visto procurando diligentemente os trabalhos mais vis e dolorosos, para aliviar os outros. Mas não se contentou com a mortificação das suas paixões através do trabalho contínuo: o seu desejo de sacrifício e sofrimento voluntário arrastou-o a penitências muito rigorosas.
Penitências – Ele não comia antes do meio-dia; nunca provou carne ou leite e muitas vezes se privou de parte de sua comida para dar aos pobres. Jejuava três dias por semana, além dos prescritos pela Igreja ou pela Regra. Sua vestimenta de trabalho consistia em uma espécie de casaco preto de lã grossa que ele mesmo havia feito e que não tirou até a morte.
Quase sempre permanecia com a cabeça descoberta, tanto no verão quente como no inverno rigoroso, tanto dentro como fora do mosteiro. Costumava trabalhar descalço, mas dentro do convento e por respeito à Comunidade calçava sandálias muito pobres. Nunca foi visto aproximando-se do fogo para se aquecer, nem mesmo no frio mais intenso.
Ele se disciplinava todos os dias; muitas vezes ao ponto de derramar sangue. Cingia os lombos com uma corrente de ferro com pontas de aço e usava constantemente um cilício áspero; cilício que aliás está preservado como relíquia na catedral de Cátaro, e através de seu contato numerosos enfermos recuperaram a saúde e muitos possuídos foram definitivamente libertados do espírito maligno que os atormentava.
Contra o demônio – O inimigo das almas não poderia suportar tal fervor e tal penitência heroica sem raiva. Graça frequentemente o via disfarçado de seus superiores; o demônio ordenava-lhe então que suspendesse as mortificações ou o induzia ao desânimo. Mas o santo religioso sempre derrotou essas armadilhas recorrendo às armas da oração e da confiança em Deus.
Graça passou uma noite no albergue da Congregação de São Marcos de Pádua; prostrado aos pés do Crucifixo, implorou ao Senhor que apaziguasse os espíritos dos paduanos, entre os quais sopravam os ventos da discórdia e da guerra civil. De repente, numerosos espíritos infernais apresentaram-se a ele e agarraram-no com força pelas roupas, arrastaram-no pelos corredores do mosteiro e deram-lhe tantos golpes que o barulho ecoou por todo o edifício.
Levantaram-lhe cruelmente machucado e inconsciente. Como resultado, ele ficou com um ferimento na perna que o fez mancar até a morte.
POBREZA E OBEDIÊNCIA
O bom Irmão, que carecia de riquezas no mundo, trabalhava no mosteiro para adquirir o espírito profundo da santa pobreza evangélica. Sua cela ficava no sótão e era a mais estreita e desconfortável da casa; todo o seu mobiliário era composto por um Crucifixo, uma imagem da Santíssima Virgem e um grande rosário de madeira pendurado na parede, à cabeceira da cama, que era composto por algumas tábuas e uma pedra como almofada.
Por espírito de pobreza, Graça escolhia para si as roupas mais usadas; cuidava diligentemente do mobiliário da comunidade e era visto exercendo as profissões de carpinteiro, sapateiro, alfaiate, serralheiro e pedreiro indiscriminadamente.
Sua obediência era proverbial. Os anos deram-lhe certo direito de comandar os Irmãos mais novos; porém, preferia ser liderado por eles e considerava-se feliz servindo a todos, pois estava convencido de que era o último da Comunidade.
Alimentava na alma uma ardente devoção a Jesus Sacramentado e à Virgem Santíssima e teria prazer em assistir todos os dias a todas as Missas celebradas no oratório; mas suas ocupações o impediam; ele só tinha permissão para passar uma hora na igreja; Depois deixava as delícias que a oração ao pé do altar lhe trazia, porque entendeu que um ato de obediência agrada mais a Deus do que todas as virtudes juntas.
ALGUNS PRODÍGIOS
O Menino Jesus – Certa manhã, Graça estava trabalhando no jardim do Monte Ortano. A capela do convento ficava perto do campo que estava sendo arado; e, enquanto seus braços manejavam a enxada, seu espírito permanecia atento à vizinhança do Divino Hóspede do tabernáculo. De repente ouviu o sino que anunciava a Elevação. Pensando no augusto mistério, o piedoso jardineiro não conseguiu conter o ímpeto da sua devoção e, como sempre, curvou-se num ato de profunda adoração. A parede exterior da igreja abre-se então e o santo Irmão pode ver o Menino Jesus nas mãos do sacerdote oficiante.
O coração abrasado – Outra vez, ele estava rezando durante a noite no convento de San Cristóbal de la Paz – sua residência nos últimos anos de sua vida – quando de repente se sentiu abrasado por um amor tão veemente a Deus que seu coração parecia ter se tornado um forno ardente. Ele tentou acalmar o ardor desse fogo pressionando o peito com a mão direita; mas instantaneamente saíram dele numerosas chamas que encheram de luz brilhante a sua pobre cela e depois, passando pelas paredes e janelas, elevaram-se acima do mosteiro e iluminaram intensamente o horizonte.
Ao avistar tal brilho, alguns vizinhos ficaram alarmados, correram tumultuosamente para o convento e acordaram os religiosos. Com natural alarme, percorreram apressadamente toda a casa e subiram ao telhado, mas sem encontrar vestígios ou sinais de incêndio em parte alguma.
Notou-se que um religioso não havia saído da cela: era o Irmão Graça. Eles abriram a porta e o encontraram caído no chão com o rosto ainda iluminado pela luz celestial. Interrogado pelo Superior, foi obrigado a contar por obediência o que havia acontecido entre Deus e ele.
SUA CARIDADE. NOVO MILAGRE
Acostumado com a pobreza, o Irmão Graça, que amava ternamente os pobres, foi incumbido pelos superiores de distribuir esmolas à porta do mosteiro; exerceu o seu ministério com tanta bondade que encantou os pobres a ponto de lhes trazer lágrimas de gratidão.
Em 1469 foram realizadas algumas obras na igreja de San Cristóbal. Os devotos religiosos ajudaram os pedreiros no preparo da argamassa e na retirada da água necessária para as construções de uma cisterna próxima. Esta cisterna era a única da ilha que tinha água potável.
Certa manhã, parecia completamente seco. A falta desta água na época de forte calor foi uma verdadeira desgraça para os ilhéus. Com tanta pressa, dirigiram-se ao Irmão Graça, a quem chamavam de “o Santo”, e solicitaram a sua poderosa intervenção.
Suas esperanças não foram frustradas, porque Graça, depois de elevar uma oração ao céu, foi à praia e pegou água do mar e despejou naquele tanque. Ele convidou os presentes a fazerem o mesmo até deixá-lo cheio. O religioso tocou então a água salgada com a mão direita e fez o sinal da cruz sobre ela três vezes, fazendo com que ela perdesse instantaneamente o sabor amargo e se transformasse em água doce e límpida.
Desde então nunca mais faltou água na referida cisterna. Várias vezes as ondas do mar a invadiram sem nunca dar amargor à água milagrosa. Os doentes vinham de longe para beber dela na esperança de encontrar um remédio para as suas doenças. É citado o caso de um religioso agostiniano de San Cristobal, o Padre Espírito Lazzarini, que, atormentado por uma febre teimosa e violenta, foi curado por sua virtude. Grato por tão maravilhoso favor, escreveu a biografia do Beato Graça.
DONS DE SABEDORIA E PROFECIA
O Senhor nunca nega os seus dons àqueles que, pela simplicidade da sua vida e pela profundidade da sua fé, se tornam credores das suas misericórdias. O talento humano tem valor mínimo na presença de Deus se não for avaliado pelas virtudes; a pobreza de espírito, levada a todos os extremos que a humildade exige, é o único canal através do qual as graças do alto fluem livremente. A máxima divina cumpre-se em cada homem: “Quem se humilha será exaltado; quem se exalta será humilhado.”
O antigo barqueiro, em quem os antigos clientes não conseguiram descobrir nada de extraordinário, fez milagres com a maior naturalidade. E, como se esta graça fosse ainda pequena para o seu mérito, o Senhor concedeu ao bom Irmão o dom de comover os corações e penetrar nos mistérios do futuro.
Ignorante das ciências da terra – não sabia ler nem escrever – falava das coisas divinas com admirável sabedoria e com extraordinária autoridade, de modo que as pessoas vinham de todos os lugares para receber dele exortações ou conselhos.
Uma rica senhora veneziana tinha um filho único, a quem amava profundamente. O jovem tinha embarcado em um navio e espalharam-se rumores de que o navio tinha sido capturado pelos turcos. Foi acrescentado que os corsários mataram tripulantes e passageiros. Julgue a desolação da pobre mulher com tal notícia. Aconselharam-na a procurar o Irmão Graça. Ela o fez e comunicou sua dor e angústia a ele. “Calma”, disse o religioso, “esses boatos são falsos. Teu filho está vivo e esta tarde terás o consolo de revê-lo. Agradeça a Deus e ore por mim.” A senhora ficou calma, mas mal conseguia acreditar na promessa do Beato. Porém, algumas horas depois, ela abraçou o filho.
MORTE DA BEATO GRAÇA
A saúde do humilde religioso enfraqueceu gradualmente. O trabalho incessante, os jejuns rigorosos e prolongados e as penitências contínuas minaram gradualmente as suas forças; também sofria muito de artrite e febre. No entanto, apesar de tanta dor, ele permanecia calmo e sereno. Quando questionado sobre seu estado de saúde, respondia com sua afabilidade habitual: “Estou bem, graças a Deus”. E na realidade considerava suas doenças uma coisa boa e agradecia incessantemente a Deus pela oportunidade que lhe dava de poder sofrer algo por seu amor.
Na noite de 8 de novembro de 1508, sentiu fortes dores, por isso o superior ordenou-lhe que se deitasse e comesse um pouco de carne para preservar as forças. O humilde religioso obedeceu, apesar da intensa repugnância que experimentava a sua alma, desejosa de mortificação e de sacrifício.
Sentindo-se moribundo, pediu e recebeu com admirável fervor os Sacramentos da Eucaristia e da Extrema Unção; depois, rodeado pelos seus Irmãos, entregou pacificamente a sua alma ao seu Criador. Era 9 de novembro.
A notícia da sua morte espalhou-se rapidamente, fazendo com que uma enorme multidão se deslocasse ao convento ansiosa por venerar os seus restos mortais.
RELÍQUIAS E CULTO
Ele foi sepultado no túmulo comum dos religiosos. Pouco depois, por aviso do céu, o prior ordenou que fosse feito um caixão de cipreste no qual foram colocados os restos mortais que os estragos da morte não conseguiram destruir e que exalavam um perfume delicioso. Alguns meses depois, um senador de Veneza foi favorecido com uma visão semelhante e mandou construir às suas custas um sarcófago de mármore branco e dourado. O Irmão leigo foi desde então homenageado com culto público e suas relíquias expostas à veneração dos fiéis no altar da igreja de San Cristóbal.
Muitos enfermos recuperaram a saúde através da mediação do servo de Deus.
O corpo do Beato Graça foi imediatamente transferido do convento de San Cristobal para Veneza; e em 1810, de Veneza a Mulla, em cuja igreja paroquial é venerado. Leão XIII reconheceu seu culto imemorável em 6 de junho de 1889. A memória e trânsito do Beato Graça de Cátaro se celebram, em virtude de uma concessão da Sagrada Congregação dos Ritos, na diocese de sua origem e nas demais localidades, assim como na Ordem dos Agostinianos, embora as datas não coincidam, pois enquanto os Eremitas de Santo Agostinho celebram a sua festa no dia 22 de dezembro, no Próprio dos Agostinianos da Assunção ela aparece no dia 16 de novembro.
(EDELVIVES, El Santo de cada dia: volume 11-12, ano 1946, pp. 513-531)


