Oratório São José

SANTA ÂNGELA DE FOLIGNO (04/01)

Santo do dia

0:00

SANTA ÂNGELA DE FOLIGNO, Viúva

Origem – Angela de Foligno é uma das grandes místicas e contemplativas da Idade Média, junto com Santa Catarina de Sena e Santa Catarina de Gênova. A beata tinha uma personalidade muito característica e é considerado uma figura incomum dentro do grande movimento franciscano que exerceu tão grande influência na Itália central. Em muitos aspectos, Ângela de Foligno foi o oposto de São Francisco de Assis, cuja vida foi eminentemente ativa, enquanto a de Ângela foi exclusivamente contemplativa. São Francisco via Deus em todas as criaturas; Ângela via todas as criaturas em Deus. Mas ambos representam a mesma realidade cristã de amor alegre.

Muito pouco se sabe sobre a vida da Bem-aventurada; nem sabemos qual era o nome de sua família.[1] Deve ter nascido por volta do ano 1248. Pertencia a uma boa família de Foligno, cidade onde nasceu e viveu. Ela se casou com um homem rico e teve vários filhos. Durante a primeira parte de sua vida, Ângela era mundana e pouco devota. Segundo ela própria, não era apenas negligente e egoísta, mas verdadeiramente pecadora. Mas, em 1285, teve a famosa visão da Verdadeira Luz, aquele chamado ao amor no sofrimento, à paz das alegrias mais duradouras que as do mundo.

Vocação – A sua conversão foi repentina e impetuosa, exaltada e alegre, tal como o seu carácter. Iluminada pela nova luz, a bendita mulher compreendeu que a sua vida, considerada por ela inofensiva e sem grandes ideais, era na verdade uma vida de pecado. Esta convicção a moveu a buscar a penitência, o sofrimento, o sacrifício, a renúncia total e alegre de quem perde tudo para encontrar o Tudo, a fé vitoriosa do seu grande modelo, São Francisco de Assis, em cuja Ordem Terceira ingressou. Mas, depois da sua conversão, a Bem-aventurada continuou a viver no mundo. Aos poucos os laços que a uniam a ele começaram a se desfazer.

A mãe, a quem professava grande carinho que constituía um obstáculo à sua nova vida, faleceu pouco depois. Um pouco mais tarde, seu marido morreu e, finalmente, seus filhos. Embora o biógrafo da Bem-aventurada se detenha nas maravilhas da Providência, que assim lhe abriu o caminho da perfeição, Ângela não era uma mulher desnaturalizada e Irmão Arnoldo diz que ela sofreu enormemente com esses golpes. Mas a sua conversão foi tão total e impetuosa que todas as coisas, tristezas e alegrias constituíram uma unidade viva, como no caso de São Francisco. Para os franciscanos daquela época, a única coisa que existia era o amor de Deus.

O pouco que sabemos sobre a vida de Ângela nos foi transmitido pelo Irmão Arnoldo, o franciscano que foi seu confessor e que conseguiu que a Beata ditasse o relato de suas visões.[2] Arnoldo narra que Ângela desistiu de todos os seus bens e que a última coisa que vendeu foi um “castelo” pelo qual tinha uma predileção especial. Este sacrifício lhe foi exigido numa visão, juntamente com o convite a abraçar a pobreza franciscana, se quisesse ser perfeita.

Suas visões – Arnoldo nos conta que, ao ler para Ângela o que havia escrito, a bendita lhe disse que ele não a tinha entendido e que havia interpretado mal suas palavras; outras vezes ela disse que suas visões pareciam blasfêmias quando colocadas em palavras. Arnaldo alerta o leitor contra o escândalo que os êxtases da bendita mulher poderiam produzir e ressalta que, quanto mais elevadas as visões, maior a humildade de Ângela. – Então, quando a serva de Deus disse que Deus a elevou “para sempre” a um novo estado de alegria e luz, as suas palavras nada têm a ver com presunção e orgulho espiritual, mas significam simplesmente que ela progrediu continuamente na virtude e que foi adquirindo um conhecimento mais claro de Deus e uma solidão espiritual nunca antes experimentada.

Seus êxtases – Um grupo de terciários franciscanos formou-se em torno de Ângela. O Irmão Arnoldo nos conta que “uma virgem cristã” que vivia com ela era especialmente unida a ela. Esta companheira de Ângela não carecia de respeito humano. Na verdade, um dia, quando as duas caminhavam fora de Foligno (talvez nas colinas de Spello ou Assis, ou ao longo da planície que se estende até Rivoroto e Santa Maria degli Angelí), Ângela entrou em êxtase: seu rosto tornou-se resplandecente e seus olhos pareciam lançar chamas; a sua companheira, muito perturbada, pensou que daria um bom exemplo, cobrindo o rosto e aconselhando Ângela a fazer o mesmo, pois os seus olhos brilhavam extraordinariamente: “Esconde-te”, disse à beata, “esconde os teus olhos dos olhares dos homens. Quê vão dizer de ti?” Ângela respondeu: “Isso não importa; se encontrarmos alguém, Deus nos protegerá”. Arnoldo acrescenta que a bendita companheira teve que se acostumar com esse tipo de episódio, pois os êxtases a surpreendiam nos momentos mais inesperados.

Serviço aos pobres – Numa Quinta-feira Santa, Ângela disse à sua companheira: “Vamos procurar Jesus Cristo; talvez o encontremos no hospital, entre os pobres e os doentes enfermos”. Como não podiam ir com as mãos vazias, e a única coisa que possuíam eram seus véus, que apreciavam tanto, a Beata não teve escrúpulos em vendê-los para comprar comida. “E assim, diz a própria Ângela, pudemos oferecer algo aos doentes no hospital; depois lavamos os pés das mulheres e as mãos dos homens, pois era uma pena vê-los sozinhos e abandonados nas suas camas miseráveis. Em particular, um pobre leproso foi grandemente consolado.” No caminho de volta experimentaram grande consolação do céu e assim encontraram Jesus Cristo naquela Quinta-feira Santa.

Santa morte – Assim passou aquela vida extraordinária de grande simplicidade e de graças espirituais avassaladoras, até que, no final de 1308, a Beata sentiu que se aproximava a hora da morte. Ela, portanto, reuniu todos os seus filhos espirituais, abençoou-os, impôs as mãos sobre cada uma e fez-lhes uma exortação final a confiarem completamente em Deus. A Beata Ângela morreu alegre e pacificamente em 4 de janeiro de 1309.

Dons extraordinários – Também temos outro detalhe de sua vida. Ubertino di Cásale ingressou na ordem dos Frades Menores em 1273. Durante quatorze anos levou uma vida exemplar. Foi um homem de grande erudição, famoso em diversas universidades. Ao final desses quatorze anos, Ubertino declinou do primeiro fervor e passou a levar uma vida licenciosa. Ele mesmo narra que conheceu a Beata Ângela de uma forma maravilhosa, embora não entre em detalhes sobre o acontecimento, e que ela lhe mostrou que podia ler seus pensamentos. “Deus falou pela boca”, segundo a expressão de Ubertino. Ele se converteu sinceramente e, em sua narrativa, indica que era apenas um dos muitos que deviam a vida da alma a Ângela.

Seus 18 passos de penitência – É verdade que conhecemos poucos detalhes sobre a existência cotidiana da Bem-aventurada; mas seus escritos nos dão uma ideia clara de sua vida interior. “Eu, Ângela de Foligno, tive que passar por dezoito etapas do caminho da penitência, antes de compreender toda a imperfeição da minha vida”.

A primeira dessas etapas ou passos foi a consciência do pecado, seguida pela vergonha da confissão, pela misericórdia de Deus, pelo autoconhecimento e pela cruz de Cristo. Na nona etapa, que a Beata chamou de “caminho da cruz”, renuncio aos vestidos elegantes e às iguarias delicadas; mas isso ainda lhe custou muito, pois ainda não estava possuída pelo amor divino. Na décima etapa teve a visão de Jesus Cristo em resposta à sua oração: “Que devo fazer para agradar-te?” A visão de Cristo e da sua Paixão revelou-lhe a pequenez dos seus próprios sofrimentos e a bendita mulher diz que chorou tanto e tão amargamente que durante muito tempo teve que enxaguar os olhos com água fria.

Depois da visão da cruz, veio o conhecimento da verdadeira penitência, que a levou a abraçar uma vida de pobreza absoluta. Assim ascendeu pouco a pouco, conhecendo cada vez mais a Paixão de Cristo. O próprio Deus a ensinou a orar por meio do Pai Nosso. A Beata começou a distinguir as graças que vinham da Santíssima Virgem e na décima oitava etapa alcançou tal união com Deus e tanta doçura na oração que se esquecia de comer. Nesta fase vendeu o seu castelo preferido.

Terríveis tentações – Ângela conta-nos que tinha vivido em dois abismos, um virado para cima e outro virado para baixo. Na décima oitava etapa ela foi arrancada do abismo superior, como comprova o terrível capítulo que ela nos deixou sobre suas tentações. Ela se sentiu privada de todos os bons desejos e pensamentos. O demônio a assaltou com as mais repugnantes tentações dos sentidos, incutindo nela o desejo de cometer pecados dos quais nunca tinha ouvido falar. Finalmente a luz apareceu novamente e a Beata teve uma breve pausa. O outro abismo foi o das tentações da falsa humildade, da concentração excessiva em si mesmo e dos escrúpulos. Sentiu-se violentamente inclinada a rasgar a roupa e correr nua pelas ruas, com um colar de carne e peixe crus, gritando: “Eis aqui a mais infame das mulheres, que cheira a vício e a mentira e espalha-as por onde passa. Isso é o que eu sou, pura podridão. Faço todos acreditarem que não como carne nem peixe, mas na verdade sou uma glutona, gosto muito de beber. Faço todos acreditarem que minhas roupas são ásperas, mas à noite durmo em colchões de penas, que escondo pela manhã.” A Beata tentou fazer com que os franciscanos e suas filhas espirituais acreditassem nessas acusações de falsa humildade, mas caiu no outro extremo do orgulho espiritual. Ela se sentia amarga e mal-humorada.

Esta tentação começou em 1294 e durou dois anos, até que Deus a tirou daquele abismo e lhe deu o sabor da sua infinita bondade. E assim Ângela cresceu na alegria espiritual, nota característica dos primeiros filhos de São Francisco de Assis. Em múltiplas visões, Deus lhe deu a conhecer seu amor, sua bondade e sua ternura; e a bendita mulher penetrou cada vez mais profundamente no princípio básico do Pobrezinho de Assis, que reduziu todas as coisas ao amor.

Plena união com Deus – Na fase de plena união com Deus, até os próprios ensinamentos da Sagrada Escritura sobre Deus e sobre a vida de Cristo foram um grande obstáculo, porque em Deus Ângela leu palavras mais elevadas e impossíveis de expressar. Quando ela voltava a si após essas experiências, sentia-se invadida pela paz e cheia de amor “até pelos demônios”. Perdida no amor, até a Paixão de Cristo tornou-se motivo de alegria. Em certos momentos contemplou o corpo do Senhor, morto pelos nossos pecados, mas outras vezes o prazer do amor fez desaparecer toda a dor da Paixão. Assim, conclui Ângela: “A paixão é para mim como um caminho resplandecente de vida”.

Grande parte do livro das visões está repleta de descrições extraordinariamente vívidas, mas sempre respeitosas, dos sofrimentos e da crucificação de Cristo. A Bem-aventurada parece elevar-se cada vez mais acima da dor e do sofrimento, seguindo o exemplo de Cristo, que “deixou de lado a alegria que lhe foi proposta e abraçou a cruz, sem levar em conta a humilhação”. Ângela narra que certa vez, quando assistia a uma representação da Paixão ao ar livre, como era costume na Idade Média, sentiu-se tão transportada de felicidade que lhe pareceu ter sido introduzida na ferida do lado de Cristo.

Deus concedeu-lhe grandes favores e visões durante a Missa e a comunhão. Uma das últimas visões de que fala a bendita mulher é a da Paz. Perturbada por alguma coisa, Ângela perdeu a alegria e a tranquilidade. Deus então lhe revelou que lhe havia feito mais favores do que a qualquer outro habitante de Espoleto. A Beata perguntou por que se sentia tão abandonada por sua mão. Em resposta, recebeu uma exortação à confiança total e, aos poucos, uma paz maior do que a que havia experimentado até então foi se estabelecendo em sua alma. O livro termina com a visão que a Bem-aventurada chama de “caminho da salvação”, na qual fala da felicidade de quem conhece a Deus, não através dos seus dons, mas em si mesmo. “Senhor”, exclama Ângela, “diga-me o que quer de mim, pois sou toda tua. Mas nenhuma resposta foi dada. Rezei desde a hora das Matinas até a hora da Terça, e então vi e ouvi”. O que ela viu foi um abismo de luz, um abismo sobre o qual a verdade de Deus se estendia como uma estrada pela qual passavam aqueles que iam até Ele e os que se afastaram Dele. E a voz de Deus lhe disse: “Em verdade te digo que o único caminho de salvação é seguir meus passos desde a cruz na terra, até a luz que estás contemplando”. E as palavras divinas tornaram-se cada vez mais claras e distintas, e o caminho foi inundado de luz, até onde a vista alcançava.[3]

(BUTLER Alban de, Vida de los Santos: vol. IV, ano 1965, pp. 35-39)

[1] Padre Ferré, depois de ter examinado cuidadosamente o manuscrito de Assis, afirma que a família e amigos próximos da beata a chamavam de “Lela”; provavelmente era um apelido carinhoso, derivado de Angela.

[2] Pesquisas recentes mostraram que a terceira seção do manuscrito não pode ter sido escrita ou publicada pelo irmão Arnold, como se supunha.

[3] Ângela de Foligno foi canonizada em 9 de outubro de 2013 pelo Papa Francisco, na Praça de São Pedro, Vaticano.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *