Oratório São José

Domingo dentro da Oitava da Epifania

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ

OBJETO DESTA FESTA. — Na Liturgia deste domingo, a Igreja cantava antigamente a realeza de Cristo e seu império eterno, unindo seus cânticos aos dos coros angélicos na adoração do Deus feito homem1. Mas, guiada pelo Espírito Santo e maternalmente previdente, julgou que poderia ser útil convidar os homens de nossos dias a considerar hoje as mútuas relações de Jesus, de Maria e de José, para recolher as lições que delas se desprendem e aproveitar a ajuda tão eficaz que oferece o seu exemplo2.

Podemos crer que, na escolha do lugar que ocupa agora no calendário esta nova festa, influiu bastante o Evangelho assinalado no Missal para o domingo dentro da Oitava da Epifania, que é o mesmo da atual festa da Sagrada Família.

Ademais, esta festa tampouco nos afasta da contemplação dos mistérios do Natal e da Epifania: não nasceu a devoção à Sagrada Família em Belém, onde Maria e José receberam a homenagem dos pastores e dos Magos? E, embora seja verdade que o objeto da presente festividade vai além dos primeiros momentos da existência terrena do Salvador, estendendo-se até os trinta anos de sua vida oculta, não encontramos já no presépio alguns de seus aspectos mais significativos? Na voluntária debilidade em que o coloca seu estado infantil, Jesus se abandona àqueles a quem os desígnios de seu Pai encarregaram de sua guarda; Maria e José cumprem, em espírito de adoração, todas as obrigações que sua missão sagrada lhes impõe em relação Àquele de quem deriva sua autoridade.

MODELO DE LAR CRISTÃO. — Falando mais tarde o Evangelho da vida de Jesus em Nazaré ao lado de Maria e de José, descreve-a com estas simples palavras: “Estava-lhes sujeito. E sua Mãe conservava todas estas coisas em seu coração, e Jesus crescia em sabedoria, em idade e em graça diante de Deus e dos homens3”.

Apesar de sua concisão, este texto sagrado contém uma luminosa visão de ordem e de paz, que revela ao nosso olhar a autoridade, a submissão, a dependência e as relações mútuas da Sagrada Família. A santa casa de Nazaré se apresenta à nossa vista como o modelo perfeito do lar cristão. José manda ali com tranquila serenidade, como quem tem consciência de que, agindo assim, faz a vontade de Deus e fala em seu nome. Compreende que, ao lado de sua virginal Esposa e de seu divino Filho, ele é o menor; e, apesar disso, sua humildade faz com que, sem temor nem perturbação, aceite seu papel de chefe da Sagrada Família que Deus lhe confiou; e, como bom superior, não pensa em fazer uso de sua autoridade senão para cumprir de modo mais perfeito seu ofício de servidor, de súdito e de instrumento.

Maria, como convém à mulher, submete-se humildemente a José e, adorando ao mesmo tempo Aquele que manda, dá sem hesitar suas ordens a Jesus nas múltiplas ocasiões que se apresentam na vida de família, chamando-o, pedindo sua ajuda, assinalando-lhe este ou aquele trabalho, como faz uma mãe com seu filho. E Jesus aceita humildemente suas indicações: mostra-se atento aos menores desejos de seus pais, dócil às suas ordens mais leves. Aquele que é mais hábil, mais sábio que Maria e José, submete-se a eles em todos os detalhes da vida ordinária, e assim continuará agindo até sua vida pública, porque esta é a condição da humanidade que assumiu e a vontade de seu Pai.

“Com efeito — exclama São Bernardo, entusiasmado diante de espetáculo tão sublime —, o Deus a quem estão sujeitos os Anjos, a quem obedecem os Principados e Potestades, estava submetido a Maria; e não só a Maria, mas também a José por causa de Maria. Admirai, portanto, a ambos, e vede qual é mais admirável: se a liberalíssima condescendência do Filho ou a gloriosíssima dignidade da Mãe. De ambos os lados há motivo de assombro; de ambas as partes, prodígio. Um Deus obedecendo a uma criatura humana: eis uma humildade nunca vista; uma criatura humana mandando a um Deus: eis uma grandeza sem igual”4.

Lição salutar é esta que aqui se nos oferece. Deus quer que se obedeça e que se mande conforme o papel e o cargo de cada um, não conforme seus méritos ou virtudes. Em Nazaré, a ordem da autoridade e da dependência não é precisamente a mesma que a da perfeição e da santidade. O mesmo ocorre ordinariamente na sociedade humana e na própria Igreja: se o superior deve às vezes respeitar no inferior uma virtude maior que a sua, o inferior tem sempre a obrigação de acatar no superior uma autoridade derivada da própria autoridade de Deus.

A Sagrada Família vivia do trabalho de suas mãos. A oração em comum, os santos colóquios por meio dos quais Jesus formava e educava progressivamente as almas de Maria e de José, tinham seu tempo assinalado, devendo cessar ante a necessidade de prover às necessidades da vida cotidiana. A pobreza e o trabalho são meios demasiado aptos de santificação para que Deus deixasse de impô-los ao grupo bendito de Nazaré. José exercia, pois, com assiduidade seu ofício de carpinteiro, e Jesus compartilharia seu trabalho, quando estivesse em idade propícia. Ainda no século II, a tradição conservava a lembrança de jugos e arados fabricados por suas divinas mãos5.

Entretanto, Maria cumpria seus deveres de senhora de uma casa humilde. Preparava a comida que José e Jesus deviam encontrar ao final de seu trabalho, cuidava da ordem e da limpeza da casa e, sem dúvida, conforme o costume de então, fazia também quase todas as suas próprias roupas e as de sua família, ou então trabalhava para os de fora, a fim de aumentar o salário e o bem-estar de todos. Desta maneira, com sua vida obscura e laboriosa na oficina de José, Jesus elevou e enobreceu o trabalho manual, condição da maioria dos homens. Ao escolher para si e para seus pais o ofício de simples artesão, elevou e santificou de modo maravilhoso a condição das classes trabalhadoras, que doravante podem buscar em tão augustos exemplos o estímulo para a prática das mais nobres virtudes, e um motivo constante de alegria e contentamento6.

Assim se nos apresenta a Sagrada Família sob o teto de Nazaré, verdadeiro modelo da vida doméstica em suas mútuas relações de amor e em suas inefáveis belezas; vida que constitui a esfera de ação de milhares de fiéis em todo o mundo; onde o marido governa como José e a mulher obedece como Maria; onde os pais atendem à educação dos filhos, e estes imitam Jesus com sua obediência, seus progressos, sua alegria e a luz que espalham ao seu redor. Segundo a expressão de um piedoso autor que nos comprazemos em citar aqui, o lar cristão é “o vestíbulo do paraíso”, pelas graças que todos os dias e a cada momento o Céu derrama sobre ele, pelas numerosas virtudes que exercita e, finalmente, pelas alegrias que entesoura7.

Por isso, não é de estranhar que seja objeto de contínuos ataques por parte dos inimigos do gênero humano; e, se estes conseguem com frequência destacadas vitórias sobre o reino fundado aqui embaixo por Nosso Senhor Jesus Cristo, “é porque conseguiram manchar a santidade do matrimônio, destruir a autoridade dos pais ou esfriar os afetos e deveres dos filhos para com seus progenitores”. Aos olhos do Céu, não é tão detestável uma invasão de hordas selvagens avançando por uma região florescente e devastando-a a sangue e fogo, como uma lei que sanciona a dissolução do vínculo matrimonial, ou que arrebata as crianças ao cuidado e à educação dos pais.

Graças a Deus, a família cristã é uma instituição universal, defendida pela Igreja como sua mais bela criação e como o maior benefício que pôde prestar à sociedade. Ora, a luz, a paz, a pureza e a felicidade que irradiam do lar cristão, tudo isso dimana da vida que levaram, na santa casa de Nazaré, Jesus, Maria e José8.

HISTÓRIA DESTE CULTO. — O culto da Sagrada Família desenvolveu-se de modo especial no século XVII, por meio de piedosas associações que se propunham a santificação das famílias cristãs, imitando a do Verbo Encarnado. Esta devoção, introduzida no Canadá pelos Padres da Companhia de Jesus, propagou-se ali rapidamente graças ao zelo de Francisco de Montmorency-Laval, primeiro bispo de Quebec. Este virtuoso prelado, por sugestões e com a ajuda do Pe. Chaumonot e de Bárbara de Boulogne, viúva de Luís de Aillebout de Coulonges, antigo governador do Canadá, fundou em 1665 uma Confraria cujos estatutos ele mesmo determinou, instituindo pouco depois, canonicamente em sua diocese, a festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, e ordenando que se fizesse uso da Missa e do Ofício que mandara compor para tal ocasião.

Dois séculos mais tarde, diante das crescentes manifestações da piedade dos fiéis para com o mistério de Nazaré, o Papa Leão XIII, pelo Breve Neminem fugit, de 14 de junho de 1892, estabelecia em Roma a Associação da Sagrada Família, com o fim de unificar todas as confrarias instituídas sob este mesmo título. No ano seguinte, o mesmo Soberano Pontífice decretava que a festa da Sagrada Família fosse celebrada em todas as partes onde estava permitida, no terceiro domingo depois da Epifania, assinalando-lhe uma Missa nova e um Ofício cujos hinos ele mesmo havia composto. Finalmente, Bento XV, em 1921, estendia esta festa à Igreja universal, fixando-a no domingo dentro da Oitava da Epifania.

MISSA

INTROITO – Alegre-se muito o pai do Justo, alegrem-se teu Pai e tua Mãe; regozije-se aquela que te gerou.
Salmo: Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! Minha alma deseja e suspira pelos átrios do Senhor.
℣. Glória ao Pai.

Na Coleta, assim como na Secreta e na Pós-comunhão, a Igreja procura resumir os ensinamentos que propõe aos fiéis nesta festa, e indica-lhes os frutos que deseja vê-los tirar da contemplação deste mistério.

COLETA – Senhor Jesus Cristo, que, submetido a Maria e a José, consagrastes a vida doméstica com inefáveis virtudes: fazei que nós, com o auxílio de ambos, sejamos instruídos pelos exemplos de vossa santa Família, e alcancemos sua eterna companhia. Vós que viveis e reinais.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Colossenses.

Irmãos: Revesti-vos, como eleitos de Deus, santos e amados seus, de entranhas de misericórdia, de benignidade, de humildade, de modéstia e de paciência, suportando-vos mutuamente e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro. Assim como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. Mas, sobre todas estas coisas, tende caridade, porque ela é o vínculo da perfeição. E a paz de Cristo exulte em vossos corações, pois por ela fostes chamados a formar um só Corpo. E sede agradecidos. A Palavra de Cristo habite copiosamente em vós, em toda sabedoria, ensinando-vos e exortando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando com gratidão a Deus em vossos corações. Tudo quanto fizerdes, de palavra ou de obra, fazei-o em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando graças a Deus e ao Pai por Ele.

Neste trecho do Apóstolo São Paulo encontramos enumeradas as virtudes domésticas que devem adornar o lar cristão: doçura, humildade, paciência, virtudes que temperam a alma contra o choque dos defeitos e diferenças de caráter e temperamento; o amor mútuo, que faz com que cada um se esforce por aliviar as cargas dos demais, e que só conhece as desgraças e fraquezas para adoçar-lhes a amargura; a benévola indulgência, que sabe esquecer os atritos inevitáveis e predispõe os corações feridos ao perdão, imitando o Senhor que tudo perdoou.

Todas estas disposições morais têm sua raiz na caridade, da qual são como reflexos: graças a ela se aperfeiçoam as relações domésticas, sobrenaturalizam-se e se desenvolvem dentro de um amor profundo, de respeito, de mútuas atenções, de submissão e de obediência. A prática destas virtudes, unida aos atos de religião que santificam todas as alegrias e penas naturalmente anexas à vida de família, garante aos homens a maior participação possível na felicidade de que podem gozar aqui embaixo, buscando seu perfeito modelo nas figuras de Jesus, Maria e José.

GRADUAL – Uma coisa pedi ao Senhor, e esta buscarei: morar na Casa do Senhor todos os dias de minha vida.
℣. Felizes os que habitam em vossa Casa, Senhor: louvar-vos-ão pelos séculos dos séculos.

ALELUIA – Aleluia, aleluia.
℣. Verdadeiramente Vós sois um Rei escondido, sois o Deus de Israel, o Salvador. Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.

Quando Jesus tinha doze anos, subiram eles a Jerusalém, conforme o costume do dia da festa. E, passados os dias, voltando eles, ficou o Menino Jesus em Jerusalém; e seus pais não o perceberam. Pensando que estaria na caravana, andaram o caminho de um dia, e o procuraram entre os parentes e conhecidos. E, não o encontrando, voltaram a Jerusalém, procurando-o. E aconteceu que, três dias depois, o encontraram no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam se admiravam de sua prudência e de suas respostas. E, quando o viram, ficaram pasmados. E disse-lhe sua Mãe: Filho, por que fizeste isto conosco? Eis que teu pai e eu te procurávamos com dor. E Ele lhes disse: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me convém atender às coisas de meu Pai? Mas eles não entenderam o que lhes disse.

E desceu com eles e veio para Nazaré, e estava-lhes sujeito. E sua Mãe conservava em seu coração todas estas palavras. E Jesus crescia em sabedoria, em idade e em graça diante de Deus e dos homens.

Ó Jesus! Descestes do Céu para nos ensinar. A fraqueza da infância, que vos oculta aos nossos olhares, não impede que vosso zelo nos faça conhecer o único Deus que tudo criou, e a Vós, seu Filho, a quem Ele enviou.

Recostado no presépio e com um simples olhar, instruístes os pastores; sob vossos humildes panos e em vosso voluntário silêncio, revelastes aos Magos a luz que buscavam seguindo a estrela. Aos doze anos, explicais aos doutores de Israel as Escrituras que dão testemunho de Vós; pouco a pouco dissipais as trevas da Lei com vossa presença e com vossas palavras. Para cumprir a vontade de vosso Pai celestial, não hesitais em deixar inquieto o coração de vossa Mãe, buscando almas para iluminá-las.

Vosso amor pelos homens ferirá ainda com maior dureza esse terno coração no dia em que, pela salvação desses mesmos homens, ela vos há de contemplar pregado no madeiro da Cruz, expirando em meio a imensas dores. Sede bendito, ó Emanuel, nos primeiros mistérios de vossa infância, nos quais apareceis preocupado exclusivamente conosco, preferindo a companhia destes homens pecadores, que um dia hão de conspirar contra Vós, à de vossa própria Mãe.

OFERTÓRIO – Levaram seus pais Jesus a Jerusalém, para apresentá-lo ao Senhor.

SECRETA – Oferecemo-vos, Senhor, esta Hóstia de placação, e humildemente vos suplicamos que, por intercessão da Virgem, Mãe de Deus, e do bem-aventurado José, consolideis firmemente nossas famílias em vossa paz e graça. Pelo mesmo Senhor.

COMUNHÃO – Desceu Jesus com eles, e foi a Nazaré, e estava-lhes sujeito.

PÓS-COMUNHÃO – Aos que alimentais com estes celestes Sacramentos, fazei-os, Senhor, imitar sempre os exemplos de vossa santa Família: para que, na hora de nossa morte, acompanhados da gloriosa Virgem, vossa Mãe, e do bem-aventurado José, mereçamos ser recebidos por Vós nas moradas eternas. Vós que viveis e reinais.


 

1. Introito da Missa do Domingo dentro da Oitava da Epifania

2. Martirológio romano.

3. Lc. 2, 51-52.

4. Homilia I sobre a Senhora est.

5. São Justino. Diálogo comk Trifón, 88.

6. Leãio XVIII. Breve Neminem fugit de 14 de julho de 1892.

7. Coleride. La vie de notre ou Histore de Nostre Seigneur. J. C., III, c. 16.

8. Gosselin. Fé de Monsenhor de Lavál, I cap. 27.

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