III dia da Oitava da Epifania
8 DE JANEIRO
TERCEIRO DIA DA OITAVA DA EPIFANIA
ALIANÇA DE CRISTO E DA IGREJA
O grande Mistério da Aliança do Filho de Deus com sua Igreja universal, representada pelos três Reis Magos na Epifania, já fora pressentido pelos séculos que precederam a vinda do Emanuel. A voz dos Patriarcas e Profetas o publicou antecipadamente; e a própria Gentilidade se fez, por vezes, fiel eco dele.
Já no paraíso terrestre, exclamava Adão inocente, à vista da Mãe dos viventes saída de seu lado: “Eis osso dos meus ossos e carne da minha carne; deixará o homem seu pai e sua mãe, e unir-se-á à sua esposa; e serão dois numa só carne.” A luz do Espírito Santo iluminava então a alma de nosso primeiro pai; e, segundo o parecer dos mais profundos intérpretes dos mistérios da Sagrada Escritura — Tertuliano, Santo Agostinho, São Jerônimo —, celebrava-se já a Aliança do Filho de Deus com a Igreja, saída com a água e o sangue de seu lado aberto na Cruz; com a Igreja por cujo amor deixou a destra de seu Pai, para rebaixar-se até a forma de servo, e abandonou a Jerusalém celeste para compartilhar conosco esta morada terrena.
O segundo pai da humanidade, Noé, depois de ter contemplado no céu o arco da misericórdia como anúncio de novos favores celestes, profetizou em seus três filhos o futuro do mundo. Cam merecera a maldição de seu pai; por um momento, Sem pareceu o preferido: estava destinado à honra de ver sair de sua raça o Salvador do mundo. Contudo, lendo o Patriarca no futuro, exclamou: “Deus estenderá a herança de Jafé; e habitará nas tendas de Sem.” E pouco a pouco vemos, no correr dos tempos, que se vai enfraquecendo e chega quase a romper-se a antiga aliança contraída com o povo de Israel; as raças semíticas vacilam e logo caem no paganismo; enfim, o Senhor se une cada vez mais estreitamente à família de Jafé, à Gentilidade do Ocidente por tanto tempo abandonada, até que em seu seio coloca para sempre a Sede da religião, pondo-a à frente de toda a espécie humana.
Mais tarde, é o próprio Deus quem se dirige a Abraão e lhe prediz as inumeráveis gerações que dele sairão. “Olha para o céu — diz-lhe —; conta as estrelas, se podes: assim será o número de teus filhos.” Com efeito, como nos ensina o Apóstolo, a família saída da fé do Pai dos crentes haveria de ser mais numerosa que aquela da qual ele era origem por Sara; e todos os que receberam a fé do Mediador, todos os que, guiados pela Estrela, acorreram a Ele como a seu Senhor, todos esses são filhos de Abraão.
O Mistério torna a aparecer no próprio seio da esposa de Isaac. Ela sente com temor que seus dois filhos lutam em suas entranhas. Rebeca dirige-se ao Senhor, que lhe responde: “Dois povos há em teu seio; ambos se combaterão mutuamente; o segundo vencerá o primeiro, e o maior servirá ao mais jovem.” Ora, este mais jovem, este filho indomável, quem é, segundo a doutrina de São Leão e do bispo de Hipona, senão esse povo gentio que luta com Judá para obter a luz, e que, simples filho da promessa, acaba por sobrepor-se ao filho da carne?
Depois, é Jacó, em seu leito de morte, quem, tendo ao redor de si seus doze filhos, pais das doze tribos de Israel, assinala a cada um, de maneira profética, o papel que haverão de desempenhar no futuro. Judá é o preferido, porque será o rei de seus irmãos, e de seu glorioso sangue nascerá o Messias. Mas a profecia acaba sendo para Israel tão alarmante quanto consoladora para todo o gênero humano. “Judá, tu conservarás o cetro: tua raça será uma raça de reis, mas somente até que venha Aquele que há de ser enviado; Ele será o Esperado das nações.”
Depois da saída do Egito, ao entrar o povo de Israel na posse da terra prometida, exclamava Balaão, com o rosto voltado para o deserto completamente invadido pelas tendas e pavilhões de Jacó: “Eu O verei, mas ainda não; eu O contemplarei, porém mais tarde. Uma Estrela sairá de Jacó; um cetro régio surgirá de seu seio.” E, interrogado pelo rei idólatra, acrescentou Balaão: “Oh, quem pudesse viver quando Deus operar tudo isto! Virão da Itália em galeras; os Assírios serão subjugados; os Hebreus, devastados; e enfim também eles perecerão.” Qual será o império que substituirá esse de ferro e morte? O de Cristo, que é a Estrela, e que será o único Rei eterno.
Davi abunda em pressentimentos deste grande dia. Em cada página celebra a realeza de seu Filho segundo a carne; mostra-no-Lo investido de cetro, cingido com a espada, ungido pelo Pai dos séculos, levando seus domínios de uma extremidade à outra dos mares; depois, conduz a seus pés os Reis de Társis e das ilhas longínquas, os Reis da Arábia e de Sabá, os Príncipes da Etiópia. Canta também seus presentes de ouro e suas adorações.
Em seu maravilhoso epitalâmio, o autor do Cântico dos Cânticos descreve as delícias da celeste união do divino Esposo com a Igreja; esta afortunada Esposa não é a Sinagoga. Cristo a chama com delicadeza para coroá-la; mas sua voz se dirige àquela que mora além das fronteiras do povo escolhido. “Vem — diz Ele —, minha prometida, vem do Líbano; desce dos cumes de Amana, das alturas do Sanir e do Hermon; sai das negras cavernas dos dragões, deixa os montes habitados por leopardos.” Mas a filha do Faraó replica: “Sou negra”; porém não se perturba em suas palavras, porque sabe muito bem que a graça de seu Esposo a tornou bela.
Em seguida levanta-se o profeta Oseias, que diz em nome do Senhor: “Escolhi um homem, que não me dará doravante o nome de Baal. Tirarei de sua boca esse nome, e dele não se tornará a lembrar. E Eu me unirei a ti para sempre, ó homem novo! Espalharei tua raça por toda a terra; terei compaixão de quem não conheceu a misericórdia; àquele que não era meu povo, direi: Povo meu! E ele me responderá: Meu Deus!”
Tobias, por sua vez, do fundo do cativeiro, pronunciou uma magnífica profecia; a seus olhos desaparece a Jerusalém que há de receber os judeus libertados por Ciro, diante da presença de outra Jerusalém mais brilhante e formosa. “Nossos irmãos dispersos — diz ele — voltarão à terra de Israel; a casa de Deus será novamente edificada. Todos os que temem a Deus acorrerão para lá; os Gentios deixarão seus ídolos e virão a Jerusalém e nela habitarão; todos os reis da terra fixarão nela sua morada em meio à alegria, vindo adorar o Rei de Israel.”
E se as nações devem ser despedaçadas pela justiça de Deus por causa de seus pecados, será para chegarem depois à felicidade de uma aliança eterna com Deus. Porque Ele mesmo diz por seu profeta Sofonias: “Minha justiça é reunir as nações, juntar os reinos num só feixe; sobre eles derramarei minha indignação e todo o ardor de minha ira; toda a terra será consumida. Mas em seguida darei aos povos uma linguagem escolhida, para que todos invoquem o nome do Senhor e levem juntos o meu jugo. De além dos rios da Etiópia me invocarão; os filhos dos povos dispersos me trarão presentes.”
O Senhor já havia anunciado seus misericordiosos desígnios pela boca de Ezequiel: “Um único Rei mandará em todos — diz o Senhor —; não haverá mais duas nações, nem dois reinos. Não se mancharão mais com seus ídolos; Eu os salvarei ali mesmo onde pecaram; eles serão meu povo, e Eu serei seu Deus. Haverá um só pastor para todos. Farei com eles uma aliança de paz, um pacto eterno; multiplicá-los-ei, e meu santuário estará no meio deles para sempre.”
Por isso Daniel, depois de ter profetizado os impérios que haveriam de suceder ao romano, acrescenta: “Mas o Deus do céu suscitará por sua vez um Império que jamais será destruído, e cujo cetro não passará a outro povo. Este Império ultrapassará os limites de todos os que o precederam, e durará eternamente.”
Sobre os cataclismos que haverão de preceder a chegada desse Pastor único e o estabelecimento desse santuário eterno que se há de levantar no meio dos Gentios, o profeta Ageu fala da seguinte maneira: “Ainda um pouco mais de tempo, e abalarei o céu, a terra e o mar; confundirei todos os povos, e então virá o Desejado das nações.”
Seria preciso citar todos os Profetas para assinalar bem todos os traços desse grande espetáculo prometido ao mundo pelo Senhor para o dia em que, lembrando-se das nações, as chamasse aos pés do Emanuel. A Igreja nos fez ouvir a voz de Isaías na Epístola desta festa, e o filho de Amós é certamente o mais eloquente de todos.
Se agora dermos ouvidos às vozes que sobem até nós do seio da Gentilidade, ouviremos esse clamor de ansiedade, expressão do desejo universal que os Profetas hebreus haviam anunciado. A voz das Sibilas despertou a esperança no coração dos povos; o Cisne de Mântua, no próprio seio de Roma, consagra seus mais belos versos a reproduzir seus consoladores vaticínios: “A última idade — diz ele —, a idade predita pela Virgem de Cumas, chegou; uma nova era vai começar; uma nova raça desce do céu. A idade de ferro termina ao nascer esse Menino; um povo de ouro se dispõe a invadir a terra. As marcas de nossos crimes serão apagadas; e desaparecerá o terror que dominava o mundo.”
Como respondendo aos vãos escrúpulos daqueles que temiam reconhecer, com Santo Agostinho e outros muitos santos Doutores, a voz das antigas tradições expressando-se pela boca das Sibilas, Cícero, Tácito e Suetônio, filósofos e historiadores gentios, acorrem também a confirmar que o gênero humano esperava em seu tempo um Libertador; que este Libertador devia sair não somente do Oriente, mas da Judeia; e que os tempos do Império que devia abarcar o mundo inteiro estavam para começar.
Compartilhavam essa universal espera de vossa chegada, ó Emanuel, os Magos, a cujos olhos fizestes aparecer a Estrela; por isso não perderam um só momento, pondo-se imediatamente a caminho em busca do Rei dos Judeus, cujo nascimento lhes havia sido anunciado. Eram muitas as profecias que neles se realizavam; mas, se eles recebiam as primícias, nós possuímos a plenitude de seu efeito. A aliança está firmada, e pertencem-Vos nossas almas, por cujo amor descestes do céu; a Igreja brotou de vosso divino lado, juntamente com a água e o sangue; tudo quanto fizestes pela Esposa predestinada, realizais também em cada um de seus fiéis filhos.
Descendentes de Jafé, deserdamos a raça de Sem que nos fechava suas tendas; e o direito de primogenitura de que gozava Judá passou a nós. Nosso número tende, de século em século, a igualar o número das estrelas. Longe já de nós a ansiedade da espera; apareceu a Estrela, e o Rei que ela anunciava não cessará jamais de derramar sobre nós seus benefícios. Os Reis de Társis e das Ilhas, os Reis da Arábia e de Sabá, os Príncipes da Etiópia chegaram com seus presentes, e todas as gerações os seguiram. A Esposa, entronizada com todas as honras, já não se lembra dos montes de Amana nem das alturas de Sanir e do Hermon, onde suspirava em companhia dos leopardos; deixou de ser negra, e é bela, sem manchas nem rugas, digna do divino Esposo. Esqueceu Baal para sempre; e fala com amor a linguagem que o próprio Deus lhe ensinou. Um só Pastor apascenta o único redil; o último Império prossegue seus destinos até a eternidade.
Vós sois, ó divino Menino, Aquele que viestes trazer-nos todos estes bens e receber todas essas homenagens. Crescei, pois, ó Rei dos Reis; saí logo de vosso silêncio. Depois que tivermos saboreado as lições de vossa humildade, falai-nos como Mestre. Há muito tempo reina César Augusto, e a Roma pagã se crê eterna. Já é tempo de que o trono da força ceda seu lugar ao trono da caridade, e que a nova Roma se levante sobre a antiga. As nações batem à porta e procuram seu Rei; apressai o dia em que não tenham necessidade de vir a Vós, mas em que vossa misericórdia as vá buscar por meio da pregação evangélica.
Mostrai-lhes Aquele a quem foi dado todo poder no céu e na terra; mostrai-lhes a Rainha que escolhestes para elas. Eleve-se logo Maria, em asas dos Anjos, desde a humilde morada de Nazaré, desde o pobre estábulo de Belém, até o trono da misericórdia, de cuja altura protegerá todos os povos e todas as gerações.


