Oratório São José

Quarta-Feira dentro da Oitava do Sagrado Coração

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUARTA-FEIRA DA INFRAOITAVA DO SAGRADO CORAÇÃO

A REPARAÇÃO NO CULTO AO SAGRADO CORAÇÃO

O espírito de reparação ou expiação ocupou sempre um lugar principal no culto tributado ao Sagrado Coração de Jesus; e, ao elevar o Papa Pio XI sua festa ao rito de primeira classe, com oitava, dotando-a de nova Missa e Ofício, quis fazer dela a festa por excelência da reparação.

Em suas aparições à santa salesa, Nosso Senhor declarou-lhe a infinidade de seu amor e queixou-Se suavemente de não receber, como resposta por parte dos homens, mesmo daqueles que Lhe são consagrados, senão injúrias e ingratidões.

PARTICIPAR DOS SOFRIMENTOS DE CRISTO

Pode parecer inverossímil que Nosso Senhor Jesus Cristo, que Se encontra nos céus rodeado dos louvores dos Anjos e dos bem-aventurados, inacessível ao sofrimento e à dor, deseje ainda consolos de suas criaturas terrenas. A Encíclica no-lo esclarece:

“Se, por causa de nossos pecados que haviam de ser cometidos e eram previstos, a alma de Cristo entristeceu-se até ver-se em transe de morte, não há dúvida de que já então recebeu também algum outro consolo de nossa cooperação, igualmente prevista, quando Lhe apareceu um Anjo do céu para consolar seu Coração oprimido pelo tédio e pela angústia.”

De nós depende, pois, de nossa covardia ou generosidade, que, na noite da Quinta para a Sexta-feira Santa, Cristo sofra ou Se ache confortado.

Este amor e esta reparação brotarão espontaneamente de nossas almas se considerarmos atentamente tudo quanto Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu por nós durante sua Paixão, “pois foi triturado por nossas iniquidades, para que fôssemos curados por suas chagas”1. “Seu Coração suportou a ingratidão e o opróbrio, e esperou que alguém se entristecesse com Ele, e não houve; e quem O consolasse, e não encontrou”2.

PARTICIPAR DOS SOFRIMENTOS DE SEU CORPO MÍSTICO

Mas esta Paixão que Cristo padeceu em seu corpo físico continua a experimentá-la em seu Corpo Místico, que é a Igreja. Todo o mal que se faz à Igreja fere-O pessoalmente, pois a Igreja é, em certo sentido, Ele mesmo, já que disse: “Quem vos despreza, a Mim despreza”3.

Amou a Igreja e entregou-Se à morte por ela, a fim de santificá-la e de preparar para Si uma Esposa bela em todos os sentidos, sem mancha, sem ruga, sempre jovem4. Enviou-lhe o Espírito Santo, e, depois de Pentecostes, ela gera sem cessar numerosos filhos para a vida da graça.

Compreende-se, por isso mesmo, o que Ele já havia dito a Saulo, e que poderia repetir a todos aqueles que impedem a Igreja de realizar sua obra de ensino e santificação dos homens; que caluniam sua doutrina, sua hierarquia e seus membros; que corrompem as almas pela imprensa, pela escola e pelos espetáculos de todo gênero: “Eu sou Jesus, a quem vós perseguis”5; contra Mim são dirigidos os vossos golpes cruéis.

“Com muita razão, pois — conclui Pio XI —, padecendo como ainda padece Cristo em seu Corpo Místico, deseja ter-nos por companheiros de sua expiação, e isto exige também nossa própria união com Ele; pois, como somos ‘corpo de Cristo e membros do membro principal’6, qualquer coisa que padeça a cabeça, é necessário que padeçam com ela todos os membros.”

Nosso Senhor pediu isto muitas vezes à confidente de seu Coração. Eis o que ela mesma nos conta:

“Apresentou-Se a mim sob a figura de Ecce Homo, carregado com sua cruz, coberto de espinhos e contusões. Seu sangue adorável corria de todas as partes, e dizia com voz dolorosa e triste: Não se encontrará uma pessoa que tenha compaixão de Mim, e que queira compadecer-se e tomar parte em minha dor, no lastimoso estado em que Me põem os pecadores, sobretudo os atuais?”

Outro dia, Nosso Senhor apresentou-me cinco corações que se haviam separado do seu e se afastavam voluntariamente de seu amor, e disse-me: “Toma tu esta carga e participa das amarguras de meu Coração; derrama lágrimas de sangue diante da insensibilidade destes corações que Eu havia escolhido para consagrá-los ao meu amor”7.

QUEIXA DO SAGRADO CORAÇÃO

Este lamento do Senhor, que partia de dor a alma de Santa Margarida Maria, dirige-se também a nós, tanto mais quanto talvez por nossas faltas tenhamos sido causa de maiores sofrimentos para nosso Redentor. Escutemo-Lo dirigir-Se a nós como à Santa:

“Tu, ao menos, proporciona-Me o prazer de desagravar-Me das ingratidões dos homens, quanto fores capaz… Primeiro, receber-Me-ás no Santíssimo Sacramento tantas vezes quantas a obediência te permitir. Além disso, comungarás em todas as primeiras sextas-feiras do mês; e, em todas as noites de quinta para sexta-feira, far-te-ei participar da tristeza mortal que quis sentir no monte das Oliveiras… E, para que Me acompanhes na humilde oração que então fiz a meu Pai, no meio de minha angústia, levantar-te-ás às onze horas da noite para meditar uma hora comigo, com o rosto em terra, a fim de acalmar a cólera divina, pedindo misericórdia para os pecadores, e para suavizar a amargura do abandono de meus Apóstolos”8.

Tais são as práticas que também nos recomenda a Encíclica, e que a Igreja aprovou e enriqueceu com abundantes indulgências, para nos animar a responder ao desejo do Sagrado Coração de Jesus e a consolá-Lo.

Terminaremos apresentando o texto da consagração composta pelo Beato Cláudio de la Colombière:

“Ó meu adorável Redentor, entrego-me e consagro-me ao vosso Coração do modo mais perfeito e amplo possível. Preguei-me à vossa Cruz pelos votos de minha profissão; renovo-os neste Coração divino diante do céu e da terra; dou-Vos graças por me os haverdes inspirado.

Confesso que o jugo de vosso santo serviço não é duro nem pesado, que não me acho constrangido nem incomodado por meus laços. Quisera, ao contrário, multiplicá-los e apertar ainda mais os nós.

Abraço-me, pois, à amável cruz de minha vocação até a morte; nela coloco todo o meu prazer, minha glória e minhas delícias. Absit mihi gloriari nisi in Cruce Domini Nostri Jesu Christi, per quem mihi mundus crucifixus est et ego mundo. Não permita Deus que eu me glorie senão na Cruz de Jesus Cristo.

Não permita Deus que eu tenha outro tesouro senão o de sua pobreza, outras delícias senão as de seus sofrimentos, outro amor senão Ele mesmo! Não, não, meu amado Salvador, jamais me apartarei de Vós, e somente a Vós me unirei; já não me aterrorizam os estreitíssimos caminhos da vida perfeita, à qual me sinto chamado, porque Vós sois minha luz e minha fortaleza.

Espero, pois, Senhor, que Vós me fareis inquebrantável nas tentações, vitorioso diante dos esforços de meus inimigos, e estendereis sobre mim essa mão que tantos favores me fez, para que cada dia sejais mais liberal comigo.

Peço-Vos isto, meu adorável Jesus, por vosso Sangue, por vossas chagas e por vosso Sagrado Coração: fazei que, pela consagração que Vos faço de todo o meu ser, eu venha a ser neste dia uma nova manifestação de vosso amor. Assim seja.”

 


 

1. Is. 53, 5.

2. Sl. 68, 21.

3. Lc. 10, 16.

4. Ef. 5, 22.

5. At. 9, 5.

6. I Cor. 12, 27.

7. Vie et Cewvres, 2 p. 116; 181.

8. Vie et Cewvres, 2 p. 71-72.

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