Oratório São José

Domingo da Santíssima Trindade

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE

RAZÃO DESTA FESTA E DE SUA TARDIA INSTITUIÇÃO

Vimos os Apóstolos, no dia de Pentecostes, receberem o Espírito Santo e, fiéis ao mandato do Mestre1, partirem sem demora para ensinar todas as nações e batizar os homens em nome da Santíssima Trindade. Era natural que a solenidade cujo objeto é honrar a Deus, uno em três Pessoas, seguisse imediatamente a de Pentecostes, à qual se une por misterioso laço. Entretanto, só depois de muitos séculos foi ela admitida no Ano Litúrgico, que se vai completando no decurso dos tempos.

Todas as homenagens que a Liturgia rende a Deus têm por objeto a Santíssima Trindade. O tempo Lhe pertence tanto quanto a eternidade; Ela é o termo de toda a nossa religião. Cada dia, cada hora, Lhe pertencem. As festas instituídas para comemorar os mistérios de nossa salvação têm sempre n’Ela o seu fim. As festas da Santíssima Virgem e dos Santos são outros tantos meios que nos conduzem à glorificação do Senhor, único em essência e trino em Pessoas. O Ofício divino do domingo, em particular, encerra cada semana a expressão especialmente formulada da adoração e do serviço para com este mistério, fundamento dos demais e fonte de toda graça.

Compreende-se, por isso mesmo, por que a Igreja tardou tanto em instituir uma festa especial em honra da Santíssima Trindade. A causa ordinária da instituição das festas faltava aqui por completo. Uma festa é o monumento de um fato realizado no tempo, e cuja lembrança e influência convém perpetuar; ora, desde toda a eternidade, antes de toda criação, Deus vive e reina, Pai, Filho e Espírito Santo. Esta instituição não podia, pois, consistir senão em assinalar no calendário um dia particular em que os cristãos se unissem de modo mais direto na glorificação solene do mistério da unidade e da trindade em uma mesma natureza divina.

SÍNTESE HISTÓRICA DESTA FESTA

A ideia nasceu primeiro em algumas dessas almas piedosas e amantes da solidão, que recebem do alto o pressentimento das coisas que o Espírito Santo há de operar mais tarde na Igreja. No século VIII, o sábio monge Alcuíno, cheio do espírito da Liturgia, julgou ter chegado o momento de compor uma Missa votiva em honra do mistério da Santíssima Trindade. E parece até ter sido animado a isso pelo apóstolo da Alemanha, São Bonifácio. Esta Missa era apenas um auxílio à piedade privada, e nada fazia prever a instituição da festa que um dia haveria de se estabelecer. Mas a devoção a esta Missa se estendeu pouco a pouco, e a vemos introduzida na Alemanha pelo Concílio de Seligenstadt em 1022.

Mas já por essa época uma festa propriamente dita da Santíssima Trindade havia sido inaugurada em uma igreja da Bélgica. Estêvão, bispo de Liège, instituiu solenemente a festa da Santíssima Trindade em sua Igreja no ano de 920, e mandou compor um ofício completo em honra do mistério. Ainda não existia a disposição do direito comum que agora reserva à Sé Apostólica a instituição das novas festas, e Riquier, sucessor de Estêvão na sede de Liège, manteve a determinação de seu predecessor.

A festa estendeu-se pouco a pouco, e a Ordem monástica, ao que parece, a acolheu favoravelmente; pois vemos, desde os primeiros anos do século XI, Bernão, abade de Reichenau, ocupar-se de sua propagação. Em Cluny, a festa se estabeleceu muito cedo durante esse mesmo século, como se vê pelo Ordinário do mosteiro, redigido em 1091, onde é mencionada como instituída havia muito tempo.

No pontificado de Alexandre II —1061-1073—, a Igreja Romana, que muitas vezes deu força de lei aos usos de igrejas particulares ao adotá-los, viu-se obrigada a dar um juízo acerca desta nova festa. O Pontífice, em uma de suas decretais, constatando que a festa já estava difundida por muitos lugares, declara que a Igreja Romana não a aceitara, pela razão de que a adorável Trindade é invocada sem cessar todos os dias pela repetição destas palavras: Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto, e em muitas outras fórmulas de louvor.

Apesar disso, a festa continuava a estender-se, como atesta o Micrologium; e, na primeira metade do século XII, o abade Ruperto proclama a conveniência desta instituição, exprimindo-se a seu respeito como o faríamos hoje: “Depois de celebrar a solenidade da vinda do Espírito Santo, cantamos a glória da Santíssima Trindade no Ofício do domingo seguinte; esta disposição é muito oportuna, porque, depois da vinda deste Espírito divino, começaram a pregação e a crença, e, no Batismo, a fé e a confissão do nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”2.

Na Inglaterra, a instituição da festa da Santíssima Trindade teve como principal autor o mártir São Tomás de Cantuária; em 1162, ele a instituiu em sua Igreja, em memória de sua consagração episcopal, que teve lugar no primeiro domingo depois de Pentecostes. Na França encontramos, em 1260, um Concílio de Arles, presidido pelo arcebispo Florentino, que, em seu sexto cânon, proclama solenemente a festa, acrescentando-lhe o privilégio de uma oitava. Desde 1230, a Ordem Cisterciense, espalhada por toda a Europa, a instituiu para todas as suas casas; e Durando de Mende, em seu Racional, dá fundamento para concluir que a maior parte das igrejas latinas, no curso do século XIII, já gozavam da celebração desta festa.

Entre estas igrejas havia algumas que a colocavam não no primeiro, mas no último domingo depois de Pentecostes; e outras que a celebravam duas vezes: primeiro, à frente dos domingos que seguem a solenidade de Pentecostes, e depois no domingo que precede imediatamente o Advento. Tal era, em particular, o uso das igrejas de Narbona, de Mans e de Auxerre.

Desde então, podia-se prever que a Sé Apostólica acabaria por sancionar uma instituição que a cristandade desejava ver estabelecida em toda parte. João XXII, que ocupou a cátedra de São Pedro até 1334, consumou a obra por um decreto no qual a Igreja Romana aceitava a festa da Santíssima Trindade e a estendia a todas as igrejas.

Se buscamos agora o motivo que teve a Igreja, dirigida em tudo pelo Espírito Santo, ao assinalar um dia especial no ano para render homenagem solene à Trindade, quando todas as nossas adorações, todas as nossas ações de graças e todos os nossos votos, em todo tempo, sobem a Ela, encontrá-lo-emos na modificação que então se introduzia no calendário litúrgico.

Até o ano 1000, as festas dos Santos universalmente honrados eram raras. Desde essa época, tornaram-se mais numerosas, e era de prever que se multiplicariam cada vez mais. Viria um tempo, e duraria séculos, em que o Ofício do domingo, especialmente consagrado à Santíssima Trindade, cederia frequentemente o lugar ao dos Santos que o curso do ano traz consigo. Era necessário, para legitimar de algum modo o culto dos servos no dia consagrado à suma Majestade, que, ao menos uma vez por ano, o domingo oferecesse a expressão plena e direta dessa profunda religião que o culto da Santa Igreja professa ao supremo Senhor, que Se dignou revelar-Se aos homens em sua Unidade inefável e em sua eterna Trindade.

A ESSÊNCIA DA FÉ

A essência da fé cristã consiste no conhecimento e na adoração de Deus uno em três Pessoas. Deste mistério procedem os outros; e, se a nossa fé se nutre dele como de seu alimento supremo, esperando que sua visão eterna nos eleve a uma felicidade sem fim, é porque o Senhor Se compraz em manifestar-Se tal qual é à nossa humilde inteligência, permanecendo em sua “luz inacessível”3.

A razão humana pode chegar a conhecer a existência de Deus como Criador de todos os seres, e pode ter uma ideia de suas perfeições contemplando suas obras; mas a noção do ser íntimo de Deus não pode chegar até nós senão pela revelação que Ele Se dignou fazer-nos.

Ora, querendo o Senhor manifestar-nos misericordiosamente sua essência, a fim de unir-nos mais estreitamente a Ele e preparar-nos de algum modo para a visão que deve dar-nos de Si mesmo face a face na eternidade, conduziu-nos sucessivamente de claridade em claridade, até que fôssemos suficientemente iluminados para reconhecer e adorar a Unidade na Trindade e a Trindade na Unidade.

Durante os séculos que precedem a Encarnação do Verbo eterno, Deus parece preocupado sobretudo em inculcar nos homens a ideia de sua unidade, porque o politeísmo se tornava o maior mal do gênero humano, e a própria noção da causa espiritual e única de todas as coisas se teria apagado sobre a terra, se a bondade soberana não velasse constantemente por sua conservação.

O FILHO REVELA O PAI

Era preciso que chegasse a plenitude dos tempos; então Deus enviaria a este mundo seu Filho único, eternamente gerado d’Ele. Realizou este desígnio de sua munificência, “e o Verbo Se fez carne e habitou entre nós”4. Ao ver sua glória, que é a do Filho único do Pai5, sabemos que em Deus há Pai e Filho.

A missão do Filho sobre a terra, como Ele mesmo nos revelou, ensina-nos que Deus é Pai eternamente, porque tudo o que há em Deus é eterno. Sem esta revelação, que antecipa em nós a luz que esperamos depois desta vida, nosso conhecimento de Deus ficaria muito imperfeito. Convém que haja relação entre a luz da fé e a da visão que nos está reservada, e não bastava ao homem saber que Deus é uno.

Agora conhecemos o Pai, do qual, como diz o Apóstolo, dimana toda paternidade, mesmo sobre a terra6. O Pai não é para nós somente um poder criador que produz seres fora de Si; nossos olhos, guiados pela fé, penetram até o seio da essência divina, e ali contemplamos o Pai gerando um Filho semelhante a Ele. Mas, para nos ensinar isto, o Filho desceu até nós. Disse-o expressamente: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”7. Glória, pois, ao Filho, que Se dignou manifestar-nos o Pai, e glória ao Pai, que o Filho nos revelou!

Deste modo, a ciência íntima de Deus veio-nos pelo Filho, que o Pai, em seu amor, nos deu8; e, a fim de elevar nossos pensamentos até sua natureza divina, este Filho de Deus, que Se revestiu de nossa natureza humana em sua Encarnação, ensinou-nos que Ele e seu Pai são um9, que são uma mesma essência na distinção das Pessoas. Um gera; o outro é gerado. O primeiro é chamado poder; o segundo, sabedoria, inteligência. O poder não pode existir sem inteligência, nem a inteligência sem poder, no ser soberanamente perfeito; mas um e outro requerem um terceiro termo.

O PAI E O FILHO ENVIAM O ESPÍRITO SANTO

O Filho, enviado pelo Pai, subiu aos céus com sua natureza humana, que uniu a Si por toda a eternidade. E agora o Pai e o Filho enviam aos homens o Espírito que procede de um e de outro. Por este novo dom, o homem chega a conhecer que em Deus há três Pessoas. O Espírito, laço eterno das duas primeiras, é a vontade, o amor, na essência divina. Em Deus está, pois, a plenitude do ser, sem princípio, sem sucessão, sem aumento, porque nada Lhe falta. Nestes três termos eternos de sua substância incriada, Ele é ato puro e infinito.

A LITURGIA, LOUVOR DA TRINDADE

A sagrada Liturgia, que tem por objeto a glorificação de Deus e a comemoração de suas obras, segue cada ano as fases destas manifestações, nas quais o sumo Senhor Se declarou por inteiro aos simples mortais.

Sob as cores sombrias do Advento, atravessamos um período de espera durante o qual o refulgente triângulo deixava apenas penetrar alguns raios através da nuvem. O mundo implorava um libertador, um Messias, e o próprio Filho de Deus devia ser o libertador, o Messias. Para que compreendêssemos plenamente os oráculos que no-Lo anunciavam, era necessário que Ele viesse. Um Menino nos nasceu¹10, e temos já a chave das profecias. Adorando o Filho, adoramos também o Pai, que no-Lo enviava na carne e com quem Ele era consubstancial.

Este Verbo de vida, a quem vimos, a quem escutamos, a quem nossas mãos tocaram11 na humanidade que Se dignou tomar, convenceu-nos de que é verdadeiramente uma Pessoa, distinta do Pai, visto que um envia e o outro é enviado. Nesta segunda Pessoa divina encontramos o Mediador que uniu a criação ao seu Autor, o Redentor de nossos pecados, a luz de nossas almas, o Esposo a quem elas aspiram.

Ao terminar a série dos mistérios que Lhe são próprios, celebramos a vinda do Espírito santificador, anunciado como aquele que devia vir para aperfeiçoar a obra do Filho de Deus. Nós O adoramos e reconhecemos como distinto do Pai e do Filho, que no-Lo enviavam com a missão de permanecer conosco12. Manifestou-Se nas operações divinas que Lhe são próprias, porque são o objeto de sua vinda. É a alma da Igreja, a quem conserva na verdade que o Filho lhe ensinou. É o princípio da santificação de nossas almas, nas quais quer fazer sua morada.

Em uma palavra, o mistério da Santíssima Trindade tornou-se para nós — filhos adotivos do Pai, irmãos e coerdeiros do Filho, movidos e habitados pelo Espírito Santo — não só um dogma dado a conhecer à nossa inteligência pela revelação, mas uma verdade conhecida praticamente por nós, graças à generosidade inaudita das três divinas Pessoas.

MISSA

Embora o Sacrifício da Missa seja sempre celebrado em honra da Santíssima Trindade, hoje a Igreja, em seus cânticos, orações e leituras, glorifica mais expressamente o grande mistério que é o fundamento da fé cristã. Mas faz-se comemoração do primeiro domingo depois de Pentecostes, para não interromper a ordem da Liturgia. A Igreja emprega para esta solenidade a cor branca, em sinal de alegria, e para exprimir a simplicidade e a pureza da essência divina.

O Introito não é tirado das Sagradas Escrituras. É uma fórmula de louvor própria deste dia, e a Santíssima Trindade nele é representada como a fonte divina das misericórdias que foram derramadas sobre os homens.

INTROITO – Bendita seja a Santa Trindade e a indivisível Unidade: louvemo-La, porque operou conosco a sua misericórdia.
Salmo: Senhor, nosso Senhor, quão admirável é o vosso nome em toda a terra!
V. Glória ao Pai…

 

COLETA – Ó Deus onipotente e sempiterno, que destes a vossos servos a graça de conhecer, na confissão da verdadeira fé, a glória da eterna Trindade, e de adorar a Unidade na potência de vossa Majestade: suplicamo-Vos que façais com que, pela firmeza desta mesma fé, sejamos sempre protegidos contra toda adversidade. Por Nosso Senhor.

Na Coleta, a Igreja pede para nós a firmeza na fé que nos faz confessar em Deus a Unidade e a Trindade. É a primeira condição de salvação, o primeiro laço com Deus. Com ela venceremos nossos inimigos e sairemos triunfantes de todos os obstáculos.

COMEMORAÇÃO DO PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES – Ó Deus, fortaleza dos que esperam em Vós, escutai propício as nossas súplicas; e, visto que a fraqueza mortal nada pode sem Vós, dai-nos o auxílio de vossa graça, para que, cumprindo os vossos mandamentos, Vos agrademos pela vontade e pela ação. Por Nosso Senhor…

 

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos. 11, 33-36.

Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os seus juízos e quão impenetráveis os seus caminhos! Pois quem conheceu o pensamento de Deus? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem Lhe deu primeiro, para que seja retribuído? Porque d’Ele, por Ele e n’Ele existe tudo: a Ele a glória pelos séculos. Amém.

OS DESÍGNIOS DE DEUS

Não podemos deter nossa mente nos decretos divinos sem experimentar uma espécie de vertigem. O eterno e o infinito deslumbram nossa fraca razão, e esta razão, ao mesmo tempo, os reconhece e confessa. Ora, se os desígnios de Deus sobre as criaturas excedem nossos alcances, como nos será conhecida a natureza íntima do soberano Ser?

Entretanto, distinguimos e glorificamos nesta essência incriada o Pai, o Filho e o Espírito Santo; porque o Pai Se revelou a Si mesmo enviando-nos o seu Filho, objeto de suas eternas complacências; porque o Filho nos manifestou sua personalidade tomando nossa carne, que o Pai e o Espírito Santo não tomaram com Ele; porque o Espírito Santo, enviado pelo Pai e pelo Filho, veio cumprir em nós a missão que deles recebeu.

Nossos olhos perscrutam estas profundezas sagradas, e nosso coração se enternece pensando que, se conhecemos a Deus, é por seus benefícios que Ele formou em nós a noção do que Ele é. Guardemos com amor esta fé, e esperemos com confiança o momento em que ela cessará para dar lugar à visão eterna daquilo que neste mundo cremos.

O Gradual e o Verso aleluiático respiram alegria e admiração diante desta elevada majestade, que Se dignou fazer baixar seus raios até o fundo de nossas trevas.

GRADUAL – Bendito sois Vós, Senhor, que perscrutais os abismos e estais sentado sobre os querubins.
V. Bendito sois Vós, Senhor, no firmamento estrelado, e louvado pelos séculos. Aleluia, aleluia.
V. Bendito sois Vós, Senhor, Deus de nossos pais, e louvado pelos séculos. Aleluia.

 

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus. 28, 18-20.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Foi-Me dado todo poder no céu e na terra. Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a observar tudo quanto vos mandei. E eis que Eu estou convosco até a consumação dos séculos.

A FÉ NA TRINDADE

O mistério da Santíssima Trindade, manifestado pela missão do Filho de Deus a este mundo e pela promessa do próximo advento do Espírito Santo, é intimado aos homens por estas solenes palavras que Jesus pronunciou antes de subir ao céu. Disse: “Aquele que crer e for batizado será salvo”13; mas acrescenta que o Batismo será administrado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

É preciso que, doravante, o homem confesse não só a unidade de Deus, abjurando o politeísmo, mas adore a Trindade de Pessoas na unidade da essência. O grande segredo do céu é agora uma verdade divulgada por toda a terra.

AÇÃO DE GRAÇAS

Mas, se confessamos humildemente a Deus conhecido tal qual é em Si, devemos também render homenagem com eterno reconhecimento à gloriosa Trindade. Não só Se dignou imprimir seus traços divinos em nossa alma, fazendo-a à sua semelhança; mas, na ordem sobrenatural, apoderou-Se de nosso ser e o elevou a uma grandeza incomensurável: o Pai nos adotou em seu Filho encarnado; o Verbo ilumina nossa inteligência com sua luz; o Espírito Santo escolheu-nos para sua morada: é isto que indica a forma do Batismo.

Por estas palavras pronunciadas sobre nós com a infusão da água, toda a Trindade tomou posse de sua criatura. Recordamos esta maravilha cada vez que invocamos as três divinas Pessoas ao fazer sobre nós o sinal da cruz.

Quando nossos despojos mortais forem levados à casa de Deus para receber ali as últimas bênçãos e o adeus da Igreja da terra, o sacerdote pedirá ao Senhor que não entre em juízo com o seu servo; e, para atrair sobre este cristão, já entrado em sua eternidade, os olhares da misericórdia divina, recordará ao supremo Juiz que este membro da raça humana “esteve marcado durante sua vida com o selo da Santíssima Trindade”. Veneremos em nós esta augusta imagem, que será eterna. A própria reprovação não a apagará. Seja ela nossa esperança, nosso melhor título, e vivamos para a glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

No Ofertório, a Igreja se prepara para o sacrifício invocando sobre a oblação o nome das três Pessoas, e proclamando sempre a divina misericórdia.

OFERTÓRIO – Bendito seja Deus Pai, e o Filho unigênito de Deus, e o Espírito Santo: porque operou conosco a sua misericórdia.

A Igreja pede na Secreta que a homenagem de nós mesmos, que oferecemos neste Sacrifício à divina Trindade, não Lhe seja apresentada somente hoje, mas seja eterna por nossa admissão no céu, onde contemplaremos sem véus o mistério de Deus uno em três Pessoas.

SECRETA – Suplicamo-Vos, Senhor nosso Deus, que santifiqueis, pela invocação de vosso santo nome, a hóstia desta oblação; e, por ela, nos convertais para Vós em um dom eterno. Por Nosso Senhor.

 

COMEMORAÇÃO DO DOMINGO – Suplicamo-Vos, Senhor, que aceiteis aplacado as nossas hóstias, a Vós dedicadas; e fazei que nos sirvam de perpétuo auxílio. Por Nosso Senhor…

Na Antífona da Comunhão, a Igreja continua exaltando a misericórdia de Deus, que fez servir seus próprios benefícios para nos iluminar e instruir sobre sua essência incompreensível.

COMUNHÃO – Bendiremos o Deus do céu e O louvaremos diante de todos os viventes, porque operou conosco a sua misericórdia.

Duas coisas são necessárias para ir a Deus: a luz da fé, que faz nossa inteligência conhecê-Lo, e o alimento divino que nos une a Ele. A Igreja, na Pós-comunhão, pede que ambas nos conduzam a este feliz fim de nossa criação.

PÓS-COMUNHÃO – Aproveite, Senhor nosso Deus, para a saúde de nosso corpo e de nossa alma, a recepção deste Sacramento, e a confissão da sempiterna e santa Trindade, e de sua indivisível Unidade. Por Nosso Senhor…

 

COMEMORAÇÃO DO DOMINGO – Repletos, Senhor, de tão grandes dons, suplicamo-Vos que façais com que obtenhamos os vossos salutares benefícios e nunca cessemos em vosso louvor. Por Nosso Senhor…

O último Evangelho é o do primeiro domingo depois de Pentecostes, que o sacerdote lê em vez do de São João.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas. 6, 36-42.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados. Perdoai, e sereis perdoados. Dai, e dar-se-vos-á; será lançada em vosso regaço uma medida boa, calcada, sacudida e transbordante. Porque com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos. E dizia-lhes esta semelhança: Pode acaso um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no fosso? Não está o discípulo acima do mestre; antes, será perfeito aquele que for como o mestre. Por que, pois, vês a palha no olho de teu irmão e não reparas na trave que há no teu? Ou como poderás dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar a palha de teu olho, não vendo a trave no teu próprio olho? Hipócrita, tira primeiro a trave de teu olho, e então verás para tirar a palha do olho de teu irmão.

LOUVOR À SANTÍSSIMA TRINDADE

Unidade indivisível, Trindade distinta em uma só natureza, Deus soberano que Vos revelastes aos homens, permiti-nos que, em vossa presença, ofereçamos nossas adorações e nos desafoguemos em ações de graças que brotam de nossos corações, quando nos sentimos inundados de vossos inefáveis resplendores.

Unidade divina, Trindade divina, ainda não Vos contemplamos, mas sabemos o que sois, porque Vos dignastes manifestar-no-lo. Esta terra que habitamos ouve proclamar cada dia distintamente o augusto mistério, cuja visão é o princípio da felicidade dos seres glorificados em vosso seio.

A raça humana esperou muitos séculos antes que a divina fórmula lhe fosse plenamente revelada; mas nossa geração está de posse dela e confessa com alegria a Unidade e Trindade em vossa essência divina. Antigamente, a palavra do escritor sagrado, semelhante ao relâmpago que rasga a nuvem e deixa depois a escuridão mais profunda, atravessava o horizonte do pensamento. Dizia: “Não conheço a verdadeira Sabedoria, ignoro o que é santo. Que homem subiu ao céu e tornou a descer? Quem tem em suas mãos a tempestade? Quem contém as águas como em um recinto? Quem fixou os confins da terra? Sabes como se chama? Conheces o nome de seu Filho?”14

Senhor Deus, graças à vossa infinita misericórdia, conhecemos hoje o vosso nome: chamai-Vos Pai, e Aquele que gerastes eternamente chama-Se Verbo, a Sabedoria. Sabemos também que do Pai e do Filho procede o Espírito de amor. O Filho, revestido de nossa carne, habitou esta terra e viveu entre os homens; o Espírito desceu depois e permanecerá conosco até a consumação dos destinos da família humana no mundo. Eis por que confessamos a Unidade e a Trindade; porque, tendo ouvido o divino testemunho, cremos, e “porque cremos, falamos com toda segurança”15.

Vossos Serafins, ó Deus, o Profeta ouviu cantar: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos!”16. Somos homens mortais; mas, mais felizes que Isaías, sem sermos profetas como ele, podemos articular a palavra angélica e dizer: “Santo é o Pai, Santo é o Filho e Santo é o Espírito Santo!” Mantinham-se voando com duas de suas asas; com outras duas velavam respeitosamente o rosto, e com as duas últimas cobriam os pés.

Nós também, fortalecidos pelo Espírito divino que nos foi dado, procuremos levantar “sobre as asas do desejo o peso de nossa mortalidade”; cubramos com a dor a responsabilidade de nossas faltas, e, velando com a nuvem da fé o olho fraco de nossa inteligência, recebamos interiormente a luz que nos for infundida.

Dóceis à palavra revelada, conformamo-nos ao que ela ensina; ela nos traz a noção, não só distinta, mas luminosa, do mistério que é a fonte e o centro de todos os demais. Os Anjos e os Santos o contemplam no céu, com esse inefável temor que o Profeta nos indicou ao mostrar-nos seu olhar semicoberto com suas asas. Nós ainda não vemos, nem poderíamos ver, mas sabemos; e esta ciência ilumina nossos passos e nos firma na verdade.

Guardemo-nos de “perscrutar a majestade”, para que não sejamos “oprimidos por sua glória”17; mas, repassando o que o céu Se dignou revelar-nos de seus segredos, digamos:

LOUVOR A DEUS UNO

Glória seja a Vós, Essência única, ato puro, ser necessário, infinito, sem divisão, independente, completo desde toda a eternidade, tranquilo e supremamente feliz.

Em Vós reconhecemos, com a inviolável Unidade, fundamento de todas as vossas grandezas, três Pessoas distintamente subsistentes; mas, em sua produção e em sua distinção, a mesma natureza lhes é comum, de modo que a subsistência pessoal, que constitui cada uma e as distingue uma da outra, não estabelece entre elas nenhuma desigualdade.

Ó bem-aventurança infinita nesta sociedade de três Pessoas, que contemplam em Si mesmas as mesmas perfeições inefáveis da essência que as reúne, e a propriedade de cada uma das três, que anima divinamente esta natureza que nada pode limitar nem perturbar!

Ó maravilhosa essência infinita, quando Se digna operar fora de Si, criando seres com seu poder e bondade, operando as três de comum acordo, de sorte que aquela que intervém por um modo que Lhe é próprio o faz em virtude de uma vontade comum! Amor especial seja dado à divina Pessoa que, na ação comum das três, Se digna revelar-Se mais especialmente às criaturas; e, ao mesmo tempo, sejam rendidas graças às outras duas, que, em uma mesma vontade, Se unem àquela que Se manifesta em nosso favor!

LOUVOR AO PAI

Glória a Vós, ó Pai, Ancião de dias18, inascível, sem princípio, mas que comunicais essencial e necessariamente ao Filho e ao Espírito Santo a divindade que reside em Vós! Sois Deus e Pai; aquele que Vos conhece como Deus e não como Pai, não Vos conhece tal qual sois.

Produzis, gerais, mas em vosso próprio seio, porque o que está fora de Vós não é Deus. Sois o ser, o poder, mas nunca deixastes de ter um Filho. Dizeis a Vós mesmo o que sois; comunicai-Vos, e o fruto da fecundidade de vosso pensamento, igual a Vós, é a segunda Pessoa que procede de Vós: é vosso Filho, vosso Verbo, vossa Palavra incriada. Falastes uma vez, e vossa palavra é eterna como Vós, como vosso pensamento, do qual é expressão infinita. Assim, o sol que brilha à nossa vista nunca esteve sem resplendor. Este resplendor existe por ele, está com ele, emana dele sem diminuí-lo, sem sair dele.

Perdoai, Pai, a nossa fraca inteligência ao buscar comparação entre os seres que criastes. E, se nos estudamos a nós mesmos, que criastes à vossa imagem, não sentimos que nosso pensamento, por ser distinto em nosso espírito, tem necessidade de um termo que o fixe e determine?

Pai, nós Vos conhecemos pelo Filho que gerastes eternamente, e que Se dignou revelar-Se a nós. Ensinou-nos que Vós sois Pai e Ele é Filho, e que, ao mesmo tempo, sois com Ele uma mesma coisa19. Quando um Apóstolo exclamou: “Senhor, mostra-nos o Pai”, respondeu: “Quem Me vê, vê o Pai”20.

Ó unidade da natureza divina, na qual o Filho, distinto do Pai, não é menor que o Pai! Ó complacência do Pai no Filho, por quem tem consciência de Si mesmo; complacência de amor íntimo que proclama a nossos ouvidos mortais às margens do Jordão e no cume do Tabor!21

Ó Pai, nós Vos adoramos, mas também Vos amamos, porque um pai deve ser amado por seus filhos, e nós somos vossos filhos! Não nos ensina um Apóstolo que toda paternidade procede de Vós, não só no céu, mas também na terra?22 Ninguém é pai, ninguém tem autoridade paterna na família, no Estado, na Igreja, senão por Vós, em Vós e à vossa semelhança.

Mais ainda, quisestes “que não só fôssemos chamados vossos filhos, mas que esta qualidade fosse real em nós”23; não por geração, como em vosso único Verbo, mas por uma adoção que nos faz seus “coerdeiros”24. Vosso divino Filho disse, falando de Vós: “Eu honro meu Pai”25; também nós Vos honramos, Pai supremo, Pai de imensa majestade, e, do fundo de nosso nada, à espera da eternidade, Vos glorificamos com os santos Anjos e os bem-aventurados de nossa raça. Que vosso olhar paternal nos proteja, e Se compraza também nos filhos que previstes, que elegestes e chamastes à fé, e que, com o Apóstolo, ousam chamar-Vos “Pai das misericórdias e Deus de toda consolação”26.

LOUVOR AO FILHO

Glória a Vós, ó Filho, ó Verbo, ó Sabedoria do Pai! Emanado de sua essência divina, o Pai Vos deu nascimento “antes da aurora”27 e Vos disse: “Hoje Eu Vos gerei”28; e o hoje, que não tem ontem nem amanhã, é a eternidade.

Sois Filho e Filho único; este nome exprime uma mesma natureza com Aquele que Vos produz; exclui a criação e Vos diz consubstancial ao Pai, de quem procedeis com perfeita semelhança. Saís do Pai sem sair da essência divina, sendo coeterno com vosso princípio, porque em Deus nada há de novo, nada de temporal. Em Vós, a filiação não é uma dependência, porque o Pai não pode existir sem o Filho, como tampouco o Filho sem o Pai. Se é nobre para o Pai produzir o Filho, não é menos nobre para o Filho esgotar e terminar em Si mesmo, por sua filiação, o poder gerador do Pai.

Ó Filho de Deus, sois o Verbo do Pai! Palavra incriada, sois tão íntimo com Ele como seu pensamento, e seu pensamento é seu ser. Em Vós este ser se exprime por inteiro em sua infinidade; em Vós Se conhece. Sois o fruto imaterial produzido pelo entendimento divino do Pai, a expressão de tudo o que Ele é, quer Vos guarde misteriosamente “em seu seio”29, quer Vos produza fora.

Que termos empregaremos para Vos definir em vossa magnificência, ó Filho de Deus? O Espírito Santo Se dignou ajudar-nos nos livros que ditou; ousaremos, pois, dizer com as palavras que Ele nos sugere: “Sois o esplendor da glória do Pai, a figura de sua substância”30. Sois o resplendor da luz eterna, o espelho sem imperfeição da majestade de Deus, o reflexo de sua eterna bondade31.

Com a Igreja reunida em Niceia, ousamos dizer: “Sois Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”. Com os Padres e doutores acrescentamos: “Sois a chama eternamente acesa pela chama eterna. Vossa luz em nada diminui aquela que se comunica em Vós, e em Vós nada há de inferior àquela que Vos produziu”.

Mas, quando esta inefável fecundidade que dá um Filho eterno ao Pai, e ao Pai e ao Filho um terceiro termo, quis manifestar-se fora da essência divina, e, não podendo produzir nada que fosse igual a Si, dignou-Se chamar do nada a natureza intelectual e racional como mais próxima de seu princípio, e a natureza material como a menos afastada do nada, então a produção íntima de vossa Pessoa no seio do Pai, ó Filho único de Deus, revelou-se ao mundo no ato criador. O Pai fez tudo, mas “em sua Sabedoria”, isto é, por meio de Vós, “o fez”32.

Esta missão de operar que recebestes do Pai deriva da geração eterna pela qual Ele Vos produz de Si mesmo. Saístes de vosso descanso misterioso, e as criaturas visíveis e invisíveis procederam do nada ao vosso mandato. Operando em íntimo acordo com o Pai, estendestes sobre os mundos, ao criá-los, algo desta bondade e harmonia cujo reflexo sois na essência divina.

Mas vossa missão não se esgotou com a criação. O anjo e o homem, seres inteligentes e livres, foram destinados a ver e possuir a Deus eternamente. Para eles não bastava a ordem natural; era necessário que uma via sobrenatural lhes fosse aberta para conduzi-los a seu fim. Esta via sois Vós mesmo, ó Filho único de Deus. Ao tomar em Vós a natureza humana, unistes-Vos à vossa obra, elevastes até Deus o anjo e o homem, e, em vossa natureza finita, aparecestes como o tipo supremo da criação que o Pai realizou por meio de Vós.

Ó mistério inefável! Sois o Verbo incriado e, ao mesmo tempo, “o primogênito de toda criatura”33, que devia manifestar-se a seu tempo; mas precedestes na intenção divina todos os seres que foram criados para serem vossos súditos.

A raça humana, chamada a possuir-Vos em seu seio como divino intermediário, rompeu com Deus: o pecado a precipitou na morte. Quem poderá levantá-la e devolvê-la ao seu sublime destino? Vós só, ó Filho único do Pai! Nunca o teríamos pensado; mas “o Pai amou tanto o mundo, que lhe deu seu Filho único”34, não só como mediador, mas como redentor de todos.

Ó nosso Primogênito! Pedistes-Lhe que “Vos restituísse a vossa herança”35, e esta herança tivestes que resgatá-la Vós mesmo. O Pai então Vos confiou a missão de Salvador para nossa raça perdida. Vosso sangue na cruz foi nosso resgate, e renascemos para Deus e para as nossas primeiras honras; por isso, ó Filho de Deus, nós, vossos resgatados, gloriamo-nos de chamar-Vos nosso Senhor.

Libertados da morte, purificados do pecado, dignastes-Vos devolver-nos todas as nossas grandezas. Sois para o futuro Cabeça, e nós vossos membros. Sois Rei, e nós vossos ditosos súditos. Sois Pastor, e nós as ovelhas de vosso único rebanho. Sois Esposo, e a Igreja, nossa Mãe, é vossa Esposa. Sois o Pão vivo descido do céu, e nós vossos convidados.

Ó Filho de Deus, ó Emanuel, ó Filho do Homem, bendito seja o Pai que Vos enviou; mas sede bendito com Ele Vós, que cumpristes sua missão e Vos dignastes dizer-nos que “vossas delícias são estar com os filhos dos homens”!36

LOUVOR AO ESPÍRITO SANTO

Glória a Vós, ó Espírito Santo, que emanai para sempre do Pai e do Filho na unidade da substância divina! O ato eterno pelo qual o Pai Se conhece a Si mesmo produz o Filho, que é a imagem infinita do Pai, e o Pai Se compraz amorosamente neste esplendor saído d’Ele antes de todos os séculos. O Filho, contemplando o princípio de que emana eternamente, concebe para com este princípio um amor igual àquele de que é objeto.

Que língua poderá descrever este ardor, esta aspiração mútua, que é a atração e o movimento de uma Pessoa para a outra, na imobilidade eterna da essência! Vós sois este amor, ó Espírito divino, que saís do Pai e do Filho como de um mesmo princípio, distinto de um e de outro, mas formando o laço que Os une nas inefáveis delícias da divindade: Amor vivo, pessoal, que procede do Pai e do Filho, último termo que completa a natureza divina e consuma eternamente a Trindade.

No seio impenetrável de Deus, a personalidade Vos vem ao mesmo tempo do Pai, de quem sois expressão por um novo modo de produção37, e do Filho, que, recebendo-a do Pai, Vo-la dá de Si mesmo38; porque o amor infinito que Os une estreitamente é dos dois e não de um só. Nunca esteve o Pai sem o Filho; nunca esteve o Filho sem o Pai; mas tampouco o Pai e o Filho estiveram sem Vós, ó Espírito Santo! Eternamente Se amaram, e Vós sois o amor infinito que reina n’Eles, e ao qual comunicam sua divindade. A processão de um e de outro esgota a virtude produtiva da essência incriada, e assim as divinas Pessoas realizam o número de três; fora delas não há senão a criação.

Era necessário que na essência divina existisse não só o poder e a inteligência, mas também o querer, do qual procede toda ação. A vontade e o amor são uma só e mesma coisa, e Vós sois, ó divino Espírito, este querer e este amor. Quando a Trindade ditosa opera fora de Si mesma, o ato concebido pelo Pai e expresso pelo Filho realiza-se por Vós. Também por Vós, o amor que o Pai e o Filho têm um ao outro, e que se personaliza em Vós, estende-se aos seres que serão criados. Por seu Verbo, o Pai os conhece; por Vós, ó Espírito de amor, os ama, de sorte que toda criação procede da bondade divina.

Emanando do Pai e do Filho, sem perder a igualdade que eternamente tendes com Eles, sois enviado por um e outro à criatura. O Filho, enviado pelo Pai, reveste por toda a eternidade a natureza humana, e sua Pessoa, pelas operações que Lhe são próprias, parece-nos distinta da do Pai. Do mesmo modo, ó Espírito Santo, reconhecemo-Vos distinto do Pai e do Filho quando desceis para cumprir em nós a missão que Vos foi dada por um e outro.

Inspirais os Profetas39; intervindes em Maria na Encarnação divina40; repousais sobre a flor de Jessé41; conduzis Jesus ao deserto42; exaltai-Lo com milagres43. Sua Esposa, a Igreja, recebe-Vos, e Vós lhe ensinais toda a verdade44, e permaneceis nela, como seu amigo, até o último dia do mundo45. Nossas almas estão marcadas com vosso selo46; Vós as animais com a vida sobrenatural47; viveis até em nosso corpo, que é templo48; enfim, sois para nós o dom de Deus49, a fonte que jorra até a vida eterna50. Graças distintas Vos sejam dadas, ó Espírito divino, pelas distintas obras que realizais em nosso favor!

AÇÃO DE GRAÇAS À SANTÍSSIMA TRINDADE

E agora, depois de adorar uma a uma as divinas Pessoas, percorrendo seus benefícios no mundo, ousamos levantar nossos olhos mortais para esta tríplice Majestade que resplandece na unidade de vossa essência, ó supremo Senhor, e confessamos com Santo Agostinho o que aprendemos de Vós acerca de Vós mesmo: “Três é o seu número: um, que ama aquele que é dele; um, que ama aquele de quem é; e, por fim, o próprio amor”51.

Mas resta-nos cumprir um dever de agradecimento: celebrar a inefável conduta pela qual Vos dignastes imprimir em nós vossa imagem. Tendo determinado eternamente dar-nos sociedade convosco52, preparastes-nos segundo um tipo tomado de vosso ser divino53. Três faculdades em nossa única alma atestam nossa origem, que vem de Vós; mas este frágil espelho de vosso ser, que é a glória de nossa natureza, não era senão um prelúdio aos desígnios de vosso amor.

Depois de nos dar o ser natural, determinastes em vosso conselho, ó Trindade divina, comunicar-nos ainda o ser sobrenatural. Na plenitude dos tempos, o Pai nos envia seu Filho, e este Verbo incriado traz a luz à nossa inteligência; o Pai e o Filho enviam o Espírito, e o Espírito traz o amor à nossa vontade; e o Pai, que não pode ser enviado, vem por Si mesmo e Se dá à nossa alma, cujo poder transforma.

No Batismo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, cumpre-se no cristão esta produção das três divinas Pessoas, em correspondência inefável com as faculdades dadas à nossa alma, como o esboço da obra-prima que só a obra sobrenatural de Deus pode consumar.

Ó união pela qual Deus está no homem e o homem em Deus! União pela qual chegamos à adoção do Pai, à fraternidade com o Filho, à herança eterna! Mas esta permanência de Deus na criatura, é o amor eterno que a formou gratuitamente, e ela se mantém enquanto o amor de reciprocidade não falta no homem.

O pecado mortal terá a força de quebrá-la; a presença das divinas Pessoas, que haviam estabelecido sua morada na alma54 e que permaneciam unidas a ela, cessaria no mesmo instante em que a graça santificante se extinguisse. Deus já não estaria na alma senão por sua imensidade, e a alma já não O possuiria.

Então Satanás restabeleceria nela o reino de sua odiosa trindade: “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida”55. Desgraçado aquele que se atreve a provocar Deus por uma ruptura tão sangrenta, e substituir assim, pelo mal, o sumo Bem! O zelo do Senhor desprezado e expulso é que abriu os abismos do Inferno e acendeu a chama eterna.

Logo, esta ruptura não terá possibilidade de reconciliação? Não por parte do homem pecador, incapaz de reatar com a adorável Trindade as relações que um avanço gratuito havia preparado e que uma bondade incompreensível havia consumado. Mas a misericórdia de Deus, que é, como ensina a Igreja na Liturgia, o atributo supremo de seu poder56, pode realizar tal prodígio, e o faz cada vez que um pecador se converte.

A este movimento da augusta Trindade, que Se digna descer de novo ao coração do homem arrependido, uma imensa alegria, diz-nos o Evangelho, apodera-se dos Anjos e dos Santos até o mais alto do céu57; porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo assinalaram seu amor e buscaram sua glória fazendo justo aquele que era pecador, vindo habitar nesta ovelha antes extraviada, neste pródigo, até agora ocupado em guardar animais imundos, neste ladrão que, há pouco, na cruz, insultava com seu companheiro o inocente crucificado.

Sejam, pois, adoração e amor a Vós, Pai, Filho e Espírito Santo, Trindade perfeita que Vos dignastes revelar-Vos aos mortais, Unidade eterna e incomensurável, que livrastes nossos pais do jugo dos falsos deuses. Glória a Vós, como era no princípio, antes de todos os seres criados; como é agora, no momento em que contemplamos a verdadeira vida, que consiste em contemplar-Vos face a face; como será pelos séculos dos séculos, quando a eterna bem-aventurança nos reunir em vosso seio infinito. Amém.

 


 

1. Mt. 28, 19.

2. Dos ofícios divinos 1, 11 e, 1.

3. I Tm. 6, 16.

4. Jo. 1, 14.

5. Ibid.

6. Ef. 3, 15.

7. Mt. 11, 27.

8. Jo. 3, 16.

9. Ibid. 17, 22.

10. Is. 9, 6.

11. Jo. 1, 1.

12. Jo. 14, 16.

13. Mc. 16, 17.

14. Prov. 30, 2-4.

15. Sl. 115, 10; II Cor, 4, 13.

16. Is. 6, 3.

17. Prov. 25, 27.

18. Dn. 7, 9.

19. Jo. 10, 30.

20. Jo. 14, 8-9.

21. Mt. 3, 17; Pe, 1, 17.

22. Ef. 3, 15.

23. Jo. 3, 1.

24. Rm.

25. Jo. 8, 49.

26. II Cor. 1, 3.

27. Sl. 109, 3.

28. Sl. 2, 7.

29. Jo. 1, 18.

30. Hb. 1, 3.

31. Sl. 7, 26.

32. Sl. 103, 24.

33. Cl. 1, 15.

34. Jo. 3, 16.

35. Sl. 16, 5.

36. Prov. 8, 31.

37. Jo. 15, 26.

38. Jo. 16, 14-15.

39. Pe. 1, 31.

40. Lc. 1, 35.

41. Is. 11, 22.

42. Lc. 4, 1.

43. Mt. 12, 28.

44. Jo. 16, 13.

45. Mt. 28, 20.

46. Ef. 1, 13; 4, 30.

47. Gl. 5, 25.

48. I Cor. 6, 19.

49. Hino de Pentecostes.

50. Jo. 4, 14; 7, 39.

51. ( DE TRINITATE, 1. V I , c. V I I : “Non amplius quam tria sunt: unus diligens eum qui de illo est, et unus diligens eurn de quo est, et ipsa dilectio.”)

52. I Jo. 1, 3.

53. Gn. 1, 27.

54. Jo. 14, 23.

55. I Jo. 2, 16.

56. Coleta do X Domingo de Pentecostes.

57. Lc. 15, 10.

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