Oratório São José

Prática do Tempo depois de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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PRÁTICA DO TEMPO DEPOIS DE PENTECOSTES

OBJETO DO ANO LITÚRGICO

O objetivo da Igreja no ano litúrgico é conduzir a alma cristã à união com Cristo por meio do Espírito Santo. Este é o fim que o próprio Deus se propôs ao dar-nos o seu Filho para que fosse nosso mediador, nosso mestre e nosso redentor, e ao enviar-nos o Espírito Santo para que habitasse conosco.

Tal é o fim ao qual tende todo o conjunto de ritos e orações que seguimos, e que não é somente a comemoração dos mistérios que a bondade divina realizou para a nossa salvação, mas traz consigo as graças correspondentes a cada um desses mistérios, para que cheguemos, como diz o Apóstolo, “à idade da plenitude de Cristo”1.

A participação nos mistérios de Cristo opera na alma cristã aquilo que a teologia mística chama “via iluminativa”, na qual a alma é cada vez mais iluminada pela luz do Verbo Encarnado, que, com seus exemplos e ensinamentos, a renova em todas as suas potências e a acostuma a ter sempre em tudo as intenções de Deus.

Esta preparação a dispõe à união com Deus, não apenas de modo imperfeito e mais ou menos estável, mas de modo íntimo e permanente, que se chama “vida unitiva”. Esta vida é a obra própria do Espírito Santo, que foi enviado à alma para mantê-la na posse de Cristo e desenvolver nela o amor pelo qual se une a Deus.

AS FESTAS DO TEMPO DEPOIS DE PENTECOSTES

Neste estado, a alma está preparada para saborear e assimilar tudo quanto os numerosos episódios do Tempo depois de Pentecostes oferecem de substancial e nutritivo. O mistério da Santíssima Trindade, o do Santíssimo Sacramento, a misericórdia e o poder do Coração de Jesus, as grandezas de Maria e sua ação sobre a Igreja e sobre as almas manifestam-se a ela com maior plenitude, produzindo nela novos efeitos.

Percebe mais intimamente, nas festas dos Santos, tão variadas e tão ricas neste tempo, o laço que a une a eles em Jesus Cristo pelo Espírito Santo. A felicidade eterna, à qual esta vida de prova deve ceder lugar, revela-se nela na festa de Todos os Santos, e recebe em maior grau a essência desta misteriosa bem-aventurança, que consiste na luz e no amor.

Unida cada dia mais estreitamente à Igreja, acompanha todas as fases de sua existência ao longo dos tempos; toma parte em seus sofrimentos; participa de seus triunfos; vê sem desfalecimento este mundo inclinar-se para o seu ocaso, porque sabe que o Senhor está próximo.

Quanto a si mesma, sente que sua vida corporal se apaga lentamente, que o muro que ainda a separa da visão e da posse imutável do Sumo Bem desmorona pouco a pouco; porque já não vive neste mundo em que está, e seu coração já se voltou para onde está o seu tesouro2.

Assim iluminada, assim atraída, assim fixada pela incorporação dos mistérios, por meio dos quais a Liturgia a alimentou, e pelos dons que o Espírito Santo infundiu nela, a alma entrega-se sem resistência ao sopro deste divino motor.

O bem torna-se tanto mais fácil para ela quanto, como que por si mesma, aspira ao que é mais perfeito; o sacrifício, que antes a assustava, agora a atrai; usa deste mundo como se não usasse dele3, porque as verdadeiras realidades, para ela, estão fora deste mundo; enfim, aspira tanto mais à posse imperecível daquilo que ama quanto, já desde esta vida, como ensina o Apóstolo, pelo fato mesmo de unir-se de coração a Deus, torna-se um só espírito com Ele4.

A RENOVAÇÃO ANUAL DA LITURGIA

Tal é o resultado que a influência suave e segura da Liturgia está destinada a produzir na alma. E se, depois de termos seguido as fases sucessivas, nos parece que este estado de desprendimento e de aspiração ainda não é o nosso, e que a vida de Cristo ainda não absorveu em nós a vida pessoal, guardemo-nos de desanimar.

O Ciclo da Liturgia, com seus raios de luz e suas graças que derrama nas almas, não aparece uma só vez no céu da Santa Igreja; cada ano o vê renovar-se. Tal é a intenção d’Aquele que “amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho único”5, d’Aquele que “veio não para julgar o mundo, mas para salvá-lo”6; intenção com a qual a Igreja se conforma, pondo incessantemente à nossa disposição, com sua providência maternal, o mais poderoso dos meios para levar o homem a Deus e uni-lo a Ele.

O cristão a quem a primeira metade do Ciclo ainda não conduziu ao termo que acabamos de expor encontrará na segunda preciosos recursos para desenvolver sua fé e aumentar seu amor. O Espírito Santo, que reina mais particularmente sobre esta parte do ano, não deixará de agir sobre sua inteligência e sobre seu coração; e, quando se abrir um novo ciclo litúrgico, a obra já esboçada pela graça poderá receber o complemento que a fraqueza humana havia suspendido.


 

1. Ef. 4, 13.

2. Mt. 6, 21.

3. I Cor. 7, 31.

4. Ibid. 6, 17.

5. Jo. 3, 16.

6. Ibid. 3, 17.

 

 

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