Oratório São José

Sexta-Feira de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SEXTA-FEIRA DE PENTECOSTES

O ESPÍRITO SANTO NO CORAÇÃO DO CRISTÃO

Até aqui consideramos a ação do Espírito Santo na Igreja; agora a consideraremos em uma extensão mais reduzida: precisamos estudá-la no coração do cristão. Exprimiremos nossos sentimentos de admiração e reconhecimento para com este Espírito, que se digna atender a todas as nossas necessidades e conduzir-nos ao fim ditoso para o qual fomos criados.

Assim como o Espírito Santo, enviado “para permanecer em nós”, se ocupa em sustentar e dirigir a Igreja, para que seja sempre a Esposa fiel de Jesus, do mesmo modo se interessa por nós, para fazer-nos membros dignos desta Cabeça santa e gloriosa. Sua missão é unir-nos a Jesus tão estreitamente que sejamos incorporados a Ele. A Ele pertence criar-nos na ordem sobrenatural, dar-nos e conservar-nos a vida da graça, aplicando-nos os méritos que Jesus, nosso Mediador e Salvador, nos adquiriu.

A AÇÃO DO ESPÍRITO FORA DA ESSÊNCIA DIVINA

Esta missão do Espírito Santo, que lhe foi confiada pelo Pai e pelo Filho, e que Ele exerce no gênero humano, é sublime. No seio da divindade, o Espírito Santo é produzido e não produz. O Pai gera o Filho; o Pai e o Filho produzem o Espírito Santo; esta diferença se funda na própria natureza divina, que não está nem pode estar senão em três Pessoas.

Daí resulta, como ensinam os Padres, que o Espírito Santo recebeu, para comunicá-la fora de si, a fecundidade que não exerce na essência divina. Quando se trata de produzir a humanidade do Filho de Deus no seio de Maria, é Ele quem opera; e, se se trata de criar o cristão do fundo da corrupção original e de chamá-lo à vida da graça, também é Ele quem exerce sua ação. De sorte que, segundo a enérgica expressão de Santo Agostinho, “a mesma graça que, em seus começos, produziu Cristo, produz o cristão quando começa a crer; o mesmo Espírito, pelo qual Cristo foi concebido, é o princípio do novo nascimento do fiel”1.

DÁ A VIDA SOBRENATURAL

Tratamos amplamente da ação do Espírito Santo na formação e no governo da Igreja, porque sua obra principal é formar na terra a Esposa do Filho de Deus, de quem nos vêm todos os bens. Ela é a depositária de uma parte das graças deste augusto Paráclito, que se dignou pôr-se à sua disposição para nos salvar e santificar. Por nós também a fez católica e visível aos olhos de todos, para que possamos encontrá-la mais facilmente; por nós mantém nela a verdade e a santidade, para que nos embebamos nestas duas fontes.

Consideremos agora o que Ele opera nas almas, e logo nos encontraremos diante de seu poder criador. Não é, por acaso, verdadeira criação tirar uma alma da ruína original em que se achava mergulhada ou, o que é ainda mais admirável, fazer que uma alma desfigurada pelo pecado voluntário e pessoal se torne, em um instante, filha adotiva do Pai celestial e membro do Filho de Deus?

O Pai e o Filho se comprazem ao ver como o Espírito Santo realiza esta obra, Ele que é seu amor mútuo. Enviaram-no para que opere e proceda como Senhor em sua missão; e, onde quer que Ele reine, reinem também Eles.

A alma eleita foi apresentada desde toda a eternidade à Santíssima Trindade; mas, chegado o momento, o Espírito desce. Apodera-se desta alma como de objeto destinado ao seu amor. O voo da misericordiosa pomba é mais rápido que o da águia que se lança sobre a presa. Se a vontade humana não opõe resistência à sua ação, ocorrerá a esta alma o que ocorreu à própria Igreja, isto é: “o que não era triunfará do que era”2. Então se veem admiráveis prodígios: “onde abundou o pecado, superabundou a graça”3.

Vimos o Emanuel conferir às águas a virtude de purificar as almas; mas recordemos que, quando desceu às ondas do Jordão, veio a pomba repousar sobre sua cabeça e tomou posse do elemento regenerador. A fonte batismal permanece em seu poder. “Ali é — diz-nos o grande São Leão — que Ele preside ao novo nascimento do homem, tornando fecunda a fonte sagrada, como em outra ocasião fecundou o seio da Virgem, com a diferença de que o pecado esteve ausente da concepção do Filho de Deus, enquanto o misterioso lavacro o destrói em nós”4.

Com que ternura contempla o Espírito divino esta nova criatura que sai das águas! Com que amor impetuoso entra nela! Ele é o dom do Deus Altíssimo, enviado para morar em nós. Tem sua habitação nesta alma completamente nova, seja a de uma criança de um dia, seja a de um adulto carregado de anos. Compraz-se nesta morada, que ambicionou desde a eternidade; inunda-a com seu fogo e com sua luz; e, como por natureza é inseparável das outras Pessoas divinas, sua presença faz com que o Pai e o Filho venham fazer morada nesta alma5.

Mas o Espírito Santo exerce sua própria ação e sua missão santificadora; e, para compreender a natureza de sua presença no cristão, é preciso saber que ela não se limita somente à alma. O corpo também faz parte do homem, e também ele participa da regeneração. Por isso, o Apóstolo, ao mesmo tempo que nos revela a “morada” do Espírito em nós6, ensina-nos que os nossos próprios membros materiais são seu templo7. Quer Ele que sirvam à justiça e à santidade8; deposita neles um germe de imortalidade, que os preservará da corrupção do sepulcro, de sorte que, no dia da ressurreição, tornarão a aparecer mais espiritualizados9, conservando o sinal do Espírito que os ocupou nesta vida mortal.

ADORNA A ALMA COM AS VIRTUDES E OS DONS

Sendo, pois, o cristão morada do Espírito Santo, não devemos estranhar que este divino Espírito trate de adornar dignamente a habitação que escolheu. Que ornamento mais nobre que o das virtudes teologais: a Fé, que nos põe em posse segura e substancial das verdades divinas que nossa inteligência não pode alcançar; a Esperança, que põe ao nosso alcance o socorro divino de que necessitamos e a felicidade eterna que esperamos; a Caridade, que nos une a Deus pelo laço mais forte e doce?

Ora, estas três virtudes, estes três meios pelos quais o homem regenerado se relaciona com seu fim, deve-os o cristão à presença do Espírito Santo, o qual se dignou deixar, como sinal de sua vinda, este tríplice benefício, que excede todos os nossos méritos passados, presentes e futuros.

Debaixo das três virtudes teologais, põe outras quatro, que são como os fundamentos da vida moral do homem: a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança, qualidades naturais que Ele transforma, adaptando-as ao fim sobrenatural do cristão. Como último adorno que acrescenta à sua morada, deposita finalmente nela o sagrado septenário de seus dons, para introduzir movimento e vida nas sete virtudes.

COMUNICA A GRAÇA SANTIFICANTE

Mas estas virtudes e dons, que tendem a Deus, exigem o elemento superior, que é o meio essencial da união com Ele: elemento indispensável, ao qual nada pode substituir; alma da alma, princípio vivificante, sem o qual ela não poderia ver nem possuir a Deus: é a graça santificante.

Com que satisfação o Espírito divino a infunde naquela alma em que entra e à qual faz objeto das divinas complacências! Entre esta graça e a presença do Espírito Santo existe uma estreita aliança; tanto que, se a alma desse entrada ao pecado mortal, o Espírito deixaria de habitar nela no mesmo momento em que desaparecesse a graça santificante.

E AS GRAÇAS ATUAIS

Vela também sobre sua herança e nunca está ocioso. As virtudes que infundiu nesta alma não devem permanecer inertes; é necessário que deem fruto de atos virtuosos e que o mérito adquirido aumente o poder do elemento fundamental, que fortifique e desenvolva esta graça santificante, a qual une tão estreitamente o cristão a Deus.

O Espírito Santo não deixa de impulsionar a alma para que opere, seja interior, seja exteriormente, por meio desses toques divinos que a teologia chama graças atuais. Consegue assim que sua criatura se eleve no bem, se enriqueça e se afirme cada dia mais, para que possa dar glória ao seu Autor, o qual quer que ela seja fecunda e ativa.

INSPIRA A ORAÇÃO

Com esta intenção, o Espírito, que se entregou a ela e que nela habita com ternura tão viva, impele-a à oração, mediante a qual poderá alcançar tudo: luz, fortaleza e êxito. Mas diz o Apóstolo: “Sabemos como devemos orar?”. Ele mesmo responde a esta pergunta valendo-se de sua experiência: “O Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”10.

Além disso, o Espírito divino se associa a todas as nossas necessidades; é Deus, e geme como a pomba, para unir suas petições às nossas. “Clama a Deus em nossos corações”, diz o mesmo Apóstolo11, assegurando-nos, com sua presença e suas operações em nós, que somos filhos de Deus12. Pode haver algo mais íntimo? E devemos estranhar que Jesus nos tenha dito que, para receber, basta pedir, quando seu próprio Espírito é quem pede em nós?

AJUDA A AÇÃO

Sendo autor da oração, coopera poderosamente com a ação. Sua intimidade com a alma faz com que não lhe deixe senão a liberdade necessária para o mérito; no mais, Ele a move, sustenta e dirige de tal sorte que ela, por sua vez, nada tem a fazer senão cooperar com aquilo que Ele faz nela e por ela.

Nesta ação comum do Espírito e do cristão, o Pai celestial reconhece aqueles que lhe pertencem; e por isso nos diz o Apóstolo: “Aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”13. Ditosa companhia, que conduz o cristão à vida eterna e faz triunfar nele Jesus, cujas marcas o Espírito Santo imprime em sua criatura, para que seja membro digno de ser incorporado à sua Cabeça!

É EXPULSO PELO PECADO

Mas, ai!, esta sociedade pode dissolver-se. Nossa liberdade, que se aperfeiçoa no céu, pode ocasionar, e muitas vezes ocasiona, a ruptura entre o Espírito santificador e o homem santificado. O mau desejo de independência e as paixões que o homem poderia dominar se fosse dócil ao Espírito fazem com que o coração imprudente cobice as coisas que lhe são inferiores.

Satanás, invejoso do reino do Espírito, procura fazer brilhar aos olhos dos homens a imagem enganosa de um bem ou de uma satisfação fora de Deus. O mundo, que é também um espírito mau, quer rivalizar com o Espírito do Pai e do Filho. Sutil, audaz, ativo, chama a atenção por seu modo de seduzir, e ninguém poderá contar os naufrágios que causou.

Os cristãos fomos advertidos por Jesus, que nos declarou que não rogaria pelo mundo14; e também pelo Apóstolo, que nos adverte que “não é o espírito do mundo que nós recebemos, mas o Espírito de Deus”15.

Apesar disso, com frequência ocorre o divórcio entre o homem e seu hóspede divino, precedido ordinariamente por um esfriamento da criatura para com seu Benfeitor. Uma falta de atenção, uma ligeira desobediência: eis os prelúdios da ruptura.

Então se dá no Espírito Santo esse desgosto que manifesta tão claramente o amor que Ele tem à alma, e que o Apóstolo nos revela de modo tão expressivo ao recomendar-nos que não contristemos o Espírito que pôs em nós o sinal de seu selo no dia em que nos trouxe a redenção16. Palavra cheia de profundo sentimento, que nos revela a responsabilidade que traz consigo o pecado venial.

A morada do Espírito Santo na alma chega a ser-lhe causa de amargura, e é de temer uma separação. E se, como ensina Santo Agostinho, “Ele não abandona se não é abandonado”, e se a graça santificante ainda permanece, as graças atuais tornam-se mais escassas e menos eficazes.

Mas o cúmulo da desgraça ocorre com a ruptura do pacto sagrado que unia, em aliança tão íntima, a alma ao Espírito divino. O pecado mortal é ato de grandíssima audácia e de cruel ingratidão. Este Espírito, tão cheio de doçura, vê-se expulso do asilo que havia escolhido para si e que tão ricamente havia embelezado.

É o cúmulo do ultraje; e não devemos admirar-nos da indignação do Apóstolo quando exclama: “Que suplício não merece aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, que desprezou o sangue da aliança e faz tal injúria ao Espírito da graça?”17.

PREPARA A ALMA PARA A CONTRIÇÃO

Apesar disso, esta desoladora situação do cristão infiel para com o Espírito Santo pode excitar a compaixão d’Aquele que, sendo Deus, nos foi enviado para ser nosso hóspede cheio de mansidão. Tão triste é o estado daquele que, ao expulsar o Espírito divino, perdeu a alma de sua alma; daquele que viu extinguir-se, no mesmo instante, a chama da graça santificante e perderem-se todos os méritos que havia alcançado!

Coisa admirável e digna de eterno reconhecimento! O Espírito Santo, expulso do coração do homem, procura voltar a entrar nele. Tal é a extensão da missão que recebeu do Pai e do Filho. Aquele que é Amor, por amor não quer que se perca o desprezível e ingrato verme que Ele havia querido elevar até a participação da natureza divina18.

Vê-lo-emos, pois, com uma abnegação cujo segredo só o amor possui, fazer como que o cerco desta alma, até que de novo se apodere dela. Atormentá-la-á com o terror da justiça de Deus; far-lhe-á sentir a vergonha e a desgraça em que se precipita quem perdeu a vida de sua alma.

Deste modo, afasta-a do mal com estes primeiros golpes, que o Santo Concílio de Trento chama “impulsos do Espírito Santo, que move a alma desde fora, sem habitar ainda nela”19. A alma, inquieta e descontente consigo mesma, acaba por procurar reconciliar-se; rompe os laços de sua escravidão, e então o sacramento da Penitência infundirá nela o amor que reanima a vida, completando assim a justificação.

Quem poderá exprimir a alegria e o triunfo do Espírito Santo ao entrar novamente em sua casa? O Pai e o Filho voltam a esta morada há pouco manchada, e talvez há muito tempo. Tudo torna a reviver na alma renovada; a graça santificante renasce nela como ao sair da pia batismal. Os méritos adquiridos haviam desenvolvido seu poder, mas nós os vimos naufragar na tempestade; agora são restituídos por completo, e o Espírito de vida se alegra ao ver que seu poder é igual ao seu amor.

Esta mudança tão maravilhosa não ocorre uma só vez em um século; realiza-se todos os dias e a toda hora. Tal é a missão do Espírito Santo. Veio santificar o homem, e é necessário que o faça.

Veio o Filho de Deus e entregou-se por nós. Vendo que éramos presa de Satanás, resgatou-nos pelo preço de seu sangue; fez o possível para levar-nos a Ele e ao seu Pai; e, ao subir aos céus para preparar nosso lugar, logo nos enviou seu próprio Espírito, para que fosse nosso segundo Consolador até sua volta.

E eis que este Auxiliador celeste pôs mãos à obra. Deslumbrados pela magnificência de seus atos, celebremos com efusão o amor com que nos tratou, o poder e a sabedoria que desenvolveu no cumprimento de sua missão. Seja Ele bendito, glorificado e conhecido neste mundo que lhe deve tudo, na Igreja, da qual é a alma, e nos milhões de corações que deseja habitar para salvá-los e fazê-los eternamente felizes!

Este dia é consagrado ao jejum, como a quarta-feira anterior. Amanhã terá lugar a ordenação de sacerdotes e ministros sagrados. É necessário instar mais vivamente a Deus para alcançar d’Ele que a efusão da graça seja tão abundante quanto augusto e permanente será o caráter que o Espírito imprimirá naqueles que lhe forem apresentados.

Em Roma, a Estação realiza-se hoje na basílica dos Doze Apóstolos, onde estão as relíquias de São Filipe e de São Tiago Menor. Nunca será mais oportuno recordar os moradores do Cenáculo do que nestes dias em que toda a Igreja os saúda como os primeiros hóspedes do Espírito Santo.

O DOM DE ENTENDIMENTO

Este sexto dom do Espírito Santo faz com que a alma entre em caminho superior àquele pelo qual até agora caminhava. Os cinco primeiros dons têm por objeto a ação. O Temor de Deus coloca o homem em seu lugar, humilhando-o; a Piedade abre seu coração aos afetos divinos; a Ciência faz com que distinga o caminho da salvação do caminho da perdição; a Fortaleza prepara-a para o combate; o Conselho dirige-a em seus pensamentos e em suas obras. Com isso, já pode agir e prosseguir seu caminho com a esperança de chegar ao termo.

Mas a bondade do Espírito divino reserva-lhe ainda outros favores. Determinou fazê-la gozar, nesta vida, de um gozo antecipado da felicidade que lhe reserva na outra. Deste modo, firmará sua marcha, animará seu valor e recompensará seus esforços. A via da contemplação estará para ela aberta de par em par, e o Espírito divino a introduzirá nela por meio do Entendimento.

Ao ouvir a palavra contemplação, muitos talvez se inquietem, falsamente persuadidos de que aquilo que essa palavra significa não pode encontrar-se senão nas condições especiais de uma vida passada no retiro e longe do trato dos homens. Eis aqui um erro grave e perigoso, que frequentemente detém o voo das almas.

A contemplação é o estado ao qual, em certa medida, é chamada toda alma que busca a Deus. Ela não consiste nos fenômenos que o Espírito Santo quer manifestar em algumas pessoas privilegiadas, às quais destina a saborear a realidade da vida sobrenatural. Simplesmente, consiste nas relações mais íntimas que há entre Deus e a alma que lhe é fiel na ação. Se não põe obstáculo, estão reservados a essa alma dois favores, o primeiro dos quais é o dom de Entendimento, que consiste na iluminação do espírito, doravante iluminado por uma luz superior.

Esta luz não tira a fé, mas esclarece os olhos da alma, fortificando-a e dando-lhe uma visão mais profunda das coisas divinas. Dissipam-se muitas nuvens que provinham da fraqueza e rudeza da alma ainda não iniciada. A beleza encantadora dos mistérios, que não se percebia senão de modo vago, revela-se, e aparecem harmonias inefáveis e insuspeitadas.

Não se trata da visão face a face reservada para a eternidade, mas tampouco daquele débil resplendor que antes dirigia os passos. Um conjunto de analogias e conveniências, que sucessivamente aparecem aos olhos do espírito, produz uma certeza muito suave. A alma se dilata nos fulgores luminosos que são enriquecidos pela fé, aumentados pela esperança e desenvolvidos pelo amor.

Tudo lhe parece novo; e, ao olhar para trás, faz comparações e vê claramente que a verdade, sempre a mesma, é então compreendida por ela de maneira incomparavelmente mais completa.

O relato dos Evangelhos a impressiona mais; encontra nas palavras do Salvador um sabor que até então não havia provado. Compreende com maior clareza o fim que Ele se propôs na instituição dos Sacramentos. A Sagrada Liturgia a move com suas augustas fórmulas e seus ritos tão profundos. A leitura da vida dos santos a atrai; e nada lhe causa estranheza em seus sentimentos e ações; saboreia seus escritos mais que todos os outros, e sente aumento de bem-estar espiritual ao tratar com estes amigos de Deus.

Oprimida por toda espécie de ocupações, a tocha divina a guia para cumprir cada uma delas. As variadas virtudes que deve praticar se harmonizam em sua conduta; nenhuma delas é sacrificada à outra, pois vê a harmonia que deve reinar entre elas. Está tão longe do escrúpulo quanto da relaxação, e sempre atenta a reparar sem demora as perdas que tenha podido sofrer. Algumas vezes, o próprio Espírito divino a instrui com uma palavra interior que sua alma escuta, e ilumina sua situação com novos horizontes.

Desde então, o mundo e seus falsos erros são tidos pelo que são, e a alma se purifica, além disso, do apego e da satisfação que ainda podia ter por eles. Onde não há senão grandezas e belezas naturais, tudo aparece mesquinho e miserável ao olhar daquele a quem o Espírito Santo dirige para as grandezas e belezas divinas e eternas.

Um só aspecto salva de sua condenação este mundo exterior que deslumbra o homem carnal: a criatura visível que manifesta a beleza divina e é capaz de servir à glória de seu Autor. A alma aprende a usá-la com ação de graças, sobrenaturalizando-a e glorificando, com o Rei Profeta, Aquele que imprimiu os traços de sua beleza na multidão de seres que frequentemente são causa da perdição do homem, embora tenham sido destinados a ser degraus que o conduziriam a Deus.

Além disso, o dom de Entendimento dá à alma o conhecimento de seu próprio caminho. Faz-lhe compreender a sabedoria e a misericórdia dos desígnios do alto, que frequentemente a humilharam e a conduziram por onde ela não pensava caminhar. Vê que, se tivesse sido senhora de sua própria existência, teria errado seu fim, e que Deus a fez alcançá-lo, ocultando-lhe desde o princípio os desígnios de sua paternal Sabedoria.

Agora é feliz, porque goza de paz, e seu coração é pequeno para dar graças a Deus, que a conduz ao termo sem consultá-la. Se por acaso tiver de aconselhar ou dirigir, seja por dever, seja por caridade, pode-se confiar nela; o dom de Entendimento ela o aproveita igualmente para si mesma e para os demais. Não dá lições, contudo, a quem não as pede; mas, se alguém lhe pergunta, responde, e suas respostas são tão luminosas quanto a chama que as anima.

Assim é o dom de Entendimento, luz da alma cristã, cuja ação se faz sentir nela em proporção à sua fidelidade no uso dos demais dons. Conserva-se por meio da humildade, da continência e do recolhimento interior. A dissipação, ao contrário, detém seu desenvolvimento e até poderia sufocá-lo.

Na vida ocupada e carregada de deveres, mesmo em meio às distrações inevitáveis às quais a alma deve entregar-se, ela pode conservar-se recolhida. Seja sempre simples, seja pequena aos seus próprios olhos, e aquilo que Deus oculta aos soberbos e manifesta aos humildes20 lhe será revelado e permanecerá nela.

Ninguém duvida que semelhante dom é um auxílio imenso para a salvação e santificação da alma. Devemos pedi-lo ao Espírito Santo de todo coração, estando plenamente convencidos de que o obteremos mais pelo ardor de nosso coração que pelo esforço de nosso espírito.

É certo que a luz divina, objeto deste dom, se assenta no entendimento; mas sua efusão provém antes da vontade inflamada pelo fogo da caridade, segundo disse Isaías: “Crede, e tereis entendimento”21.

Dirijamo-nos ao Espírito Santo e, servindo-nos das palavras de Davi, digamos-lhe: “Abri meus olhos e contemplarei as maravilhas de vossos preceitos; dai-me inteligência e terei vida”22. Instruídos pelo Apóstolo, exprimamos nossa súplica de modo mais urgente, apropriando-nos da oração que ele dirige ao Pai celestial em favor dos fiéis de Éfeso, quando implora para eles “o Espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento d’Ele, iluminando os olhos de vosso coração. Com isso entendereis qual é a esperança a que vos chamou, quais são as riquezas e a glória da herança concedida aos santos”23.


 

1. Santo Agostinho, da predestinação dos santos, cap 15.

2. I Cor. 1, 28.

3. Rm. 5, 20.

4. Sermão 26, sobre o nascimento do Senhor, 4.

5. Jo. 14, 23.

6. Rm. 8, 11.

7. I Cor. 6, 19.

8. Rm. 6, 19.

9. I Cor. 15, 44.

10. Rm. 8, 26.

11. Gl. 4, 6.

12. Rm. 8, 16.

13. Rm. 8, 14.

14. Jo. 17, 9.

15. I Cor, 2, 12.

16. Ef. 4, 30.

17. Hb. 10, 29.

18. II Pe. 1, 4.

19. Ses., 14, cap. 4.

20. Lc. 10, 21.

21. Is. 6, 9, citado também pelos Padres gregos e latinos.

22. Sl. 118.

23. Ef. 1, 17-18.

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