Quinta-Feira de Pentecostes
QUINTA-FEIRA DE PENTECOSTES
O ESPÍRITO SANTO E A PREGAÇÃO DA VERDADE
O Espírito divino, que é o laço de união de todos os membros da Igreja, porque Ele mesmo é um só, não foi enviado somente para assegurar a unidade inviolável da Esposa de Cristo. Esta Esposa de um Deus, que a Si mesmo Se chamou a Verdade1, tem necessidade de permanecer na Verdade e não pode ser contaminada pelo erro.
Jesus confiou-lhe a sua doutrina; instruiu-a na pessoa dos Apóstolos. “Tudo o que ouvi de meu Pai — disse Ele — vo-lo dei a conhecer”2. Mas esta Igreja, abandonada à fraqueza humana, como poderia conservar, sem mistura e sem alteração, no correr dos séculos, esta palavra que Jesus não escreveu, esta verdade que Ele veio do céu trazer à terra? A experiência nos ensina que tudo o que é terreno está submetido às mais diversas variações, que os textos escritos se prestam a falsas interpretações e que as tradições não escritas se adulteram com o tempo.
Também aqui faremos ressaltar a previsão do Emanuel ao subir ao céu. Assim como, para cumprir o seu desejo de “que sejamos um como Ele o é com seu Pai”, nos enviou o seu único Espírito, assim também, para nos manter na verdade, enviou-nos este mesmo Espírito, a quem chama Espírito da verdade. “Quando vier — diz Ele — este Espírito da verdade, Ele vos ensinará toda a verdade”3. E que verdade ensinará este Espírito? “Ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse”4.
Nada, pois, do que o Verbo de Deus pregou aos homens ficará escondido. A beleza de sua Esposa terá como fundamento a verdade, porque a beleza é o esplendor do verdadeiro. Sua fidelidade ao Esposo será perfeita, porque, se Ele é a Verdade, a Verdade está assegurada em si mesma para sempre. Jesus o declara assim: “O novo Consolador, que procede do Pai, permanecerá convosco eternamente e estará em vós”5. Pelo Espírito Santo, a Igreja possuirá, pois, a verdade como coisa própria, e esta posse jamais lhe será arrebatada; porque este Espírito, enviado pelo Pai e pelo Filho, assistirá a Igreja e nunca a abandonará.
CONSERVA OS ENSINAMENTOS DO VERBO
É ocasião de recordar aqui a magnífica doutrina de Santo Agostinho. Segundo o seu ensinamento, que não é senão a explicação das passagens evangélicas que acabamos de ler, o Espírito Santo é na Igreja o princípio da vida; pois, sendo Espírito da verdade, conserva nela a verdade e a dirige na verdade, de tal modo que, em seu ensinamento e governo, ela não pode expressar outra coisa senão a verdade.
Ele assume a responsabilidade de suas palavras, como o nosso espírito responde por aquilo que a nossa língua pronuncia; e eis por que a Santa Igreja se identifica de tal modo com a verdade, por sua união com o Espírito divino, que o Apóstolo não hesita em dizer-nos que ela é sua “coluna e sustentáculo”6. Ninguém se admire, pois, se o cristão repousa sobre a Igreja em sua crença. Não sabe ele que esta Igreja nunca permanece sozinha, que está sempre com o Espírito de Deus que nela vive, que sua palavra não é sua, mas a palavra do Espírito, que não é outra senão a palavra de Jesus?
A SAGRADA ESCRITURA
Esta palavra de Jesus é conservada pelo Espírito para a Igreja em um duplo depósito. Ele vela por ela nos santos Evangelhos, que inspirou aos seus autores. Estes livros sagrados se acham defendidos por seus cuidados contra toda alteração, e atravessam os séculos sem que a mão do homem os tenha modificado.
O mesmo ocorre com os outros livros do Novo Testamento, compostos sob o sopro do mesmo Espírito. Os que pertencem ao Antigo Testamento são, igualmente, fruto de sua inspiração. Ainda que não relatem os discursos de Jesus durante sua vida mortal, falam d’Ele e O anunciam, ao mesmo tempo que contêm a primeira iniciação nas coisas divinas. Este conjunto de livros sagrados está cheio de mistérios, cuja chave o Espírito guarda para comunicá-la à Igreja.
A TRADIÇÃO
A outra fonte da palavra de Jesus é a Tradição. Nem tudo devia ficar escrito, e a Igreja existia antes mesmo que os Evangelhos fossem redigidos. Como teria sobrevivido sem se alterar esta Tradição, elemento divino como a própria Escritura, se o Espírito da verdade não velasse por sua conservação? Ele a guarda na memória da Igreja e a preserva de toda alteração; esta é a sua missão, e, por sua fidelidade em cumpri-la, a Esposa permanece na posse de todos os segredos do Esposo.
PROLONGA O ENSINAMENTO DO VERBO
Mas não basta que a Igreja possua a verdade escrita e tradicional como em depósito selado. É necessário, além disso, que ela saiba discerni-la, para poder interpretá-la àqueles a quem deve comunicar os ensinamentos de Jesus. A verdade não desceu do céu para permanecer oculta aos homens, pois é a sua luz, e sem ela pereceriam nas trevas, sem saber de onde vêm nem para onde vão7.
O Espírito da verdade não Se limitará apenas a conservar a palavra de Jesus na Igreja como tesouro escondido, mas a derramará sobre os homens, para que dela tirem a vida de suas almas. A Igreja, portanto, será infalível em sua doutrina, pois não poderá enganar-se a si mesma nem aos homens, visto que o Espírito da verdade a guia em tudo e fala por meio de seu órgão. Ele é a sua alma, e admitimos com Santo Agostinho que, quando a língua se exprime, é a alma que se escuta.
TORNA A IGREJA INFALÍVEL
Eis aí esta infalibilidade de nossa santa Mãe Igreja, resultado direto e imediato da incorporação a ela do Espírito da verdade. Esta é a promessa do Filho de Deus, o efeito indispensável da presença do Espírito Santo.
Todo aquele que não reconhece a Igreja como infalível deve admitir, se for consequente consigo mesmo, que o Filho de Deus foi impotente para cumprir sua promessa e que o Espírito da verdade não é senão espírito de erro. Mas quem assim raciocinasse teria perdido o sentido da vida. Crê negar somente a Igreja e, sem perceber, é do próprio Deus que renega.
Tal é o pecado e a desgraça da heresia. A falta de séria reflexão pode encobrir esta terrível consequência, que rigorosamente se deduz. O herege, ao separar-se do pensamento da Igreja, rompeu com o Espírito Santo; poderá reviver se voltar humildemente à Esposa de Cristo, mas, no presente, encontra-se na morte, porque a alma não o anima.
Escutemos agora o grande Doutor:
“Com muita frequência acontece — diz ele — que um membro do corpo humano, uma mão, um dedo, um pé, seja cortado. A alma acompanha este membro separado do corpo? Não. Este membro, quando estava unido ao corpo, gozava de vida; uma vez separado, é a própria vida que perdeu. Do mesmo modo, o cristão permanece católico enquanto está unido ao corpo da Igreja; separado dele, é herege; o Espírito não vai com o membro desprendido”8.
OBEDIÊNCIA À IGREJA
Honra seja dada ao Espírito divino pelo esplendor da verdade que comunica à Esposa. Mas podemos, sem perigo, impor limites à nossa docilidade aos ensinamentos que nos vêm ao mesmo tempo do Espírito e da Esposa, que sabemos tão indissoluvelmente unidos?9
Quer a Igreja nos intime aquilo que devemos crer, mostrando-nos sua prática ou pela simples expressão de seus sentimentos; quer proclame solenemente a definição esperada, devemos olhar e escutar com o coração submisso. Pois a prática da Igreja é mantida na verdade pelo Espírito que a vivifica; a expressão de seus sentimentos é sempre a contínua aspiração deste Espírito que nela vive; e, quanto às sentenças que ela profere, não é ela sozinha quem as pronuncia: é o Espírito que as pronuncia nela e por meio dela.
Se o seu chefe visível declara a doutrina, sabemos que Jesus rogou para que a fé de Pedro não desfalecesse, que o obteve de seu Pai e que confiou ao Espírito o cuidado de conservar Pedro na posse de dom tão precioso para nós. Se o Sumo Pontífice, à frente do colégio episcopal reunido em concílio, declara a fé em pleno acordo com seus membros, é o Espírito quem, nesse juízo coletivo, dá a definição com soberana majestade, para exaltação da verdade e confusão do erro.
É o Espírito quem submeteu todas as heresias aos pés da Esposa vitoriosa; é Ele quem, no decurso dos séculos, suscitou os doutores que derrubaram o erro no momento de sua aparição.
CONFERE A SANTIDADE À IGREJA
Nossa Igreja muito amada tem como herança o dom da infalibilidade; portanto, a Esposa de Jesus é veraz em tudo e sempre, e é devedora desta herança feliz Àquele que desde a eternidade procede do Pai e do Filho. Mas há uma glória que ela também Lhe deve. A Esposa de Deus santo deve ser santa.
Certamente ela o é, e esta santidade recebe-a do Espírito de santidade. A verdade e a santidade se acham unidas em Deus indissoluvelmente; e por isso Jesus, querendo “que fôssemos perfeitos como nosso Pai celeste é perfeito”10, e que, sendo embora simples criaturas, buscássemos o nosso modelo no soberano Bem, roga “para que sejamos santificados na verdade”11.
Jesus confiou sua Esposa à direção do Espírito Santo para fazê-la santa. Pois a santidade está tão inseparavelmente unida a este Espírito divino, que esta é a qualidade principal com que Ele é designado. O próprio Jesus O chama Espírito Santo, de modo que este belo nome Lhe damos pelo testemunho do Filho de Deus.
O Pai é o poder, o Filho a verdade, e o Espírito a santidade. Por isso o Espírito desempenha na terra o ministério de santificador, embora também o Pai e o Filho sejam santos, assim como a verdade está no Pai e no Espírito, e o Espírito, como o Filho, seja também poder. As três divinas Pessoas têm suas propriedades particulares, mas estão unidas em uma só e mesma essência. Ora, a propriedade particular do Espírito Santo é ser amor, e o amor produz a santidade; porque une e identifica o soberano Bem com aquele que ama, e esta união ou identificação é a santidade, a qual é o esplendor do bem, assim como a beleza é o esplendor do verdadeiro.
CONSERVA-A FIEL A CRISTO
Para ser digna de seu Esposo Emanuel, a Igreja devia ser santa. Ele lhe deu a verdade, que o Espírito manteve nela; o Espírito, por sua vez, dar-lhe-á a santidade, e o Pai celeste, vendo-a santa e veraz, adotá-la-á por filha: eis o seu glorioso destino.
Vejamos agora as características dessa santidade. A primeira é a fidelidade ao Esposo. Ora, a história de toda a Igreja é uma demonstração desta fidelidade. Armaram-lhe toda sorte de laços e cometeram contra ela toda espécie de violências, com o fim de enganá-la e arrebatá-la ao Esposo; mas ela fez tudo fracassar e tudo desafiou. Sacrificou seu sangue, seu descanso e até o território onde reinava, antes que permitir alterar em suas mãos o depósito que o Esposo lhe havia confiado.
Contai, se puderdes, os mártires havidos desde os tempos dos Apóstolos até o dia de hoje. Recordai as ofertas feitas pelos príncipes a fim de que ela guardasse silêncio sobre a verdade divina, as ameaças e os cruéis tratamentos que recebeu antes de deixar mutilar o seu símbolo.
Poderão ser esquecidas as lutas formidáveis que sustentou contra os imperadores da Alemanha para salvaguardar a sua liberdade; o nobre desprendimento que demonstrou, preferindo ver a Inglaterra separada de si antes que aprovar, por uma dispensa ilícita, o adultério de um rei; a generosidade que manifestou na pessoa de Pio IX, enfrentando os desdéns da política mundana e os covardes espantos de falsos católicos, antes que abandonar um menino judeu, a quem se havia administrado o Batismo em perigo de morte, exposto a renegar o seu caráter de cristão e a blasfemar de Cristo, de quem se havia tornado membro?
SANTIFICA OS MEMBROS DA IGREJA
A Igreja procede e procederá desta maneira até o fim, pois é santa em sua fidelidade; e o Espírito alimenta nela continuamente um amor tal, que não se detém em considerações diante do dever. Ela pode mostrar o código de suas leis tanto na presença de seus inimigos como de seus fiéis filhos, e perguntar-lhes se poderiam indicar uma só cujo objeto não seja procurar a glória de seu Esposo e o bem dos homens por meio da prática da virtude.
Por isso vemos sair de seu seio milhões de seres virtuosos que vão a Deus depois desta vida. São os santos que a santa Igreja produz sob o influxo do Espírito Santo. Em todas estas miríades de eleitos, não há um só que a Igreja não reclame como fruto de seu seio maternal. Mesmo aqueles que, por permissão divina, nasceram em sociedades separadas, se viveram na disposição de abraçar a verdadeira Igreja ao conhecê-la, e se praticaram todas as virtudes com inteira fidelidade à graça, que é fruto da redenção universal, a santa Igreja os reclama como filhos seus.
Nela se veem toda sorte de solicitudes e heroísmos. Nela são correntes as virtudes ocultas ao mundo antes de sua fundação. Nela há santidades admiráveis, que ela coroa com as honras da canonização; há humildades e virtudes ocultas, que só resplandecerão no dia da eternidade. Os preceitos de Jesus são observados por seus discípulos, nos quais Ele reina como Mestre amado.
Mas este Mestre deu também conselhos que não estão ao alcance de todos, e que são origem de novo aumento da santidade inesgotável da Esposa. Não só há almas generosas que aceitam com amor estes divinos conselhos, mas, além disso, a Igreja, fecundada pelo Espírito divino, não cessa de gerar e sustentar imensas famílias religiosas, cuja vida é a perfeição e cuja lei suprema é a prática dos conselhos evangélicos, unida por voto à observância dos preceitos.
Não nos admiremos, portanto, de que a Esposa resplandeça com o dom dos milagres, que atestigua visivelmente a santidade. Jesus lhe prometeu que sua fronte estaria sempre rodeada desta auréola sobrenatural12; ora, o Apóstolo nos ensina que os prodígios operados na Igreja são obra direta do Espírito Santo13.
E, se alguém objetar que nem todos os membros da Igreja são santos, responder-lhe-emos que basta que esta Esposa de Cristo ofereça a todos o meio de sê-lo; pois, tendo sido concedida a liberdade para que fosse instrumento do mérito, seria contraditório que aqueles que são dotados dela estivessem, ao mesmo tempo, obrigados ao bem. Acrescentaremos que um grande número daqueles que se encontram em pecado, se permanecerem membros da Igreja pela fé e pela respeitosa submissão a seus pastores legítimos, e principalmente ao Pontífice Romano, colocar-se-ão, cedo ou tarde, na graça de Deus e terminarão santamente a sua vida. A misericórdia do Espírito Santo opera esta maravilha por meio da Igreja, que, a exemplo de seu Esposo, “não apaga o pavio fumegante nem quebra a cana rachada”14.
OPERA PELOS SACRAMENTOS
Como não poderá ser santa aquela que, para comunicá-lo aos homens, recebeu o divino setenário dos Sacramentos, cuja riqueza expusemos no curso de uma das semanas precedentes? Que coisa mais santa do que este conjunto de ritos, dos quais uns dão a vida aos pecadores e outros aumentam a graça nos justos?
Estabelecidos pelo próprio Jesus, estes Sacramentos, que são a herança da santa Igreja, estão todos relacionados com o Espírito Santo. No Batismo, na Confirmação e na Ordem, é Ele mesmo quem opera diretamente; no Sacrifício Eucarístico, o Homem-Deus vive e é imolado sobre o altar por sua ação; na Penitência, faz renascer a graça batismal; o Espírito de fortaleza é quem conforta o moribundo na Extrema-Unção e quem une com laço indissolúvel os esposos no Matrimônio.
O Emanuel, ao subir aos céus, deixou-nos como penhor de seu amor este setenário sacramental; mas o tesouro permaneceu selado até que descesse o Espírito divino. Ele mesmo devia fazer a Esposa senhora de depósito tão precioso, depois de havê-la preparado, santificando-a, para recebê-lo em suas régias mãos e administrá-lo fielmente aos seus membros.
INSPIRA A ORAÇÃO
A Igreja, enfim, é santa por sua contínua oração. Aquele que é “Espírito de graça e de oração”15 produz continuamente nos fiéis da Igreja os diversos atos que formam o sublime concerto da oração: adoração, ação de graças, súplica, impulsos de arrependimento, efusões de amor.
Concede a muitos os dons da contemplação, pelos quais a criatura ora é arrebatada até Deus, ora vê Deus descer até ela com favores mais próprios da vida futura que da presente. Quem poderá contar os anelos da santa Igreja pelo Esposo nas milhões de orações que, a cada minuto, sobem da terra ao céu, tanto que parecem uni-los a ambos no mais estreito abraço? Como não há de ser santa aquela que, segundo a enérgica expressão do Apóstolo, “tem sua conversação nos céus”?16
E, se a oração dos membros é tão maravilhosa na maneira de se multiplicar e em seu ardor, quão imponente e quanto mais bela é a oração geral da Igreja na santa liturgia, onde o Espírito Santo opera de modo absoluto, inspirando a Esposa e sugerindo-lhe essas expressões que expusemos ao longo desta obra! Digam aqueles que nos acompanharam até aqui se a oração litúrgica não é a primeira de todas, se não é, igualmente, a luz e a vida de sua oração pessoal. Louvem a santidade da Esposa, que lhes dá de sua plenitude, e glorifiquem o “Espírito de graça e de oração” pelo que Se digna fazer por ela e por eles.
Ó Igreja, foste “santificada na verdade”; e por ti participamos de toda a doutrina de Jesus, teu Esposo; por ti somos colocados no caminho desta santidade, que é teu elemento. Que podemos desejar depois de possuir a Verdade e o Bem? Fora de ti, em vão o buscamos, e o nosso bem consiste em não termos nada a buscar; teu coração maternal não deseja senão derramar sobre nós todos os dons e luzes que recebeste.
Bendita sejas nesta solenidade de Pentecostes, na qual recebeste tantas graças para nós! Estamos deslumbrados pelo resplendor das prerrogativas que a munificência de teu Esposo te alcançou e das quais, por sua vez, o Espírito Santo te cumula; e agora que te conhecemos melhor, prometemos ser-te mais fiéis do que nunca.
A estação da quinta-feira de Pentecostes é na basílica de São Lourenço Fora dos Muros. Este venerável santuário, onde repousam os despojos mortais do valoroso arcediago da Igreja romana, é um dos troféus mais gloriosos da vitória do Espírito divino sobre o Príncipe deste mundo. E a reunião anual dos fiéis, depois de tantos séculos, nesse lugar, atesta quão completa foi a vitória que deu a Cristo Roma e o seu poder.
O DOM DO CONSELHO
O dom da Fortaleza, cuja necessidade na obra da santificação do cristão reconhecemos, não bastaria para nos dar a segurança deste resultado, se o Espírito divino não houvesse providenciado uni-lo a outro dom que vem em seguida e que preserva de todo perigo. Este novo benefício consiste no dom do Conselho.
A fortaleza não pode ser deixada a si mesma; necessita de um elemento que a dirija. O dom da ciência não pode ser este elemento, pois, embora ilumine a alma acerca de seu fim e sobre as regras gerais de conduta que deve observar, ainda assim não comunica luz suficiente sobre as aplicações especiais da lei de Deus e sobre o governo da vida.
Nas diversas situações em que possamos encontrar-nos, nas resoluções que possamos tomar, é necessário que escutemos a voz do Espírito Santo, e esta voz divina chega a nós pelo dom do Conselho. Se quisermos escutá-la, ela nos diz o que devemos fazer e o que devemos evitar, o que devemos dizer e o que devemos calar, o que podemos conservar e aquilo a que devemos renunciar. Pelo dom do Conselho, o Espírito Santo opera em nossa inteligência, assim como pelo dom da Fortaleza opera na vontade.
Este precioso dom tem sua aplicação em toda a vida; pois é necessário que, sem cessar, nos decidamos por um partido ou por outro; e devemos ser agradecidos ao Espírito divino ao pensar que Ele nunca nos deixa sozinhos, se estamos dispostos a seguir a direção que Ele nos indica. Quantos laços pode fazer-nos evitar! Quantas ilusões pode desfazer em nós, e quantas realidades pode fazer-nos descobrir!
Mas, para não desperdiçar suas inspirações, devemos livrar-nos dos impulsos naturais que talvez nos determinem com muita frequência; da temeridade que nos leva ao capricho da paixão; da precipitação que pretende que emitamos nosso juízo e atuemos quando ainda não vimos senão um lado das coisas; enfim, da indiferença que faz com que nos decidamos ao acaso, por temor ao cansaço de buscar o que seria melhor.
O Espírito Santo, pelo dom do Conselho, preserva o homem de todos estes inconvenientes. Modera a natureza, frequentemente tão exagerada quando não apática. Mantém a alma atenta ao verdadeiro, ao bom, ao que, sem dúvida, lhe é mais vantajoso. Insinua-lhe esta virtude, que é o complemento e como o tempero de todas as outras; referimo-nos à discrição, cujo segredo Ele possui, e pela qual as virtudes se conservam, se harmonizam e não degeneram em defeitos.
Sob a direção do dom do Conselho, o cristão não tem por que temer; o Espírito Santo assume a responsabilidade de tudo. Que importa, pois, que o mundo critique ou censure, que se admire ou se escandalize? O mundo se julga prudente; mas falta-lhe o dom do Conselho. Daí que, muitas vezes, as resoluções tomadas sob sua inspiração tenham um fim diverso daquele que se havia proposto. E assim tinha de ser; pois, referindo-se a ele, disse o Senhor: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os meus caminhos os vossos caminhos”17.
Peçamos, com toda a ânsia de nossos desejos, o dom divino que nos preserva do perigo de nos governarmos a nós mesmos; mas saibamos que este dom não habita senão naqueles que o têm em suficiente estima para renunciar a si mesmos diante dele. Se o Espírito Santo nos encontrar livres das ideias mundanas e convencidos de nossa fragilidade, dignar-Se-á então ser o nosso Conselho; do mesmo modo que, se nos tivermos por prudentes a nossos próprios olhos, afastará sua luz e nos deixará sozinhos.
Ó Espírito divino, que isto não nos aconteça! Bem sabemos, por experiência, que não nos é vantajoso seguir os acasos da prudência humana, e renunciamos diante de Vós às pretensões de nosso espírito, tão disposto a deixar-se deslumbrar e a criar ilusões. Dignai-Vos conservar e desenvolver em nós, com toda liberdade, este dom inefável que nos concedestes no Batismo: sede sempre o nosso Conselho.
“Fazei-nos conhecer os vossos caminhos e ensinai-nos as vossas veredas. Guiai-nos na verdade e instruí-nos, pois de Vós nos virá a salvação, e por isso nos submetemos à vossa lei”18. Sabemos que seremos julgados por todas as nossas obras e pensamentos; mas sabemos também que nada temos a temer enquanto formos fiéis aos vossos mandamentos. Prestaremos atenção “para escutar o que nos diz o Senhor nosso Deus”19, ao Espírito de Conselho, quer nos fale diretamente, quer nos remeta ao órgão que nos preparou. Bendito seja Jesus, que nos enviou o seu Espírito para ser o nosso guia; e bendito seja este divino Espírito, que Se digna assistir-nos sempre e a quem nossas resistências passadas não afastaram de nós!
1. Jo. 14, 6.
2. Jo. 15, 15.
3. Jo. 16, 13.
4. Jo. 14, 16.
5. Jo. 16, 17.
6. Tm. 3, 15.
7. Jo. 12, 35.
8. Sermão 257, para o dia de Pentecostes.
9. Ap. 22, 37.
10. Mt. 5, 48.
11. Jo. 17, 19.
12. Jo. 14, 12.
13. I Cor. 12, 11.
14. Is. 42, 3.
15. Zc. 12, 10.
16. Fl. 3, 20.
17. Is. 55, 8.
18. Sl. 118.
19. Sl. 83, 9.


