Oratório São José

Sexta-Feira após a Oitava da Ascensão

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SEXTA-FEIRA APÓS DA OITAVA DA ASCENSÃO

PRESENÇA INVISÍVEL DO SENHOR

Terminou a oitava; já se cumpriu o mistério da Ascensão. Jesus já não se mostrará mais aos nossos olhos até que venha julgar os vivos e os mortos. Doravante, somente a fé no-lo revelará, e somente poderemos possuí-lo pelo amor: tal é a condição da nossa prova, até que, como recompensa desta fé e deste amor, sejamos admitidos no interior do santuário.

Entretanto, não murmuremos. Esperemos, antes, com essa esperança que nunca engana, como diz o Apóstolo1. E como não havemos de viver inteiramente nesta esperança, quando Jesus nos prometeu estar conosco até a consumação dos séculos?2 Ele já não se fará visível, mas estará sempre ali. Poderia, acaso, abandonar a Igreja, sua Esposa? E não somos nós os membros desta Esposa amadíssima?

A PROMESSA DO ESPÍRITO SANTO

Mas Jesus faz ainda mais por nós. Se Ele se retira, não o faz sem nos dizer, com ternura infinita: “Não vos deixarei órfãos”3. Quando nos diz: “É necessário que Eu vá”, acrescenta: “Se Eu não for, o Consolador não virá a vós”4.

Este Consolador é o Espírito Santo, o Espírito do Pai e do Filho, que descerá incessantemente sobre nós e que deve permanecer entre nós, visível em suas obras, até que Jesus torne a aparecer para retirar os seus eleitos de um mundo que merecerá ser abandonado às chamas.

Mas o Espírito não deve descer sobre nós enquanto não for enviado; e, como nos ensina o Evangelista: “Não devia ser enviado antes que Jesus fosse glorificado”5. Ele vem continuar a obra. Mas esta obra devia ser primeiramente levada a termo pelo Filho de Deus, até o limite assinalado pelos decretos eternos.

Depois de seus trabalhos, Jesus entrou em seu repouso, levando consigo a humanidade elevada nele às honras divinas. O Espírito Santo não revestirá esta natureza; mas vem consolar-nos da ausência de Jesus e acabar o que falta cumprir na obra da nossa santificação.

É Ele que já vimos trabalhando nestes dois dias precedentes, quando contemplamos os prodígios de fé e de amor depois da partida d’Aquele que é o objeto de uma e de outro. O Espírito Santo é quem produz a fé nas almas e, ao mesmo tempo, “derrama a caridade nos corações”6.

Chegamos, enfim, ao momento de ver inaugurar-se uma nova série de maravilhas do amor de Deus à sua criatura. Dentro de poucas horas, o reino do Espírito Santo começará; mas, neste último dia que nos resta, pois amanhã já se inaugurará a solenidade de Pentecostes, deixemo-nos levar por essa legítima necessidade de venerar ainda as pegadas de nosso Redentor sobre a terra.

A Liturgia no-lo havia apresentado pouco a pouco, desde o Advento, quando rodeávamos a Mãe divina, esperando com respeito o feliz momento em que nos desse o seu fruto bendito; e agora, para encontrá-lo, é-nos necessário levantar o olhar para o céu, sair deste mundo, onde Ele já não se deixa ver.

Ó gratas recordações do trato íntimo que tivemos por tanto tempo com o Emanuel, desde que Ele nos admitiu a segui-lo em todos os seus caminhos, já não podemos relegar-vos ao esquecimento! Mais ainda: contamos com o Espírito divino para gravar-vos mais profundamente em nossas almas. Não anunciou Jesus que, ao vir a nós este inefável Consolador, nos faria recordar tudo o que havíamos ouvido, saboreado e experimentado na companhia d’Aquele que, sendo Deus, se dignou viver conosco a nossa vida, para preparar-nos a viver eternamente a sua?7

A PEREGRINAÇÃO DO CAVALEIRO

São Bernardino de Sena traz, em seu primeiro sermão da festa da Ascensão, uma história comovente que pode servir-nos de útil instrução neste dia em que damos o último adeus à presença visível de nosso Redentor.

Conta ele que um cavaleiro empreendeu uma viagem com o desejo de visitar os lugares que tinham sido testemunhas dos mistérios da nossa salvação. Quis começar a sua peregrinação por Nazaré e, no próprio lugar em que o Verbo se fez carne, prestou suas homenagens ao amor infinito que o havia trazido do céu à terra, para nos tirar da nossa perdição.

Belém viu, em seguida, nosso peregrino chegar aos seus muros, buscando o lugar do bem-aventurado nascimento que nos deu um Salvador. Suas lágrimas correram abundantes sobre o lugar em que Maria havia adorado o seu Recém-nascido; e, como conta São Francisco de Sales, que também quis narrar esta deliciosa história, “lambeu o pó sobre o qual havia começado a primeira infância do divino Menino”8.

O viajante, que não temia percorrer a Palestina em todos os sentidos, marchou de Belém às margens do Jordão e deteve-se em Betabara, no lugar chamado Betânia, onde o Precursor havia batizado o Redentor. E, para honrar mais inteiramente este mistério, quis, por sua vez, penetrar no leito do rio e banhar-se naquelas águas que lhe recordavam aquelas que Jesus se dignara santificar pelo contato de seus membros sagrados.

Dali, seguindo as pegadas do Filho de Deus, penetrou no deserto, para ver com seus próprios olhos o teatro da penitência, dos combates e da vitória de nosso Mestre. Em seguida, dirigiu seus passos para o Tabor; ali venerou o mistério da Transfiguração de Jesus, quando Ele deixou brilhar, diante dos olhos de três de seus discípulos, alguns raios de sua glória.

Por fim, o piedoso cavaleiro entrou em Jerusalém. O Cenáculo o viu recolher, com terníssimo amor, as recordações do lava-pés dos discípulos e da instituição do grande mistério da Eucaristia.

Estimulado pelo desejo de não deixar nenhuma estação sem nela haver orado com lágrimas, atravessou a torrente do Cedron e dirigiu-se ao horto de Getsêmani, onde o pensamento de seu Salvador coberto de sangue infundiu em seu coração uma simpatia inefável para com a vítima de nossos pecados.

Em seguida, veio-lhe à imaginação a figura deste Salvador carregado de correntes e arrastado por Jerusalém.

“Então caminha — diz-nos o santo Bispo de Genebra, a quem convém deixar a palavra sobre este assunto —, caminha seguindo por toda parte as pegadas de seu Amado, e o vê em sua imaginação arrastado daqui para ali: à casa de Anás, à casa de Caifás, à casa de Pilatos, à casa de Herodes; açoitado, escarnecido, cuspido, coroado de espinhos, apresentado ao povo, condenado à morte, carregado com sua cruz; e, enquanto a leva, tem o doloroso encontro de sua Mãe, transpassada de dor, e das mulheres de Jerusalém, que choram por Ele.

“Por fim, este devoto peregrino sobe ao monte Calvário e vê, em espírito, a cruz estendida sobre a terra, e Nosso Senhor, a quem nela estendem e cruelmente pregam pelos pés e pelas mãos. Depois contempla como levantam a cruz, e o Crucificado fica suspenso no ar, e seu sangue corre por todas as partes de seu divino corpo.

“Olha para a pobre Virgem Santíssima, inteiramente transpassada por uma espada de dor; depois volta os olhos para o Salvador crucificado, a quem escuta as sete palavras com amor sem igual; e, enfim, vê-o moribundo, depois morto, e em seguida recebendo a lançada e mostrando, pela abertura da ferida, o seu divino Coração; depois, retirado da cruz e levado a um sepulcro, para onde o segue, derramando um mar de lágrimas nos lugares regados com o sangue de seu Redentor; em seguida, entra no sepulcro e amortalha o seu coração ao lado do corpo de seu Mestre.

“Mais tarde, ressuscitando com Ele, vai a Emaús e vê tudo o que ocorre entre o Senhor e os dois discípulos; e, por fim, voltando ao monte Olivete, onde se dá o mistério da Ascensão, e vendo ali as últimas pegadas e vestígios dos pés do divino Salvador, prostrado sobre eles e beijando-os mil e mil vezes com suspiros de amor infinito, começou a concentrar em si toda a intensidade de seus afetos, como um arqueiro estica a corda quando quer disparar a sua flecha; depois, levantando os olhos e as mãos ao céu: ‘Ó Jesus — disse —, meu doce Jesus, já não sei onde buscar-te nem seguir-te mais na terra. Ah! Jesus, Jesus, amor meu, concede, pois, que meu coração te siga e caminhe contigo para o alto’. E, com estas ardentes palavras, lançou sua alma ao céu, como uma seta sagrada que, como divino arqueiro, disparou ao alvo de seu feliz objeto”.

São Bernardino de Sena conta que os companheiros e servidores do piedoso cavaleiro, vendo-o sucumbir ao esforço de seu amor, correram a buscar um médico, pensando que ainda seria possível fazê-lo voltar à vida. Mas essa alma bem-aventurada havia voado seguindo o Redentor, deixando-nos um monumento imortal do amor que pôde nascer no coração de um homem pela simples contemplação destes divinos mistérios que nós seguimos à vontade, conduzidos pela Igreja, na sucessão das cenas da Sagrada Liturgia.

Oxalá pudéssemos possuir agora em nós a Cristo, a quem tantas facilidades tivemos de conhecer! Digne-se o Espírito Santo, em sua próxima visita, conservar em nossas almas os traços deste Chefe divino, com o qual há de unir-nos ainda mais estreitamente!


 

1. Rm. 5,5.

2. Mt. 28, 20.

3. Jo. 14, 18.

4. Ibid. 16, 17.

5. Jo. 7, 39.

6. Rm. 5, 5.

7. Jo. 14, 26.

8. Tratado do Amor de Deus. 1, 7 e 12.

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