Quinta-Feira da Oitava da Ascensão
QUINTA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO
A VITÓRIA DO AMOR
Vimos que a Ascensão do Emanuel Lhe alcançou aqui embaixo, por meio da fé, um triunfo que Lhe dá a soberania sobre as inteligências. Mas resulta ainda outra vitória do mesmo mistério: a vitória do amor, que faz Jesus reinar nos corações. Em quem creram os homens, durante dezenove séculos, firme e universalmente, senão n’Ele? Que ponto de reunião tiveram as inteligências fora dos dogmas da fé? Que trevas não dissipou esta chama divina? Que claridades não projetou sobre os povos que acolheram sua luz? Em que sombras não deixou aqueles que, depois de a terem recebido, fecharam os olhos aos seus raios?
Podemos dizer igualmente que, desde a Ascensão do Redentor, ninguém foi tão amado pelos homens de todos os lugares e de todas as raças como Ele o foi, ainda o é e o será até o fim. Era necessário, portanto, que Se retirasse, para que fosse amado deste modo, e também para que crêssemos n’Ele. “Convém-vos que Eu vá”; estas palavras nos servirão ainda para penetrar melhor no mistério.
O AMOR DOS APÓSTOLOS E DOS DISCÍPULOS
Antes da Ascensão, os discípulos eram tão vacilantes em seu amor como em sua fé; Jesus não podia contar com eles. Mas, logo que desaparece de seus olhares, apodera-se de seus corações um entusiasmo desconhecido. Em vez de chorar o seu abandono, voltam a Jerusalém cheios de júbilo. Felizes com o triunfo do Mestre, esquecem-se de si mesmos e se determinam a obedecer-Lhe, voltando ao Cenáculo, onde a Virtude do alto viria visitá-los.
Observai estes homens durante os anos que se seguirão; acompanhai o seu caminho até a morte; contai, se puderdes, os atos de abnegação na imensa obra da pregação do Evangelho, e dizei se tiveram outro motivo senão o amor de seu Mestre, que os sustentou e os tornou capazes de tudo o que fizeram. Com que decisão beberam o seu cálice!1 Com que entusiasmo saudaram a sua cruz, ao vê-la erguida à sua espera!
O AMOR DOS MÁRTIRES
Mas não nos limitemos apenas a estes primeiros testemunhos: eles haviam visto Cristo, haviam-no escutado, haviam-no tocado com suas mãos2. Voltemos o olhar para as gerações que O conheceram somente pela fé, e vejamos se este amor, que triunfa nos Apóstolos, faltou um só dia, em dezenove séculos, entre os cristãos.
Começa então a luta do martírio, que, desde a promulgação do Evangelho, nunca cessou inteiramente, e cujo início ocupa trezentos anos. Por que motivo, senão para provar a Cristo o seu amor, tantos heróis e heroínas correram ao encontro dos tormentos mais afrontosos, desprezaram, sorrindo, as chamas das fogueiras e os dentes das feras?
Recordemos as horríveis provas que aceitavam com tanto ardor, não só homens endurecidos no sofrimento, mas também mulheres delicadas, jovens donzelas e até crianças. Rememoremos aquelas sublimes palavras, aquele nobre entusiasmo que aspirava a devolver a Cristo morte por morte; e não esqueçamos que os mártires de nossos dias, na China, no Tonquim, na Cochinchina e na Coreia, reproduziram literalmente, sem a menor dúvida, diante de seus juízes e verdugos, a linguagem que usavam seus predecessores diante dos procônsules dos séculos III e IV.
O AMOR DOS RELIGIOSOS
Sim, certamente, nosso divino Rei, que subiu aos céus, foi amado como ninguém jamais o será nem o poderia ser; porque não se poderiam contar os milhões de almas que, desde sua partida, somente para se unirem a Ele, pisotearam as seduções do amor terreno, sem querer conhecer outro amor senão o seu. Todos os séculos, inclusive o nosso, em meio à sua tibieza, viram estes exemplos, e somente Deus conhece o seu número.
Foi amado nesta terra e o será até o último dia do mundo. E disso dá testemunho, ao longo de todos os tempos, o generoso abandono dos bens terrenos, com o fim de alcançar a semelhança com o Menino de Belém. Abandono praticado frequentemente pelas pessoas mais opulentas do século!
Será necessário assinalar tantos sacrifícios da vontade própria, arrancados do orgulho humano, com o fim de realizar na humanidade o mistério da obediência do Homem-Deus nesta terra, e os incontáveis traços de heroísmo oferecidos pela penitência cristã, que continua e completa aqui embaixo, com tanta generosidade, as satisfações que o amor do Redentor quis aceitar pelos homens em sua dolorosa Paixão?
O AMOR DOS MISSIONÁRIOS
Mas este ardor inextinguível para com Jesus, elevado ao céu, ainda não ficou satisfeito com tanta abnegação. Jesus havia dito: “Tudo o que fizerdes ao menor de vossos irmãos, a Mim o fazeis”; o amor de Cristo apoderou-se desta palavra e, desde o princípio até hoje, está empenhado em outro gênero de busca, para chegar, através do pobre, a Jesus, que nele habita.
E, como a primeira de todas as misérias humanas é a ignorância das verdades divinas, sem as quais ninguém se pode salvar, todas as épocas forneceram uma sucessão de apóstolos que, renunciando aos doces laços da pátria e da família, se lançam a socorrer os povos que jazem nas sombras da morte.
Quem poderá dizer as fadigas que se impõem nesse trabalho, os tormentos que suportam, para que o nome de Jesus seja anunciado, para que seja amado por um selvagem ou glorificado por um chinês ou por um indiano?
O AMOR DOS HOSPITALEIROS
Trata-se de consolar as dores de Cristo ou de curar as chagas nos mais desgraçados de seus irmãos? Não penseis que falte jamais o amor que reside nos fiéis de sua Igreja. Contai antes os membros dessas associações caritativas que se consagraram ao alívio dos pobres e dos enfermos, desde que foi possível aos cristãos desenvolver, à luz do dia, seus planos para exercer a caridade.
Vede o sexo frágil pagar o seu tributo com heroica solicitude à cabeceira dos enfermos e moribundos. Até o mundo fica mudo diante disso; os economistas se admiram ao se verem obrigados a contar com um elemento tão indispensável à sociedade, e que escapa a todas as suas especulações. Felizes eles, se chegarem a conhecer Aquele cujo amor, por si só, opera tais maravilhas!
O AMOR DOS SIMPLES FIÉIS
Mas não é nada aquilo que o olho do homem pode ver: ele não capta senão o que aparece exteriormente. Ninguém, pois, poderá avaliar até que ponto Jesus ainda é amado na terra. Contem-se os milhões de cristãos que passaram pela terra desde a origem da Igreja. Entre eles, sem dúvida, há muitos que tiveram a desgraça de abandonar o seu fim; mas que multidão incontável amou, de todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, a Nosso Senhor Jesus Cristo!
Uns O amaram constantemente; outros tiveram necessidade de ser chamados por sua misericórdia, mas adormeceram em sua paz. Contai, se puderdes, os atos virtuosos, os sacrifícios feitos por este imenso povo cristão em dezenove séculos! Só a memória de Deus é capaz de abarcar toda esta lembrança.
Ora, todo este conjunto de obras e sentimentos, desde o ardor seráfico da alma já divinizada até o copo de água dado em nome do Redentor, que é senão um incessante concerto de amor que sobe dia e noite para Cristo, esse divino Ausente que a terra não pode esquecer?
Onde há um homem que, por grata que tenha sido a memória que deixou de si, consiga que se sacrifiquem por ele, que se morra por ele, que se renuncie a si mesmo por seu amor, durante um, dez ou vinte séculos depois de sua morte? Onde se encontrará um morto cujo nome faça pulsar os corações de tantos milhões de homens de todas as gerações, raças e séculos, fora de Jesus, que, depois de morto, ressuscitou e subiu aos céus?
PRECE
Mas reconhecemos humildemente, divino Emanuel, que era necessário que nos abandonásseis, para que a fé, tomando impulso, Vos fosse buscar até os céus, seguindo os vossos passos, e para que nossos corações, assim esclarecidos, se tornassem capazes de Vos amar.
Alegrai-Vos com vossa Ascensão, Capitão divino dos anjos e dos homens! Em nosso exílio, saborearemos os frutos deste mistério, até que ele se cumpra em nós. Iluminai estes pobres cegos a quem o orgulho impede de Vos reconhecer em traços tão palpáveis. Eles Vos discutem, Vos raciocinam, sem se dar conta do testemunho de fé e de amor de tantas gerações.
A homenagem que Vos oferece a humanidade, representada pelas primeiras nações da terra, pelos corações mais virtuosos e por tantos homens inteligentes, é para eles como se não existisse. Mas que são eles para se oporem a tal concerto? Tirai-os, Senhor, de seu orgulho vazio e perigoso, e virão, e dirão conosco:
“Verdadeiramente era melhor para este mundo que perdesse, ó Emanuel, a vossa presença sensível! Porque, se foram manifestadas e reconhecidas a vossa grandeza, o vosso poder e a vossa divindade, foi desde que deixastes de estar visível entre nós. Glória, pois, ao mistério da Ascensão, pelo qual — como diz o Salmista —, ao subirdes aos céus, recebeis os dons mais elevados para os repartirdes largamente entre os homens.”3
1. Mt. 20, 23.
2. Jo. 1, 1.
3. Sl. 67, 9.

