Oratório São José

Sábado da Vigília de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SÁBADO DA VIGÍLIA DE PENTECOSTES

ESPERA DO ESPÍRITO SANTO

A luz deslumbrante da solenidade de amanhã já ilumina este dia. Os fiéis dispõem-se, pelo jejum, a celebrar dignamente o mistério; mas, como na Vigília Pascal, a Missa dos neófitos, que então se celebrava à noite, agora foi antecipada. Por isso, desde antes do meio-dia, o louvor do Espírito Santo, cuja efusão está tão próxima, ressoou em toda igreja que tenha pia batismal.

À tarde, o ofício de Vésperas dá início à augusta solenidade. O Reino do Espírito divino está, pois, proclamado desde hoje pela Liturgia. Unamo-nos aos pensamentos e sentimentos dos habitantes do Cenáculo, onde está prestes a cumprir-se a nossa esperança.

A CRIAÇÃO

Em toda esta série de mistérios que vimos desenvolver-se até aqui no curso do Ano Litúrgico, pressentimos com frequência a ação da terceira Pessoa da Santíssima Trindade. As leituras dos Livros Sagrados, tanto do Antigo como do Novo Testamento, chamaram mais de uma vez a nossa atenção respeitosa para este Espírito divino, que parecia rodear-se de mistério, como se ainda não tivesse chegado o tempo de sua manifestação.

As operações de Deus nas criaturas são sucessivas; mas chegam infalivelmente a seu tempo. O historiador sagrado, no relato da criação, mostra-nos o Espírito Santo pairando sobre as águas e fecundando-as silenciosamente, esperando a separação delas da terra que inundavam.

PREPARAÇÃO DA ENCARNAÇÃO

Embora o Reino manifesto do Espírito Santo sobre o mundo tenha sido diferido até o estabelecimento do Filho de Deus sobre o seu trono eterno, não pensemos por isso que o Espírito divino tenha permanecido inativo até agora. Todas as Sagradas Escrituras, das quais encontramos tantos fragmentos na Liturgia, que são senão a obra oculta d’Aquele que, como nos diz o Símbolo, “falou pelos Profetas”?1

Era Ele quem nos dava o Verbo, Sabedoria de Deus, por meio da Escritura, como mais tarde deveria dá-lo a nós na carne da humanidade. Não esteve ocioso nem um só momento no decurso dos séculos. Preparava o mundo para o reino do Verbo encarnado, juntando e misturando as raças, produzindo essa expectativa universal que se estendeu desde os povos mais bárbaros até as nações mais avançadas na civilização.

Ainda não se dera a conhecer à terra, mas pairava com amor sobre a humanidade, como no princípio pairara sobre as águas mudas e insensíveis.

A ENCARNAÇÃO

Esperando a sua vinda, os profetas o anunciavam nos mesmos oráculos em que prediziam a chegada do Filho de Deus. O Senhor dizia pela boca de Joel: “Eu derramarei o meu Espírito sobre toda carne”2. Em outra ocasião, anunciava-se assim pela voz de Ezequiel:

“Eu derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados de todas as vossas manchas, e vos purificarei de todos os vossos ídolos. E vos darei um coração novo, e porei no meio de vós um novo espírito; e vos arrancarei o coração de pedra que está em vossa carne, e vos darei um coração de carne; e porei no meio de vós um Espírito que é o meu”3.

Mas, antes de sua própria manifestação, o Espírito Santo havia de agir diretamente para a manifestação do Verbo divino. Quando o poder criador fez sair do nada o corpo e a alma da futura Mãe de um Deus, preparou a morada da soberana majestade, santificando Maria desde o primeiro instante de sua Conceição e tomando posse dela como de um templo onde o Filho de Deus se dignaria descer.

No momento da Anunciação, o Arcanjo declarou à Virgem que o Espírito Santo viria sobre ela e que a virtude do Altíssimo a cobriria com a sua sombra. Apenas a Virgem pronunciou o seu consentimento, a operação do Espírito Santo produziu nela o mais inefável de seus mistérios: o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

Sobre esta flor nascida no ramo que brotou do tronco de Jessé, sobre esta humanidade produzida divinamente em Maria, o Espírito do Pai e do Filho repousa com amor, cumulando-a de seus dons e adaptando-a ao seu fim glorioso e eterno4. Aquele que havia dotado a Mãe de tantos tesouros de graça ultrapassa em seu Filho, de maneira incomensurável, a medida que parecia já próxima do infinito.

E todas estas maravilhas Ele as opera em silêncio, como sempre; porque a hora em que deve brilhar a sua vinda ainda não chegou. A terra não fará senão entrevê-lo no dia em que, sobre o leito do Jordão, a cujas águas desceu Jesus, Ele estenderá suas asas e virá pousar sobre a cabeça deste Filho muito amado do Pai.

João percebe o mistério do mesmo modo que, antes de nascer, sentira no seio de Maria o fruto bendito que nela habitava; mas os homens não viram mais que uma pomba, e a pomba não revelou os segredos da eternidade.

O Reino do Filho de Deus assenta-se sobre seus fundamentos predestinados. Temos n’Ele nosso irmão, porque tomou a nossa carne com suas enfermidades; temos n’Ele nosso doutor, porque é a Sabedoria do Pai e, com suas lições, nos inicia em toda verdade; n’Ele temos nosso médico, porque cura todas as nossas fraquezas e enfermidades; n’Ele temos nosso mediador, porque faz voltar, em sua santa humanidade, toda a criação ao seu Autor; temos n’Ele nosso reparador e, em seu sangue, nosso resgate, porque o pecado do homem havia rompido o laço entre Deus e nós e nos era necessário um Redentor divino; temos n’Ele um chefe que não se envergonha de seus membros, por humildes que sejam; um Rei que acabamos de ver coroado para sempre, e um Senhor a quem o Senhor faz sentar-se à sua direita5.

A IGREJA

Mas, se para sempre nos governa, agora o faz do alto dos céus, até o momento em que apareça de novo para esmagar contra a terra a cabeça dos pecadores, quando clamar a voz do Anjo: “Já não haverá mais tempo”6.

Mas, enquanto se espera esta vinda, muitos séculos devem transcorrer, e estes séculos foram destinados ao império do Espírito Santo: “Mas ainda não se dera o Espírito Santo — diz São João —, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado”7.

O mistério da Ascensão forma, pois, o limite entre os dois reinados divinos aqui embaixo: o reino visível do Filho de Deus e o reino visível do Espírito Santo.

A fim de uni-los e preparar a sua sucessão, não são apenas profetas mortais que falam, mas também o próprio Emanuel, durante sua vida mortal, fez-se o arauto do reino próximo do Espírito.

Não o ouvimos dizer: “Convém-vos que eu vá; porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós”?8 [O mundo tem, pois, grande necessidade deste Hóspede divino, de quem o próprio Filho de Deus se faz precursor.

E, para que conhecêssemos qual é a majestade deste novo Senhor que vai reinar sobre nós, Jesus nos declara a gravidade dos castigos que cairão sobre aqueles que o ofenderem: “Todo aquele que disser alguma palavra contra o Filho — diz Ele — será perdoado; mas aquele que falar contra o Espírito Santo não obterá perdão, nem neste mundo nem no outro”9.

Todavia, este Espírito não tomará a natureza humana como o Filho; não trabalhará por resgatar o mundo como o Filho o resgatou, mas virá com um amor tão grande que não se poderá desprezá-lo impunemente. A Ele confiará Jesus a Igreja, sua Esposa, durante os longos séculos que há de durar a sua viuvez; a Ele confiará a sua obra, para que a mantenha e a dirija em tudo.

DISPOSIÇÕES PARA RECEBER O ESPÍRITO SANTO

Nós, portanto, chamados a receber dentro de poucas horas a efusão do Espírito de amor que vem “renovar a face da terra”10, estejamos atentos como estivemos em Belém nos momentos que precederam o nascimento do Emanuel.

O Verbo e o Espírito Santo são iguais em glória e em poder, e sua vinda à terra procede do mesmo decreto eterno e pacífico da Santíssima Trindade, que determinou, por esta dupla visita, “fazer-nos participantes da natureza divina”11. Nós, filhos do nada, somos chamados a tornar-nos, pela operação do Verbo e do Espírito, filhos do Pai celestial.

Ora, se desejamos saber como deve preparar-se a alma fiel para a vinda do divino Paráclito, voltemos mentalmente ao Cenáculo, onde deixamos reunidos os discípulos, perseverando na oração segundo a ordem do Mestre, e esperando que a Virtude do alto desça sobre eles e os cubra como uma armadura para os combates que hão de sustentar.

NOSSA SENHORA NO CENÁCULO

Neste asilo de recolhimento e de paz, nossos olhos procuram respeitosamente, de imediato, Maria, Mãe de Jesus, obra-prima do Espírito Santo, Igreja do Deus vivo, da qual amanhã sairá, como do seio de uma mãe, pela ação do mesmo Espírito, a Igreja militante que esta nova Eva representa e ainda contém em si.

Não tem direito, nestes momentos, a receber todas as nossas homenagens esta criatura incomparável, a quem vimos associada a todos os mistérios do Filho de Deus e que muito em breve será o objeto mais digno da visita do Espírito Santo?

Nós vos saudamos, Maria, cheia de graça, nós que ainda estamos encerrados em vós e saboreamos a alegria em vosso seio materno. Não falou por nós a Igreja na Liturgia, ao comentar para vossa glória o cântico de vosso ascendente Davi?12 Em vão a vossa humildade pretende subtrair-se às honras que amanhã vos esperam. Criatura imaculada, templo do Espírito Santo, é necessário que este Espírito se vos comunique de um modo novo; porque uma nova obra vos espera, e a terra ainda deve possuir-vos.

OS APÓSTOLOS

Ao redor de Maria reuniu-se o colégio apostólico, contemplando com arroubo aquela cujos traços augustos lhe recordam o Senhor ausente. Nos dias precedentes, teve lugar um acontecimento grave aos olhos de Maria e dos homens no Cenáculo.

Assim como, para estabelecer o povo de Israel, Deus havia escolhido doze filhos de Jacó como fundamentos dessa raça privilegiada, Jesus havia escolhido doze homens deste mesmo povo para que fossem as bases do edifício da Igreja cristã, cuja pedra angular é Ele, e Pedro com Ele e n’Ele.

A queda de Judas havia reduzido a onze os escolhidos pela eleição divina; já não existia o número sagrado, e o Espírito Santo estava para descer de um momento para outro sobre o colégio apostólico. Antes de subir ao céu, Jesus não julgara oportuno fazer Ele mesmo a escolha do sucessor do discípulo caído. Mas era preciso que se completasse o número sagrado antes da efusão da Virtude do alto. A Igreja não devia invejar em nada a Sinagoga.

Quem cumpriria o ofício do Filho de Deus na designação de um Apóstolo? Tal direito não podia pertencer senão a Pedro, diz-nos São João Crisóstomo; mas, em sua modéstia, ele declinou a honra, não querendo lembrar-se senão da humildade13. Uma eleição seguiu-se ao discurso de Pedro, e Matias, agregado aos outros Apóstolos, completou o número misterioso e esperou com eles a vinda prometida do Consolador.

OS DISCÍPULOS

No Cenáculo, aos olhos de Maria, reuniram-se também os discípulos que, sem terem tido a honra de ser escolhidos Apóstolos, foram, contudo, testemunhas das obras e dos mistérios do Homem-Deus; foram postos à parte e reservados para a pregação da Boa-Nova.

Madalena e as outras santas mulheres esperam, com o recolhimento que lhes prescreveu o Mestre, esta visita do alto, cujo poder muito em breve experimentarão. Prestemos nossas homenagens a esta santa assembleia, a esses cento e vinte discípulos que nos foram dados como modelos nesta importante circunstância; porque o Espírito Santo deve vir logo a eles: são as suas primícias.

Mais tarde descerá também sobre nós e, a fim de preparar-nos para sua vinda, a Igreja nos impõe hoje o jejum.

A LITURGIA DESTE DIA

Na antiguidade, este dia se parecia com a Vigília Pascal. Ao entardecer, os fiéis recolhiam-se na igreja para tomar parte na solenidade da administração do Batismo. Na noite seguinte, conferia-se aos catecúmenos o sacramento da regeneração, àqueles a quem a ausência ou a enfermidade haviam impedido de unir-se aos outros na noite de Páscoa.

Também contribuíam para formar o grupo dos aspirantes ao novo nascimento, que se recebe na fonte sagrada, aqueles que ainda não tinham sido considerados suficientemente provados, ou cuja instrução não parecera bastante completa, mas que agora se julgava estarem em condições de satisfazer as justas exigências da Igreja.

Em lugar das doze profecias que se liam na noite de Páscoa, enquanto os sacerdotes cumpriam com os catecúmenos os ritos preparatórios ao Batismo, não se leem ordinariamente mais que seis; o que nos leva a pensar que o número dos batizados na noite de Pentecostes era menos considerável.

O círio pascal voltava a aparecer nesta noite de graça, a fim de inculcar nos novos recrutas da Igreja o respeito e o amor para com o Filho de Deus, que se fez homem para ser “a luz do mundo”14. Todos os ritos que detalhamos e explicamos no Sábado Santo celebravam-se nesta nova ocasião, em que aparecia a fecundidade da Igreja; o Santo Sacrifício, do qual participavam os neófitos, começava antes de despontar a aurora.

No decorrer dos tempos, o costume de conferir o Batismo às crianças pouco depois de seu nascimento, ao tomar força de lei, antecipou a Missa batismal para a manhã do Sábado da Vigília de Pentecostes, como sucede com a Vigília de Páscoa. Antes da celebração do Sacrifício, leem-se seis profecias das quais falamos há pouco; depois tem lugar a solene bênção das águas batismais. O círio pascal volta a aparecer nesta função, à qual frequentemente falta a assistência dos fiéis.


 

1. Qui locuUis Constantinopla. Est per Propílelas. Símbolo de Nícea.

2. Jl. 2, 29.

3. Ez. 36, 25-27.

4. Is. 10, 1-3.

5. Sl. c. 9, 1.

6. Ap. 10, 6.

7. Jo. 7, 39.

8. Jo, 16, 7.

9. Mt. 12, 32.

10. Sl. 103, 30.

11. II Pe. 1, 4.

12. Sicut laetantium omnium nostrum habitatio est inte ,Sancta Dei genitrix (Ps., LXXXVI , 7).

13. 3ª Homília sobre os trechos dos Apóstolos.

14. Jo. 8, 12.

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