Oratório São José

Quarta-Feira da Oitava da Ascensão

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUARTA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO

O REINO DA FÉ TRIUNFO DE CRISTO

Baixemos à terra o nosso olhar, que esteve fixo no céu para seguir Aquele que nos deixou. Busquemos os efeitos do mistério da Ascensão até em nossa humilde e pobre morada, onde o Filho de Deus deixou de viver visivelmente.

Que espetáculo assombroso atrai aqui embaixo a nossa atenção! O mesmo Jesus que subiu ao céu neste dia, sem que a cidade de Jerusalém se comovesse, sem que se desse conta disso, sem que o gênero humano sentisse a nova partida de seu divino Hóspede; esse mesmo Jesus, no simples aniversário de hoje, dezenove séculos depois do acontecimento, ainda comove toda a terra com o esplendor de sua Ascensão.

Nestes dias calamitosos, a fé definha; em que região do globo, contudo, não há cristãos, seja coletiva, seja individualmente? Isto basta para que todo o universo ouça dizer que Jesus subiu ao céu e que este dia é consagrado à celebração de sua gloriosa Ascensão.

Durante trinta e três anos, Ele viveu a nossa vida sobre a terra. A permanência do Filho eterno de Deus entre nós foi ignorada por todas as nações, exceto uma. Essa nação O crucificou, porque “embora a luz brilhe nas trevas, as trevas não a acolheram”1, e Deus pôde “vir à sua própria obra e não ser acolhido pelos seus”2.

Para o coração do povo preparado para sua visita, sua palavra foi aquela semente que cai em terreno pedregoso e não germina; que cai entre espinhos e é sufocada; e que apenas encontra um recanto de terra boa onde possa frutificar3. Se, à força de paciência e bondade, Ele mantém junto de si alguns discípulos, a confiança destes n’Ele permaneceu fraca, vacilante, sempre disposta a extinguir-se.

Entretanto, depois da pregação dos Apóstolos, o nome e a glória de Jesus são conhecidos em toda parte; em todas as línguas e raças é proclamado o Filho de Deus encarnado. Tanto os povos civilizados como os bárbaros vieram a Ele; celebra-se o seu nascimento no estábulo de Belém, sua dolorosa morte na cruz, onde pagou o resgate do mundo; sua ressurreição, que confirmou a missão divina que veio cumprir; e, finalmente, sua Ascensão, pela qual o Homem-Deus se sentou à direita de seu Pai.

Em todo o universo, a voz da Igreja fez ressoar o mistério da gloriosa Trindade, que Ele veio revelar ao mundo. A Igreja que Ele fundou ensina em todas as nações a verdade revelada, e em todas encontra almas dóceis que repetem o seu símbolo.

A FÉ

Como se cumpriu esta maravilha? Como perseverou e persevera depois de tantos séculos? Jesus, que sobe ao céu, explica-nos com uma palavra: “Vou-me — diz Ele —, e é vantajoso para vós que Eu vá”4.

Que quer isto dizer, senão que, em nosso estado atual, há para nós algo mais vantajoso do que a sua presença? Esta vida não é o momento de vê-Lo e contemplá-Lo; para conhecê-Lo e saboreá-Lo, mesmo em sua natureza humana, é necessário outro elemento: a fé.

Ora, a fé nos mistérios do Verbo Encarnado não começa a reinar na terra senão no momento em que Ele deixa de ser visível aqui embaixo.

Quem poderá explicar a força triunfante da fé? São João lhe dá um nome glorioso: “A fé — diz ele — é a vitória que vence o mundo”5. Foi ela que humilhou diante dos pés de nosso divino Chefe, ausente deste mundo, o poder, o orgulho e as superstições da antiga sociedade; e a homenagem subiu até o trono onde hoje tomou assento Jesus, Filho de Deus e de Maria.

ENSINAMENTOS DE SÃO LEÃO

São Leão Magno, intérprete do mistério da Encarnação, compreendeu esta doutrina com sua penetração habitual e a exprimiu com a eloquência que lhe é familiar:

“Depois de ter cumprido a pregação do Evangelho e os mistérios da Nova Aliança — diz ele —, Jesus Cristo, Nosso Senhor, subindo ao céu diante dos olhares de seus discípulos, pôs termo à sua presença corporal, e deve permanecer à direita de seu Pai até que se cumpra o tempo destinado à multiplicação dos filhos da Igreja; depois virá, como juiz dos vivos e dos mortos, com a mesma carne com que subiu.

Assim, tudo o que aqui era visível em nosso Redentor passou à ordem dos mistérios; e, para tornar a fé mais excelente e mais firme, a vista foi substituída por um ensinamento cuja autoridade, envolvida por uma irradiação celeste, arrasta os corações dos fiéis.

Pela virtude desta fé, cuja energia foi aumentada pela Ascensão do Senhor e que o Espírito Santo veio fortificar, nem as cadeias, nem os cárceres, nem o desterro, nem a fome, nem as fogueiras, nem os dentes das feras, nem os suplícios inventados pela crueldade dos perseguidores puderam atemorizar os cristãos.

Por fidelidade a esta fé, todo o mundo — não somente os homens, mas também as mulheres; não só as crianças e adolescentes, mas também jovens delicados — combateu até o derramamento do sangue. Esta é a fé que expulsou os demônios, fez desaparecer as enfermidades e ressuscitou os mortos.

Depois vimos os Apóstolos que, depois de terem sido confirmados por tantos milagres e instruídos por tantos discursos do Senhor, se horrorizaram diante da indignidade de sua Paixão e não aceitaram a verdade de sua Ressurreição senão depois de hesitar; vimo-los transformados imediatamente depois de sua Ascensão, de tal modo que as coisas que até então não lhes inspiravam senão temor, de repente se tornaram para eles causa de alegria.

Toda a força do olhar de sua alma dirigiu-se à divindade d’Aquele que está sentado à direita do Pai; a vista de seu corpo já não enfraquecia a vivacidade de seu olhar interior, desde que compreenderam o Mistério e chegaram a entender que, ao descer dos céus, Ele não se separou de seu Pai, e que, ao subir, não deixava sozinhos os seus discípulos.

O momento em que o Filho do Homem e Filho de Deus se manifestou de maneira mais excelente e mais augusta foi aquele em que se retirou para a glória e majestade de seu Pai; porque então, por um processo inefável, fez-se mais presente por sua divindade, à medida que sua humanidade se afastava mais de nós.

Então a fé, mais iluminada que o olhar terreno, aproximou-se com passo firme d’Aquele que é o Filho igual ao Pai; ela, que não teve necessidade de tocar em Cristo esta natureza humana pela qual Ele é inferior ao Pai.

A substância deste corpo glorificado permaneceu a mesma; mas a fé dos fiéis tinha, doravante, seu encontro ali onde não uma mão de carne, mas uma inteligência espiritual, é admitida a tocar o Filho igual ao Pai.

Daí que o Senhor ressuscitado, quando Maria Madalena, que representava a Igreja, se lançou para abraçar seus pés, a deteve com estas palavras: ‘Não me toques, porque ainda não subi para meu Pai’; como se dissesse: ‘Não quero que chegues a Mim por um caminho sensível, nem que me reconheças por contato humano; reservei-te uma experiência mais sublime; preparei para ti uma sorte digna de inveja. Quando Eu tiver subido para meu Pai, então me compreenderás, mas de maneira mais perfeita e verdadeira, porque, superados os sentidos, a fé te revelará o que os olhos ainda não verão’”6.

BENEFÍCIOS DA FÉ

Com a partida do Senhor, inaugurou-se este reino da fé, que deve preparar-nos para ver eternamente o supremo Bem. E esta fé ditosa, que é o nosso elemento, dá-nos, ao mesmo tempo, toda a luz compatível com a nossa débil condição, para entendermos e adorarmos o Verbo consubstancial ao Pai, e para termos conhecimento dos mistérios que o Verbo Encarnado realizou aqui em sua humanidade.

Muitos séculos nos separam do momento em que Ele se fez visível na terra, e O conhecemos melhor do que O conheceram e saborearam seus próprios discípulos antes da Ascensão no Monte das Oliveiras. Convinha-nos, certamente, que Ele se afastasse; sua presença teria impedido o desenvolvimento de nossa fé, e somente a nossa fé podia preencher o intervalo que d’Ele nos separa, até que entremos “no interior do véu”.

Quão profunda é a cegueira desses homens que não sentem o poder sobre-humano deste elemento da fé, pelo qual o mundo foi não somente vencido, mas transformado! Pretendem ter descoberto a composição dos Evangelhos, e não veem este Evangelho vivo, surgido de dezenove séculos de fé unânime, surgido da confissão generosa de tantos milhões de mártires, da santidade de tantos justos, da conversão sucessiva de tantas nações, começando pelas mais civilizadas e terminando pelas mais bárbaras.

Aquele que, depois de ter visitado durante alguns anos um recanto desta terra, bastou que desaparecesse para atrair a si a fé dos maiores gênios, como também a dos corações mais simples e retos, certamente é aquilo que nos disse ser: o Filho eterno de Deus.

Glória e ação de graças Vos sejam dadas, Senhor, pois, para consolar-nos de vossa partida, destes-nos a fé, pela qual o olhar de nossa alma se purifica, a esperança de nosso coração se inflama, e sentimos em todo o seu poder as realidades divinas que possuímos.

Conservai em nós este dom precioso de vossa bondade inteiramente gratuita, e conduzi-o à sua maturidade no momento solene que há de preceder aquele em que Vos revelareis a nós face a face.

 


 

1. Jo. 1, 5.

2. Ibid. 2.

3. Mt. 13.

4. Jo. 16, 7.

5. Jo. 5, 4.

6. 2º  Semana sobre a Ascensão.

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