Terça-Feira da Oitava da Ascensão
TERÇA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO
SACERDÓCIO ETERNO DE CRISTO
O REI-PONTÍFICE
O Senhor da glória subiu aos Céus e, segundo o Apóstolo, entrou como “nosso precursor”1; mas como poderá o homem segui-lo até a morada de toda santidade, ele, cujo caminho está sem cessar embaraçado pelo pecado; ele, que tem mais necessidade de perdão que de glória? São estas as consequências do mistério da Ascensão, cujas riquezas não podemos esgotar por completo.
Jesus não sobe ao Céu somente para ali reinar; deve também ali residir para ser nosso intercessor, nosso Pontífice, encarregado de obter o perdão de nossos pecados e as graças que nos abrirão o caminho para chegarmos até Ele. Ofereceu-se sobre a Cruz como vítima por nossos pecados; o sangue divino, vertido de seus membros, formou desde então o nosso resgate superabundante; mas o Céu permaneceu fechado aos redimidos até que Ele transpôs suas portas e penetrou no interior do santuário, onde deve exercer para sempre o ofício de Pontífice segundo a ordem de Melquisedec2.
Hoje o sacerdócio do Calvário transforma-se em sacerdócio de glória. Jesus entrou “para além do véu, desse véu que era ainda sua carne passível e mortal”3; penetrou no mais íntimo da presença de seu Pai, e ali é nosso Pontífice para sempre.
Ele é o Cristo, consagrado com dupla unção, no momento em que sua Pessoa divina se uniu à natureza humana; é Rei e Pontífice. Aclamamos sua realeza nos dias precedentes; hoje devemos reconhecer seu sacerdócio. Durante sua passagem por este mundo, entrevimos alguns traços de um e de outro; mas esta realeza e este pontificado não deviam resplandecer com todo o seu esplendor senão no dia da Ascensão. Sigamos, pois, o Emanuel com olhar respeitoso e consideremos o que acaba de realizar no Céu.
O Apóstolo dá-nos primeiramente a noção de Pontífice em sua Epístola aos Hebreus. O Pontífice, diz ele, é escolhido pelo próprio Deus a fim de oferecer dons e sacrifícios pelos pecados; está junto de Deus para favorecer os homens, dos quais é embaixador e intercessor4. Tal é, desde hoje, o ministério de Jesus no Céu. Mas, se queremos penetrar ainda mais em tão grande e profundo mistério, é necessário servir-nos dos símbolos que São Paulo tomou dos livros sagrados, para nos fazer compreender o papel de nosso Pontífice.
O TEMPLO DE JERUSALÉM
Transportemo-nos, com o pensamento, ao templo de Jerusalém. Atravessemos um vasto recinto descoberto, rodeado de pórticos, em cujo centro se eleva o altar, sobre o qual o sangue das vítimas imoladas corre por numerosos canais, enquanto elas são consumidas segundo o rito dos diversos sacrifícios.
Dirijamo-nos, em seguida, a um lugar mais augusto: um edifício coberto que se ergue além do altar dos holocaustos e que resplandece com toda sorte de riquezas do Oriente. Entremos com respeito, porque este lugar é santo, e o próprio Deus deu a Moisés o plano das obras maravilhosas que o adornam e que servem todas para sua glória: o altar dos perfumes, de onde se exala, de manhã e à tarde, a fumaça do incenso; o candelabro de sete braços, que ostenta com complacência açucenas e romãs; a mesa sobre a qual estão colocados os pães da proposição, oferenda de nossa raça Àquele que faz amadurecer as searas sobre a terra. Mas ainda não está, sob esses artesoados resplandecentes com o ouro de Ofir, a inefável majestade do Senhor.
Contemplai, ao fundo do edifício, esse véu de tecido precioso, ricamente bordado com imagens de querubins, que desce até a terra. Ali, atrás do véu, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó faz notar sua presença; aí repousa a arca da aliança, sobre a qual dois querubins de ouro estendem misteriosamente suas asas. Este recinto sagrado e inacessível chama-se Santo dos Santos; nenhum homem podia, sem morrer, levantar esse véu, dirigir um olhar temerário a esse asilo terrível e entrar ali onde o Deus dos exércitos se digna habitar.
O homem é, pois, banido da morada onde habita Deus. A santidade divina exclui-o de sua presença como indigno. Criado para ver a Deus, para ser eternamente feliz na visão de Deus, o homem, por causa de seu pecado, é condenado a não vê-lo. Um véu lhe tira a vista Daquele que é o seu fim, e o obstáculo desse véu é para ele intransponível. Esta é a severa lição que nos dá o símbolo do antigo templo.
Entretanto, permanece uma promessa consoladora. Esse véu será um dia levantado e dará passagem ao homem; mas sob uma condição que conheceremos continuando a explicação dos símbolos do antigo templo. Entre todos os mortais excluídos do Santo dos Santos, há um a quem é concedido entrar para além do véu uma vez por ano: é o Pontífice. Mas, se nesse dia entrasse no temível recinto sem levar entre as mãos o vaso cheio do sangue de duas vítimas, imoladas antes por seus próprios pecados e pelos de seu povo, seria exterminado; se, ao contrário, cumpre fielmente a ordem do Senhor, será protegido pelo sangue que leva e será admitido nesse único dia para interceder por si mesmo e por todo Israel.
Quão belas e enérgicas são estas figuras da antiga aliança! Mas quanto mais bela e vigorosa é sua realização no mistério da Ascensão de nosso Libertador! Estava Ele ainda no período das humilhações voluntárias, e sua potestade já se fazia sentir até nesse retiro sagrado do templo. Seu último suspiro na Cruz havia rasgado de alto a baixo o véu do Santo dos Santos, para anunciar que em breve o acesso a Deus seria aberto aos homens como antes do pecado. Mas restava obter a vitória sobre a morte por meio da Ressurreição; restava ainda o período de quarenta dias que nosso Pontífice devia empregar em organizar o verdadeiro sacerdócio, que se exercerá na terra até a consumação dos séculos, em união com aquele que Ele vai desempenhar no Céu.
O SANTUÁRIO CELESTE
Hoje todos os prazos se cumpriram: as testemunhas da Ressurreição o comprovaram, os dogmas da fé estão revelados em seu conjunto, a Igreja está constituída, os Sacramentos declarados; é tempo de que nosso Pontífice penetre no Santo dos Santos e leve consigo seus eleitos.
Sigamo-lo com os olhos da nossa fé. À sua entrada, o véu, estendido desde tantos séculos, levanta-se e lhe dá passagem. Não ofereceu Jesus, como Pontífice da antiga Lei, o sacrifício prévio; o sacrifício, não já figurativo, mas real, pela efusão de seu próprio sangue? Chegado à presença da Majestade divina para exercer ali sua poderosa intercessão, que outra coisa há de fazer senão apresentar a seu Pai, em nosso favor, essas chagas que recebeu poucos dias antes e pelas quais foi derramado o sangue que satisfazia completamente as exigências da suprema Justiça?
E por que quis conservar os estigmas de sua Paixão, senão para servir-se deles como nosso Pontífice, a fim de desarmar a ira celeste provocada sem cessar pelos pecados do mundo? Escutemos o Apóstolo São João: “Meus filhinhos, escrevo-vos isto para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos por intercessor junto do Pai a Jesus Cristo, o Justo”5.
Assim, pois, para além do véu onde hoje entra, Jesus trata com seu Pai dos nossos interesses, dá o último acabamento aos méritos de seu sacrifício e é Pontífice eterno, a cuja intercessão nada resiste.
São João, que viu o Céu aberto, descobre-nos de modo expressivo a dupla qualidade de nosso divino Chefe: vítima e rei ao mesmo tempo, sacrificado e, contudo, imortal. Mostra-nos o trono da eterna Majestade rodeado pelos vinte e quatro anciãos sentados e pelos quatro animais simbólicos; diante dele, os sete espíritos radiantes de fortaleza e beleza. Mas o profeta não se detém aí. Leva nosso olhar até o próprio trono de Deus, e percebemos, de pé no meio desse trono, um Cordeiro; mas um Cordeiro “como imolado” e, não obstante, revestido dos atributos de fortaleza e potestade6.
Quem ousaria explicar estas imagens se o mistério de hoje não nos desse a chave? Mas, com sua luz, com que facilidade tudo se esclarece! Nas descrições que o Apóstolo nos revela, reconhecemos Jesus, Verbo eterno, e, como Verbo eterno, sentado no trono de seu Pai, consubstancial a Ele. Mas, ao mesmo tempo, é o Cordeiro, porque tomou nossa carne para ser imolado por nós como vítima; e este caráter de vítima permanece Nele para sempre.
Ei-lo em sua majestade de Filho de Deus; mas, ao mesmo tempo, aparece como imolado. As cicatrizes de suas chagas permanecem para sempre visíveis; é o mesmo Cordeiro do Calvário, que consuma eternamente na glória a imolação que realizou dolorosamente na Cruz.
Tais são as maravilhas que os olhos dos anjos contemplam “no interior do véu”7, e que nossos olhos verão também quando tivermos atravessado o véu. Não estamos destinados a permanecer fora, como o povo judeu, que via desaparecer uma vez por ano o seu Pontífice atrás da cortina que fechava o acesso ao Santo dos Santos. Eis o que diz o Apóstolo: “Jesus, nosso precursor, Pontífice para sempre, entrou por nós no santuário”8. Entrou por nós! Que outra coisa quer dizer senão que Ele ali nos precede e que nós o seguiremos depois? É justo que Ele entre primeiro, mas entra como precursor.
Desde hoje, já não está só no interior do véu; a multidão dos eleitos que sobe atrás Dele entrou em seguida, e, a partir deste momento, o número deles cresce de hora em hora. Não somos senão pobres pecadores, e o Apóstolo diz que “fomos salvos pela esperança”9; e nossa esperança cifra-se no desejo de penetrar um dia no Santo dos Santos. Então repetiremos com os anjos, os vinte e quatro anciãos e milhões de seres glorificados esta aclamação:
“Ao Cordeiro que foi imolado: poder e divindade, sabedoria e fortaleza, honra, glória e bênção, pelos séculos dos séculos! Amém.”10
1. Hb. 6, 20.
2. Sl. 109, 1.
3. Hb. 6, 12; 10, 20.
4. Hb. 5, 1.
5. Jo. 2, 1.
6. Ap. 4, 5.
7. Hb. 6, 19.
8. Ibid. 20.
9. Rm. 8, 24.
10. Ap. 5, 12.


