Segunda-Feira da IV semana depois da Páscoa
SEGUNDA-FEIRA
DA IV SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA
O DOM DO ESPÍRITO SANTO. — Jesus ressuscitado concede um dom inestimável aos seus Apóstolos, e deste dom dimanarão dois Sacramentos. Na tarde da Páscoa, apresenta-se de improviso no meio de seus Apóstolos: “A paz esteja convosco — lhes diz —. Assim como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio”. Depois soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo”. Que significa este sopro, que não se dirige a todo homem, mas está reservado a alguns? Jesus o explica imediatamente: este sopro comunica o Espírito Santo. O Espírito Santo é dado aos Apóstolos porque são os enviados de Jesus, do mesmo modo que Jesus é o enviado do Pai. Os Apóstolos recebem, pois, este divino Espírito para comunicá-lo aos homens, assim como Jesus o comunicou a eles. A tradição da Igreja completa o relato sucinto do Evangelho. Dois Sacramentos — como já dissemos — têm a sua origem neste ato de Jesus ressuscitado; sua palavra determinou depois as condições rituais sob as quais o duplo mistério deverá realizar-se.
A CONFIRMAÇÃO. — O primeiro destes dois Sacramentos é a Confirmação, por cuja instituição hoje damos graças; o segundo é a Ordem, cuja dignidade consideraremos dentro de alguns dias; um e outro, patrimônio glorioso do caráter episcopal, que encerra para nós a fonte dos dons conferidos aos Apóstolos para a santificação do homem.
Tal é a importância do Sacramento da Confirmação para os fiéis, que aquele que não foi assinalado com ele não pode ser considerado cristão perfeito. Certamente goza, em virtude do seu Batismo, das prerrogativas de filho de Deus, de membro de Jesus Cristo, de filho da Igreja; mas o cristão é um homem de combate: deve confessar a sua fé, já diante dos tiranos, até derramar o próprio sangue; já diante do mundo, cujas máximas sedutoras ou imperiosas procurarão levá-lo à defeção; já contra os demônios, cuja hostilidade é temível para os servos de Cristo. O selo do Espírito Santo impresso em sua alma confere-lhe certo grau de fortaleza que o Batismo não lhe dá; de cidadão da Igreja que é, a Confirmação faz dele Cavaleiro de Deus e de seu Cristo. Podemos certamente combater e vencer apenas com a armadura do Batismo; Deus nos assegurou esse poder, porque sabe que o Sacramento que aperfeiçoa o cristão nem sempre está ao seu alcance; mas ai do imprudente que descuida a ocasião de obter o complemento do seu Batismo. No Sábado Santo vimos com que solicitude o Bispo, ao administrar nesse dia o sacramento da regeneração, completava sua obra dando o Espírito Santo a todos aqueles que acabava de regenerar no Filho e de receber para a adoção do Pai.
Ao Pontífice, com efeito, compete dizer a todos os nossos neófitos: “Recebei o Espírito Santo”. A dignidade deste divino Espírito não exige menos; e, se às vezes, por causa da necessidade, um sacerdote é chamado pelo Vigário de Cristo para administrar este Sacramento, não pode realizá-lo validamente senão empregando o crisma consagrado pelo Bispo; de tal maneira que o poder do Pontífice deve sempre resplandecer em primeiro lugar.
Quão sublime é o instante em que o Espírito de fortaleza, que confirmou os próprios Apóstolos, desce sobre os neófitos ajoelhados em torno do Bispo! Os braços do Pontífice estendem-se sobre eles; derrama em suas almas esse Espírito que ele recebeu para comunicar, e, para que nada falte à solenidade do dom que lhes vai conceder, recorda a profecia de Isaías, que anuncia a descida do Espírito sobre o rebento de Jessé, que ergue a sua haste do seio das ondas do Jordão. “Ó Deus — diz ele — que regenerastes os vossos servos na água e no Espírito Santo, enviai agora do céu sobre eles este mesmo Espírito com os seus sete dons: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, espírito de temor de Deus; assinalai-os agora com o selo da cruz de Cristo”.
Então aparece o Santo Crisma, cujas grandezas celebramos na Quinta-Feira Santa. Tal é o Sacramento do Crisma — para falar a linguagem da antiguidade —, o Crisma no qual reside a virtude do Espírito Santo. O Pontífice assinala com ele a fronte de cada neófito, e o Espírito Santo imprime ao mesmo tempo em suas almas o selo da perfeição cristã. Ei-los confirmados para sempre. Se ouvirem, pois, a voz do Sacramento que foi incorporado neles, nenhuma prova, nenhum perigo superará a sua valentia. O óleo com que foi traçada a cruz sobre sua fronte lhes comunicou essa fortaleza diamantina que recebeu a fronte do Profeta e que desafiava todos os dardos dos seus adversários.
Certamente, para o cristão, a fortaleza é a salvação; porque a vida do homem é um combate. Sejam, pois, dadas louvações a Jesus ressuscitado, que, prevendo os assaltos que teríamos de sustentar, não quis que permanecêssemos desiguais na luta, e nos deu, no Sacramento da Confirmação, esse Espírito que procede d’Ele e do Pai, para ser a nossa fortaleza invencível. Agradeçamo-lhe hoje por ter completado assim em nós a graça batismal. O Pai, que se dignou adotar-nos, entregou por nós o seu próprio Filho; o Filho nos dá o Espírito para habitar entre nós: que criatura, senão o homem, foi assim objeto das complacências da Trindade? Mas, por desgraça, o homem é pecador, infiel; muitas vezes tantos socorros maravilhosos são derramados sobre ele em vão. Prestemos homenagem à bondade divina, permanecendo unidos à Santa Igreja; celebremos com ela, com toda a efusão dos nossos corações, os mistérios de misericórdia que o Ano litúrgico vai sucessivamente pondo diante de nossos olhos.


