Oratório São José

II Domingo do Advento

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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II DOMINGO DO ADVENTO

No Ofício deste Domingo dominam completamente os sentimentos de esperança e de alegria que comunica à alma fiel a feliz notícia da próxima chegada d’Aquele que é seu Salvador e Esposo. O Advento interior, aquele que se opera nas almas, é o objeto quase exclusivo das orações da Igreja neste dia: abramos, pois, nossos corações, preparemos nossas lâmpadas e esperemos alegres a voz que se ouvirá no meio da noite: Glória a Deus! Paz aos homens!

A Igreja Romana celebra hoje a Estação na Basílica de Santa Cruz de Jerusalém. O imperador Constantino depositou nesta venerável igreja uma parte notável da Vera Cruz, com o Título que Pilatos mandou fixar nela e que proclamava a Realeza do Salvador dos homens. Ainda hoje ali se conservam essas preciosas relíquias; enriquecida com tão glorioso tesouro, a Liturgia Romana considera esta Basílica de Santa Cruz de Jerusalém como se fosse a própria Jerusalém, como se pode observar pelas alusões que faz nas diversas Missas estacionais que ali celebra.

Na linguagem da Sagrada Escritura e da Igreja, Jerusalém é figura da alma fiel; esta é também a ideia fundamental que presidiu à composição do Ofício e da Missa deste Domingo. Sentimos não poder desenvolver aqui todo este magnífico conjunto, contentando-nos em abrir quanto antes o livro do profeta Isaías, para nele ler com a Igreja a passagem de onde ela tira hoje o motivo de suas esperanças no reino suave e pacífico do Messias.

LIÇÃO DO PROFETA ISAÍAS

APARECE O MESSIAS, ANIMADO PELO ESPÍRITO DE DEUS. SUA JUSTIÇA

Sairá um rebento do tronco de Jessé, e de sua raiz se elevará uma flor. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, espírito de temor de Deus.

Não julgará pelas aparências, nem condenará apenas pelo que ouvir dizer, mas julgará os fracos com justiça e defenderá com retidão os pobres da terra. Com a vara de sua boca ferirá o tirano, e com o sopro de seus lábios matará o malvado. O cíngulo de seus rins será a justiça, e a fidelidade será como um cinturão sobre eles.

Habitará então o lobo junto ao cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; juntos comerão o leão e o touro, e um menino pequeno os conduzirá. O bezerro e o urso pastarão juntos, e suas crias estarão deitadas no mesmo lugar. O leão e o boi comerão palha; a criança ainda de peito brincará junto à toca da áspide, e o recém-desmamado meterá sua mão na cova do basilisco. Basta já de males e destruição no santo Monte! Porque a terra está cheia do conhecimento do Senhor, como o mar transbordante de água.

Naquele dia, o rebento da raiz de Jessé, posto como estandarte para os povos, será buscado pelas nações, e seu sepulcro será glorioso.
(Is., XI, 1-10.)

Quanto há a considerar nestas magníficas frases do Profeta! O Rebento, a Flor que dele nasce; o Espírito que repousa sobre esta Flor; a paz e a segurança restabelecidas sobre a terra; uma fraternidade universal sob o domínio do Messias.

São Jerônimo, de quem a Igreja toma hoje as palavras nas lições do segundo Noturno, nos diz “que este rebento sem nó algum, que sai da rama de Jessé, é a Virgem Maria, e que a Flor é o próprio Salvador, que disse no Cântico: Eu sou a flor dos campos e o lírio dos vales”.

Todos os séculos cristãos celebraram com entusiasmo a glória do Rebento maravilhoso e de sua Flor divina. Durante a Idade Média, a Árvore de Jessé estendia seus ramos proféticos pelos portais de nossas catedrais, brilhava em seus vitrais e aparecia bordada nas tapeçarias do santuário; a voz melodiosa dos sacerdotes entoava, por sua vez, o suave Responsório composto por Fulberto de Chartres e posto em canto gregoriano pelo rei Roberto, o Piedoso:

R. A rama de Jessé produziu um rebento, e o rebento uma flor; * e sobre esta Flor repousou o Espírito divino.
V. A Virgem, Mãe de Deus, é o rebento, e seu Filho, a Flor: * e sobre esta Flor repousou o Espírito divino.

O piedoso São Bernardo, ao comentar este Responsório em sua segunda Homilia sobre o Advento, dizia: “O Filho da Virgem é a Flor, flor branca e escarlate, única entre milhares, flor cuja vista alegra os Anjos e cujo aroma devolve a vida aos mortos; Flor dos campos, como ela mesma diz de si, e não flor de jardim, porque a flor do campo vive por si mesma, sem auxílio do homem, sem processos de cultivo. Deste modo, o seio puríssimo da Virgem, como um campo de verdor eterno, produziu esta Flor divina, cuja beleza não murcha e cujo brilho nunca empalidecerá.

Ó Virgem, rebento sublime, quão grande é tua altura! Chegas até Aquele que está sentado sobre o Trono, até o Senhor da majestade. E isto não me causa surpresa: é que te apoias nas profundas raízes da humildade. Ó planta celestial, a mais bela e santa de todas! Ó verdadeira árvore da vida, a única que foi digna de trazer o fruto da salvação!”

Falaremos também do Espírito Santo e de seus dons, que, se se derramam sobre o Messias, é apenas para depois virem sobre nós, que temos maior necessidade de Sabedoria e Inteligência, de Conselho e Fortaleza, de Ciência, de Piedade e de Temor de Deus? Roguemos com insistência a este Espírito divino, por cuja obra Jesus foi concebido e formado no seio de Maria, e peçamos-lhe que também o forme em nossos corações.

Ouçamos também com alegria estes admiráveis relatos que nos faz o Profeta da felicidade, da harmonia e da doçura que reinam na santa Montanha. Depois de tanto tempo, o mundo ansiava pela paz: enfim ela chegou. O pecado havia criado divisão em tudo; a graça vai unir tudo. Um terno Menino será a garantia da aliança universal. Os Profetas o anunciaram, a Sibila o declarou, e até em Roma, ainda sepultada nas sombras do paganismo, o príncipe dos poetas latinos, fazendo-se eco das antigas tradições, entoou o célebre canto no qual diz: “Vai abrir-se a última era, a era predita pela Sibila de Cumas; uma nova raça de homens desce do céu. Os rebanhos não terão de temer o furor dos leões. Perecerá a serpente e será destruída toda erva venenosa.”

Vinde, pois, ó Messias, restaurar a harmonia primitiva; mas dignai-vos recordar que, sobretudo, esta harmonia foi destruída no coração do homem. Vinde curar este coração, tomar posse desta Jerusalém, objeto indigno de vossa predileção. Durante muito tempo esteve cativa na Babilônia; tirai-a já da terra estrangeira. Reconstruí seu templo; e que a glória deste segundo templo seja maior que a do primeiro, pela honra que lhe fareis habitando-o, não em imagem, mas em pessoa.

O Anjo disse a Maria: O Senhor Deus dará a teu Filho o trono de Davi, seu pai; e Ele reinará para sempre na casa de Jacó, e seu reino não terá fim. Que podemos fazer nós, ó Jesus, senão dizer como o discípulo amado ao fim de sua Profecia: Amém! Assim seja! Vinde, Senhor Jesus!

MISSA

Começa o Santo Sacrifício com um canto de triunfo dirigido a Jerusalém. Este canto exprime a alegria que se apoderará do coração do homem quando ouvir a voz de seu Deus. Exalta a bondade do divino Pastor, para quem cada uma de nossas almas é uma ovelha querida, que Ele está disposto a alimentar com sua própria carne.

INTRÓITO – Povo de Sião: eis que o Senhor virá salvar as nações, e o Senhor fará ouvir a glória de sua voz na alegria de vosso coração.

Salmo: Vós, que governais Israel, atendei; vós que conduzis José como uma ovelha.
V. Glória ao Pai.

Na Coleta, o Sacerdote insiste na pureza que deve reinar em nosso coração à vinda do Salvador.

COLETA – Oremos. Despertai, Senhor, nossos corações para preparar os caminhos de vosso Unigênito: para que possamos servir-vos com nossas almas purificadas pela vinda d’Aquele que convosco vive e reina…

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos.

Irmãos: Tudo quanto foi escrito, foi escrito para nosso ensinamento: para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança. Mas o Deus da paciência e da consolação vos conceda a graça de sentirdes todos o mesmo, segundo Jesus Cristo, para que, unânimes, glorifiqueis a uma só voz o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, suportai-vos uns aos outros, como também Cristo vos suportou, para glória de Deus. Digo, pois, que Cristo Jesus foi feito ministro da Circuncisão pela verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos Patriarcas, e para que os gentios também glorifiquem a Deus por sua misericórdia, como está escrito: Por isso, Senhor, eu vos confessarei entre os gentios e cantarei a vosso nome. E outra vez diz: Alegrai-vos, gentios, com seu povo. E outra vez: Nações todas, louvai o Senhor; magnificai-o, todos os povos. E de novo diz Isaías: Estará a raiz de Jessé, e Aquele que surgirá para reger as nações: as nações esperarão n’Ele. O Deus da esperança vos encha de todo gozo e paz na fé, para que abundeis na esperança pela virtude do Espírito Santo. Tende, pois, paciência, cristãos; aumentai vossa esperança e agradareis ao Deus da paz, que vem a vós. Mas permanecei unidos de coração uns com os outros; porque este é o sinal dos filhos de Deus. Diz-nos o Profeta que o Messias fará habitar juntos o lobo e o cordeiro; pois agora o Apóstolo no-lo mostra reunindo numa só família o gentio e o judeu. Glória seja a este Rei soberano, rebento florescente da vara de Jessé, que nos ordena esperar n’Ele!

Outra vez a Igreja nos adverte que Ele vai aparecer em Jerusalém:

GRADUAL – De Sião, perfeição da formosura, Deus virá manifestamente.
V. Reuni em torno d’Ele os seus santos, os que fizeram aliança com Ele por meio de sacrifícios.

Aleluia, aleluia.
V. Alegrei-me com os que me diziam: Iremos à casa do Senhor. Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo, tendo João ouvido na prisão as obras de Cristo, enviou-lhe dois de seus discípulos para dizer-lhe: És tu Aquele que há de vir, ou devemos esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e contai a João o que ouvistes e vistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres são evangelizados. E bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim. E, tendo eles partido, começou Jesus a dizer às multidões acerca de João: Que fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Eis que os que se vestem delicadamente habitam nas casas dos reis. Mas que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos digo, e mais que profeta. Porque este é aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de tua face, o qual preparará teu caminho diante de ti.

Sois Vós, ó Senhor, Aquele que deve vir, e não devemos esperar outro. Estávamos cegos, Vós nos iluminastes; nossos passos eram vacilantes, Vós os firmastes; cobria-nos a lepra do pecado, Vós nos curastes; éramos surdos à vossa voz, Vós nos devolvestes a audição; estávamos mortos pelo pecado, Vós nos levantastes do sepulcro; finalmente, éramos pobres e abandonados, Vós viestes consolar-nos.

Tais foram e tais serão os frutos de vossa visita às nossas almas, ó Jesus, visita silenciosa, mas eficaz; visita da qual nada sabem a carne nem o sangue, mas que se realiza num coração movido pela graça. Vinde, pois, a mim, ó Salvador! Nem vossa humilhação nem vossa intimidade me servirão de escândalo; porque vossas operações nas almas demonstram palpavelmente que são de um Deus. Se não as tivésseis criado, também não poderíeis curá-las.

Depois do canto do Credo, quando o Sacerdote oferecer o Pão e o Vinho, uni-vos à Igreja, que pede ser vivificada pelo Hóspede divino, a quem espera.

OFERTÓRIO – Voltai a dar-nos vida, ó Deus, e vosso povo se alegrará em Vós: mostrai-nos vossa misericórdia, ó Senhor, e dai-nos a vossa salvação.

SECRETA – Nós vos suplicamos, Senhor, que aceiteis propício as preces e as hóstias de nossa humildade; e, visto que não podemos alegar mérito algum próprio, socorrei-nos com vosso auxílio divino. Por Nosso Senhor.

Durante a Comunhão, a Igreja proclama ainda a felicidade de Jerusalém. Seu Deus vem a ela e quer tratá-la como Esposa: prepare-se, pois, para a honra desta visita, elevando-se acima de tudo quanto é inferior a este divino Esposo, que se digna descer até ela.

COMUNHÃO – Jerusalém, levanta-te, sobe ao alto e contempla a alegria que te virá de teu Deus.

Na oração seguinte, a Igreja explica em que consiste esta elevação que Jerusalém deve procurar: em amar as coisas celestiais, de onde procede o Salvador, e desprezar as terrenas, cujo amor afasta de Deus.

PÓS-COMUNHÃO – Saciados com este alimento espiritual, nós vos suplicamos humildemente, Senhor, que nos ensineis, pela participação deste Sacramento, a desprezar as coisas terrenas e a amar as celestiais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

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