Oratório São José

Sábado da III semana depois da Páscoa

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SÁBADO
DA
III SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA

A TEOLOGIA MARIANA. — O sábado evoca a grata e querida lembrança de Maria. No sábado passado, ao analisar a semana consagrada a meditar sobre o estabelecimento da Igreja pelo Salvador ressuscitado, contemplamos as relações que unem os destinos da Esposa de Cristo e os de Maria. Durante a semana que hoje termina, consideramos Nosso Senhor Jesus Cristo confiando a seus Apóstolos o depósito de sua doutrina, objeto de nossa fé; rendamos particular homenagem aos dogmas que nos revelam as grandezas e o ministério daquela que escolheu para ser sua Mãe e a Mãe do gênero humano.

A Santa Igreja ensina a seus filhos muitas verdades referentes a Maria; e essas verdades são objeto de nossa fé, pelo mesmo título que as outras contidas no Símbolo. Portanto, só podem ser objeto de fé enquanto foram reveladas pela própria boca de Cristo. A Igreja de nossos dias as recebeu da Igreja dos primeiros séculos, e esta as recebeu dos Apóstolos, a quem seu Mestre as confiou. Não houve nova revelação depois da Ascensão do Redentor; a manifestação de todos os dogmas transmitidos à Igreja e por ela promulgados remonta, pois, aos ensinamentos de Jesus e de seus Apóstolos; e por essa razão lhes tributamos a adesão de nossa fé teologal, adesão reservada às verdades diretamente reveladas por Deus na terra.

É comovente o afeto do Filho de Deus para com sua Mãe, quando sua palavra, depois de ter manifestado aos Apóstolos os segredos da essência divina, a Trindade na unidade, a geração eterna do Verbo no seio do Pai, a eterna processão do Espírito Santo, procedente do Pai e do Filho, a união de duas naturezas numa só Pessoa no Verbo encarnado, a redenção do mundo pelo sangue divino, a graça que repara o homem caído e o eleva ao estado sobrenatural; quando essa palavra reveladora — dizemos — emprega-se em fazer sobressair as prerrogativas de uma simples criatura, cujas grandezas devem ser aceitas por nossa razão submissa pelo mesmo título que os dogmas que nos revelam a própria natureza de Deus! Jesus, sabedoria do Pai, vencedor da morte, revelou-nos a dignidade de Maria pela mesma boca que nos manifestava quem Ele próprio era; nós cremos numa e noutra coisa com a mesma fé, porque Ele o disse.

Assim, Jesus diz a seus Apóstolos, que o confiaram à Igreja sob a guarda do Espírito Santo: “Maria, minha Mãe, descende de Adão e Eva segundo a carne; mas a mancha original não a maculou. O decreto em virtude do qual toda criatura humana é concebida no pecado sofreu, em seu caso, uma exceção. Desde o primeiro instante de sua conceição, foi cheia de graça. Jeremias e João Batista foram santificados no seio de suas mães; Maria foi imaculada desde o primeiro momento de sua existência”.

Jesus disse também a seus Apóstolos, com ordem de repeti-lo à sua Igreja: “Maria é verdadeiramente Mãe de Deus e deve ser honrada com essa prerrogativa por toda criatura; porque ela me concebeu verdadeiramente e deu à luz na minha natureza humana, que não forma senão uma só Pessoa com minha natureza divina”.

Jesus disse ainda a seus Apóstolos, com ordem de transmiti-lo à sua Igreja: “Maria, minha Mãe, concebeu-me sem deixar de ser virgem e deu-me à luz sem que sua virgindade sofresse detrimento algum”.

Desse modo, a Conceição imaculada de Maria, que é a preparação de seu destino sublime; sua divina Maternidade, que constitui nela o fim divino; e sua perpétua virgindade, que lhe comunica um inefável esplendor: esses três dogmas inseparáveis, objeto de nossa fé, foram diretamente manifestados por Jesus Cristo a seus Apóstolos; e a Santa Igreja nada fez senão repeti-los depois deles, que os repetiram depois de seu divino Mestre.

Mas o Salvador não revelou também outras prerrogativas de sua augusta Mãe, prerrogativas que são consequência dos três magníficos dons que acabamos de enumerar? Peçamos à Igreja o que ela crê a esse respeito, o que ela ensina por sua doutrina e por sua prática, tão infalível quanto sua doutrina. Tudo o que nela se desenvolve sob a ação do Espírito Santo tem por germe a palavra divina pronunciada nos princípios. Portanto, não devemos duvidar de que o Redentor tenha revelado aos Apóstolos seu desejo de elevar às honras de Rainha de toda a criação, de Medianeira dos homens, de dispensadora da graça, de cooperadora da salvação, aquela a quem os três dons incomunicáveis sublimam tanto acima de tudo o que a potência divina criou.

Sem dúvida alguma, todas essas magnificências foram conhecidas pelos Apóstolos; elas foram objeto de sua admiração e de seu amor; e nós, postos na posse desses mesmos tesouros de verdade e de consolação pela Santa Igreja, deleitamo-nos neles depois dos Apóstolos. O Filho de Maria não devia subir à direita do Pai antes de ter proclamado ao mundo as grandezas daquela que escolhera para Mãe e que amava como Filho e como Deus.

Quais teriam sido, ó Maria, os sentimentos de vossa incomparável humildade, quando Jesus manifestou vossas excelências a esses homens mortais, cuja veneração vos rodeava, mas aos quais somente um Deus podia iniciar nas maravilhas de vossa pessoa e de vossa missão! “Ó cidade de Deus, que coisas tão admiráveis foram ditas de ti!” Se outrora, quando um Anjo vos saudou “cheia de graça e bendita entre as mulheres”, vossa modéstia se perturbou com tais louvores, com que perturbação não recebereis hoje as homenagens dos Apóstolos, inclinando-se diante de vossa dignidade de Mãe de Deus, sempre Virgem, imaculada em vossa Conceição? Mas seria em vão, ó Maria, que quisésseis recusar as honras que vos são devidas e que rejeitais no mais profundo de vossa humildade. Deve cumprir-se o oráculo que vossos lábios inspirados pronunciaram outrora na casa de Zacarias. Se o Senhor contemplou em vós “a humildade de sua serva”, é também necessário que “todas as gerações vos proclamem bem-aventurada”. Chegou o momento. Dentro de algum tempo, a pregação evangélica começará seu curso. Vosso nome, vosso mistério e vossas grandezas fazem parte essencial do Símbolo que deve ser levado por todo o mundo. Durante muito tempo vossa glória permaneceu oculta sob o mistério; Jesus quer que essa nuvem se dissipe e que apareçais aos olhos dos povos como a Mãe de Deus, que, querendo salvar a obra de suas mãos, não desdenhou tomar natureza humana em vosso seio. Deixai-nos, ó doce Mãe nossa, augusta Rainha nossa, unir-nos cordialmente às primeiras homenagens que vos presta o colégio apostólico, quando Jesus lhe revelou vossas grandezas.

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