Quinta-Feira da III semana depois da Páscoa
QUINTA-FEIRA
DA III SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA
A PRESENÇA DE JESUS EM SUA IGREJA. — Os Apóstolos receberam sua missão. O soberano Mestre deu-lhes a ordem de se repartirem pelas províncias da terra e de pregarem por todo o mundo o “Evangelho”, isto é, a “boa nova”, a nova da salvação para os homens adquirida pelo Filho de Deus encarnado, crucificado e ressuscitado dentre os mortos. Mas qual será o ponto de apoio desses humildes judeus, transformados de repente em conquistadores, diante de cujos olhos se apresenta o mundo inteiro? Esse ponto de apoio é a promessa solene que lhes faz nestes dias, quando, depois de lhes ter dito: “Ide, ensinai todas as nações”, acrescenta: “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (São Mateus, XXVIII, 20). Assim, compromete-Se a nunca os deixar, a presidir-lhes e a conduzi-los sempre. Não O verão mais nesta vida; mas sabem que continuará no meio deles.
Mas os Apóstolos, com os quais Cristo Se comprometeu a permanecer, a quem Ele preservará de toda queda e de todo erro no ensinamento de sua doutrina, os Apóstolos não são imortais. Vê-los-emos sucessivamente dar testemunho de seu Mestre com o próprio sangue e desaparecer deste mundo. Estaremos, pois, condenados à incerteza, às trevas, que são o patrimônio daqueles sobre os quais a luz cessou de derramar os seus raios?
Tranquilizemo-nos com a palavra de Jesus. Não disse a seus Apóstolos: “Eis que estou convosco até o fim de vossa vida”; disse: “até a consumação dos séculos”. Aqueles a quem falava naquele momento deviam, pois, viver tanto quanto o mundo. Isto quer dizer que os Apóstolos deviam ter sucessores, nos quais se perpetuariam seus direitos, sucessores aos quais Jesus não cessaria de assistir com sua presença e de sustentar com seu poder. Deveria ser imperecível a obra que Deus, em seu amor pelos homens, erigira ao preço de seu sangue. Jesus, com sua presença entre os Apóstolos, preservava seu ensinamento de todo erro; com sua presença, dirigirá também até o fim o ensinamento de seus sucessores.
A INFALIBILIDADE. — Ó dom precioso e imperecível o da infalibilidade na Igreja! Dom sem o qual a missão do Filho de Deus não teria produzido efeito. Dom pelo qual a fé, esse elemento essencial da salvação humana, se conserva sobre a terra. Sim, já temos a promessa; e os efeitos dessa promessa são visíveis, mesmo aos olhos daqueles que não têm a felicidade de crer. Quem, de boa-fé, não poderá reconhecer a mão divina na perpetuidade do símbolo católico neste mundo, em que tudo muda, em que nada pôde permanecer estável? É natural que uma sociedade que tem por laço de união a unidade de pensamento atravesse os séculos sem perder nada e sem receber nada do que a rodeia? Que tenha estado sucessivamente exposta a mil seitas nascidas de seu seio, e que tenha triunfado de todas, sobrevivido a todas, gloriando-se de proclamar no último dia do mundo os mesmos dogmas que professava no dia em que saiu das mãos de seu divino fundador? Não é um prodígio inaudito que centenas de milhões de homens, diferentes em origem, costumes e instituições, frequentemente hostis uns aos outros, se unam em igual submissão a uma mesma autoridade, que com sua só palavra governa sua razão nas coisas da fé?
Quão grande é a fidelidade às vossas promessas, ó Jesus! Quem não sentirá a vossa presença no meio da Igreja, dominando os elementos contrários e fazendo-Se sentir por esse império irresistível e suave que contém o orgulho e a mobilidade de nosso espírito sob o vosso amado jugo? E são homens, homens como nós, que regulam e governam nossa fé! Vede o sucessor de Pedro, infalível no tocante à fé, cuja palavra soberana percorre o mundo inteiro, unificando pensamentos e sentimentos, dissipando dúvidas e apaziguando controvérsias. Vede o venerável corpo do Episcopado unido ao seu Chefe e recebendo dessa união uma força invencível na proclamação de uma mesma verdade em todas as regiões do mundo. Sim, assim é: os homens tornaram-se infalíveis, porque Jesus está com eles e neles. Quanto ao mais, serão homens semelhantes aos outros; mas a cátedra sobre a qual se sentam está sustentada pelo próprio braço de Deus e é a cátedra da verdade sobre a terra.
Ó triunfo de nossa fé, nascida no milagre que impera sobre a natureza, e dirigida, iluminada, conservada por este outro milagre que desafia todas as experiências da sabedoria humana! Quantas maravilhas operou nosso Mestre ressuscitado no curso daqueles quarenta dias que Se digna conceder-nos agora! Até então, havia preparado tudo; agora, consuma-o. Louvor e ação de graças à sua divina solicitude por suas ovelhas! Se exigiu delas a fé como primeiro tributo de sua submissão, podemos dizer que tornou esse sacrifício tão atraente para a retidão do coração quanto meritório para a razão humilde.


