Oratório São José

VIII Domingo depois de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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VIII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O OFÍCIO

Este domingo era chamado, na Idade Média, o sexto e último domingo depois do natalício dos Apóstolos, ou festa de São Pedro, nos anos em que a Páscoa alcançava seu último limite em abril. Pelo contrário, quando a Páscoa seguia imediatamente ao equinócio da primavera, era o primeiro da série dominical chamada desse modo.

Vimos que, em razão deste mesmo movimento tão variável, transmitido a toda a última parte do ciclo litúrgico pela data da Páscoa, esta semana podia ser já a segunda da leitura dos livros Sapienciais, embora com mais frequência se deva continuar ainda nela a dos livros dos Reis. Neste último caso, o que hoje chama a atenção da Santa Igreja é o antigo templo levantado por Salomão para a glória de Deus; e então os cânticos da Missa, como veremos, estão em perfeita harmonia com as leituras do Ofício da noite.

MISSA

O Introito recorda a glória do antigo templo e do monte santo. Mas maior ainda é a majestade da Igreja que, neste momento, leva o nome e o louvor do Altíssimo até os confins da terra, muito melhor do que o fizera aquele templo que era sua figura.

INTROITO – Recebemos, ó Deus, a vossa misericórdia no meio de vosso templo: como o vosso nome, ó Deus, assim o vosso louvor chega até os confins da terra; a vossa destra está cheia de justiça.
— Salmo: Grande é o Senhor e muito digno de louvor, na cidade de nosso Deus, em seu santo monte.
V. Glória ao Pai.

Por nós mesmos somos incapazes não só de toda obra boa, mas nem sequer se pode produzir em nós um só pensamento do bem sobrenatural sem o auxílio da graça. Pois bem, o meio mais seguro para obter uma ajuda tão necessária é reconhecer humildemente diante de Deus a necessidade absoluta que temos d’Ele, como o faz a Igreja na Coleta.

COLETA – Suplicamo-Vos, Senhor, que nos concedais propício o espírito de pensar e fazer sempre o que é reto, para que nós, que não podemos existir sem Vós, possamos viver conforme a Vós. Por Nosso Senhor.

 

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos: Não somos devedores da carne, para vivermos segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito mortificardes as obras da carne, vivereis. Porque todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de servidão, para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Abba! Pai! Porque o próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros: certamente herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo.

PROGRAMA DE VIDA SOBRENATURAL

“Se o Espírito de Deus é o laço de união com Nosso Senhor Jesus Cristo, se é a alma de nossa vida, o sopro e o inspirador de todas as nossas obras, d’Ele provém todo impulso. Apesar desta parte de concupiscência que o Batismo deixou em meus membros para me obrigar a combater, já nada tenho a ver com a carne nem com a vida de antes.

Não permita Deus que eu volte atrás e que, enganado pelo egoísmo, me subtraia ao Espírito de Deus para pertencer novamente às obras de morte! Não. Depois de haver entrado na intimidade de Deus, seria insensato voltar as costas à Ternura, à Beleza, à Pureza; e por quem e por quê?

Doravante, a carne nada terá a reclamar de mim. Chega demasiado tarde. Com o fim de viver eternamente, reduzirei dia após dia e domarei, até sua completa eliminação, se possível, tudo o que em mim se levanta contra a vida de Deus. Aqueles — diz o Apóstolo em uma fórmula incomparável — são verdadeiros filhos de Deus: os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus. Toda a vida sobrenatural, que começou pela fé e pelo Batismo, reduz-se à docilidade, à flexibilidade e ao abandono às influências do Espírito de Deus”1.

O Gradual parece exprimir os sentimentos dos cristãos judeus, obrigados a abandonar suas cidades, e que pedem a Deus que, doravante, Ele mesmo seja seu protetor e o lugar de seu refúgio. O Verso canta de novo a antiga grandeza do Senhor em Jerusalém e no monte onde esteve seu templo.

GRADUAL – Sede para mim um Deus protetor e um lugar de refúgio, para que me salveis.
V. Ó Deus, em Vós esperei: Senhor, não seja eu confundido eternamente.

 

Aleluia, aleluia.
V. Grande é o Senhor e muito digno de louvor, na cidade de nosso Deus, em seu santo monte. Aleluia.

 

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi acusado diante dele de dissipar seus bens. Chamou-o e disse-lhe: Que é isto que ouço dizer de ti? Dá conta de tua administração, porque já não poderás administrar. Disse então o administrador consigo mesmo: Que farei? Porque meu senhor me tira a administração. Cavar não posso; pedir, tenho vergonha. Já sei o que hei de fazer, para que, quando for privado da administração, encontre quem me receba em suas casas. Chamando, pois, cada um dos devedores de seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves a meu senhor? E ele respondeu: Cem barris de azeite. Disse-lhe: Toma o teu recibo, senta-te depressa e escreve cinquenta. Depois disse a outro: E tu, quanto deves? Ele respondeu: Cem medidas de trigo. Disse-lhe: Toma a tua escritura e escreve oitenta. E o senhor louvou o administrador iníquo, porque agira prudentemente; porque os filhos deste mundo são mais prudentes em seus negócios do que os filhos da luz. E Eu vos digo: Fazei amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando faltardes, vos recebam nas moradas eternas.

PARA ADQUIRIR AS VERDADEIRAS RIQUEZAS

“As diversas expressões da parábola que nos foi proposta são fáceis de compreender e encerram uma doutrina profunda. O Senhor quer ensinar-nos o uso que devemos fazer das riquezas deste mundo. Conta o que aconteceu a um administrador pouco escrupuloso e, depois, nos versículos 8 e 9 do capítulo XVI de São Lucas, dá-nos a aplicação moral:

‘Sucede que os filhos deste século — diz Ele — são mais hábeis em suas relações com os de sua geração, com as pessoas e nos negócios deste mundo, do que os filhos da luz.’

Quão florescente estaria, com efeito, o Reino de Deus, se os bons fossem tão prudentes em seus negócios espirituais e nas coisas da vida futura como os mundanos em seus interesses perecíveis! Se o dono da casa, embora lesado em seus interesses, louvou a sagacidade de seu administrador, como não há de aplaudir Deus, que nada pode perder, a prudência sobrenatural dos seus?

Nestes bens terrenos de que acaba de falar, têm especialmente o material de uma indústria para a eternidade. A vós, que deveis estar bem advertidos, a vós, que sois filhos não deste mundo tenebroso, mas da luz, vede o que vos digo — prossegue o Senhor —: imitai em uma coisa o administrador infiel. Com esses tesouros injustos, com essa riqueza com que o intendente e tantos outros como ele pisoteiam a equidade, vós podeis granjear amigos; quando a riqueza material vos for tirada com a vida, eles vos acolherão, não em suas moradas terrenas, mas nos tabernáculos eternos. A oração do pobre, com efeito, põe em movimento a mão daquele que governa o mundo”2.

APLICAÇÃO AOS JUDEUS

Tal é o sentido óbvio e direto da parábola que nos foi proposta. Mas, se queremos compreender completamente a intenção pela qual a Igreja escolheu hoje este trecho do Evangelho, é-nos necessário recorrer a São Jerônimo, que se faz seu intérprete oficial na homilia do Ofício da noite.

Sigamos com ele a leitura evangélica: “Aquele que é fiel nas coisas pequenas — continua o texto sagrado — também o é nas grandes; e aquele que é injusto nas coisas pequenas, também o será nas grandes. Pois, se não fostes fiéis nas riquezas iníquas e enganosas, quem vos confiará os bens verdadeiros?”3

Jesus falava deste modo — observa São Jerônimo — diante dos escribas e fariseus, que O tomaram em zombaria, vendo claramente que a parábola ia contra eles. O infiel nas coisas pequenas é, com efeito, o judeu zeloso que, no domínio restrito da vida presente, nega a seus irmãos o uso dos bens criados para todos.

Pois, se na administração destas riquezas frágeis e passageiras — diz a esses escribas avaros — sois convencidos de malversação, quem vos confiará as verdadeiras, as eternas riquezas da palavra divina e do ensino das nações? Pergunta terrível que o Senhor deixa hoje suspensa sobre a cabeça dos infiéis depositários da lei dos símbolos. Mas quão horrível será a resposta dentro de pouco!

Entretanto, o humilde rebanho dos eleitos de Judá, deixando estes empedernidos na vingança a que os precipita sua orgulhosa demência, prossegue seu caminho com a segura confiança de que guarda em seu seio as promessas de Sião. A Antífona do Ofertório canta sua fé e sua esperança.

OFERTÓRIO – Salvareis, Senhor, o povo humilde, e humilhareis os olhos dos soberbos: porque que Deus há fora de Vós, Senhor?

De Deus mesmo é que recebemos os dons que Ele, em sua bondade, Se digna aceitar de nossas mãos; como diz a Secreta, os sagrados Mistérios que transformam a oblação não nos obtêm menos, por sua graça, que a santificação da vida presente e os gozos da eternidade.

SECRETA – Suplicamo-Vos, Senhor, que aceiteis os dons que Vos oferecemos de vossa largueza, para que estes sacrossantos Mistérios, mediante a virtude de vossa graça, nos santifiquem na vida presente e nos levem aos gozos sempiternos. Por Nosso Senhor.

A esperança que o homem põe em Deus não pode ser enganada; tem como penhor a suavidade do banquete divino.

COMUNHÃO – Provai e vede quão suave é o Senhor: feliz o homem que espera n’Ele.

O alimento celeste tem a virtude de renovar nossas almas e nossos corpos; procuremos experimentar seus efeitos divinos em toda a sua plenitude.

PÓS-COMUNHÃO – Sirva-nos, Senhor, este celestial Mistério de reparação da alma e do corpo, para que sintamos o efeito daquilo cujo culto celebramos. Por Nosso Senhor.


 

1. Dom Delatte, Epitres de Saint Paul, I, 668.

2. Dom Delatte; Evangelio de N. S. J. C, II, 74.

3. Lc. 16, 10-11.

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