Terça-Feira da Quinquagésima
TERÇA-FEIRA DA QUINQUAGÉSIMA
O princípio fundamental da vida cristã consiste, segundo o Evangelho, em viver fora do mundo, separar-se dele, romper com ele. O mundo é esta terra infiel da qual Abraão, nosso modelo, se afastou por ordem de Deus; é esta Babilônia que nos acorrentou e cuja convivência está cheia de perigos para nós.
O discípulo amado nos adverte, dizendo: “Não ameis o mundo nem o que há no mundo; o amor do Pai não está nele”1. O Salvador, abismo de misericórdia, ao oferecer seu Sacrifício por todos, deixou ouvir esta terrível palavra: “Não rogo pelo mundo”2. Nós mesmos não fomos assinalados com o selo glorioso e indelével do cristão senão depois de termos renunciado às obras e pompas do mundo; e mais de uma vez renovamos este solene compromisso.
USO LEGÍTIMO DO MUNDO
Que significa o que foi dito? Acaso devemos, para sermos cristãos, retirar-nos para um deserto e afastar-nos do convívio de nossos semelhantes? Não pode ser essa a intenção de Deus, pois, no mesmo livro em que nos ordena fugir do mundo e não amar o mundo, impõe-nos deveres para com os homens, sanciona e abençoa os laços que a disposição de sua providência selou entre eles e nós.
Seu Apóstolo nos adverte: “Usemos deste mundo como se dele não usássemos”3. Não nos é vedado o uso deste mundo. Uma vez mais: que significa tudo isto? Haverá contradição na doutrina celestial, e estaremos, porventura, condenados a tatear nas trevas?
Nada disso. Tudo se torna claro se nos dispusermos a considerar com atenção aquilo que nos rodeia. O mundo, entendendo por mundo os objetos que Deus criou em seu poder e bondade, este mundo visível que fez para sua glória e para nosso proveito, não é indigno de seu Autor; e, se somos fiéis, não é, na verdade, senão uma série de degraus ou escalões para nos elevarmos até Deus.
Usemos de tudo isso com gratidão; atravessemos tudo isso sem fixar nele nossa esperança; não lhe consagremos um amor que só a Deus é devido; não esqueçamos nossos destinos imortais, que não se hão de cumprir aqui.
O MUNDO PERVERSO
Mas a maioria dos homens não tem essa prudência; seu coração se apega ao solo em vez de se elevar às alturas, de modo que, dignando-Se o Autor do mundo visitá-lo para salvá-lo, o mundo não quis conhecê-Lo4. Então o Senhor afrontou os homens ingratos com o apelativo de mundo, aplicando-lhes o nome do objeto de sua cobiça, porque fecharam os olhos à luz e se transformaram em trevas.
O mundo, neste sentido mau, é, portanto, tudo o que se opõe a Jesus Cristo, tudo quanto se nega a reconhecê-Lo e a deixar-se guiar por Ele. O mundo é o conjunto de máximas que procuram apagar ou diminuir o impulso das almas para Deus; que recomendam como proveitoso tudo quanto cativa nosso coração com os laços desta vida frágil; que censuram ou rejeitam tudo quanto eleva o homem acima do imperfeito ou do naturalmente vicioso; que encontram ou seduzem nossa imprudência com o chamariz dos prazeres perigosos, os quais, longe de nos aproximarem de nosso fim eterno, nos deixam extraviados e desorientados do caminho reto.
LUTA NECESSÁRIA
E este mundo maldito está em toda parte e tem suas tramas sinuosas em nossos corações. Pelo pecado, impregnouse totalmente neste mundo exterior criado por Deus; é necessário vencê-lo e submetê-lo a nossos pés, se não queremos perecer com ele. Necessariamente havemos de ser seus inimigos ou seus escravos.
Nos dias que atravessamos, ele triunfa e vê consolidado seu império sobre aqueles que um dia o anatematizaram: no dia em que se alistaram na milícia de Cristo. Compadeçamo-nos deles, roguemos por eles, tremamos por nós; e, para que nosso coração não desfaleça, meditemos nestes dias as consoladoras palavras do Salvador a respeito de seus discípulos, depois da última Ceia:
“Meu Pai, Eu lhes dei a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como Eu mesmo não sou do mundo. Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal”5.
1. I Jo. 2, 15.
2. Jo. 17, 6.
3. I Cor. 7, 31.
4. Jo. 1, 10.
5. Jo. 17, 14.


