Oratório São José

Segunda-Feira da Septuagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SEGUNDA-FEIRA DA SEPTUAGÉSIMA

BENEFÍCIOS DE DEUS

Disse a serpente à mulher: “Por que Deus vos mandou que não comêsseis de todas as árvores do paraíso?” Tal é o começo da conversa que nossa primeira mãe consente em entabular com o inimigo de Deus; e já a salvação do gênero humano está em perigo.

Recordemos quanto havia sucedido até esse instante. Deus, em seu poder e em seu amor, criou dois seres nos quais derramou todas as riquezas de sua bondade. Descortinou diante deles um porvir imortal, acompanhado das condições que constituem uma bem-aventurança perfeita. A natureza inteira lhes está submissa; uma posteridade incontável nascerá deles e para sempre os rodeará de ternura filial. Mais ainda: Deus, que os criou, digna-Se descer até eles e familiarizar-Se com eles; e eles, em sua inocência, não se surpreendem com tão grande condescendência.

Mas tudo isso ainda é quase nada. Depois da prova que os há de tornar dignos, o Senhor, a quem no presente não conhecem senão pelos benefícios de uma ordem inferior, prepara-lhes uma felicidade acima de tudo quanto podem imaginar. Resolveu dar-Se-lhes a conhecer tal como é, associá-los à sua glória, tornar infinita a sua felicidade e, ao mesmo tempo, eterna. Eis o que Deus fez, eis o que Deus preparou para aqueles que pouco antes jaziam no nada.

E, em troca de tantos dons gratuitos e tão magníficos, Deus não lhes pede mais que uma só coisa: que reconheçam sua soberania sobre eles. Nada lhes deve ser mais grato, e nada mais justo, na verdade. Tudo quanto há neles e fora deles é mero efeito da inexaurível munificência d’Aquele que os tirou, que os subtraiu do nada; toda a sua vida, por conseguinte, não deve ser senão fidelidade, amor e reconhecimento.

E, como expressão dessa fidelidade, desse amor, desse rendido agradecimento, o Senhor lhes impõe um só preceito: abster-se do fruto de uma só árvore. A guarda deste fácil preceito é a única paga exigida por todos os benefícios sobre eles acumulados. Esta compensação basta à soberana equidade. Devem eles, portanto, aceitá-la com santo orgulho como laço que os une a Deus, como único meio de que dispõem para pagar a dívida que contraíram para com Ele.

A TENTAÇÃO

Mas que acontece? Uma voz que não é a de Deus ressoa aos ouvidos da mulher: “Por que Deus vos impôs este preceito?” E a mulher se detém para escutar essa voz, e seu coração não se indigna ao ouvir perguntar por que o divino Benfeitor impôs tal ou qual preceito. Não foge horrorizada daquele que ousa pesar o valor das ordens de Deus; não lhe declara que semelhante pergunta lhe parece um sacrilégio. Permanece parada e vai responder. A honra de Deus não a impressiona. Quão caro pagaremos essa insensibilidade, essa imprudência!

Eva responde: “Comemos do fruto das árvores que há no paraíso; quanto ao fruto da árvore que está no meio do paraíso, Deus nos mandou que não comêssemos dele nem o tocássemos, para que não morrêssemos.”

Assim, pois, a mulher não se contenta em escutar a pergunta da serpente; responde e trava conversa com o espírito perverso que a tenta. Expõe-se ao perigo; sua fidelidade já está comprometida. Se as palavras que emprega na resposta deixam ver que não esqueceu o preceito do Senhor, insinuam também alguma dúvida nascida do orgulho e da ingratidão.

O espírito do mal observa que despertou naquele coração o amor da independência; se consegue tranquilizar sua vítima acerca das consequências de sua desobediência, tê-la-á conquistado. Prossegue, pois, audaz e pérfido: “Certamente não morrereis; é que Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.”

Propõe aqui a serpente à mulher a ruptura aberta com Deus. Acaba de acender nela esse amor-próprio, mal soberano da criatura, amor que não pode satisfazer-se senão rompendo os laços que a unem ao Criador. A lembrança dos benefícios, a potente voz do reconhecimento, o interesse pessoal… tudo, tudo é esquecido. À semelhança do anjo rebelde, pretende o homem ingrato querer ser Deus; pois, como ele, será esmagado.

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