Oratório São José

Segunda-Feira da Quinquagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SEGUNDA-FEIRA DA QUINQUAGÉSIMA

O EXEMPLO DE ABRAÃO. — A vida do fiel cristão, a exemplo de Abraão, não é senão uma valorosa corrida para a morada que Deus Nosso Senhor lhe destinou. É-nos, pois, necessário renunciar a tudo quanto embaraça a marcha e não voltar o olhar para trás.

Severa é esta doutrina; mas, se refletirmos um pouco sobre os perigos que aqui assediam o homem decaído, e sobre a experiência repetida por cada um de nós, deixaremos de nos admirar de que o Senhor faça consistir, como condição essencial de nossa salvação, a renúncia de nós mesmos.

Por outro lado, somos bastante sensatos e corajosos para nos convencermos de que nos convém deixar que Deus ordene nossa vida, em vez de dispô-la segundo o nosso gosto? E, por fim, quaisquer que sejam nossas reclamações e resistências, Deus é nosso Senhor; e, se nos deixa a liberdade de resistir-lhe ou de segui-lo, não está disposto a abdicar nem a renunciar a seus direitos. Nossa recusa em obedecer-lhe compete somente a nós.

Abraão era livre, ao ouvir o divino chamado, de permanecer na Caldeia e não empreender a emigração que desenraizava sua existência terrestre. Deus, então, escolheria outro homem a quem devolveria a honra de ser o pai do povo eleito e avô do Messias. Estas substituições são frequentes no campo da graça. Pelo fato de uma alma recusar a salvação, não há motivo para crer que por isso o céu perca um só de seus escolhidos. Deus, menosprezado por aquele a quem se dignara chamar, volta-se para outro que lhe será mais dócil.

A vida cristã desenvolve-se inteiramente nesta absoluta dependência, levada até o fim. Em primeiro lugar, o espírito de submissão retira a alma do pecado e da morte em que definhava. Da névoa da Caldeia, transporta-a para a terra prometida; e, depois de encaminhá-la pela senda reta, temendo sua queda, mantém-na em contínuo exercício pelos sacrifícios que lhe exige.

Aqui vemos também, como luz e guia, o exemplo de Abraão. Este ilustre amigo de Deus recebe em recompensa a mais estupenda promessa; um filho é o penhor dela, e, sem muita demora, para sondar o coração do santo Patriarca, Deus mesmo lhe manda imolar esse filho em quem se cifravam todas as suas esperanças.

SAIR DO MAL. — Tal é o destino do homem na terra. Para sair do mal é necessário fazer esforços contra nós mesmos, e a perseverança no bem supõe lutas reiteradas. Levantemos, pois, os olhos para as colinas eternas e, a exemplo de Abraão, consideremos a morada deste mundo como uma tenda levantada por um dia.

O Salvador disse: “Não vim trazer a paz à terra, mas a espada; vim separar, dividir”1. Devemos contar, certamente, com a provação; e, já que no-la impõe Aquele que nos amou até o extremo de fazer-se nosso semelhante, reconheçamos que ela nos é salutar.

Também Ele disse: “Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”2. Podemos nós, ó cristãos, ter nosso tesouro nesta terra inferior a nós? Não pode ser. Nosso tesouro, portanto, está mais acima. Que mão humana poderá arrebatá-lo de nós?

Tais pensamentos se oferecem à nossa consideração nestes últimos dias que precedem a santa Quaresma. É preciso, pois, purificar nosso coração e fazer que ele aspire a Deus. Peçamos que chegue a nós o reino de Deus, e também aos cegos pecadores, pedras que a poderosa misericórdia do Senhor pode transformar em filhos de Abraão, se lhe aprouver. Ele o realiza todos os dias; porventura o fez conosco, que, “depois de termos estado longe, estamos agora unidos a Deus no sangue de Jesus Cristo”3.


 

1. Mt. 10, 34.

2. Mt. 6, 21.

3. Ef. 2, 13.

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