Sábado dentro da Oitava de Sagrado Coração
SÁBADO DENTRO DA OITAVA DE SAGRADO CORAÇÃO
DA INFRAOITAVA DO SAGRADO CORAÇÃO
Se o Sagrado Coração merece por si mesmo as nossas homenagens, é ainda mais digno de nosso culto como símbolo vivo do imenso amor que o enche por completo.
AMOR HUMANO DE JESUS
É, primeiramente, símbolo do amor para com seu Pai celestial. “As principais virtudes que se pretende honrar nele — escrevia o Bem-aventurado Cláudio de la Colombière — são: em primeiro lugar, o ardentíssimo amor para com Deus, seu Pai, unido ao mais profundo respeito e à maior intimidade que jamais existiu; em segundo lugar, uma paciência infinita em suportar os males, uma contrição e uma extrema dor pelos pecados que carregou sobre os ombros; a confiança de um filho terníssimo diante da confusão de um grande pecador”1.
Basta folhear os Evangelhos para encontrar a expressão deste amor, desta intimidade, desta confiança do Coração de Jesus em seu Pai: “Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai?… Meu alimento é fazer a vontade de meu Pai, que me enviou…”2.
Que efusão nestas palavras: “Pai, eu vos dou graças porque vos revelastes aos pequeninos”!3 Que autoridade nestas outras: “Eu e o Pai somos um”!4 Que confiança quando lhe diz no Cenáculo: “Pai, glorificai o vosso Filho”5, e no Calvário: “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito!”6
Estas citações, que poderiam multiplicar-se, revelam-nos ainda mais o amor do Coração do Verbo encarnado para com seu Pai, e são modelo daquele que nós lhe devemos ter.
O Coração de Jesus é também o símbolo de seu amor aos homens. “As virtudes que se pretende honrar nele — prossegue o Bem-aventurado Cláudio de la Colombière — são, em terceiro lugar, uma compaixão sensível de nossas misérias; um imenso amor, apesar dessas mesmas misérias. E este Coração abriga ainda, quanto é possível, os mesmos sentimentos e, sobretudo, abrasa-se de amor pelos homens, sempre aberto e disposto a derramar sobre eles todo gênero de graças e bênçãos, carregando sempre os nossos males.”
O AMOR DIVINO DE JESUS
Como símbolo vivo da caridade, podemos perguntar-nos com os teólogos se o Coração de Jesus nos recorda seu amor criado ou seu amor eterno e incriado. A Igreja no-lo diz no Decreto de 4 de abril de 1900:
“A festa do Sagrado Coração é uma solenidade que não só tem por objeto a adoração e glorificação do Filho de Deus feito homem, mas também renovar simbolicamente a memória do amor divino que moveu o Filho de Deus a tomar a natureza humana”7.
Se, pois, honramos o Sagrado Coração como órgão principal dos afetos sensíveis de Nosso Senhor Jesus Cristo, como princípio e sede destes mesmos sentimentos e de todas as virtudes, “como seu órgão vital, que viveu e continua vivendo a vida de Jesus, que amou e ainda ama como há dezenove séculos…”, honramo-lo também como símbolo do amor que Ele nos tem desde a eternidade.
O Antigo Testamento já nos havia informado deste amor divino: In caritate perpetua dilexi te: ideo attraxi te miserans tui: “Amei-te com amor eterno, e por isso te atraí, compadecido de ti”.8
E, nos dias do Evangelho, Jesus sublinhou: “Tanto amou Deus o mundo que lhe deu seu Filho único”, e que Ele “veio ao mundo trazer à terra o fogo” da divina caridade.
Esta caridade — diz muito bem o Cardeal Billot — “é a caridade incriada que o fez descer à terra, e é também a caridade criada que, resplandecendo desde os primeiros instantes de sua concepção, o conduziu à Cruz”9.
Este é também o pensamento do R. P. Vermeersch, quando nos convida a incorporar o amor incriado à devoção ao Sagrado Coração:
“Por seu Coração e pelo amor humano de seu Coração, Nosso Senhor nos revela com o maior esplendor o amor infinito de Deus para com os homens. Por seu Coração e pelo amor humano de seu Coração, Nosso Senhor nos obriga do modo mais persuasivo a pagar amor com amor. Pelo Coração de Jesus e pelo amor humano de seu Coração recebemos mais abundantemente as divinas influências do amor incriado. A vida divina resulta em nós da união do Espírito Santo com a alma, e a doação deste Espírito divino nos é dada unicamente pela comunicação do Coração de Jesus”10.
Ao repetir nesta Oitava as palavras do Senhor a Santa Margarida Maria, a Igreja nos diz a todos: “Eis este Coração que tanto vos amou… e que, em recompensa, não recebe da maior parte dos homens senão ingratidão!”.
No hino de Laudes da festa, ela pergunta a cada um de nós: “Quem não amará Aquele que tanto nos ama? Que resgatado não amará seu Redentor? Quem recusará estabelecer neste Coração sua perpétua morada?”
Não podemos deixar de exclamar com o Apóstolo São Paulo, depois de nos certificarmos de tanto amor: “Sim, verdadeiramente, a caridade de Cristo nos impele!”. E que nossos corações, que por tanto tempo permaneceram frios e indiferentes, pecadores e ingratos, decidam-se finalmente a dar a Cristo a resposta que Ele espera deles: a de seu agradecimento e amor.
Tomemos, para isso, as mesmas palavras da Santa Igreja no hino de Laudes:
HINO
Coração, arca onde se encerra a Lei,
não da antiga servidão,
mas da graça e do perdão,
e da doce compaixão.
Coração, santuário imaculado
do novo e grato Testamento,
templo mais santo que o antigo
e véu mais útil que o rasgado.
Ferido por rude golpe,
assim vos quis a caridade,
para que, nas chagas,
honrássemos o vosso amor invisível.
Sob este amoroso símbolo,
cruenta e misticamente,
Cristo Sacerdote padeceu,
oferecendo duplo sacrifício.
Quem não amará tão fino Amador?
Que redimido não escolherá
este sagrado Coração
para sua eterna morada?
Glória seja a vós, Senhor,
que por vosso Coração derramais a graça,
com o Pai e o Espírito Santo,
pelos séculos infinitos.
Amém.
1. Retraite spirituelle, Lyon, p. 262.
2. Lc. 2, 49; Jo. 4, 34.
3. Lc. 10, 21.
4. Jo. 10, 30.
5. Jo. 17, 1.
6. Lc. 23, 46.
7. Bainel: La dévotion ou Sacré-Coeur, 1921, p. 118.
8. Je. 31, 3.
9. De Verbo Incarnado, Roma, 1904, p. 348.
10. Practique et Dotrine…, 2, p. 94.


