Oratório São José

Pŕatica do tempo da Septuagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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PRÁTICA DO TEMPO DA SEPTUAGÉSIMA

As alegrias natalinas já se dissiparam para longe de nós. Mal pudemos gozar durante quarenta dias a alegria que nos trouxe o nascimento do Emanuel. Já se escurece o céu da Igreja, e em breve aparecerá coberto de nuvens ainda mais sombrias. Porventura, perdeu-se para sempre o Messias aguardado com esperança durante as semanas do Advento? Terá, acaso, o Sol de justiça desviado sua trajetória para longe da terra culpada?

COMUNHÃO NA PAIXÃO DE CRISTO

Sosseguemos. O Filho de Deus, o Filho de Maria, não nos desampara. Se o Verbo se fez carne, foi para habitar entre nós. Uma glória maior que a do nascimento entre os concertos angélicos Lhe está reservada, e dela devemos participar com Cristo. Mas Ele há de conquistá-la por muitos padecimentos, e não a alcançará sem a mais cruel e afrontosa morte; se queremos participar do triunfo de sua Ressurreição, devemos segui-Lo na via dolorosa, regada por suas lágrimas e tingida com seu sangue.

Em breve a Igreja fará ouvir sua voz, convidando-nos à penitência quaresmal; mas antes quer que, na rápida carreira de três semanas de preparação para esse laborioso batismo, nos detenhamos a sondar as profundas feridas infligidas às nossas almas pelo pecado. Não há, sem dúvida, coisa alguma que possa comparar-se à beleza e doçura do Menino de Belém; mas suas lições de humildade e simplicidade já não bastam às necessidades de nossas almas. Já se levanta o altar em que será imolada esta Vítima da mais tremenda justiça. É por nós que Ele há de expiar; urge o tempo de exigirmos contas de nós mesmos acerca das obrigações contraídas para com Aquele que se prepara para sacrificar o Inocente pelos culpados.

OBRA DE PURIFICAÇÃO

O mistério de um Deus que se digna fazer-Se carne pelos homens abriu-nos o caminho da via iluminativa. Mas nossos olhos ainda são convidados a contemplar uma luz mais viva. Não se perturbe, pois, o nosso coração; os esplendores do Natal serão superados no dia da vitória do Emanuel. Mas nossos olhos devem purificar-se se querem contemplá-los, perscrutando sem disfarces os abismos de nossas misérias. Deus não nos negará sua luz para levar a cabo esta obra de justiça; e, se chegarmos a conhecer-nos a nós mesmos, a conhecer cabalmente quão profunda é a queda original, a avaliar a malícia de nossas faltas pessoais, a compreender, ao menos em certo grau, a misericórdia imensa do Senhor para conosco, estaremos então preparados para as expiações salutares que nos aguardam e para os gozos inefáveis que hão de segui-las.

O tempo em que entramos está, pois, consagrado aos pensamentos mais sérios, e não poderemos exprimir mais adequadamente os sentimentos que a Igreja espera do cristão nesta parte do ano do que traduzindo aqui alguns trechos da eloquente exortação que, no século XI, o grande Ivo de Chartres dirigia ao seu povo ao começar a Septuagésima:

“Disse o Apóstolo: Toda criatura geme e sofre dores de parto até agora. Também nós, que temos as primícias do espírito, gememos esperando a adoção de filhos de Deus e a redenção de nosso corpo1. Esta criatura gemebunda é a alma sequestrada da corrupção do pecado; deplora ver-se ainda sujeita a tantas vaidades, sofre dores de parto enquanto está afastada da pátria. É o lamento do salmista: Ai de mim!, por que se prolonga o meu desterro2?

O mesmo Apóstolo, que havia recebido o Espírito Santo, sendo um dos primeiros membros da Igreja, em suas ânsias de receber efetivamente a adoção de filhos que já possuía em esperança, exclamava: Quisera morrer e estar com Jesus Cristo3. Devemos, portanto, mais do que em outros tempos, dedicar-nos a gemer e chorar, para merecer, pela amargura e pelos lamentos de nosso coração, voltar à pátria de onde nos desterraram os gozos que acarretam a morte. Choremos, pois, durante a viagem, para nos alegrarmos no termo; corramos o estádio da vida presente de modo que alcancemos enfim o galardão do chamamento celestial. Não sejamos desses viajantes insensatos que se esquecem de sua pátria, afeiçoam-se à terra do desterro e ficam pelo caminho. Não sejamos desses enfermos insensíveis que não sabem procurar o remédio de suas doenças. Não há esperança de vida para aquele que desconhece seu mal. Vamos pressurosos ao médico da salvação eterna. Descubramos-Lhe nossas feridas. Chegue até Ele este nosso grito dilacerante: Tende piedade de mim, Senhor, porque estou enfermo; curai-me, Senhor, pois todos os meus ossos estão abalados4. Então sim, nosso médico nos perdoará nossos desmandos, curará nossas fraquezas e satisfará nossos bons desejos”.

VIGILÂNCIA

É evidente que o cristão, neste tempo da Septuagésima, se de verdade quer penetrar no espírito da Igreja, deve dar um basta a essa falsa segurança, a essa satisfação consigo mesmo que, com demasiada frequência, se enraízam no fundo das almas frouxas e tíbias que colhem apenas esterilidade. Felizes ainda se tais disposições não acarretam insensivelmente a extinção do verdadeiro sentido cristão! Quem se julga dispensado dessa contínua vigilância tão recomendada pelo Salvador5 já está dominado pelo inimigo; quem não sente necessidade de combate algum, de luta alguma para sustentar-se e seguir o caminho do bem, deve temer não se achar no caminho desse reino de Deus que não se conquista senão à viva força6; quem esquece os pecados perdoados pela misericórdia de Deus deve tremer de ser joguete de perigosa ilusão7.

Demos glória a Deus nestes dias que vamos dedicar à animosa contemplação de nossas misérias, e tiremos do próprio conhecimento de nós mesmos novos motivos para esperar n’Aquele a quem nossas fraquezas e pecados não impediram de abaixar-Se até nós, para elevar-nos até Si.


 

1 .Rm. 8, 22.

2. Sl. 119.

3, Fl. 1, 23.

4. Sl. 6.

5. Mc. 13, 37.

6. Mt. 11, 12.

7. Ecl. 5, 5.

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