Oratório São José

POR QUE COBRIMOS AS IMAGENS?

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Por que cobrimos as imagens?

Entre os costumes mais expressivos do Rito Romano tradicional está o velamento das cruzes e das imagens no início do Tempo da Paixão.[1] À primeira vista, o gesto parece paradoxal: quando a Igreja deseja conduzir os fiéis a contemplar mais intensamente a Paixão do Senhor, ela esconde aos olhos justamente os sinais sagrados. No entanto, é aí que está sua força litúrgica. A Igreja ensina não somente por palavras e cantos, mas também por silêncios, ausências e privações visíveis. O véu, portanto, não empobrece o mistério: ele o torna mais grave, mais recolhido e mais eloquente.

No Rito tridentino, tal prática não é um adorno facultativo surgido do gosto local, mas um uso previsto pelos próprios livros litúrgicos. O Missale Romanum de 1962 determina, ao fim da Missa do sábado anterior ao I Domingo da Paixão: “Expleta Missa, cooperiuntur cruces et imagines per ecclesiam”;[2] em seguida, precisa que as cruzes permaneçam cobertas até a adoração da Cruz na Sexta-Feira Santa, e as imagens até o início do Gloria da Vigília Pascal.[3] Assim, o velamento pertence organicamente à disciplina do Tempo da Paixão no uso romano tradicional.

A razão simbólica mais clássica desse costume está ligada ao Evangelho lido no Domingo da Paixão: “Jesus autem abscondit se” — “Jesus escondeu-Se”. A tradição litúrgica interpretou o véu como expressão ritual desse ocultamento de Cristo, que já não se mostra publicamente, mas entra na hora de Sua Paixão.[4] A antiga explicação, transmitida por comentadores litúrgicos e recolhida pela tradição posterior, acrescenta ainda que, ao aproximar-se o sofrimento redentor, a glória divina do Salvador fica como que velada sob a humilhação da carne padecente. Por isso também se cobrem as imagens dos santos: não convém que apareçam os servos quando o próprio Senhor está oculto.[5]

Dom Prosper Guéranger interpreta o costume exatamente nessa linha. Para ele, o velamento da Cruz durante a Paixão exprime a humilhação voluntária do Redentor, que Se retira e Se esconde diante da violência dos Seus inimigos.[6] Guéranger também recorda que, em muitas igrejas, já se cobriam crucifixos e imagens desde o começo da Quaresma para excitar nos fiéis um sentimento mais vivo de penitência, privando-os da consolação sensível que a vista dessas imagens costuma trazer à alma; mas observa que o uso romano, mais expressivo, concentrou esse gesto no Tempo da Paixão.[7] Desse modo, o véu une duas ideias: o Cristo escondido e o jejum dos olhos.

Pius Parsch, por sua vez, ressalta sobretudo o caráter litúrgico de luto e de concentração da Igreja nesses dias. Ao entrar no Tempo da Paixão, a Igreja, por assim dizer, veste-se de viuvez: os últimos sinais de júbilo desaparecem, e as estátuas e cruzes são cobertas como sinal exterior de uma dor interior.[8] Parsch nota também que, para os cristãos modernos, talvez parecesse mais intuitivo deixar visível o crucifixo doloroso; contudo, o costume antigo se compreende melhor quando se recorda que muitas cruzes medievais eram cruzes gloriosas (cruces gemmatae), resplandecentes de ouro e pedras preciosas. Velá-las, então, significava esconder sua glória exterior nos dias em que o Esposo era tirado.[9]

No plano histórico, não se conhece um introdutor individual desse costume. Tudo indica que ele se desenvolveu gradualmente na Idade Média, em estreita relação com o antigo véu quaresmal ou velum quadragesimale, uma grande cortina que ocultava o altar ou o santuário durante a Quaresma.[10] O medievalista e liturgista Josef Braun sustenta que o costume de velar cruzes e imagens parece ter origem não propriamente romana, mas galicana, já conhecida na Gália no século VII; somente mais tarde teria sido assimilado e fixado pelo uso romano.[11] O mesmo Braun observa que, na Idade Média, cobriam-se não apenas cruzes e imagens, mas também relicários, castiçais e até evangeliários ornamentados, porque o tempo possuía um caráter de penitência e tristeza incompatível com excesso de brilho exterior.[12]

Também Guilherme Durando, no século XIII, testemunha que o véu já era entendido em chave simbólica: o ocultamento, a separação e a expectativa faziam parte da pedagogia litúrgica da Quaresma e da Paixão.[13] Além disso, algumas tradições medievais ligavam a remoção solene do véu à rasgadura do véu do Templo, tornando visível, no próprio rito, que a Paixão de Cristo abre o acesso aos mistérios de Deus.[14] Desse modo, a disciplina do velamento não era mera ornamentação negativa, mas um autêntico comentário ritual ao drama da Redenção.

Do ponto de vista espiritual, o velamento pode ser compreendido como uma verdadeira ascese do olhar. Assim como a Quaresma impõe jejum ao corpo e sobriedade aos sentidos, o Tempo da Paixão introduz também uma privação visual. O fiel entra na igreja e percebe imediatamente que algo foi retirado. O ambiente torna-se mais austero, mais grave, mais silencioso. Essa ausência educa a alma: ela prepara o coração para a adoração da Cruz na Sexta-Feira Santa e para a manifestação jubilosa da glória pascal na Vigília.[15] Mesmo na disciplina litúrgica atual, ainda se conserva essa lógica, embora agora como prática facultativa em muitas regiões.[16]

Vê-se, portanto, que o velamento das imagens no rito tridentino é um costume de grande densidade teológica, histórica e espiritual. Ele exprime o Cristo que Se oculta, a Igreja que entra em luto, a glória que se esconde por um tempo e a alma fiel que aprende a desejar com mais ardor aquilo que lhe foi temporariamente subtraído. Cobre-se a imagem não para diminuí-la, mas para que o mistério apareça com mais profundidade. E quando o véu finalmente cai, a Igreja mostra que a Paixão não aboliu a glória: antes, foi o caminho escolhido por Deus para manifestá-la em plenitude.[17]

 

 


[1] No calendário tradicional, o Tempus Passionis começa com as I Vésperas do I Domingo da Paixão e vai até a Missa da Vigília Pascal. Cf. Missale Romanum (1962), normas gerais sobre o ano litúrgico.

[2] “Encerrada a Missa, devem-se cobrir as cruzes e imagens da igreja!”.

[3] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Concilii Tridentini restitutum (ed. 1962), rubrica ao fim da Missa do sábado anterior ao I Domingo da Paixão: “Expleta Missa, cooperiuntur cruces et imagines per ecclesiam…”; as cruzes permanecem cobertas até a adoração da Cruz, e as imagens até o Gloria da Vigília Pascal.

[4] O Evangelho tradicional do I Domingo da Paixão é Jo 8,46-59, que termina com as palavras: “Jesus autem abscondit se”. Cf. Missale Romanum (1962).

[5] Catholic Encyclopedia, verbete “Passiontide”: as cruzes são veladas porque Cristo já não andava publicamente, mas Se escondia; Durando acrescenta que a divindade de Cristo se ocultava no tempo da Paixão; as imagens dos santos também se cobrem porque não convém que os servos apareçam quando o Senhor está escondido.

[6] Dom Prosper Guéranger, The Liturgical Year: Passiontide and Holy Week, citado em artigo de The Priest: “esta cerimônia de velar o crucifixo durante a Paixão exprime a humilhação à qual Nosso Senhor Se submeteu, escondendo-Se quando os judeus quiseram apedrejá-Lo”.

[7] Dom Prosper Guéranger, The Liturgical Year, vol. de Lent: em muitas igrejas, cobriam-se o crucifixo e as estátuas já no começo da Quaresma para despertar um senso mais vivo de penitência, privando os fiéis da consolação trazida pela vista das imagens; Guéranger distingue esse uso do costume romano de velá-las somente no Tempo da Paixão.

[8] Pius Parsch, The Church’s Year of Grace, conforme resumo litúrgico publicado pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X: ao entrar na Paixão, a Igreja “veste as roupas de viúva”, e o velamento das estátuas e cruzes é sinal exterior de sua dor interior.

[9] Ibidem: o velamento da Cruz se esclarece historicamente quando se recorda a antiga crux gemmata, cruz gloriosa adornada de ouro e pedras; velar a cruz significava ocultar seu brilho nos dias em que o Esposo era tirado.

[10] Sobre a ligação entre o velamento das imagens e o antigo véu quaresmal (velum quadragesimale, Fastentuch), cf. Archdale A. King, Liturgies of the Religious Orders, e sínteses históricas recentes que retomam essa tradição.

[11] Josef Braun, Die liturgischen Paramente, citado por New Liturgical Movement: o costume de velar cruzes e imagens durante a Quaresma ou ao menos na Paixão é “aparentemente não romano, mas galicano”, já conhecido na Gália no século VII.

[12] Ibidem: na Idade Média cobriam-se também relicários, castiçais e até livros litúrgicos ornamentados; o motivo principal era o caráter penitencial e doloroso do tempo, que tornava menos conveniente a ostentação decorativa na igreja.

[13] Guilherme Durando, Rationale divinorum officiorum, conforme tradução e comentário publicados por New Liturgical Movement: o véu quaresmal é posto entre clero e povo, e o uso dos véus recebe leitura penitencial e mistagógica.

[14] Em usos medievais, o véu era retirado ou rasgado ao se cantar o trecho da Paixão: “et velum templi scissum est”; cf. Archdale A. King e testemunhos costumeiros medievais recolhidos por ele.

[15] A ideia de um “jejum dos olhos” aparece em explicações pastorais modernas como desenvolvimento coerente do simbolismo tradicional: a privação visual intensifica a concentração espiritual na Paixão e prepara a redescoberta da Cruz e das imagens na Sexta-Feira Santa e na Vigília Pascal.

[16] A instrução Paschalis Sollemnitatis recorda que, após a Missa da Ceia do Senhor, as cruzes podem ser cobertas, caso não o tenham sido já no sábado anterior ao V Domingo da Quaresma; na disciplina atual, trata-se normalmente de prática facultativa.

[17] A permanência das cruzes veladas até a adoração da Sexta-Feira Santa e das imagens até a Vigília Pascal manifesta precisamente essa pedagogia: a glória é escondida por um tempo para reaparecer liturgicamente no momento oportuno. Cf. Missale Romanum (1962) e a tradição explicada pela Catholic Encyclopedia.

1 Comentário

  • Wandré Ferreira Machado

    Semelhante velamento, passa a Tradição no tempo hodierno: oculta-a, persegue-a, mas seu mistério aprofunda-se dia a dia na alma dos fiéis atraídos por sua beleza. Nem a tentativa de velá-la ou silenciá-la é capaz de impedir que se comunique.

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