O Santo dia de Natal
O SANTO DIA DE NATAL
FIM DA VIGÍLIA
O feliz dia da Vigília de Natal chega ao seu fim. A Igreja já encerrou os Ofícios divinos próprios do Advento com a celebração do grande Sacrifício. Com maternal clemência, permitiu a seus filhos romper desde o meio-dia o jejum preparatório; os fiéis se sentaram à mesa frugal com uma alegria espiritual que os faz sentir de antemão aquela que invadirá seus corações na noite que lhes vai trazer o divino Emanuel.
Mas uma festa tão solene como a de amanhã deve começar desde o dia anterior, como a Igreja costuma fazer em suas festividades. Dentro de alguns momentos, a Igreja chamará os cristãos ao templo para o Ofício das Primeiras Vésperas, no qual se oferece a Deus o incenso da tarde. O esplendor das cerimônias e a magnificência dos cantos prepararão as almas para os afetos de amor e gratidão que as disporão a receber as graças no momento supremo.
Enquanto esperamos o chamado que nos há de convidar à casa de Deus, aproveitemos os instantes que nos restam para aprofundar-nos no mistério de tão grande dia, nos sentimentos que enchem a Santa Igreja nesta festa e nas tradições católicas que tanto ajudaram nossos antepassados a celebrá-la dignamente.
SERMÃO DE SÃO GREGÓRIO NAZIANZENO
Primeiramente, escutemos a voz dos santos Padres, que ressoa com uma ênfase e uma eloquência capazes de despertar toda alma que não esteja morta. Eis, em primeiro lugar, São Gregório, o Teólogo, bispo de Nazianzo, em seu discurso trinta e oito, dedicado à Teofania ou Nascimento do Salvador: quem será capaz de permanecer frio ouvindo suas palavras?
“Cristo nasce: exaltai-o. Cristo desce do céu: saí ao seu encontro. Cristo já está na terra: ó homens, elevai-vos. Cante ao Senhor toda a terra e, para dizê-lo tudo numa só palavra: alegrem-se os céus e salte de júbilo a terra por causa d’Aquele que é, ao mesmo tempo, do céu e da terra. Cristo se reveste de nossa carne: estremecei de temor e alegria; de temor, por causa de vossos pecados; de alegria, pela esperança. Cristo nasce de uma Virgem: mulheres, honrai a virgindade para que chegueis a ser mães de Cristo.
Quem não adorará Aquele que existiu eternamente? Quem não louvará e exaltará Aquele que acaba de nascer? Eis que se dissipam as trevas; é criada a luz; o Egito permanece nas sombras, e Israel é iluminado pela coluna luminosa. O povo que estava sentado nas trevas da ignorância vê o resplendor de uma ciência profunda. Terminou o antigo; tudo é já novo. A letra foge, triunfa o espírito; as sombras passaram, a verdade fez sua aparição. A natureza vê suas leis violadas; chegou o momento de povoar o mundo celestial. Cristo manda: guardemo-nos de opor resistência.
Aplaudi, todas as nações: porque um Menino nos foi dado, um Filho nos nasceu. O sinal de seu principado está sobre seus ombros, porque a cruz há de ser o instrumento de sua exaltação; seu nome é Anjo do grande conselho, isto é, do conselho paterno.
Já pode São João exclamar: Preparai o caminho do Senhor! Quanto a mim, quero publicar a magnificência de tão grande dia: o incorpóreo se encarna; o Verbo toma carne; o Invisível deixa-se ver por nossos olhos; o Impalpável deixa-se tocar; Aquele que não conhece o tempo toma nele princípio; o Filho de Deus faz-se filho do homem. Jesus Cristo foi ontem, é hoje e será sempre. Escandalize-se o judeu, zombe o grego, mova-se a língua do herege em sua boca impura. Também eles crerão por fim no Filho de Deus quando o virem subir ao céu; e, se ainda então se negarem a fazê-lo, crerão quando Ele descer do céu para julgá-los em seu tribunal justiceiro”.
SERMÃO DE SÃO BERNARDO
Ouçamos agora, na Igreja latina, o piedoso São Bernardo, que, no Sermão VI da Vigília de Natal, derrama uma doce alegria em suas melodiosas palavras:
“Acabamos de ouvir uma notícia cheia de graça e própria para ser recebida com transportes de alegria: Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém de Judá. Minha alma se derreteu ao ouvir esta frase; meu espírito se agita dentro de mim, obrigando-me a comunicar-vos esta felicidade. Jesus quer dizer Salvador: há algo mais necessário que um Salvador para os que estavam perdidos, mais desejável para os desgraçados, mais conveniente para os que careciam de esperança? Onde estava a salvação, onde sequer uma leve esperança de salvação, sob essa lei de pecado, nesse corpo de morte, em meio a essa maldade, nessa morada de pranto, se a salvação não tivesse nascido de repente e contra toda esperança?
Ó homem, certamente desejas a saúde; mas, conhecendo tua debilidade e tua fraqueza, temes a dureza do tratamento! Não temas: Cristo é doce e suave; imensa é a sua misericórdia. Por ser Cristo, recebeu a unção para derramá-la sobre tuas feridas. Mas, ao dizer-te que é doce, não vás crer que carece de poder, porque se acrescenta que é Filho de Deus. Saltemos, pois, de júbilo, meditando dentro de nós mesmos e pronunciando essa doce frase, essa suave palavra: Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém de Judá!”
SERMÃO DE SANTO EFRÉM
É, pois, um grande dia o do Nascimento do Salvador: dia esperado pelo gênero humano durante milhares de anos; esperado pela Igreja nessas quatro semanas do Advento, de tão grata memória; esperado pela natureza inteira, que, à sua chegada, volta a ver todos os anos o triunfo do sol material sobre as trevas sempre crescentes. O grande Doutor da Igreja Síria, Santo Efrém, celebra com entusiasmo o encanto e a fecundidade deste misterioso dia; tomemos apenas uma mostra dessa divina poesia e digamos com ele:
“Dignai-vos, Senhor, permitir-nos celebrar hoje o dia próprio de vosso nascimento, que a festa de hoje nos traz à memória. Este dia é semelhante a Vós; é amigo dos homens. Volta anualmente através dos séculos; envelhece com os velhos e se rejuvenesce com o menino que acaba de nascer. Todos os anos nos visita e passa, para voltar com novos atrativos. Sabe que a natureza humana não poderia prescindir dele; assim como Vós, procura ajudar nossa raça em perigo. Todo o mundo, Senhor, anseia pelo dia de vosso nascimento; este feliz dia traz em si todos os séculos vindouros; é um e se multiplica. Seja, pois, semelhante a Vós também este ano, e traga-nos a paz entre o céu e a terra. Se todos os dias são testemunhas de vossa magnanimidade, quanto mais deverá sê-lo este?
Os demais dias do ano tomam dele sua beleza, e as festas que hão de seguir-lhe devem-lhe a dignidade e o esplendor com que brilham. O dia de vosso nascimento é um tesouro, Senhor, um tesouro destinado a pagar a dívida comum. Bendito seja o dia que nos fez ver o sol a nós que andávamos errantes na noite escura; que nos trouxe a messe divina, com a qual nadaremos na abundância; que nos deu o ramo da vinha, abundante no líquido da salvação, que nos comunicará a seu devido tempo. Em meio ao inverno, que priva as árvores de seus frutos, a vinha se revestiu de exuberante vegetação; na estação do gelo, o rebento brotou da raiz de Jessé. Em dezembro, neste mês que ainda guarda em suas entranhas a semente que lhe foi confiada, é que a espiga de nossa salvação se ergue do seio da Virgem, aonde havia descido nos dias da primavera, quando os cordeirinhos saltitam pelos prados”.
Não é, pois, de estranhar que este dia tenha sido privilegiado na economia do tempo, e até vemos com satisfação que as mesmas nações pagãs pressentem em seus calendários a glória que lhe estava reservada no curso dos séculos. Vimos também que não foram os gentios os únicos a prever misteriosamente as relações do divino Sol de justiça com o astro caduco que ilumina e aquece o mundo; os santos Doutores e a Liturgia inteira falam continuamente desta inefável harmonia.
BATISMO DE CLÓVIS
Com o fim de gravar mais profundamente a importância de tão sagrado dia na memória dos povos cristãos da Europa, povos de eleição nos desígnios misericordiosos de Deus, o soberano Senhor dos acontecimentos quis que o reino dos francos nascesse no dia de Natal, no ano 496, quando, no batistério de Reims, em meio às pompas desta solenidade, Clóvis, o feroz sicambro, convertido em manso cordeiro, foi mergulhado por São Remígio na fonte da salvação, da qual saiu para fundar a primeira monarquia católica entre as novas nações: esse reino da França, o mais belo, como se disse, depois do céu.
A CONVERSÃO DA INGLATERRA
Um século depois, no ano 597, sucedia algo semelhante ao povo anglo-saxão. O apóstolo da ilha dos bretões, o monge Santo Agostinho, depois de ter convertido à verdadeira religião o rei Etelberto, continuava conquistando almas. Dirigindo-se a York, pregava a palavra da vida, e um povo inteiro se reunia pedindo o Batismo.
Foi fixado o dia de Natal para a regeneração dos novos discípulos de Cristo; e o rio que corre sob as muralhas da cidade foi escolhido para servir de fonte batismal àquele exército de catecúmenos. Dez mil homens, sem contar mulheres e crianças, descem às águas cuja corrente deve levar a impureza de suas almas. A rudeza do tempo não é capaz de deter aqueles novos, mas fervorosos, discípulos do Menino de Belém, os quais desconheciam até mesmo o seu nome poucos dias antes. Um exército completo de neófitos sai radiante de alegria e inocência do seio das ondas geladas, e, no dia de seu Nascimento, Cristo conta uma nação a mais sob o seu império.
Mas isso ainda não bastava ao Senhor, empenhado na tarefa de honrar o dia do Nascimento de seu Filho.
A COROAÇÃO DE CARLOS MAGNO
Outro ilustre nascimento devia ainda embelezar este feliz aniversário. Em Roma, na basílica de São Pedro, e na festa de Natal do ano 800, nascia o Sacro Império Romano, ao qual estava reservada a missão de propagar o reino de Cristo nas regiões bárbaras do Norte e manter a unidade europeia sob a direção do Romano Pontífice. São Leão III colocava neste dia a coroa imperial sobre a cabeça de Carlos Magno; e a terra, admirada, voltava a contemplar um César, um Augusto; não um César ou um Augusto sucessor dos Césares e Augustos da Roma pagã, mas investido desses gloriosos títulos pelo Vigário d’Aquele que nas profecias se chama Rei dos reis e Senhor dos senhores.
A GLÓRIA DO DIA DE NATAL
Deste modo quis Deus fazer brilhar aos olhos dos homens a glória do real Menino que nasceu hoje; assim dispôs, de tempos em tempos, através dos séculos, esses ilustres aniversários da Natividade, que dá glória a Deus e paz aos homens.
Os séculos vindouros poderão dizer como o Altíssimo ainda reserva para si o direito de glorificar neste dia o seu nome e o de seu Emanuel.
Entretanto, as nações do Ocidente, conhecedoras da dignidade desta festa e considerando-a com razão como o princípio universal de tudo, na era da renovação do mundo, contaram durante muito tempo seus anos a partir do Natal, como se pode apreciar pelos antigos calendários, pelos Martirológios de Usuardo e de Adão, e por grande número de bulas, cartas e diplomas. Em 1313, um concílio de Colônia mostra-nos ainda subsistente naquela época este costume. Vários povos da Europa católica conservaram até hoje o costume de celebrar o ano novo na festa de Natal. Deseja-se feliz Natal como, entre nós, no dia primeiro de janeiro se deseja feliz ano novo. Trocam-se cumprimentos e presentes; escreve-se aos amigos ausentes: restos preciosos dos antigos costumes que tinham a fé como fundamento e muralha inexpugnável!
É tal a alegria que, aos olhos da Santa Igreja, deve encher os fiéis na Natividade do Salvador, que, associando-se a ela misericordiosamente, dispensa no dia de amanhã o preceito da abstinência quando o Natal cai em sexta-feira ou sábado. Esta dispensa remonta ao Papa Honório III, que governava em 1216; mas já desde o século IX São Nicolau I, em sua resposta às consultas dos búlgaros, havia manifestado uma condescendência parecida, com o objetivo de animar a alegria dos fiéis na celebração não só da festa do Natal, mas também nas de Santo Estêvão, São João Evangelista, Epifania, Assunção de Nossa Senhora, São João Batista, e São Pedro e São Paulo. Mas esta dispensa não foi universal e só se manteve para a festa de Natal, contribuindo assim para aumentar a alegria popular.
A legislação civil da Idade Média, em seu desejo de confirmar a seu modo a importância que dava a uma festa tão querida de toda a cristandade, concedia aos devedores a faculdade de suspender o pagamento aos credores durante toda a semana de Natal, que por esta razão era chamada semana de remissão, assim como as de Páscoa e Pentecostes.
Mas deixemos por um momento estes dados familiares que nos comprazemos em reunir a propósito da gloriosa festividade que tão docemente comove nossos corações; é hora de acudirmos à casa de Deus, para onde nos chama o Ofício solene das Primeiras Vésperas. Pelo caminho, vamos pensando em Belém, aonde já chegaram José e Maria. O sol material caminha rapidamente para o ocaso, e o divino Sol de justiça permanece ainda oculto por alguns momentos sob a nuvem, no seio da mais pura das virgens. Aproxima-se a noite; José e Maria percorrem as ruas da cidade de Davi, procurando um abrigo para se hospedarem. Atenção, pois, corações fiéis: uni-vos aos dois incomparáveis peregrinos! Chegou a hora de sair de toda língua humana um canto de glória e agradecimento. Para nos exprimirmos, aceitemos com diligência a voz da Santa Igreja, que estará à altura de tão nobre tarefa.
ANTES DOS OFÍCIOS NOTURNOS
MATINAS
Devem saber os fiéis que, nos primeiros séculos da Igreja, nunca se celebrava uma festa solene sem fazer sua preparação por meio de uma Vigília, na qual o povo cristão, renunciando ao sono, enchia a igreja e seguia fervorosamente a salmodia e as leituras; este conjunto constituía aquilo que hoje chamamos Ofício de Matinas. Dividia-se a noite em três partes, conhecidas com o nome de Noturnos; ao despontar da aurora começavam outros cânticos mais solenes, que formavam o Ofício dos louvores, que daí ficou com o nome de Laudes.
Este Ofício divino, que ocupava grande parte da noite, celebra-se ainda diariamente, embora em horas menos penosas, nos cabidos e mosteiros, e é recitado em privado por todos os clérigos obrigados ao Ofício, do qual forma a parte mais notável. Com a perda das práticas litúrgicas desapareceu também o costume de os fiéis tomarem parte na celebração das Matinas; e, na maioria das igrejas paroquiais, e mesmo das catedrais da França, acabou-se por cantá-las apenas quatro vezes ao ano: a saber, nos três últimos dias da Semana Santa, sendo ainda hoje antecipadas para a tarde anterior, com o nome de Trevas; e, finalmente, no dia de Natal, em que são celebradas mais ou menos à mesma hora que antigamente.
O Ofício da noite de Natal foi sempre objeto de especial devoção e solenidade entre todos os do ano: primeiro, por ser a hora em que a Santíssima Virgem deu à luz o Salvador, e por isso devemos esperá-la em oração e ardentes desejos; além disso, porque nesta noite a Igreja não se contenta em celebrar o Ofício de Matinas de modo ordinário, mas, por exceção única e para melhor honrar o divino Nascimento, acrescenta a oferta do santo Sacrifício da Missa, precisamente à meia-noite, que é quando Maria deu seu augusto fruto à terra. Daí que, em muitos lugares, sobretudo nas Gálias, segundo o testemunho de São Cesário de Arles, os fiéis passavam toda a noite na igreja.
Em Roma, durante vários séculos, pelo menos do sétimo ao undécimo, rezavam-se duas Matinas na noite de Natal. As primeiras eram cantadas na basílica de Santa Maria Maior; começavam assim que o sol se punha; não se dizia nelas o Invitatorório e, em seguida a este primeiro Ofício noturno, o papa celebrava à meia-noite a primeira Missa de Natal. Imediatamente depois, trasladava-se com o povo à igreja de Santa Anastácia, onde celebrava a Missa da Aurora. Depois, a piedosa comitiva dirigia-se com o Pontífice à basílica de São Pedro, onde começavam imediatamente as segundas Matinas. Estas tinham seu Invitatorório e eram seguidas de Laudes; terminadas estas e os Ofícios seguintes em suas horas correspondentes, o papa celebrava a terceira e última Missa à hora de Terça.
Amalário e o antigo liturgista do século XII, que se deu a conhecer com o nome de Alcuíno, transmitiram-nos estes detalhes, que estão de acordo com o texto dos antigos Antifonários da Igreja Romana publicados pelo beato José Maria Tomasi e por Gallicioli.
Eram tempos de fé viva; para eles, as horas passavam velozes na casa de Deus, porque a oração servia de poderoso laço de união aos povos, continuamente saciados nos divinos mistérios. Então se saboreava a oração da Igreja; as cerimônias da Liturgia, que são seu necessário complemento, não eram como hoje um espetáculo mudo ou, quando muito, impregnado de uma vaga poesia; as multidões sentiam e criam o mesmo que os indivíduos. Quem nos devolverá esta compreensão do sobrenatural, sem a qual tantas pessoas de hoje se vangloriam de ser cristãs e católicas?
A NOITE DE NATAL
Apesar de tudo, ainda não se extinguiu por completo entre nós, graças a Deus, essa fé prática; esperemos que algum dia volte ainda a reviver com sua antiga vida. Quantas vezes nos comprazemos em buscar e observar seus vestígios no seio dessas famílias patriarcais, ainda numerosas em nossas pequenas cidades e aldeias!
Foi ali que vimos — e nenhuma recordação de infância nos é tão grata — toda uma família que, depois da frugal colação da noite, se reunia em torno de uma grande lareira, à espera de que soasse o sinal para acudir à Missa da meia-noite. Ali estavam preparados de antemão os pratos que seriam servidos na volta, apetitosos sem serem rebuscados, e que também haviam de contribuir para a alegria de tão santa noite. No meio da lareira ardia um grosso tronco, chamado “lenho de Natal”, que aquecia toda a sala. Devia consumir-se lentamente durante os Ofícios, para que, ao voltarem, encontrassem um reconfortante braseiro os membros dos anciãos e das crianças enregelados pelo frio.
Ali se falava animadamente do mistério da noite solene; compadecia-se Maria e seu doce Filho, exposto aos rigores do inverno em um estábulo abandonado; depois se entoavam alguns daqueles cânticos natalinos que haviam servido para entretê-los durante as longas vigílias do Advento.
As vozes e os corações estavam de acordo ao executar aquelas melodias populares, compostas em dias melhores. Aqueles ingênuos cantos narravam a visita do anjo Gabriel a Maria e o anúncio da maternidade divina feito à digna donzela; a pena de Maria e de José ao percorrerem as ruas de Belém em busca de abrigo nas hospedarias daquela cidade ingrata; o milagroso parto da Rainha do céu; os encantos do Recém-Nascido em seu humilde berço; a chegada dos pastores com seus rústicos presentes, sua música um tanto rude e a fé simples de seus corações.
Animavam-se passando de um cântico a outro; esqueciam suas preocupações; consolavam suas penas, e a alma se dilatava; mas, de repente, a voz dos sinos, que ressoavam na noite, punha fim a concertos tão ruidosos quanto amáveis. Começavam a sair em direção à igreja. Quão felizes eram então as crianças cuja idade já lhes permitia associar-se pela primeira vez às alegrias inefáveis desta noite solene! Tão santas e fortes impressões deviam ficar gravadas em sua alma durante o resto da vida.
Mas para onde nos levam estas encantadoras recordações? Com o objetivo de ocupar utilmente os últimos momentos que precedem a entrada na igreja, gostaríamos de sugerir aos nossos leitores algumas considerações que os unam ao espírito da Igreja, fixando seu coração e sua imaginação sobre objetos reais e consagrados pelos mistérios que se celebram nesta augusta noite.
A GRUTA DE BELÉM
Assim, nesta hora, nosso pensamento deveria voar de preferência para três lugares que existem no mundo. O primeiro é Belém, e, em Belém, a gruta do Nascimento que nos chama. Aproximemo-nos com santo respeito e contemplemos o humilde abrigo que o Filho do Eterno, descido do céu, escolheu para sua primeira morada. Este estábulo, cavado na rocha, acha-se situado fora da cidade; tem cerca de quarenta pés de comprimento por doze de largura. O asno e o boi anunciados pelo profeta estão junto à caverna, testemunhas mudas do divino mistério que o homem se recusou a receber em sua casa.
José e Maria encontram-se também no humilde retiro; rodeia-os o silêncio da noite, mas seu coração se dilata em louvores e adorações dirigidas ao Deus que se digna satisfazer de maneira tão perfeita pelo orgulho humano. A puríssima Maria prepara os panos que hão de envolver os membros do celeste Infante, e espera com inefável paciência o momento em que seus olhos verão enfim o fruto bendito de suas castas entranhas, e poderá cobri-lo com seus beijos e carícias e amamentá-lo com seu leite virginal.
Mas, antes de sair do seio materno e de fazer sua entrada visível neste mundo pecador, o divino Salvador se inclina diante de seu Pai celestial e, conforme a revelação do salmista explicada pelo grande apóstolo São Paulo na Epístola aos Hebreus, diz: “Ó meu Pai! Já estais farto dos grosseiros sacrifícios da Lei; essas oferendas vazias não aplacaram vossa justiça; mas me destes um corpo; eis-me aqui pronto a sacrificar-me; venho cumprir a vossa vontade” (Hebr., X, 7).
Tudo isto ocorria, a estas horas, no estábulo de Belém. Os anjos do Senhor estavam maravilhados diante de tão grande misericórdia de um Deus para com suas criaturas rebeldes, contemplando ao mesmo tempo com grande prazer o gracioso semblante da Virgem sem mancha e esperando o momento em que a Rosa mística se abriria enfim para derramar seu divino perfume.
Feliz gruta de Belém, testemunha de semelhantes maravilhas! Quem não deixará ali agora o seu coração? Quem não a preferiria aos mais suntuosos palácios dos reis? Já desde os primeiros dias do cristianismo, a piedade dos fiéis a rodeou da mais terna devoção, até que a grande Santa Helena, escolhida por Deus para reconhecer e honrar na terra os vestígios do Homem-Deus, fez construir em Belém a magnífica basílica que deveria guardar em seu recinto o troféu do amor de Deus para com sua criatura.
Transportemo-nos com o pensamento a esta igreja que ainda subsiste; contemplemos ali, em meio a infiéis e hereges, os religiosos que servem aquele santuário e que se dispõem a cantar em nossa língua latina os mesmos cânticos que muito em breve ouviremos. São filhos de São Francisco, heróis da pobreza, discípulos do Menino de Belém; precisamente por serem pequenos e fracos, são os únicos que hoje, há cinco séculos, sustentam as batalhas do Senhor naqueles lugares da Terra Santa que a espada dos cruzados se cansou de defender. Nesta noite, oremos em união com eles; beijemos com eles a terra naquele lugar da gruta, onde se lê em palavras de ouro:
Hic de Virgine Maria Iesus Christus natus est.
Mas em vão procuraríamos hoje em Belém a feliz caverna que acolheu o divino Infante. Há já doze séculos que ela fugiu daquelas terras amaldiçoadas por Deus, vindo buscar refúgio no centro da catolicidade, em Roma, a Esposa favorecida pelo Redentor.
A BASÍLICA DO PRESÉPIO
Roma é, portanto, o segundo lugar do mundo que nosso coração deve visitar nesta noite venturosa. Mas dentro da cidade santa há um santuário que neste momento reclama toda a nossa devoção e nosso amor. É a basílica do Presépio, a magnífica e radiante igreja de Santa Maria Maior. Rainha das numerosas igrejas que a devoção dos romanos dedicou à Mãe de Deus, ergue sua magnificência sobre o Esquilino, resplandecente de ouro e mármore, mas afortunada sobretudo por possuir em seu interior, juntamente com o retrato da Virgem Mãe atribuído a São Lucas, o humilde e glorioso Presépio que os impenetráveis desígnios do Senhor fizeram sair de Belém para confiá-lo à sua guarda.
Um povo inumerável se aglomera na basílica à espera do feliz instante em que o evocador monumento do amor e das humilhações de um Deus apareça levado sobre os ombros dos ministros sagrados, como arca da nova aliança, cuja ansiada visão tranquiliza o pecador e faz palpitar de emoção o coração do justo. Quis Deus que Roma, que devia ser a nova Jerusalém, fosse também a nova Belém, e que os filhos de sua Igreja encontrassem neste centro inconmovível de sua fé o alimento abundante e inesgotável de seu amor.
NOSSO CORAÇÃO
Visitemos finalmente o terceiro santuário onde se realizará nesta noite o mistério do Nascimento do Filho divino de Maria. Este terceiro templo está ao nosso lado; está dentro de nós: é o nosso próprio coração. Nosso coração é a Belém que Jesus quer visitar, na qual deseja nascer para aí morar e crescer até chegar ao homem perfeito, como diz o Apóstolo (Ef., IV, 13). Se desce até o estábulo da cidade de Davi, é somente para poder chegar com maior segurança até nosso coração, que amou com amor eterno, a ponto de descer do céu para vir habitar nele. O seio de Maria o trouxe por nove meses; em nosso coração quer viver eternamente.
Ó coração do cristão, Belém vivente, prepara-te e alegra-te! Pela confissão de teus pecados, pela contrição de tuas faltas, pela penitência de teus delitos, estás já disposto para essa aliança que o Menino Deus deseja fazer contigo. Está agora atento: Ele virá no meio da noite. Que te encontre preparado, como encontrou o estábulo, o presépio e os panos. Tu não podes oferecer-lhe as puras e maternais carícias de Maria nem os carinhosos cuidados de José; apresenta-lhe as adorações e o amor simples dos pastores.
Como a Belém dos tempos atuais, tu vives em meio aos infiéis, aos que não conhecem o divino mistério do amor; sejam teus votos secretos e sinceros como os que nesta noite subirão ao céu desde o fundo da gloriosa e santa gruta que reúne os fiéis em torno dos filhos de São Francisco. No júbilo desta santa noite, sê semelhante à radiante basílica que guarda em Roma o tesouro do Santo Presépio e o doce retrato da Virgem Mãe. Sejam teus afetos puros como o branco mármore de suas colunas; tua caridade, resplandecente como o ouro que brilha em seus artesoados; tuas obras, luminosas como os mil círios que, em seu feliz recinto, iluminam a noite com os esplendores do dia.
Finalmente, ó soldado de Cristo, pensa que é necessário lutar para merecer aproximar-se do divino Infante; lutar para conservar dentro de si sua amorosa presença; lutar para chegar à feliz consumação que te fará uma só coisa com Ele na eternidade. Conserva, pois, com carinho estas impressões, que te nutram, consolem e santifiquem até que o Emanuel desça a ti. Ó Belém vivente! Repete sem cessar essa doce frase da Esposa: Vinde, Senhor Jesus, vinde.


