Oratório São José

Missa da Aurora

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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MISSA DA AURORA

Terminado o Ofício de Laudes, concluem-se os cânticos de regozijo, por meio dos quais a Igreja dá graças ao Pai dos séculos por ter feito nascer o Sol de justiça: é já a hora de celebrar o segundo Sacrifício, o Sacrifício da aurora. Na primeira Missa, a Santa Igreja honrou o nascimento temporal do Verbo segundo a carne; agora vai celebrar um segundo nascimento do mesmo Filho de Deus, nascimento de graça e de misericórdia, que se realiza no coração do fiel cristão.

Eis que, neste mesmo momento, alguns pastores, avisados pelos santos Anjos, chegam apressadamente a Belém; aglomeram-se no estábulo, estreito demais para o seu número. Dóceis ao aviso do céu, vieram reconhecer o Salvador que nasceu para eles, conforme lhes fora dito. E encontram tudo tal como os Anjos lhes haviam anunciado. Quem será capaz de descrever a alegria de seus corações, a simplicidade de sua fé? Não se admiram de encontrar Aquele cujo nascimento comove os próprios Anjos, envolto no manto de uma pobreza semelhante à sua. Seus corações compreenderam tudo, e adoram e amam aquele Menino. Já são cristãos. A Igreja cristã começa neles; seus humildes corações aceitam o mistério de um Deus humilhado.

Herodes tentará fazer perecer o Menino; a Sinagoga rugirá; seus doutores se levantarão contra Deus e contra o seu Cristo; condenarão à morte o Libertador de Israel; mas a fé permanecerá firme e inabalável na alma dos pastores, à espera de que os sábios e poderosos se humilhem, por sua vez, diante da Cruz e do presépio. Que aconteceu no coração destes homens simples? Cristo nasceu neles e, doravante, aí habitará pela fé e pelo amor. São nossos pais na Igreja; a nós cabe tornarmo-nos semelhantes a eles.

Chamemos, pois, também nós, Jesus Cristo às nossas almas; demos-lhe lugar, e nada obstrua a entrada de nossos corações. Também a nós falam os Anjos; também a nós comunicam a boa nova; o benefício não deve limitar-se somente às moradas da campina de Belém. Ora, para honrar o mistério da silenciosa vinda do Salvador às almas, o Sacerdote dispõe-se agora a subir ao altar e a apresentar, pela segunda vez, o Cordeiro imaculado aos olhares do Pai celestial, que no-lo envia.

Permaneçam nossos olhos fixos no altar, como os dos pastores no presépio; procuremos ali, como eles, o Menino recém-nascido, envolto em panos. Ao entrarem no estábulo, ainda não sabiam a quem iam ver; mas seus corações estavam preparados. De repente, veem-no, e seus olhos se pousam neste Sol divino. Jesus, do fundo do presépio, dirige-lhes um olhar amoroso; ficam iluminados, e faz-se dia em seus corações. Sejamos dignos de que se realize em nós aquela frase do príncipe dos Apóstolos: “A luz brilha em lugar escuro, até que resplandeça o dia e se levante em vossos corações o luzeiro da manhã” (II São Pedro, I, 19).

Já chegou para nós esta aurora bendita; o divino Oriente que esperávamos já apareceu e não se ocultará mais em nossa vida: doravante devemos temer, mais que tudo, a noite do pecado, da qual Ele nos livra. Somos filhos da luz e filhos do dia (I Tess., V, 5); já não devemos conhecer o sono da morte; mas deveremos estar sempre vigilantes, lembrando-nos de que os pastores velavam quando o Anjo lhes falou e os céus se abriram sobre suas cabeças.

Todos os cânticos desta Missa da Aurora vão anunciar-nos novamente o esplendor deste Sol de justiça; saboreemo-los como prisioneiros, acorrentados por muito tempo em cárcere tenebroso, a cujos olhos aparece de repente uma luz suave. No fundo da gruta resplandece esse Deus luminoso; seus divinos raios realçam e embelezam ainda mais as graciosas feições da Virgem Mãe, que com tanto amor o contempla; também o rosto venerável de José resplandece de modo especial; mas esses fulgores não se detêm no estreito recinto da gruta. Embora deixem em suas merecidas trevas a ingrata Belém, espalham-se pelo mundo inteiro, acendendo em milhões de corações um amor inefável por essa Luz do alto, que arranca o homem de seus erros e paixões, e o eleva ao fim sublime para o qual foi criado.

Mas, neste momento, a Santa Igreja nos apresenta outro objeto de admiração e alegria, em meio a todos estes mistérios do Deus encarnado e no próprio seio da humanidade. À lembrança tão gloriosa e amável do Nascimento do Emanuel, une, neste Sacrifício da Aurora, a solene memória de uma dessas almas valorosas que souberam conservar a Luz de Cristo apesar dos ataques das trevas. Nesta mesma hora, honra Santa Anastásia, que, pela Cruz e pelo martírio, nasceu para a vida celestial no mesmo dia do Nascimento do Redentor1.

Mas já é hora de voltarmos os olhos para o altar, onde vai começar o santo Sacrifício. O Introito canta a saída do Sol divino. O resplendor de sua aurora já anuncia o brilho que terá ao meio-dia. Força e beleza são suas qualidades; está armado para vencer, e seu nome é Príncipe da Paz.

INTROITO – A luz brilhará hoje sobre nós, porque nos nasceu o Senhor; e será chamado Admirável, Deus, Príncipe da paz, Pai do século futuro, cujo reino não terá fim.
Salmo: O Senhor reinou, vestiu-se de beleza; o Senhor vestiu-se e cingiu-se de fortaleza.
V. Glória ao Pai.

Nesta Missa da Aurora, a oração da Igreja solicita a efusão, nas almas, dos raios do Sol de justiça, para que sejam fecundas em obras de luz e não voltem a aparecer as antigas trevas.

COLETA – Nós Vos suplicamos, ó Deus onipotente, concedei aos que somos inundados pela nova luz do vosso Verbo encarnado a graça de que resplandeça em nossas obras aquilo que pela fé brilha em nossas mentes. Pelo mesmo Senhor.

COMEMORAÇÃO DE SANTA ANASTÁSIA

Nós Vos suplicamos, ó Deus onipotente, fazei que os que celebramos a solenidade da vossa bem-aventurada mártir Anastásia sintamos sua proteção diante de Vós. Pelo Senhor.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo a Tito.

Caríssimo: Apareceu a benignidade e a humanidade de Deus, nosso Salvador; salvou-nos, não pelas obras justas que nós tenhamos feito, mas por sua misericórdia, mediante o banho da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que derramou sobre nós com abundância por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados por sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna: em Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Sol que nasceu para nós é um Deus Salvador, cheio de misericórdia. Vivíamos longe d’Ele, nas sombras da morte; foi necessário que os raios divinos descessem até o fundo do abismo em que o pecado nos havia submergido; e eis que saímos regenerados, santificados, feitos herdeiros da vida eterna. Quem nos separará agora do amor deste Menino? Seríamos capazes de tornar inúteis os prodígios de um amor tão generoso, e de voltar a declarar-nos escravos das sombras da morte? Permaneçamos antes na esperança da vida eterna, na qual estes sublimes mistérios já nos colocaram.

GRADUAL – Bendito o que vem em nome do Senhor; o Senhor é Deus e nos iluminou.
V. Isto foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos.

ALELUIA – Aleluia, aleluia.
V. O Senhor reinou, vestiu-se de beleza; o Senhor vestiu-se de fortaleza e cingiu-se de poder. Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.

Naquele tempo, os pastores diziam entre si: Vamos até Belém e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos manifestou. E foram apressadamente; e encontraram Maria e José, e o Menino deitado numa manjedoura. E, ao vê-lo, reconheceram ser verdade o que lhes havia sido dito acerca daquele Menino. E todos os que ouviram se admiraram daquilo que os pastores lhes diziam. E Maria guardava todas estas palavras, meditando-as em seu coração. E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por todas as coisas que tinham ouvido e visto, segundo lhes fora dito.

Imitemos a diligência dos pastores em ir à procura do recém-nascido. Mal ouviram as palavras do Anjo, imediatamente se puseram a caminho do estábulo. Chegados à presença do Menino, seus corações, já preparados de antemão, reconhecem-no; e Jesus nasce neles por sua graça. Estão contentes por serem pequenos e pobres como Ele; doravante consideram-se unidos a Ele, e toda a sua conduta dará testemunho da mudança operada em sua vida. Com efeito, não se calam, mas falam do Menino e fazem-se seus Apóstolos; sua palavra cativa os que os ouvem.

Exaltemos com eles o Deus grande que, não satisfeito em chamar-nos à sua admirável luz, colocou a fogueira em nosso próprio coração, instalando-se nele. Guardemos em nós, com carinho, a lembrança dos mistérios desta noite inefável, imitando o exemplo de Maria, que medita continuamente em seu sacratíssimo Coração os simples e sublimes acontecimentos que por ela e nela se realizaram.

Durante a oferenda dos sagrados dons, a Igreja põe em relevo o poder do Emanuel que, para restaurar o mundo decaído, se humilhou até o extremo de não ter por cortesãos senão humildes pastores, embora esteja sentado sobre um trono de glória e de divindade, antes que existisse o tempo e por toda a eternidade.

OFERTÓRIO – O Senhor firmou o orbe da terra, que não será abalado; vosso trono, ó Deus, está preparado desde então; Vós existis desde sempre.

SECRETA – Nós Vos suplicamos, Senhor, fazei que nossos dons sejam apropriados aos mistérios da Natividade de hoje, e nos infundam sempre a paz; para que, assim como resplandeceu como Deus o mesmo que hoje se fez homem, assim também este alimento terreno nos confira o que é divino. Pelo mesmo Jesus Cristo, Nosso Senhor.

COMEMORAÇÃO DE SANTA ANASTÁSIA

Nós Vos suplicamos, Senhor, aceitai propício estes dons oferecidos; e, pela intercessão dos méritos da vossa bem-aventurada mártir Anastásia, fazei que aproveitem à nossa salvação. Pelo Senhor.

Depois da comunhão do Sacerdote e do povo, a Santa Igreja, iluminada pela suave luz de seu Esposo, ao qual acaba de unir-se, aplica a si mesma as palavras do profeta Zacarias, que anuncia a vinda do Rei Salvador:

COMUNHÃO – Alegra-te, filha de Sião; canta, filha de Jerusalém: eis que vem o teu santo Rei, o Salvador do mundo.

PÓS-COMUNHÃO – Fazei, Senhor, que a natalícia novidade deste Sacramento nos renove sempre, em virtude d’Aquele cuja única Natividade destruiu a humana velhice. Pelo mesmo Senhor.

COMEMORAÇÃO DE SANTA ANASTÁSIA

Saciastes, Senhor, a vossa família com dons sagrados; nós Vos suplicamos que nos protejais sempre pela intercessão daquela cuja festa hoje celebramos. Pelo Senhor.

Terminado o segundo Sacrifício, e celebrado já o Nascimento de graça por meio da nova oferenda da vítima imortal, os fiéis retiram-se da igreja e vão descansar até que se celebre o terceiro Sacrifício.

A VIRGEM MÃE. — No estábulo de Belém, Maria e José velam junto ao presépio. A Virgem Mãe toma com todo respeito o recém-nascido em seus braços e lhe oferece o peito. Como um simples mortal, o Filho do Eterno aproxima seus lábios daquela fonte de vida. Santo Efrém procura introduzir-nos nos sentimentos que, nesse momento, embargam o coração de Maria, e traduz-nos assim o seu pensamento:

“Como mereci eu dar à luz Aquele que, sendo simplicíssimo, se encontra em toda parte; Aquele que tenho pequenino entre meus braços, sendo tão poderoso; Aquele que está aqui inteiro, estando também em todo o mundo? No dia em que Gabriel se dignou descer até minha pobreza, de criada que eu era, tornei-me princesa. De repente, Tu, o Filho do Rei, fizeste de mim a Filha do Rei eterno. De humilde escrava de tua divindade, cheguei a ser mãe de tua humanidade, ó Senhor e Filho meu! Dignaste-Te escolher esta pobre donzela entre toda a descendência de Davi e a sublimaste até as alturas do céu, onde reinas. Ó espetáculo! Um menino mais antigo que o mundo: seu olhar busca o céu; seus lábios estão fechados; mas, em seu silêncio, entretém-se com Deus. Esse olhar tão sereno não revela Aquele que, com sua Providência, governa o mundo? E como me atrevo eu a dar meu leite Àquele que é a fonte de todo ser? Como darei alimento Àquele que sustenta o mundo inteiro? Como poderei envolver em panos Aquele que está rodeado de luz?”2

SÃO JOSÉ. — O mesmo santo Doutor do século IV nos mostra São José cumprindo seus sagrados deveres de pai para com o divino Infante. Abraça, diz ele, o recém-nascido, acaricia-o, e sabe que esse Menino é Deus. Extasiado, exclama:

“Donde me vem esta honra de que me seja dado por filho o Filho do Altíssimo? Ó Menino! É verdade que tive dúvidas sobre tua mãe; pensei até em afastar-me dela. A ignorância do mistério era para mim uma tentação. E, não obstante isso, em tua mãe já estava o tesouro escondido que devia fazer de mim o mais afortunado dos homens. Meu avô Davi cingiu a coroa real; eu já não era mais que um humilde artesão; mas agora voltou a mim a coroa que havia perdido, agora que Tu, Senhor dos reis, Te dignas descansar em meu seio”3.

Em meio a estes sublimes colóquios, a luz do recém-nascido continua iluminando a gruta e seus arredores; mas, ao partirem os pastores e cessar o canto dos Anjos, voltou a reinar o silêncio neste misterioso refúgio. Ao repousarmos em nossos leitos, pensemos neste divino Infante e nessa primeira noite que passa em seu humilde berço. Para conformar-se em tudo às necessidades da natureza que assumiu, fecha suas ternas pálpebras, e o sono voluntário vem adormecer seus sentidos; mas, em meio a esse sono, seu coração vela e se oferece constantemente por nós.

Às vezes sorri também para Maria, que tem os olhos fixos n’Ele com inefável amor; roga a seu Pai, implora o perdão para os homens; com seus atos de humildade expia a soberba deles, e mostra-se a nós como modelo de infância que devemos imitar. Peçamos-lhe que nos faça participantes das graças de seu divino sono, para que, depois de termos descansado em paz, despertemos em sua graça e possamos continuar generosamente o caminho que ainda nos resta percorrer.


 

1. Foi no século V que se introduziu uma missa destinada a celebrar o dies natalis de Santa Anastásia, virgem e mártir de Sírmio, cujo corpo fora trasladado para Constantinopla sob o Patriarca Genádio (458-471) e depositado na igreja chamada Anastasis. A semelhança do nome levou à escolha, em Roma, do título Anastasiae para a celebração desta missa, em homenagem à fundadora desta igreja, que era a igreja paroquial da Corte. No final do século V ou início do século VI, Santa Anastásia passou a fazer parte do Cânon da Missa. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se a lenda de uma Santa Anastásia romana, que teria sofrido o martírio em Sírmio. Quando a festa do Natal ganhou maior solenidade, a devoção à santa diminuiu. Em vez de uma missa em sua honra, passou-se a celebrar apenas uma missa memorial para a mártir, dedicada à celebração do nascimento espiritual do Salvador nas almas.

2. In Natalem Domini. V, 14.

3. Ibid. 1, 3.

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