Oratório São José

Domingo da Sexagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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DOMINGO DA SEXAGÉSIMA

NOÉ E O DILÚVIO. — Na semana que começa, a Santa Madre Igreja oferece à nossa consideração a história de Noé e do dilúvio universal. Apesar da severidade de seus avisos, Deus não conseguiu obter a fidelidade e a submissão do gênero humano. Vê-se forçado a lançar mão de um castigo terrível contra este novo inimigo. Encontrou, contudo, um homem justo, e em sua pessoa firmará novamente aliança conosco. Antes, porém, quer persuadir-nos de que é Senhor soberano; e, no instante por Ele escolhido, o homem, tão ufano de seu ser emprestado, será submergido sob as ruínas de sua morada terrena.

Daremos aqui, por enquanto, como base dos ensinamentos desta semana, algumas linhas do Gênesis, tiradas do Ofício de Matinas do dia.

GÊNESIS
(VI, 5-12)

Vendo Javé quanto havia crescido a maldade do homem sobre a terra, e como todos os seus pensamentos e desejos só e sempre tendiam ao mal, arrependeu-se de ter feito o homem na terra, doendo-se grandemente em seu coração, e disse: “Vou exterminar o homem que fiz de sobre a face da terra: o homem, os animais, os répteis e até as aves do céu, pois me pesa havê-los feito”. Mas Noé achou graça aos olhos de Javé.

Estas são as gerações de Noé: Noé era varão justo e perfeito entre seus contemporâneos, e sempre andou com Deus. Gerou três filhos: Sem, Cam e Jafé. A terra estava corrompida diante de Deus e cheia de toda iniquidade. Vendo, pois, Deus que tudo na terra era corrupção, pois toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra, disse a Noé: “Vejo vir o fim de todos, pois a terra está cheia de suas iniquidades, e vou exterminá-los juntamente com a terra”.

A catástrofe que então se abateu sobre o gênero humano foi também fruto do pecado; mas encontrou-se ao menos um homem justo, e foi ele quem salvou o mundo da ruína total, ele e sua família. Depois de se dignar renovar sua aliança, permitiu Deus que a terra fosse repovoada, e os três filhos de Noé foram pais das três grandes raças que a povoam.

Este é o mistério do Ofício durante esta semana. O da Missa, que é figurado pelo precedente, é ainda mais importante. No sentido moral, não está a terra submersa num dilúvio de vícios e de erros? É necessário que se povoe de homens tementes a Deus como Noé. A palavra de Deus, semente de vida, faz nascer esta nova geração. E essa palavra de Deus produz estes filhos de que fala o discípulo amado, “que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas do próprio Deus”1. Esforcemo-nos por entrar nesta família e, se porventura já somos membros dela, guardemos cuidadosamente a nossa felicidade. Trata-se, nestes dias, de esquivar-nos às ondas do dilúvio, de buscar abrigo na arca da salvação; trata-se de chegar a ser essa boa terra em que a semente dá o cêntuplo. Procuremos fugir da ira futura para não perecer com os pecadores, e mostremo-nos ávidos da palavra de Deus, que ilumina e converte as almas.2

MISSA

Celebra-se em Roma a estação na basílica de São Paulo Extramuros. Ao redor do túmulo do Doutor das nações, do propagador da semente divina, do pai de tantos povos por sua pregação, reúne hoje a Igreja romana os seus fiéis; quer recordar-lhes que o Senhor livrou a terra com a condição de que ela se povoe de verdadeiros crentes e adoradores de seu Nome.

O Introito, tirado do livro dos Salmos, implora o socorro do Senhor. A raça humana vê-se reduzida aos últimos extremos; está para acabar-se; pede a seu Autor que de novo a fecunde. A Santa Madre Igreja associa-se a este angustioso clamor, pedindo ao divino Salvador que multiplique hoje os filhos da palavra celestial como nos tempos primitivos.

INTROITO – Levantai-Vos: por que dormis, Senhor? Levantai-Vos, e não Vos afasteis para sempre. Por que apartais a vossa face e Vos esqueceis da nossa tribulação? Nosso ventre se pegou à terra: levantai-Vos, Senhor, ajudai-nos e livrai-nos.
Salmo: Ó Deus, nós o ouvimos com os nossos ouvidos: nossos pais no-lo anunciaram.
V. Glória ao Pai.

Na Coleta, a Igreja expressa sua confiança na intercessão de São Paulo, poderoso ministro da divina semente, que trabalhou mais que todos os outros em espalhá-la entre os gentios.

COLETA – Ó Deus, que vedes que não confiamos em nenhuma ação nossa: concedei-nos propício a graça de sermos protegidos, pelo patrocínio do Doutor das gentes, contra toda adversidade. Pelo Senhor.

A Epístola é uma passagem da carta do grande Apóstolo, na qual, forçado pela honra e eficácia de seu ministério a recorrer à própria apologia contra seus inimigos, mostra-nos com quantos trabalhos os varões apostólicos semearam a palavra divina nos ermos da gentilidade e operaram a regeneração cristã.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Coríntios.

Irmãos: Suportais de bom grado os insensatos, sendo vós sábios. Porque o tolerais se alguém vos reduz à servidão, se alguém vos devora, se alguém vos rouba, se alguém se ensoberbece, se alguém vos fere no rosto. Digo-o com vergonha, como se nós tivéssemos sido fracos neste ponto. Mas naquilo em que outro tiver ousadia — falo como louco —, também eu a terei. São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São raça de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? — falo como menos sábio —: mais o sou eu. Sofri mais trabalhos, mais cárceres, açoites sem medida, frequentes perigos de morte. Recebi dos judeus cinco vezes quarenta açoites menos um. Fui três vezes açoitado com varas, uma vez apedrejado, estive uma noite e um dia no profundo do mar, sofri três naufrágios, vivi em contínuas viagens e em perigos sem conta: perigos de rios, perigos de ladrões, perigos dos da minha raça, perigos dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos; em trabalho e fadiga, em muitas vigílias, em fome e sede, em muitos jejuns, em frio e nudez.

Além destes males, que são exteriores, há o que me preocupa cada dia: o cuidado de todas as igrejas. Quem enferma, e eu não enfermo? Quem se escandaliza, e eu não me abraso? Se é necessário gloriar-se, eu me gloriarei no que é de minha fraqueza. O Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos, sabe que não minto. Em Damasco, o prefeito da gente do rei Aretas guardava a cidade dos damascenos para prender-me, e fui descido num cesto por uma janela da muralha, e assim escapei de suas mãos.

Se é preciso gloriar-se — embora isso não convenha —, falarei também das visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado — não sei se no corpo ou fora do corpo; Deus o sabe — até o terceiro céu. E sei que esse homem foi arrebatado — não sei se no corpo ou fora do corpo; Deus o sabe — ao Paraíso, onde ouviu palavras secretas que ao homem não é lícito dizer. Desse tal me gloriarei; de mim, porém, não me gloriarei em nada, a não ser nas minhas enfermidades. Embora, se quisesse gloriar-me, não seria insensato, pois diria a verdade. Mas deixo-o, para que ninguém pense de mim mais do que vê em mim ou ouve de mim. E, para que a grandeza das revelações não me ensoberbeça, foi-me dado o aguilhão de minha carne, anjo de Satanás, para me esbofetear. Por isso roguei três vezes a Deus que o afastasse de mim; e Ele me disse: Basta-te a minha graça, porque a virtude se aperfeiçoa na enfermidade. Por isso me gloriarei com alegria nas minhas enfermidades, para que habite em mim a virtude de Cristo.

No Gradual, a Igreja implora a ajuda do Senhor contra os que se opõem à missão que recebeu de suscitar por toda parte adoradores do verdadeiro Deus, isto é, um novo povo.

GRADUAL – Saibam as gentes que o vosso Nome é Deus: Vós só sois o Altíssimo sobre toda a terra.
V. Deus meu, ponde-os como uma roda ou como palha diante do sopro do vento.

Em meio às comoções da terra, dessas violentas revoluções que, às vezes, reproduzem as espantosas cenas do dilúvio nas nações em que se desenvolvem, pede a Igreja que seus queridos filhos sejam preservados de tão grandes catástrofes e que neles não pereça a esperança do mundo. Este é o fim do Tracto que precede o Evangelho.

TRACTO – Agitastes, Senhor, a terra e a perturbastes.
V. Sarai as suas brechas, porque ela se moveu.
V. Para que fujam à vista do arco: para que sejam libertados os vossos eleitos.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.

Naquele tempo, tendo-se reunido uma grande multidão e vindo das cidades a Jesus, disse Ele por comparação: Saiu o semeador a semear a sua semente; e, enquanto semeava, uma semente caiu junto ao caminho, foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra caiu sobre pedra; e, nascida, secou-se, porque não tinha umidade. Outra caiu entre espinhos, e nasceram com ela os espinhos, que a sufocaram. E outra caiu em boa terra; e, nascida, deu fruto a cento por um. Dizendo isto, clamava: Quem tem ouvidos, ouça. E seus discípulos perguntaram-Lhe o que significava esta parábola. A eles disse Ele: A vós foi dado conhecer o mistério do Reino de Deus, mas aos demais em parábolas: para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam. Esta é, pois, a parábola: a semente é a palavra de Deus. A que caiu junto ao caminho são aqueles que a ouvem; depois vem o diabo e arranca a palavra de seu coração, para que não se salvem crendo. A que caiu sobre a pedra são os que, ao escutar, recebem com alegria a palavra; mas estes não têm raízes: creem por algum tempo, mas no momento da tentação retrocedem. A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, indo-se, são sufocados pelas preocupações, riquezas e prazeres da vida, e não dão fruto. Mas a que caiu em boa terra são aqueles que, escutando a palavra com coração bom e excelente, a retêm e dão fruto com paciência.

VIGILÂNCIA E FIDELIDADE. — Observa acertadamente São Gregório Magno que a parábola que acaba de ser lida não necessita de explicação, pois a Sabedoria eterna se encarregou de nos dar por si mesma a sua chave. Cabe a nós aproveitar tão precioso ensinamento e receber em boa terra a semente celestial que cai sobre nós. Quantas vezes, até hoje, a deixamos ser pisada pelos viandantes ou arrebatada pelas aves do céu? Quantas outras se secou sobre a laje de nosso coração ou foi sufocada nos matagais de funestos espinhos? Escutávamos a palavra divina; ela tinha seus encantos para nós, e isso nos tranquilizava. Muitas vezes a ouvíamos com gozo e solícito entusiasmo; mas, se porventura germinava em nós, logo se paralisava o seu desenvolvimento. Doravante é necessário que produzamos e frutifiquemos; e a força germinativa da semente que nos é confiada é tal que o divino Semeador espera o cêntuplo. Se a terra do nosso coração é boa, se nos preocupamos em prepará-la empregando os auxílios que nos oferece a Santa Madre Igreja, abundante será a colheita no dia em que o Senhor, saindo vencedor de seu sepulcro, vier associar seus fiéis crentes aos esplendores de sua Ressurreição.

Animados por esta esperança e cheios de confiança n’Aquele que se digna semear de novo uma terra tantos anos rebelde aos seus cuidados, cantemos o Ofertório, no qual a Igreja pede em nosso favor firmeza e perseverança.

OFERTÓRIO – Dirigi os meus passos pelos vossos caminhos, para que não vacilem os meus pés: inclinai o vosso ouvido e escutai as minhas palavras; glorificai as vossas misericórdias, Vós que salvais os que esperam em Vós, Senhor.

SECRETA – Fazei, Senhor, que este Sacrifício oferecido a Vós nos vivifique sempre e nos defenda. Pelo Senhor.

A visita do Senhor no Sacramento do amor é o grande meio que fertilizará a nossa alma e a tornará fecunda. Por isso mesmo, a Igreja nos convida, na antífona da Comunhão, a aproximar-nos do altar de Deus; nosso coração recuperará seu vigor nativo e a florida juventude.

COMUNHÃO – Entrarei ao altar de Deus, ao Deus que alegra a minha juventude.

PÓS-COMUNHÃO – Nós Vos rogamos humildemente, ó Deus onipotente, que façais que aqueles que alimentais com os vossos Sacramentos Vos sirvam alegremente com seus bons costumes. Pelo Senhor.


 

1. Jo. 1, 13.

2. Sl. 18.

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