SÃO JOÃO DE BRITO (04/02)
SÃO JOÃO DE BRITO, Mártir
Diz-se que quando João de Brito era criança ficou gravemente doente. A sua mãe, senhora de família nobre aparentada com a corte de Lisboa, invocou a ajuda de São Francisco Xavier e consagrou-lhe o filho. Embora João fosse o companheiro preferido do infante D. Pedro, que mais tarde herdou o trono de Portugal, a sua única aspiração era vestir o hábito do grande missionário e dedicar a sua vida à conversão dos infiéis.
Nascido em 1647, aos quinze anos pediu para ser admitido na Companhia de Jesus e, apesar de muita oposição, cumpriu o seu propósito. Os seus avanços nos estudos foram tão notáveis que, após a sua ordenação, tudo foi feito para mantê-lo em Portugal. No entanto, a graça triunfou e em 1673 partiu para Goa com dezesseis dos seus companheiros jesuítas. O resto de sua vida, exceto por um breve intervalo, foi gasto evangelizando o sul da Índia em meio a dificuldades e obstáculos incríveis de todos os tipos.
Foi nomeado superior da missão de Madura e percorreu a pé com grande dificuldade aquela vasta região, situada a apenas dez graus ao norte do Equador. Aqueles que trabalharam com ele, nas suas cartas à Europa, falam com ardor da sua coragem e devoção, da extraordinária austeridade da sua vida e da rica colheita de conversões que foram fruto do seu trabalho.
Desde o início, o Padre de Brito percebeu a justeza do método anteriormente adotado pelo missionário Padre de Nobili, ou seja, viver uma vida idêntica à dos nativos do país, adotando a sua vestimenta, abstendo-se de alimentos de origem animal e respeitando em todas as coisas lícitas, os preconceitos inerradicáveis de casta. Como podemos aprender com o testemunho incontestável de Sir W. W. Hunter em seu “Imperial Gazetteer of India” (vol. VI, pp. 245-253), “as primitivas missões jesuítas são especialmente interessantes. Seus sacerdotes e monges (sic) se tornaram perfeitos hindus em todas as questões tradicionais: vestuário, alimentação, etc., e tiveram igual sucesso entre todas as castas, altas e baixas. No sul da península, conseguiram trazer as antigas colônias cristãs do rito sírio para uma comunhão temporária[1] com Roma e converteram grandes setores da população nativa de extensos distritos.”
É interessante notar que acrescenta ainda: “Os cismas perturbaram a Igreja. O rei de Portugal tentou, contra a vontade do Papa, nomear o arcebispo de Goa; e os aventureiros holandeses perseguiram porum tempo aoscatolicos da costa”. E referindo-se a missionários como João de Brito, comenta, “eles realizaram tudo o que o cavalheirismo e a piedade entusiástica podiam realizar”. Seria impossível aqui descrever detalhadamente todas as dificuldades que o Padre de Brito teve de combater e a delicadeza da sua constituição não foi a menor delas, pois sofria de febres intermitentes e febres que o colocaram à beira da morte.
O país era politicamente muito instável, situação que permitia aos fanáticos sacerdotes pagãos alimentar as superstições do povo a cada passo. Muitas vezes o Padre de Brito e os seus catequistas indígenas foram tratados com violência brutal. Numa ocasião, em 1686, depois de pregar no país de Marava, ele e um punhado de fiéis nativos foram presos por se recusarem a adorar o deus Siva, foram submetidos a torturas muito agudas durante vários dias sem interrupção. Uma vez pendurados por correntes em árvores e outra vez amarrados por um braço e um pé a uma corda que deslizava sobre uma roldana, foram repetidamente imersos em águas estagnadas, com outras afrontas indescritíveis.
A recuperação do Padre de Brito foi considerada milagrosa e, pouco depois de ser libertado, foi chamado de volta a Lisboa, todos os esforços envidados por D. Pedro II e pelo núncio do Papa para induzi-lo a permanecer na Europa fracassaram. Ele implorou com tanta veemência, alegando que o dever o chamava em Madura, que o que ele desejava foi concedido. Ele retornou à missão e durante três anos levou a mesma vida de heróico auto-sacrifício.
Depois, através das maquinações de uma das mulheres repudiadas pelo governador de Siruvalli, que havia sido batizado e por isso renunciou à poligamia, ele foi preso e finalmente condenado à morte em Oriur, perto de Ramuad, por ordem do bajá Raghunatha.
O Padre de Brito enviou duas cartas da sua prisão um dia antes da sua execução. “Espero a morte”, escreve ao Padre Superior, “e espero-a com impaciência. Sempre foi objeto de minhas orações. A morte é para mim a recompensa mais preciosa pelo meu trabalho e sofrimento.”
Na manhã seguinte, 4 de fevereiro de 1693, uma grande multidão se reuniu para ver o fim desse mestre que havia sido condenado à morte por ter ensinado coisas subversivas ao culto dos deuses do país. Depois de uma longa espera, porque o príncipe local estava nervoso com tudo isso, São João foi decapitado. Quando a notícia chegou a Lisboa, D. Pedro ordenou um funeral solene em agradecimento; e a mãe do mártir estava presente, vestida não de luto, mas como para solene festa. São João de Brito foi canonizado em 1947.
(BUTLER Alban de, Vida de los Santos: vol. I, ano 1965, pp. 260-262)
[1] Dizemos “temporária” porque em 1653 houve um grave cisma, mas foi posteriormente resolvido; hoje os cristãos de rito Siro-Malabar são maioritariamente católicos.


