Oratório São José

Quinta-Feira da Sexagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUINTA-FEIRA DA SEXAGÉSIMA

CASTIGOS RECENTES

Deus prometeu a Noé não empregar contra a terra o castigo do dilúvio; mas sua justiça se viu repetidas vezes obrigada, para castigar as nações rebeldes, a lançar mão de severos meios que oferecem mais de uma analogia com o dilúvio: desencadeou contra os povos o flagelo das invasões inimigas. A história nos apresenta, no curso dos séculos, uma eloquente lista; e sempre se justificou a divina Providência em suas obras. As invasões estrangeiras foram, com frequência, originadas pelos pecados dos homens, e proclamam, com soberana equidade, o governo de Deus sobre o mundo.

Não faremos aqui o recenseamento das guerras sucessivas; seu relato constitui, de certo modo, os anais da humanidade: conquistas, extinção de raças, perda de nacionalidades, violentas fusões de povos em que naufraga uma história brilhante. Recordemos aqui apenas dois grandes acontecimentos desse gênero que desolaram o mundo depois da era cristã, e prostremo-nos diante da justiça de Deus.

QUEDA DE ROMA

O Império Romano havia acumulado crimes; a adoração do homem e a desenfreada licença dos costumes haviam-se transmitido, por sua influência, até a última abjeção nas nações conquistadas. O cristianismo podia salvar o homem no Império, mas o próprio Império não podia ser cristão. Deus o entregou ao dilúvio dos bárbaros, e ele desapareceu sob as ondas da invasão, até cobrir o cume do Capitólio. Os ferozes executores da vingança divina possuíam o instinto de sua missão e chamaram-se a si mesmos: o flagelo de Deus.

O ISLAMISMO

Mais tarde, quando as nações cristãs do Oriente chegaram a cansar sobremaneira a justiça divina por causa das heresias, Deus desencadeou contra elas, desde o fundo da Arábia, o dilúvio do Islamismo. Ele submergiu as primeiras cristandades, sem poupar Jerusalém, tingida com o Sangue de Cristo e testemunha da Ressurreição do Homem-Deus. Antioquia e Alexandria, com seus Patriarcados, afundaram-se na ignomínia da escravidão. Constantinopla, por sua vez, tendo cansado a paciência divina, chegou ela mesma a tornar-se cabeça da Meia-Lua.

A BARBÁRIE MODERNA

Cabe agora a nós, nações ocidentais, se não nos voltarmos para Deus nosso Senhor. Já se veem meio abertas as comportas do céu, e a inundação ameaça precipitar-se sobre nós. Será que também em nossa Europa toda carne não corrompeu o seu caminho, como nos dias de Noé? Não conspiramos por toda parte contra o Senhor e contra o seu Cristo? Não vociferamos como as nações ímpias de que fala o Salmista: “Quebremos suas cadeias e sacudamos para longe de nós o seu jugo”1?

Tremamos, para que não tenha chegado o momento em que, apesar de nosso orgulho e de nossos frágeis meios de defesa, Cristo irritado, a quem exclusivamente pertencem os povos, “nos reja com vara de ferro e nos quebre como vasos de barro”2. O tempo urge; aproveitemos o conselho do Salmista: “Servi ao Senhor no temor, abraçai sua lei, para que o Senhor não se irrite e pereçais, porque de repente se inflamará sua ira”3.


 

1. Sl. 2.

2. Ibid.

3. Ibid.

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