Oratório São José

Quarta-Feira da Sexagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUARTA-FEIRA DA SEXAGÉSIMA

CASTIGO DO PECADO

Pecamos, abusamos da vida, ó Deus justo!, e, ao ler os diversos castigos de vossa cólera sobre os pecadores dos tempos primitivos, compreendemos que merecemos ser tratados como eles. Temos a honra e a felicidade de ser cristãos e filhos de vossa Igreja; a luz da fé e o impulso de vossa graça nos atraíram a Vós. Mas devemos, por isso, esquecer nosso antigo estado? Estamos tão firmados no bem que possamos prometer-nos fidelidade até o fim? Ó Senhor, traspassai nossas almas com os dardos de vosso temor! Duro é o nosso coração; é necessário que ele trema diante de Vós, porque, de outro modo, ainda está em perigo de Vos trair.

O espetáculo do mundo inundado, a extinção da linhagem humana sob as ondas, espantam-nos e mostram que vossa paciência e longanimidade podem esgotar-se e dar lugar a uma vingança implacável. Vós sois justo, Senhor, e ninguém, nenhum de nós, tem direito de se admirar nem de se queixar.

E é essa vossa justiça que desafiamos, essa vossa vingança que provocamos; porque, se empenhastes vossa palavra de não mais afogar em um dilúvio a raça dos pecadores, sabemos que acendestes em vossa cólera um fogo que devora eternamente todos quantos saem deste mundo sem se reconciliar convosco.

Ó dignidade de nossa débil natureza! Aquele que do nada nos tirou não quer ver em nós senão amigos ou inimigos. E assim convinha que fosse. Criados inteligentes e livres, o bem e o mal se nos oferecem diante dos olhos; é necessário que escolhamos, não podemos permanecer indecisos. Se aceitamos o bem, Deus se torna amoroso para conosco; se praticamos o mal, rompemos com Ele, que é o bem soberano.

Mas, como sua misericórdia é infinita para com a débil criatura tirada do nada por puro amor, e como Ele quer com sincera vontade a salvação de todos, espera pacientemente a volta do pecador e o atrai a Si de mil maneiras. Mas ai daquele que resiste ao chamado divino quando este é o último! Chega então a hora da justiça, e o Apóstolo nos adverte que é coisa horrível cair nas mãos do Deus vivo1.

Saibamos, pois, fugir da cólera que se aproxima2, e apressemos-nos a fazer as pazes com o Senhor irritado por nossos pecados. Se já estamos em graça com Ele, vivamos em seu temor, até que, tendo o seu amor lançado raízes profundas em nosso coração, mereçamos correr pela via dos mandamentos divinos3.


 

1. Hb. 10, 31.

2. Mt. 3, 7.

3. Sl. 158.

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