Sábado da Septuagésima
SÁBADO DA SEPTUAGÉSIMA
O PECADO ORIGINAL E A IMACULADA CONCEIÇÃO
A sentença lançada contra nossos primeiros pais devia alcançar toda a sua descendência; mas, por severas que fossem as penas, a mais dura e humilhante era a transmissão do pecado original a todas as gerações da linhagem humana até seu último dia.
Não há dúvida de que os merecimentos do Redentor prometido poderiam ser aplicados a cada homem conforme o modo estabelecido por Deus; mas esta regeneração espiritual, embora limpe pela raiz a crosta da lepra que nos cobre e nos restabeleça em todos os direitos de filhos de Deus, não fará desaparecer todas as cicatrizes de nossa ferida mortal. Livres da morte e devolvidos à vida, permanecemos enfermos.
A ignorância obscurece nosso espírito no que se refere aos interesses transcendentais, que deveriam absorver todos os nossos pensamentos, e um atrativo insensato nos lança a amar nossas ilusões. A concupiscência conspira sem trégua para cativar a alma sob o jugo do corpo; e, para vencer tão grande obstáculo, a vida do homem terá de ser uma contínua luta.
O amor à independência nos arrasta continuamente ao desejo de liberdade, como se não tivéssemos sido criados para servir. O mal nos seduz com seus encantos, e a virtude não nos paga neste mundo senão com a persuasão do dever cumprido.
Por isso Vos saudamos com admiração e amor, ó Vós, a mais pura das criaturas saídas das mãos de Deus e, contudo, nossa irmã, filha de Eva. Não fostes concebida em pecado, e sois a glória da raça humana. O sangue de nossa primeira mãe e o nosso sangue circulam em vossas veias; sois, por isso, carne de nossa carne e sois, não obstante, Imaculada.
O decreto que nos condenava à vergonhosa mancha não devia aplicar-se à vossa puríssima Conceição; no dia em que vosso pé vencedor esmagou a cabeça da serpente, esta compreendeu que jamais adquirira sobre Vós direito algum. Em Vós, ó Maria, reverenciamos nossa natureza tal qual saiu das mãos de Deus; sois o espelho da justiça eterna.
No resplendor sem nuvens de vossa santidade, dignai-Vos lembrar-Vos de nós, que gememos sob o peso das sequelas de um crime do qual não contraístes a solidariedade pecaminosa. Sois a inimiga irreconciliável da serpente; guardai-nos para que sua venenosa mordedura não nos alcance.
Concebidos em pecado, dados à luz na dor, que ao menos nossa vida escape da maldição. Condenados ao trabalho, aos sofrimentos e à morte, seja-nos proveitosa nossa expiação por Vós, por vossos merecimentos e por vosso socorro.
Traídos muitas vezes pelas inclinações e ressaibos de nosso coração, embriagados pelo presente, tão prontos ao esquecimento, tão velozes em enganar-nos a nós mesmos, seríamos consumidos e devorados pelo mal, se não nos fosse oferecida sem cessar a graça de vosso divino Filho para triunfar de nossos inimigos interiores e exteriores.
Sois, ó Imaculada, a Mãe da divina graça. Alcançai-no-la em nosso favor, sempre mais abundante, e derramai-a sobre todos quantos se ufanam, sonhando que não têm outro sangue distinto do vosso.


